Fix You

23 Ghost Stories


Notas iniciais
Olá gente :) Mais um capítulo nesse domingo chuvoso. Postei só agora porque não estive me sentindo muito bem de manhã, e, como passei o dia com a família só tive um tempinho agora. Feliz dia das mães para todas as mães! E nada como um capítulo de Fix You para homenageá-las.... Vamos a mais um capítulo! Espero que gostem!

Capítulo 23.: Ghost Stories

"Go through you when you try to hold
Try to hold me near..."

Nem mesmo ele conseguiu terminar a noite sem colocar pelo menos um pouco de álcool para relaxar a tensão dos últimos acontecimentos. Acordou na manhã seguinte com Cupcake lambendo seu rosto e pedindo por comida. Scorpius não se deu ao trabalho de vestir uma calça ou camisa quando se levantou e encheu o pote dele com ração na cozinha. Estava brincando um pouco com ele, do jeito que Zoe costumava fazer com uma bolinha barulhenta, quando o celular tocou.

Era trabalho.

É. A vida continuava.

Fez o mesmo ritual de sempre. Calça, cinta, camisa, gravata e paletó. Ficou na dúvida entre duas gravatas, verde ou azul, e ligou para Rose.

Ei. Como está indo?

– Com dúvida. Zoe já acordou?

Acordou, sim. Vou passar para ela. – A próxima voz era infantil e bocejava. – Oi papai.

– Oi, coisinha. Que gravata você quer que eu use hoje?

Quais as opções?

– Azul e verde.

Que cor é o verde?

– Verde.

Zoe deu uma risadinha.

É claro ou escuro?

– Escuro.

Mas ela escolheu:

A gravata azul! Vou poder te ver hoje depois da aula?

– E aí a gente sai pra passear.

Tá bom!

Scorpius enrolou a gravata azul no colarinho e fez o perfeito nó. Despediu-se do Cupcake e desceu pelo saguão do edifício. Ia passar sem olhar para os lados, mas uma voz não deixou. Era Portia.

– Oi, Malfoy.

Scorpius parou e deu meia-volta, para ver a recepcionista do outro lado do balcão, um pouco insegura por chamá-lo. Ele não tinha nada contra a moça, muito pelo contrário, ela o ajudara com o Cupcake, e isso o fez sorrir quando olhou para ela.

– Portia. Como vai?

– Eu fiquei sabendo sobre o seu avô. Meus pêsames.

– Ele já estava muito doente.

– Você vai trabalhar hoje? – estranhou.

– Segunda-feira, Portia, segunda-feira.

Procurou a chave do carro e, após enviar um aceno com o braço para a expressão estupefata de Portia, ele andou até o estacionamento.

As pessoas pareciam não entender. Quando a figura de Scorpius se revelou entre as portas do elevador do andar da empresa, Elisa desligou o telefonema importante que estava fazendo para acompanhar os passos apressados de Scorpius até a sala dele.

– Scorp... digo, sr. Malfoy, o que está fazendo aqui? Quero dizer, peço desculpas, mas o senhor não precisava vir hoje-

– É algum tipo de feriado que eu não estou sabendo?

– Eu trabalho para o senhor há tempo suficiente para dizer que o senhor precisa de uma folga.

– Eu tive ótimas férias, Elisa. Algum recado para mim?

– Todos estão ligando para dar as condolências pelo seu avô.

– Consideráveis – disse Scorpius. – Cadê os Zabini?

– Na reunião.

– Eles começaram sem mim?

Não esperou Elisa dizer outra coisa. Scorpius andou em direção a sala principal no centro do andar. Elisa o perseguiu às pressas com seus saltos e a saia tão agarrada que parecia que suas belas pernas mal se moviam. Scorpius viu um homem diferente sentado à mesa enquanto o sr. Zabini, em pé, explicava algo sobre o slide. A vantagem de as paredes serem de vidros dava a chance de verem que Scorpius estava se aproximando.

– Malfoy, o que...

– Não que aqui seja uma escolinha, mas magoa meus sentimentos saber que começaram uma reunião tão importante sem mim. Scorpius Malfoy. – Ele esticou a mão para o homem que estava sentado ao lado de Emily. – Você deve ser...

