Fix You
5 In My Place
Notas iniciais
Capítulo 5.: In My Place
"In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah..."
Os guardas abriram a porta para Miles Jackson, que esteve sob custódia nas últimas semanas. Scorpius esperou os policiais tirarem as algemas da mão do homem de 67 anos que fora acusado de assassinar a própria esposa. Ele não tirava o sorriso do rosto enquanto se livrava dos metais. O agradecimento que mandava a Scorpius com o olhar seria comovente, se Scorpius se comovesse.
– Obrigado, sr. Malfoy – ele disse com sua voz grossa e rouca pelos cigarros, quando se afastaram juntos para fora do prédio onde sua sentença foi anulada, inocentando-o das acusações. Graças à destreza e habilidade de manipulação que envolvia ser advogado. – A única coisa que eu pensava era poder abrir um maço de cigarro depois de todo esse estresse.
– Um cigarro foi o que mais sentiu falta? – Scorpius acabou soltando um riso e tirou dois cigarros de seu próprio maço para oferecer um ao seu cliente e pegar um para si mesmo.
– Você é um bom rapaz – garantiu. – Bom, muito bom. Sabe quantos advogados conseguiria o que você conseguiu hoje?
– Não muitos – admitiu.
– Nenhum.
– Podemos falar francamente agora? – Scorpius perguntou. Estavam parados no jardim. As pessoas saíam do edifício e entravam, devido ao horário e ao número de casos para serem resolvidos na cidade. – Você a matou?
– Você se importa?
Miles Jackson tirou o cigarro dos lábios.
– Foi uma vitória hoje, é isso o que importa, não é? Agora, se me der licença, eu tenho uma neta para dar toda a minha atenção.
– Vovô!
Nesse momento uma garota com uns 14 anos estava se aproximando com pressa. Abraçou Miles com força, chorando.
– Eu sabia, eu sabia que eles estavam errados.
Sem esperar por aquilo, Scorpius também recebeu o seu abraço.
– Muito obrigada, você salvou meu avô.
Ele não se sentia bem com choros. Especialmente os femininos. Fez apenas um aceno com a cabeça e caminhou em direção a primeira saída que encontrou. Em um dos inúmeros bancos no saguão de entrada do prédio, viu Alexis com as belas pernas cruzadas, relaxando com café e cigarro.
Scorpius se sentou paralelamente a ela, os dois de costas um para o outro no banco.
– Você vai voltar para Oxford?
– Vou – respondeu. – Vai sentir minha falta?
– E se eu disser que sim?
– Então você é um filho da puta mentiroso.
– Minha ex-namorada me disse a mesma coisa.
– Qual delas?
– Todas.
Finalmente, Alexis girou o pescoço e os dois se encararam.
– Eu tenho mais uma noite em Londres.
– Disposta a quebrar tradições, Parkinson?
– Se o fogo ainda estiver aceso para você. – Ela raspou o cigarro no banco e, sem mais nada a dizer, levantou-se com sua pasta para ir embora.
Scorpius conseguiu um horário livre naquela tarde, agora que tinha tempo para descansar depois de arquivar o último caso. Como era um dos sócios da firma, podia ordenar que os associados fizessem boa parte do trabalho no restante do dia. Buscou Zoe para passearem na praça e a menina se deliciava com um sorvete de morango, quase maior do que sua cabeça.
Depois foram a uma sessão de cinema. Pareceu a Scorpius que todas as horas cansativas que o privou de uma boa noite de sono caíram contra ele naquele instante, no confortável assento do cinema. Foi involuntário fechar os olhos e dormir no meio do filme infantil.
Acordou assustado, derrubando a pipoca, quando Zoe o cutucou.
Ela começou a gargalhar com o susto que Scorpius levou. Tentou rir baixo, mas para uma criança sempre era difícil rir baixo.
– Foi engraçado – ela riu mais um pouco, tampando a mão na boca.
– O que foi engraçado?
– Você estava quase babando, papai!
– Ah é? – ele passou a mão na boca. Não conseguiu não sorrir também. Às vezes era bem fácil divertir uma criança sem fazer o menor dos esforços.
– Não prestou atenção no filme? – Zoe perguntou quase brava.
– Prestei, prestei – apressou-se a dizer.
– Que mentira!
– O sapo – ele contou com dificuldade – era uma princesa... que se transformou em um... sapo... e agora eles estão apaixonados.
