Fix You
9 Lost
Capítulo 9.: Lost
"And you'll be lost!
Every river that you tried to cross..."
Duas assistentes da empresa fofocavam. Horário de almoço era assim. Depois de discutirem sobre suas respectivas vidas sexuais, elas foram interrompidas pelo sr. Malfoy – o mais jovem.
– Eliza, se alguém ligar: não estou.
Ele não parou de caminhar para dar o aviso, foi direto para sua sala à frente da mesa das duas assistentes. Ursula sorria, mordendo os lábios. Eliza suspirou ao reconhecer aquele olhar. Foi um suspiro de pena.
– É normal – disse para a nova assistente como que querendo tranquilizá-la. – Mas uma hora passa.
– O quê?
– Acredite, todo mundo já passou pela mesma síndrome de TPSM.
– E o que significa isso?
– Tesão Por Scorpius Malfoy.
– E quando é que isso passa? Porque está difícil trabalhar assim.
– Quando ele conseguir te jogar no banheiro como uma lagartixa, vai passar.
– E diga-me. Ele é sempre tão sério assim?
– É o charme. Mas ultimamente tem ficado ainda mais sério, está toda hora preocupado. Primeiro achei que poderia ser por causa da filha dele.
– Ele tem uma filha?
– Resultado de um rolo de colegial. Mas enfim, não sei. Ele tem perdido alguns casos realmente importantes, deve estar em uma daquelas fases ruins.
– Eu poderia animá-lo – brincou a moça.
– Com certeza.
– Será que é grande?
– A bunda?
– Não.
– Eu não sei – disse Eliza.
– Nunca tentou saber? Sentir?
– Ursula, sossegue. Até parece cadela no cio.
As duas riram.
– Acho que é. Acho que é grande.
A confirmação da amiga parou na garganta quando a srta. Zabini ultrapassou o corredor e entrou na sala do sr. Malfoy.
– Emily Zabini. Ela saberia nos responder. Ex-namorada.
– Estão reatando?
Não, não estavam. O breve rangido da porta se movendo quando Emily entrou na sala fez Scorpius desligar o celular e olhar para ela. Ainda existiam certos rancores entre os dois, mas Emily era uma moça extremamente profissional e respeitava Scorpius apenas nesse sentido, motivo pelo qual perguntou:
– Conversou com meu pai?
– Sim.
– E então?
– Estou pensando.
Não era a resposta que Emily queria ouvir.
– É uma oportunidade única. Na sua idade, quantos chegariam tão longe?
Ele ergueu os olhos cinza para ela.
– Por que está querendo me convencer para aceitar o caso?
– Eu te acho um lixo como pessoa, é verdade – disse acidamente. – Não se importa com ninguém exceto a si mesmo. Mas é um advogado fenomenal... e o nome que você pode levar pela empresa de nossas família seria o auge. Além disso, seu avô não tem muito mais tempo aqui. Vão querer que ele se aposente logo, e você terá metade dos clientes dele para você. Se aceitar o caso em Oxford e conseguir o melhor acordo para a prisão de John McBride...
– O que tem esse John McBride que todo mundo fala, afinal de contas?
– Ele é uma celebridade, ex-jogador de Futebol. Todo mundo odeia ele, mas todo mundo adora odiar ele, o que faz o cara ter um pouco de dificuldade para achar advogado que o represente. Perdeu todos os patrocínios e propostas de clubes. Tudo acabou para ele.
– Acha que me encaixo no caso?
– Como uma luva.
Scorpius coçou o queixo.
– Isso é um pouco ofensivo – admitiu. Emily revirou os olhos.
– Vai aceitar ou não?
– Deixe-me relembrar. Matou a namorada, alegando que foi sem querer? Homicídio culposo?
– A arma disparou. Sem querer. Na cabeça dela.
– Qual foi o melhor acordo que conseguiram para ele até agora?
– Quinze anos. Sem fiança.
– Consigo reduzir para cinco.
– Consegue provar que ele é inocente?
– Eu não vou tanto com a cara dele.