– Marcos Flint – ele respondeu, apertando a mão de volta.

– Flint! Não me é estranho. Da Flint & Associados?

– Isso mesmo. Você é o neto de Lucius. Ouvi muito sobre você.

– Coisas horrorosas, eu imagino.

– Dizem que vocês eram muito parecidos.

Scorpius se sentou na cadeira vazia ao lado de Emily. Formou-se um silêncio na sala que, ao reparar, Scorpius franziu a testa.

– Continuem.

Blaise observou Scorpius com o canto dos olhos.

– Malfoy, nós estávamos decidindo o novo sócio para a firma.

– Claro. E isso significa... – estimulou.

– Significa que precisamos de um terceiro sócio. Flint nos dará estabilidade.

Foi como se Scorpius tivesse escutado uma piada.

– É sério? O que aconteceu? Estamos falindo ou o quê...?

– Quase – disse Emily e isso fez Scorpius parar de rir imediatamente, porque Emily não brincava. – Lucius representava a credibilidade da Empresa e depois que ele se aposentou... muitos clientes sumiram.

– Quarenta por cento dos clientes dele me procuraram depois – relembrou Scorpius. – Não perdemos todos.

– Você é parecido com Lucius, Scorpius – disse o sr. Zabini. – Mas você não é Lucius. Ele valia cinco sócios de uma vez. Temos que entender que foi uma perda imensa em todos os casos.

– Procuramos mais clientes – disse Scorpius, como uma solução. – Não precisamos de um terceiro sócio.

– Precisamos. Não tem como permanecer do jeito que estava. Nada será o mesmo sem Lucius.

Scorpius suspirou e recostou-se a cadeira de couro.

– Ele se emocionaria com suas palavras, Zabini. Mas, se é assim, seja bem-vindo, Flint. Não nos desaponte. – Ele se levantou, desabotoando o paletó, sorrindo. – Eu tenho um julgamento agora e preciso ser rápido.

– Alexis já foi – disse Emily com um pouco de hesitação.

– Foi para onde?

– Para o tribunal. Pensamos que você...

– Bem, pensaram errado! – ele retrucou e, talvez, apenas talvez, o andar inteiro escutou a voz dele. Scorpius se recompôs quando sentiu os olhares sobre ele. Falou mais baixo dessa vez. – Se tiver algo útil que eu possa fazer estarei na minha sala.

Scorpius passou a manhã fazendo ligações para os clientes que antes eram do seu avô. Não conseguiu convencê-los a contratá-lo. Como Blaise mesmo havia deixado claro: você é parecido com Lucius, mas não é Lucius.

Elisa apareceu em sua porta alguns minutos depois. Ela o flagrou com as mãos apoiando a cabeça e os dedos enfiados nos cabelos loiros, dormindo, atrás da mesa. Ele se assustou quando ela fez dois rápidos toques no vidro. Foi quase fofo o modo como ele tentou disfarçar, e Elisa sorriu fraquinho.

– Prometo não contar. Podemos conversar?

– Sim, sim.

Scorpius estranhou que ela tivesse sentido necessidade de sentar na cadeira a frente da mesa dele. Elisa costumava ficar em pé para contar qualquer coisa.

– Scorpius, eu trabalho para o seu avô há dez anos.

Ele franziu a testa ao escutar aquilo.

– Quantos anos você tem?

– Trinta e cinco.

– Eu jurava que você tinha vinte e um.

Elisa riu. Às vezes era fácil gostar de Scorpius.

– O que está querendo dizer, Elisa?

– Três anos atrás... eu recebi uma proposta que eu recusei por consideração ao seu avô. Ele precisava de mim. Mas agora...

– Não, não... não diga que vai abandonar o barco agora, Elisa. Você não. Eu não vou deixar.

– Eu fui aceita para trabalhar em Nova Iorque. Uma empresa grande. Eles só precisam de uma recomendação sua.