– Não – ela disse prontamente. Zoe gostava de explicar as coisas e tinha o mesmo jeito de Rose para isso. O jeito sabe-tudo. Scorpius sorria enquanto ouvia a sinopse da história pela voz da filha: – É sobre um garoto que era muito chato. Muito chato mesmo. Para dar uma lição nele, a bruxa má transformou ele em um sapo. Ele ficou muitos anos escondido e como ele não tinha amigos ninguém foi procurar ele aí ele ficou perdido por muitos anos. Depois de muitos anos uma menina que vivia sozinha fez amizade com o sapo e ele voltou a ser menino quando ela desejou que ele falasse, quebrando o encantamento da bruxa má! E aí, e aí... e aí o menino não é mais chato.
No momento em que ela terminou de contar a história, quase sem fôlego, os dois já estavam saindo do cinema com os outros pais que levaram seus filhos para verem o mesmo filme. Passeavam pela rua, e Zoe apertava seus dedinhos na mão de Scorpius, ora ou outra saltitando.
– Quantos anos você tem mesmo? Doze?
– Seis, papai! Você não sabia?
– Claro que eu sei, mas é difícil acreditar que só tem seis anos, com esse cérebro gigante.
– SÓ seis anos!? Eu tenho tudo isso – ela abriu os cinco dedos da mão direita. Para não ficar muito tempo sem segurar a mão do pai, Zoe mostrou o indicador da esquerda rapidinho.
– Uau. Uma mão inteirinha. E mais um dedo.
– Quantos anos você tem? Mostra com as mãos.
– Com as mãos? Vamos ver.
Ela contou.
– Dez.
Scorpius fez mais uma vez.
– Dez mais dez... dez, onze, doze, treze, quatorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, dezevinte.
– Dezevinte? Ok, ok. Eu não conhecia esse número.
Abriu a mão direita e Zoe contou certinho:
– Vinte e um, vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro, vinte e cinco...
E o indicador da mão esquerda.
– Vinte e seis! Você também tem seis. Viu?
– É, eu também tenho seis – riu Scorpius.
– Mamãe também tem. Eu já contei os dedos dela. Você sabia?
– Sabia sim. Conheço muitas coisas sobre sua mãe – contou Scorpius.
Zoe ergueu a cabeça, com a curiosidade estancada nos olhos. Os dois sentaram em um banco da calçada, Zoe ao seu lado, os pezinhos balançando.
– O que você sabe sobre a mamãe?
– Que ela é ruiva.
– Ah! Todo mundo sabe que ela é ruiva, não tem graça!
– Eu sei que ela é muito inteligente – continuou – e que todas as melhores características dela estão também em você. Especialmente essa mania de saber mais do que deveria para a idade.
– Minha mãe sabe sempre quando vai chover.
– Sério?
– Sim! Toda vez que vamos sair, ela me manda por um casaco, porque vai chover. E sempre chove!
– Inacreditável – disse Scorpius, sorrindo.
Com um movimento involuntário, força de hábito, tirou o maço de cigarros no bolso interno do sobretudo. Quando estava com o cigarro na boca, viu os olhos de Zoe o encarando. Ele pensou melhor e não o acendeu.
– Isso faz mal, não faz? – ela perguntou não em um tom de reprovação, mas de curiosidade.
Crianças eram sempre curiosas.
– Faz – disse Scorpius, guardando o cigarro de volta.
– Por que você coloca isso na boca se sabe que faz mal?
– Porque alguns adultos fazem coisas estúpidas e não conseguem parar. É um hábito.
– Hum – ela apenas disse.
– Nunca faça isso, ouviu? Quando crescer, você vai continuar sendo essa garota muito, muito esperta. – Enfatizou dando um leve apertão na ponta do nariz dela.
Zoe procurou a mão dele de novo. Scorpius gostava de como a filha nunca tinha dificuldade de demonstrar seu afeto, de demonstrar que ela queria Scorpius sempre por perto, e que quando ela o tinha, ela não podia soltá-lo, com medo de que alguém o levasse dela.
– Está gostando de Londres? – ele perguntou.
– Tem muitos pombos.
Nesse momento, ela olhava para um casal de pombos que passou ciscando perto do banco deles. Em poucos segundos, a quantidade era tanta que os dois ficaram cercados de pombos. Scorpius se levantou para afastá-los e eles saíram voando. Isso divertiu Zoe e ela o imitou. Depois, Zoe pediu mentalmente para que os minutos em que estava no carro do pai nunca passassem, porque agora ele estava levando ela de volta para a casa e os dois teriam que falar tchau.
O elevador parou no andar do apartamento em que Zoe morava com Rose. Zoe ficou nas pontas dos pés para girar a maçaneta da porta e abri-la. Deu os primeiros passos dentro da casa, puxando o dedo do Scorpius:
– Mamãe, chegamos! O papai me trouxe!
– Vocês demoraram – ouviu a voz de Rose vindo de algum lugar. Provavelmente do banheiro.