– Isso é um sim? – Só precisou ver a expressão de Scorpius. Era tentador demais para negar. – Ótimo. Faça as malas. Os julgamentos serão feitos no país da namorada. Irlanda.
***
A imensa construção de Hogwarts erguia-se pelo horizonte da rua mais movimentada da cidade. Carros e motocicletas chegando e saindo o tempo todo no horário de pico da saída. O primeiro ano acompanhava a professora para o saguão de entrada, alguns alunos correndo, pulando, felizes por poderem voltar para casa. Não demorou muito e Scorpius avistou a turma de Zoe. Lá estava a menininha, sorrindo com as amigas, a mochila azul nas costas e uma lancheirinha rodopiando na mão. A professora chamou Zoe e apontou para Scorpius, avisando que o pai estava esperando ela. Sentado no banco do saguão, terminava um de seus inúmeros cigarros. Jogou fora quando viu Zoe caminhando até ele.
Sentiu todo o impacto da besteira que fez na semana passada naquele momento. Zoe não correu até ele. Caminhou e se sentou ao lado dele, tentando sorrir, mas com certeza essa decepção que sentia pelo pai estava sendo algo novo para ela.
– Oi filha – ele disse.
– Oi papai. – Balançava os pés, olhando com interesse para a lancheirinha.
– Como foi de aula hoje?
– Bem. A professora nos ensinou a contar até cem e fazer contas. Eu já sabia tudo. Ela me deu uma estrelinha porque ajudei as outras crianças.
Zoe mostrou a estrelinha dourada na camisa do uniforme dela.
– Isso é incrível – ele sorriu com orgulho. – Rose vai chorar quando mostrar isso a ela. Parabéns, Zoe.
Ele acariciou seus ombros leves. Zoe não o encarava.
– Obrigada.
Scorpius estava tentando pensar no que ia dizer agora, mas ela parecia ter algo intimidante que se assemelhava muito com a barreira que Rose enrolava ao redor de si mesma para não deixar os outros se aproximarem de seus pensamentos.
– Zoe...
– Podemos ir pra casa? Eu estou com fome.
– Você não quer passar naquela lanchonete? Comprar um milk-shake e congelar o cérebro para os zumbis não comerem ele no apocalipse?
– Zumbis não existem.
Zoe se levantou do banco e seguiu o caminho a frente dele.
– Zoe – Scorpius chamou. – O carro está do outro lado.
Com o queixo ligeiramente erguido, a filha parou, deu meia-volta e passou pelo pai, claramente tão chateada que se manteve calada o percurso inteiro até o museu onde Rose trabalhava.
Antes de a menina sair do carro quando Scorpius estacionou na vaga, ele disse:
– Eu vou ficar alguns dias fora.
– Aonde você vai? – ela perguntou.
– Irlanda. Algumas horas de avião. Volto em algumas semanas e...
Junte todas as dores do mundo. Scorpius as sentiu em suas costas quando ouviu Zoe abrir a porta do carro sem dar um beijo nele.
Scorpius sentiu necessidade de socar o volante com tanta força que acabou buzinando acidentalmente. Estava com tanta raiva de si mesmo que dirigiu até o seu apartamento o mais rápido possível, o pé afundando como uma bigorna no acelerador.
Ele era uma decepção para suas ex-namoradas, uma decepção para seus avós, uma decepção para si mesmo, uma decepção para sua filha, para a mãe de sua filha e foi uma decepção para sua mãe quando ela esteve viva.
Se havia alguém, de fato, em uma situação pior do que a dele era seu próprio pai. Tentou achar desesperadamente um cigarro para fumar. Ter o infeliz pensamento de que poderia estar virando o que seu pai era, levou Scorpius a subir até o apartamento e fazer as malas.
Talvez ele precisasse mesmo se afastar de todo mundo. Era o melhor que podia fazer por ora. Ninguém mais precisaria se machucar. Ele era uma mina. Estava sempre explodindo embaixo das pessoas.
“Não é exaustivo?”, lembrou-se da voz de Rose há anos atrás. “Machucar as pessoas que amam você? Você não se cansa disso ou acha que é só um jogo que você pode apertar uma tecla e voltar a fazer sempre a mesma merda? O tempo todo?”