Com os olhos pidonhos, Elisa arrastou um papel e uma caneta em direção a Scorpius. Ele pegou a caneta e, enquanto escrevia, citava em voz alta:

– Elisa Chang é uma lésbica que, se achar a oportunidade, vai tentar comer a sua mulher. Pode ser um ponto positivo sobre ela. Costuma conversar muito e achar que não estamos percebendo que ela fofoca demais sobre nossas bundas. Mas, se você não for gostoso ou não tiver uma mulher gostosa, ela se concentrará para fazer um ótimo trabalho. Não irão se arrepender dessa escolha. Assinado, Scorpius Malfoy.

– Essa foi... a coisa mais linda que já disse sobre mim.

– Vou sentir sua falta – ele disse com sinceridade.

– E não se preocupe, eu tenho milhares de secretárias que estariam a disposição para trabalhar com o senhor. E fazer algumas outras coisas também. – Piscou para ele enquanto Scorpius ria. Porém, antes de se levantar, Elisa reparou. – Se bem que você sossegou.

– Hum?

– Você sossegou um pouquinho, não foi? – Vendo a expressão confusa dele, Elisa abanou a cabeça. – Deixa pra lá.

– Mando uma recomendação melhor pelo e-mail – ele garantiu. – Mais alguma coisa?

– Sim. – Elisa ficou mais séria. – Quando Lucius anunciou a aposentadoria dele por causa do agravamento do câncer... ele deixou comigo uma carta. – Scorpius só percebeu que ela estava segurando uma carta naquele momento em que a citou. – Está lacrada, por um pedido dele. Ele me disse... entregue ao meu neto se ele aparecer no trabalho depois que eu morrer. Ameaçou me assombrar se eu chegasse a abrir ou ler... então...

Estendeu a carta lacrada para Scorpius que, a princípio, não se mexeu para pegá-la. Percebendo que ele não ia conseguir pegá-la tão cedo, Elisa educadamente a pousou sobre a mesa dele.

– Vou deixá-la aqui. Tchau, Scorpius.

Ele não respondeu; não conseguiu tirar os olhos daquele papel assustador. A curiosidade queimou suas entranhas e ele se levantou. Aproximou-se da carta como se ela fosse um objeto radioativo. Não sabia se estava preparado para ler qualquer coisa que seu avô escreveu para ele.

Segurou o envelope branco e passou os dedos pela dobradura. Observou a movimentação das pessoas entrando e saindo de salas, verificando se era seguro ler e não ser interrompido. Quando estava rasgando um pedaço, a voz de Emily o sobressaltou:

– Sei que você não escuta a ninguém, então... Interrompi alguma coisa?

– Não – ele disse, guardando o envelope no bolso interno do paletó.

– Escute, eu me precipitei. Falei para Alexis adiantar o julgamento imaginando que você iria preferir ficar com sua família hoje, não foi porque não precisamos de você.

Ele pôs as mãos nos bolsos e não disse nada, o que fez Emily terminar de dizer:

– Estou indo para outro julgamento em dez minutos. Prepare-se.

– Eu não sei nada sobre o seu caso.

Ela jogou uma pasta cheia de arquivos na direção dele.

– Tem dez minutos para saber. Não é isso o que queria? Se ocupar com alguma coisa? Então se prepare.

Assim que Emily saiu, Scorpius se lembrou porque o namoro deles durou mais do que qualquer outro que ele teve.

***

Talvez a ficha ainda não tivesse caído. Caiu quando ele estava no tribunal e, ao perder o caso com Emily, como de costume esperou ouvir a voz de Lucius chamando-o pelo corredor. Ele iria apontar os erros que eles cometeram, mas, dessa vez, foi apenas um silêncio incômodo que acompanhou Scorpius até o carro no estacionamento. Ele se trancou lá dentro.

Deu um longo suspiro e prometeu que não faria dramas. Lucius odiaria isso. Mas as portas dos carros o protegiam contra o contato do mundo exterior, e todas as coisas que Scorpius sentia drenavam em seu interior como um liquidificador quando ele se trancava entre quatro portas e um teto solar. Tirou do paletó a carta que Lucius deixara com Elisa. Abriu sem pensar em nada e imaginou que poderia ser uma lista dos pertences que ele deixaria nas mãos de Scorpius, mas eram outros tipos de palavras.