Nesse momento Scorpius estava com as mãos nos bolsos, parado na sala que se acoplava com o espaço da mesa de jantar e o balcão da cozinha. Era um belo apartamento, mas não chegava a ter um terço do tamanho do loft de Scorpius. Nos cantos da parede, algumas caixas estavam empilhadas.
– Filha, é melhor tomar banho para não se...
Rose esqueceu que Zoe costumava arrastar Scorpius para dentro da casa, porque saiu do banheiro só com a toalha no corpo, segurando a escova de dente em uma mão e um vestido na outra. E calou a boca, tossindo com a pasta quando viu Scorpius ali, vendo-a de toalha.
– Oi – ele disse antes que Rose achasse necessidade de ficar embaraçada. Não que nunca tivesse visto aquele corpo sem a toalha. Não que quisesse ver de novo. Ele não queria. Não. – Não se preocupe, estou saindo. Aonde vocês vão hoje?
– Vamos jantar na casa do meu pai essa noite – ela contou, voltando ao banheiro, apressada.
Scorpius não achou que um vestido vermelho como aquele fosse necessário para jantar com os pais.
– O Paul vai com a gente? – foi a pergunta da filha.
– Sim, querida, ele vai – Rose saiu do banheiro com o vestido no corpo, penteando os cabelos ruivos. Scorpius nunca negou a si mesmo que a achava linda. – Agora ajude a mamãe com o vestido.
Scorpius assistiu a sintonia que existia entre mãe e filha ali. Rose se postou atrás do sofá, Zoe subiu nele para ficar na altura das costas dela e fechar o zíper.
Porém, a menina encontrou dificuldade e não conseguia subi-lo.
Scorpius se aproximou das duas. Dessa vez, Rose não negou sua ajuda.
Não deveria ter inalado muito forte, ou nem sequer respirado quando ficou muito perto, porque sentiu a fragrância do perfume dela exalando de todos os poros do corpo recém tomado banho. Scorpius ergueu o zíper do vestido, sem muitas dificuldades, tentando fortemente ignorar que os cabelos também tinham um perfume diferente do que antes ele se lembrava, mas não pior. Não que esperasse sentir o mesmo cheiro do xampu que ela usava quando eles namoravam.
– Você tá linda, mãe! – elogiou Zoe.
Rose fez uma expressão que oscilava entre lisonjeada e desconfiada.
– Você também quer ficar linda? Então direto pro banho, mocinha. Seu avô fica muito estressado quando tem que esperar pra comer.
Antes de obedecer, ela abraçou o pescoço de Scorpius e deu um beijo no rosto dele.
– Tchau, papai.
– Tchau, coisinha. Não vai escorregar no banheiro.
Viu Zoe desaparecer pela porta.
Sempre que Scorpius e Rose ficavam sozinhos, era um silêncio bem característico.
– Tem falado com seus pais?
Ela tirou o cabelo do rosto, para jogá-lo atrás da orelha, procurando os brincos na bolsa.
– Por telefone, sim. Ele não culpa Zoe por tudo. Ele culpa você. Nada pessoal, você só engravidou a filhinha dele.
A vida muitas vezes faz de você irônica. Scorpius observou isso em Rose, naquele momento. Resolveu ser também.
– É. Eu tenho uma cicatriz que nunca me faz esquecer disso.
Ganhara a cicatriz no hospital quando Zoe nasceu. Os pais de Rose estavam com ela, ao redor da cama, com Rose e a bebê no colo. Quando Scorpius apareceu na porta do quarto para conhecer a filha... Ronald Weasley o saudara com um gracioso soco no olho, o grosso anel de casamento ajudando a rasgar uma parte de sua sobrancelha que precisou ser costurada com três pontos.
Se fechasse os olhos, ainda podia sentir a dor.
Por alguma razão, naquela troca de palavras, Scorpius se lembrou de Zoe comentando sobre Paul querer pedir Rose em casamento e, naquele momento, observando a mãe de sua filha se arrumando tanto para um jantar em família que ela levaria o namorado junto, pensou sobre os meses que eles ficaram juntos.
Não soube decifrar o que Rose estava pensando. Ela queria mesmo se casar com aquele cara? Paul ia roubar Zoe dele? Ela começaria a chamá-lo de pai? Zoe esqueceria Scorpius?
Ele ia dizer alguma coisa, precisava dizer qualquer coisa, para quebrar o silêncio, mas a voz de Zoe interrompeu lá do banheiro:
– MAMÃE, ACABOU O SABONETE DE CABELO!
– Você quer dizer o xampu?
Scorpius deu uma última olhada em Rose quando ela entrou no banheiro para ajudar Zoe. Depois que se viu sozinho ali, no meio daquela sala onde ele não pertencia, abriu a porta para ir embora.
Às vezes, tinha vontade de ficar por mais tempo.
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