“Eu não sei mais o que dizer. Eu já pedi todas as desculpas possíveis! O que mais você quer que eu faça, porra?”
“Nada! É por isso que acabou pra mim!”
Jogou as gravatas, os ternos e tudo o que podia enfiar em uma mala. Não estava achando seus sapatos preferidos; andou até a sala e parou quando viu a tela quebrada da televisão.
“Não é uma conversa pra celular, mas é melhor do que passar pelo desespero de ter que te ver de novo” era Rose de oito anos atrás em sua memória. “Não sei o que eu faço se eu tiver que olhar pra você de novo.” Estava chorando nesse momento. “Eu to grávida.”
Eu to grávida. Eu to grávida. Eu to grávida. Eu to grávida.
Três palavras. E toda a sua vida muda. Exceto que a de Scorpius continuava a mesma.
Depois que arrumou as malas, não conseguiu ficar a noite toda no apartamento. Dessa vez escolheu o bar a dedo, para encontrar uma pessoa. Lá estava ele; sentado no mesmo lugar de sempre, com a mesma cara de sempre e o mesmo drinque de sempre. Sozinho, como sempre.
– O que está fazendo aqui? – repreendeu Draco Malfoy quando, sem precisar olhar, percebeu que Scorpius sentou ao seu lado. Ele pediu uma bebida forte que ardeu em sua garganta antes de falar.
– Minha filha me odeia agora. Disse a ela que ia passar algumas semanas fora e ela não me deu um beijo. Ela sempre me deu beijos.
– E a primeira coisa que fez foi aparecer aqui para encher meu saco com seus problemas?
– Acho que estou começando a te entender e isso me assusta – ele admitiu. Draco encarava o líquido do copo, calado com o que acabara de ouvir.
– Você não é nada como a mim, Scorpius. Você ainda tem tempo de consertar as suas merdas. Ainda é jovem.
– Como?
Finalmente, Draco olhou para ele. Havia dor e sofrimento no olhar do pai, que Scorpius quis muito evitar porque ele sabia que a dor se resumia a Astoria, mas foi incapaz.
– Primeiro, não pegue a saída mais fácil. – Indicou o copo na mão de Scorpius. – Tudo o que você me viu fazendo quando era pequeno, não faça com sua filha. – Acrescentou: – Isso se você a ama. Se você não a ama, você nunca foi um pai em primeiro lugar, e talvez devesse ir embora mesmo. Poupar a menina do sofrimento que você vai causar a ela se continuar com essas escolhas erradas. Esse é o conselho que tenho pra te dar. Como fazer isso? Tenho 50 anos, sou viúvo e estou bebendo sozinho em um bar. Pareço saber?
Scorpius pousou uma mão no ombro dele, de um jeito consolador, levantando-se. A família de Scorpius havia desmoronado. Draco estava desmoronado e nesse constante desespero de tentar amenizar as dores e a consciência pesada de certos atos, beber parecia ser o único recurso que o pai dele encontrou. E Scorpius não gostava de ver isso, ver Draco miseravelmente caído. Ele não queria isso para ele aos cinquenta anos. Quis fazer algo para ajudar o pai, mas também não tinha ideia de como. Astoria não irá voltar.
Sem dizer mais nada, Scorpius largou uma quantia de notas no balcão antes de voltar para casa, decidindo que estar ali era deprimente demais.
A caminho do aeroporto na manhã seguinte, Scorpius tentou ligar para Rose. Já podia imaginar que ela estava ignorando qualquer ligação dele, e quase tacou o celular longe na terceira tentativa frustrante. Ele não vai embora sem Zoe se despedir dele. Não podia suportar essa ideia.
Os vôos estavam atrasados pelas tempestades, por isso o rapaz precisou ficar esperando em um dos inúmeros bancos. Começou a ver uma menininha da idade da Zoe correndo pelo aeroporto, rindo travessamente com o fato de estar fazendo seu pai correr atrás. O homem não estava bravo, porque quando finalmente alcançou a filha, ele a agarrou e a jogou nas costas, os dois rindo como se nada fosse mais divertido que isso.