Scorpius,

É irônico como sou péssimo com as palavras se minha profissão exige maestria com elas. Acredito que essa maldição corre pela família há anos, como uma doença genética. Por isso, e porque quimioterapia é tão miseravelmente entediante, escrevo essa carta. Sou melhor com a caneta, pelo menos ao me expressar. Se estiver lendo esta carta é porque o câncer foi mais forte dessa vez. E se estiver lendo antes, demita a srta. Chang.

Você deve estar sentindo o peso do mundo em suas costas agora. Aliás, você sente o peso do mundo há muitos anos. Não posso culpá-lo por querer encarar situações de maneira insípida. Não tem sido fácil e você não pode se permitir cair, e eu entendo. E como eu sei que haverá jeito de ficar ainda pior, eu escrevo essas palavras:

Então caia. Mas não caia sozinho. Não caia com as bebidas, como seu pai tem feito há anos. Caia com sua família. No final, é só a família que vai importar. Eles estarão até o fim com você e foi você quem me mostrou isso.

Tive incontáveis amigos e, antes de sua avó, mulheres. Sim, eu tive muitas, como você. Mas é o meu neto, a quem me dediquei tanto a ensinar tudo o que sei, que está me levando a um tratamento que não fará efeito algum contra minha doença. É o meu neto quem está me ajudando, mesmo com as poucas chances, e se eu não agradecê-lo de alguma forma por isso, sinta-se aqui agradecido, então.

A vantagem de saber que você está morrendo é que você pode dizer últimas palavras. Ter um último pedido. Pensar nas coisas que fez e tentar se redimir. Infelizmente, sua mãe não teve tal privilégio e eu sinto por isso. Ela merecia conhecer você sendo pai. Você a faria sorrir.

Escrevo também essa carta porque tenho quase a certeza de que Narcissa não irá contar. Mas quero que saiba que boa parte da minha herança – sim, financeira – está guardada em uma poupança. Não a use para suas coisas supérfluas. Dê a Zoe quando ela atingir a maioridade. Use a herança para pagar a faculdade dela ou o que for. É o meu presente para a garota. Conversei com Narcissa e ela concorda que, mesmo não tendo sido do nosso jeito, Zoe possui o nosso sangue.

Não faça com que sangue não signifique nada. Não me decepcione.

Com inevitável amor,

Lucius Malfoy.

O celular começou a tocar no mesmo instante em que Scorpius terminou de ler a caligrafia perfeita do avô. Ao pegar o celular, percebeu que a mão estava trêmula e isso não tinha nada a ver com a vibração do aparelho. A foto de Rose e Zoe piscava na tela e, apertando os olhos com as mãos, ele sentiu necessidade de declinar a ligação. Mas se recompôs e a voz estava estranhamente calma quando falou:

– Oi, Rose.

Você está com a Zoe?

– Não, por quê?

Ahn... Scorpius, você não tinha falado que ia passear com ela depois da aula?

– Eu sei, mas ainda são... – Ele olhou o relógio do carro e fechou os olhos. – Merda.

Ela tá esperando até agora lá na escola?!

– Eu já estou indo. Eu-

Tudo bem, eu estou saindo do museu agora. Eu mesmo passo...

– Rose, não. Não. Não. Eu perdi o horário e... eu vou. Eu já estou saindo com o carro. Eu vou. Não se preocupe.

Rose não estava brava.

Sua voz está estranha.

– Estou ótimo. Não posso falar agora, to dirigindo. Tchau.

Quando chegou a rua da escola, já podia até imaginar Zoe sozinha, esperando ele com o olhar triste e magoado. Scorpius se preparou para tudo, menos para aquilo. A filha estava ao lado de um garoto no banquinho e pareciam estar em uma discussão imperdível. Quando Scorpius estacionou bem a frente dos dois, percebeu que não era discussão, porque Zoe ria com ele.

– Tchau – ela disse, interrompendo a tagarelice do Ralph Thomas. O garoto parou e olhou para o carro de Scorpius. Fez um tchau rápido para Zoe e voltou a se entreter com o console de jogos que tinha na mão. Ralph Thomas ficou sozinho no banco e estava escurecendo. O único que faria companhia para ele, agora, era o porteiro da escola e um guarda que circulava por perto.