Scorpius verificou o relógio. As palavras de Draco ainda em sua cabeça. Poupar a menina do sofrimento que você vai causar a ela se continuar com essas escolhas erradas.
Desbloqueou a tela do celular, e viu a foto de Zoe como papel de parede. Lembrou da expressão dela quando ele apareceu atrasado em sua festa.
Vai embora...
Vai embora...
Vai embora...
– Senhor, as passagens, por favor?
Scorpius se deu conta de que já estava na fila da área executiva para entrar no avião. Olhou para trás e viu os inúmeros rostos esperando ele se decidir logo.
***
Zoe estava vendo a chuva tilintar pela janela de sua classe. Sua professora ensinava os meses e os dias das semanas para a turma, com a régua roçando pelo quadro negro enquanto as vozes uníssonas repetiam sílaba por sílaba. Escrevia sem grandes dificuldades no caderno as palavras escritas na lousa. Esperou a professora caminhar por entre as mesas para pedir que verificasse se sua lição estava correta. Em troca, recebeu um sorriso da professora. Quando ela voltou para sua mesa, chamou Zoe para falar com ela. A professora lhe entregou um envelope.
– Entregue para sua mãe, Zoe. É da diretoria.
– Eu fiz alguma coisa errada, professora?
– Nenhuma, não se preocupe. É uma boa notícia – garantiu.
Zoe estava voltando para o seu lugar quando a classe ouviu um barulho no corredor, através da porta fechada. Eram vozes altas. Parecia uma discussão. Assustou-se quando uma das supervisoras da escola entrou de supetão na classe. Ela tinha um jeito engraçado de andar, rapidinho como se isso evitasse que as crianças notassem sua presença. Ela direcionou-se até a professora para cochichar algo muito depressa. Nesse mesmo instante, a figura de um homem alto entrou na sala e todos os rostos curiosos das crianças viraram-se para ele.
– Sr. Malfoy – Zoe ouviu a professora exclamar muito surpresa. – O que faz aqui? Não pode entrar se...
– Eu preciso falar com minha filha.
– Sr. Malfoy.
O pai dela estava com os cabelos molhados. Devia ter se molhado com a chuva para chegar até ali. Estava respirando de um jeito cansado. Zoe não conseguiu tirar os olhos dele quando ele procurou os dela e Scorpius se aproximou tão depressa que não teve como alguém impedi-lo.
A princípio, a menina temeu que seu pai estivesse ali para brigar com ela, mas Zoe não o reconheceu quando ele começou a falar, baixinho, na frente de todo mundo.
– Eu fiz um poema. – Tirou do bolso um papel amassado. Era o resultado de horas esperando no aeroporto. – Se chama “Eu sinto muito”.
Começou a ler e não se sentiu patético por fazer isso na frente de um monte de crianças aleatórias. Só importava a Zoe:
– Sinto muito. Sinto muito por não ter visto você ganhar sua primeira cicatriz no pé, por não ter estado lá quando você nadou sem boia, desculpe também por não ter comprado algum presente quando eu fui visitar você, por eu ser um péssimo pai. Eu sinto muito que eu sempre estou preocupado com o meu trabalho quando eu estou com você. Me desculpa pelas promessas que eu nunca fiz, porque eu sabia que não seria capaz de cumprir essas promessas. E eu sinto muito por não ter ido à sua festa de aniversário. Mas o pior de tudo, eu sinto muito que sua mãe ama outro homem e que vivemos em lados diferentes da cidade. Isso foi tudo culpa minha. Eu magoei ela do pior jeito que um cara pode machucar alguém que ele ama, mas eu era estúpido e imaturo e eu não sabia de nada. Estou te magoando também, todos os dias, e eu me odeio por isso... Eu tentei mudar muitas vezes, mas eu nunca encontrava as razões para fazer isso, ou eu estava com preguiça de melhorar, porque eu pensei que a minha vida era boa do jeito que estava. Mas não é. E agora eu sei que a única razão que eu preciso para melhorar é porque tenho você. Eu preciso de você para me ensinar a ser um bom pai. E uma boa pessoa. Me ajude, coisinha.
Até a professora ficou calada.
Metade daquelas palavras não foi compreendida pela mente de uma criança de sete anos, mas Scorpius não parecia estar dizendo isso para ela, mas sim por ele. Para desabafar. Zoe, por outro lado, só prestou atenção nas expressões do pai enquanto ele lia o papel; não tinha escutado muito as palavras do poema. O sinal para o recreio tocou na mesma hora, mas ela ficou, enquanto todos saíam aos poucos da sala, deixando-os sozinhos. O papai estava com as mãos na cintura, esperando que ela dissesse alguma coisa, qualquer coisa.
O que perguntou foi:
– Você ainda vai viajar?
– Não. Você não me disse tchau.
– Eu não queria que você fosse embora.
– E eu não vou. Não vou pra lugar nenhum se quiser que eu não vá, Zoe. Só basta dizer “não vai, pai” e eu prometo que não vou.
– É só dizer?
– Só isso.
– Que nem os três pedidos da lâmpada mágica?
– Exatamente como os três pedidos da lâmpada mágica.
– Então eu desejo que você não viaje nunca, e eu também desejo que você não fale que vai aparecer na minha festa e depois não aparece e eu também desejo-
– Espere – ele interrompeu, agachando-se a altura da carteira de Zoe. – São três desejos. Use o terceiro com sabedoria. Tem que ser um desejo bem importante.
Ela pensou um pouco.
– Vou esperar para pedir ele então.
– Muito sábio – ele sorriu.
Zoe encarou os pés e depois ergueu a cabeça para Scorpius.
– Você vem me buscar hoje?
– Você quer que eu busque?
– Quero, mas isso não vai fazer parte dos meus três desejos, tá bom? Ainda quero ter mais um, um bem importante.
– Tudo bem – concordou Scorpius. Ele estava desesperado. Talvez tão desesperado para saber se tudo ia ficar bem entre eles que pediu: – Posso ganhar um abraço?
Zoe pensou um pouco. Scorpius temeu que ela não fosse abraçá-lo e isso seria o fim dele, o fim de tudo, ele não saberia o que fazer se ela recusasse.
De repente a menina se levantou da cadeira.
Com um alívio, ele conseguiu mais do que merecia. Um abraço de Zoe e os lábios pequenos dela pressionando sua bochecha. Antes que a garganta dele ficasse seca, afastou-se para dizer:
– Está perdendo os minutos do recreio, coisinha. Vai lá.
Scorpius apertou de leve a maçã de seu rosto. Zoe pegou sua comida em cima da carteira dela e saiu correndo pela porta, brincar com os novos amiguinhos. Scorpius ficou por alguns minutos, olhando ela no parquinho, de longe, sentindo-se mais leve do que há muito tempo não sentia.
***
Discutiu a tarde inteira com Emily, e não faziam isso desde que namoravam. Mas, naquele momento, era uma discussão sobre negócios. Scorpius tentou convencê-la a trocar o advogado para o caso de John McBride, pois ele não pretendia passar o mês fora do país, longe da filha. Já passara sete anos assim e estava na hora de mudar algumas coisas.
– Olha, eu entendo que sua filha é importante, mas a firma...
– Já decidi, Emily. Sem casos, sem clientes fora do país. To precisando de uma folga, arranja isso pra mim?
– Não posso fazer.
– Então não temos o que conversar.
– Você tá me devendo isso.
– Devendo o quê?
– Eu que te indiquei ao trabalho, sabia?
– Depois de tudo o que eu te fiz?
– Isso não tem nada a ver com a gente, Scorpius. Eu sempre admirei o seu trabalho no tribunal.
– Mas sou um lixo de pessoa.
– Olha, fui meio dura com você naquela hora. Você tem seus lados... você não foi o pior namorado que eu tive, pra falar a verdade.
– Está tentando puxar meu saco, agora? Obrigado, significa muito, mas já decidi e vou negar a viagem. – Falava enquanto tirava as chaves do bolso. Caminhava pelo estacionamento da firma. Estava saindo de madrugada do trabalho pois precisou adiantar papeladas porque queria tirar o dia seguinte de folga e aproveitar o sábado com Zoe.
– Tchau, Scorpius. Não se empolgue muito com essa folga sua.
Desligou o celular quando a ex-namorada fez o mesmo na outra linha. Com um clique, o carro abriu, mas sua ida até o banco foi interrompida pelo barulho de uma motocicleta se aproximando. Ela estacionou bem atrás de seu carro e o cara que dirigia fez a pergunta:
– É Scorpius Malfoy?
Scorpius se virou para se deparar com um jovem de estatura magra e muitas tatuagens que as roupas largas não cobriam. Não foi fácil reparar no rosto, pois o capacete tampava boa parte da visão. Só sabia que nunca tinha visto ele em sua vida.
– Quem quer saber?
– Lembra de Otavio Trentwell? Mandou ele pra cadeia. Ano passado. Lembra?
– Lembro. Homicídio doloso. Duas prostitutas. Acharam o sêmen dele nas duas. Veredicto: culpado. Tentei, mas ninguém podia fazer nada. E eu adoraria parar para um papo, mas estou atrasado.
O som da porta se destrancando se fundiu ao som da arma que o motoqueiro tirou do bolso do casaco. Os dedos de Scorpius paralisaram na maçaneta semi-aberta da porta, mas ele tentou manter a calma.
– Tu vai querer ter tentado mais, cara. Ele quer te mandar uma mensagem.
Ameaçado, Scorpius encarou o buraco da ponta da pistola.
– Eu tenho dinheiro. – Estendeu a chave do carro na direção do assaltante. – Pode ficar com tudo. Vamos esquecer isso. Abaixe a arma e me deixe sair daqui.
Percebeu que aquele não passava de um garoto de gangues que estava seguindo ordens de um detendo na prisão, que culpava Scorpius por tê-lo colocado atrás das grades. Devia ser novato, porque a mão tremia um pouco. Scorpius chegou até a acreditar que ele ia desistir para pegar a chave do carro, mas, dentro da escuridão do estacionamento, surgiu outra moto e, dessa vez, o segundo assaltante estava mais decidido. Scorpius ouviu o estouro do tiro. Ensurdecedor. O outro garoto imediatamente recolheu a pistola ao ver que o alvo foi atingido.
– Anda, seu filho da puta, a câmera vai pegar seu rosto!
As duas motos desapareceram na escuridão após cumprirem as ordens.
***
A noite foi milagrosamente tranquila para Rose. Teve um dia excelente no trabalho, com a certeza de que sua curadoria estava cumprindo todas as propostas dos museus. Fora chamada para cuidar de obras mais antigas, o que significava uma recompensa maior. E, como se ainda pudesse ficar melhor, Zoe estava com o bom humor de sempre, e até obedeceu Rose na primeira vez que chamou a menina para dormir. Escovou os dentes, bonitinha, e pulou embaixo da coberta. Estava ansiosa para o dia seguinte. Pelo visto, ela e Scorpius fizeram as pazes.
Paul chamou Rose para a cama, cheio de intenções. Tentavam ao máximo jamais fazer nenhum barulho, mas não é nada fácil quando se tem um namorado que sabe o que estava fazendo ali embaixo do lençol. Quando finalizaram, Paul mordeu levemente o queixo dela e, preocupado, perguntou:
– Será que... ela ouviu?
– Oh, céus, tomara que não!
Riram juntos e ela apertou as mãos em seu peito para trocarem a posição. Beijaram-se mais uma vez, ela chamando para outra rodada. Desceu os lábios para o pescoço dele sentindo o cheiro masculino que a agradava tanto, mas...
– Que música é essa?
Estava saindo do celular de Rose.
Love is an open doooooor!
Rose apoiou a cabeça no ombro dele, abafando a gargalhada.
– Zoe aprendeu a mudar o toque do meu celular.
– E ela tem que colocar a trilha sonora de Frozen toda vez? Qual foi a da outra semana? Algo sobre verões?
– Deixa tocando – a moça sorriu, capturando-o com os lábios. – Deve ser o Albus ligando. A essa hora deve estar bêbado. Sempre me liga a essa hora bêbado.
– Não consigo. Não vou me concentrar. Eu fico lembrando que é um filme da Disney e... nós estamos, sabe... Sério.
Ela se afastou, cantarolando a música só para provocá-lo. Pegou o celular da cabeceira e voltou para a cama, exclamando:
– Ok, Al, se me atrapalhar para cantar Celine Dion, eu vou...
Paul distribuía beijinhos pelos rastros das sardinhas que ela tinha no ombro, então não viu a mudança repentina de sua expressão, indicando que não era Albus na outra ligação. Pareceu que toda a energia do corpo de Rose se desmoronou, porque ela apertou a mão na testa como se uma enxaqueca tivesse tomado conta dela.
Paul parou e olhou preocupado.
– Sim – a voz estava completamente oca para o celular. – Não, ele é... ele é o pai... da minha filha. Sim. – Pausa. – Quando ocorreu?
Procurou a calcinha no emaranhado de roupas na cama e se vestiu depressa.
– Sim, eu entendo... muito obrigada.
Desligou o celular e olhou para o nada, absorvendo a notícia que tinha acabado de receber.
– Amor? O que aconteceu?
Colocou a mão na boca. Como ia explicar para Zoe?
***
Zoe sonhou com seu pai. Eles estavam sempre conversando no sonho, como dois grandes amigos, e Zoe sentia que podia confiar a ele todos os seus segredos. Porém, no final do sonho, Scorpius precisou ir embora e deixou Zoe sozinha, sem levar a menina para casa.
Acordou desesperada com os olhos aguados de lágrimas pelo impacto do sonho. Tirou o edredom do corpo e se levantou da cama para pegar a foto de Scorpius em seu mural. Gostava muito da foto. Ele era um homem bem bonito e tinha o sorriso mais bonito.
Ela saiu do quarto quando ouviu a voz de Rose. Não sabia que horas eram e nem se importava, mas precisava ter certeza de que a mamãe estava ali com ela, que também não tinha sido abandonada por ela e que não estava sonhando mais.
Zoe viu Rose atravessando a sala e enxugou os olhos depressa para que a mamãe não perguntasse sobre sonhos caso a visse. Ela estava procurando as chaves do carro e vestia um casaco jeans às pressas.
O impulso de Zoe foi correr.
– Mamãe, onde você está indo?!
Viu os joelhos da mamãe baterem no chão quando ela se agachou a sua frente e segurou seus braços. Ela ia embora e não ia falar tchau? Isso é abandonar... como o papai fez no sonho!
– Filha...
– Você ia embora?
– Não! Não, meu amor... eu... Recebi uma ligação agora. Scorpius... seu pai... Querida, seu pai se machucou... na verdade, alguém o machucou. Muito feio.
A respiração da menina estava entrecortada.
– Mas os médicos estão cuidando dele agora – Rose disse com firmeza.
– Eu quero ver ele...
Rose não impediu. De fato, quis apenas confirmar:
– Você acha que consegue ficar no hospital? Lembra a última vez que viu um hospital, como era?
Assustador. E triste. E com pessoas vestidas de branco andando apressadas e nervosas.
– Consigo – a menina disse, embora estivesse tremendo de medo com a ideia. Mas seu papai estava lá, ela tinha que ficar com o papai dela, para ele sarar do machucado logo.
Zoe agarrou a mão de Rose com firmeza e não a soltou o caminho todo para o carro no estacionamento. Paul não foi com elas dessa vez; não ia dar tempo de esperar que ele se trocasse. Mamãe sentou no carro, até se esqueceu de pedir para Zoe colocar o cinto, mas a menina tinha adquirido o costume de fazê-lo. O carro não pegou na primeira tentativa. Rose parou, respirou e, tentando manter a calma, girou a chave outra vez. Quando não funcionou, Zoe viu o desespero da mãe quando ela xingou, dessa vez, bem alto.
– Mamãe, o papai vai ficar bem, não vai?
Rose hesitou. Pela primeira vez, mamãe não sabia da resposta.
– Sim, ele vai, Zoe – ela disse aparentando rispidez. – Ele que se atreva – girou a chave com raiva – a não ficar bem.
Finalmente, o carro funcionou.
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