Scorpius se esqueceu do garoto no minuto em que Zoe entrou no carro e se inclinou para dar um beijo na bochecha dele.

– Cheguei um pouco mais tarde hoje – explicou Scorpius. – Desculpe.

– Não tem problema! – ela se apressou a dizer, colocando o cinto. – Eu fiquei brincando com o novo jogo do Ralph Thomas. Ele me deixou brincar pela primeira vez. Eu queria ter o jogo de Frozen mas o Ralph Thomas gosta daqueles que tem carro quebrando pra todo lado... tão chato. Pai, compra um joguinho para mim? A mamãe não quer deixar, acha que eu vou ficar grudada nisso e não vou estudar, mas você compra pra mim?

– Me dá um motivo para eu comprar.

– Eu vou ficar muito, muito, muito feliz.

Scorpius sorriu. Virou a primeira rua e percebeu que já estava dentro do shopping, levando Zoe para comprar o brinquedo que ela tanto queria. Pelo visto, o console era a febre do momento entre as crianças da idade dela, então Zoe ficou realmente chateada quando Scorpius teve que dizer a ela que a moça da loja disse a ele que o brinquedo já estava esgotado.

De volta ao apartamento, Zoe ultrapassou a porta da sala e passou por Rose de braços cruzados até o quarto. Pela expressão da filha, Rose achou que ela estivesse magoada com Scorpius.

– Você explicou que poderia estar muito ocupado?

– Não – ele disse tranquilo. – Ela não está chateada por isso. Fui comprar um brinquedo que ela queria e não tinha na loja.

Rose acabou soltando uma risada incrédula, massageando os ombros.

– Então eu que mimo muito ela, não é? – provocou. – Zoe vai largar o presente rapidinho. Ela sempre faz isso.

– Queria fazer algo por ela. Teve que suportar muita coisa ontem.

– Só ela? Como está indo?

– Bem – ele respondeu erguendo os ombros. – O melhor que posso. É minha avó que me preocupa. Ela está devastada. Queria fazer algo por ela. Por meu pai também, mas... é impossível. Eles querem ficar sozinhos.

– Acredita mesmo nisso?

– Não. Só não sei o que fazer.

– Fique com eles – aconselhou Rose. – Não os deixe sozinhos.

– É uma tradição Weasley?

– Sim – sorriu Rose. – Não é tão difícil.

– Eu deveria ir, então. Vê-los.

Ao se despedir de Zoe, Scorpius não voltou para o apartamento para ficar sozinho. Foi até a casa da família e se surpreendeu por ter encontrado Narcissa ligeiramente apressada, arrumando as malas no quarto dela.

– Vó? O que você tá fazendo? Aquela história de realmente queimar essa casa...

Ela surgiu do banheiro do quarto com cremes na mão. Sem parar de colocar as coisas na mala, disse:

– Foi o calor do momento, querido. Eu não ousaria. Lucius amava essa casa.

– Então por que está fazendo as malas? Vai viajar?

– Eu vou para a sua casa.

A voz dele subiu um tom.

– Que?

Narcissa respirou o ar daquela noite.

– Eu preciso dar um tempo por aqui. E você mal fica parado, não irei atrapalhá-lo.

– Eu tenho um cachorro.

– Amo cachorros.

– Você odeia cachorros.

– São só por alguns dias – disse como modo de tranquilizá-lo, chacoalhando as jóias do pulso com um gesto.

Scorpius esfregou as mãos, hesitante.

– Vó... Eu não vou negar. Eu não quero deixá-la sozinha, mas...

– Se precisar comer alguma garota faça como nas universidades. Se tiver uma meia na maçaneta, saberei o momento para não entrar para te desejar boa noite. É meia que eles colocam? Ou cinta? Ou sapato? Ou pano? Laço de cabelo? Eu nunca sei.

– Eu não vou comer ninguém com a minha avó dentro da minha casa! – ele exclamou horrorizado.

– Melhor ainda. Você precisa sossegar.

– Você fumou? – ele perguntou, seguindo-a pelas escadas.

– Claro que não. Que pergunta é essa?

– Você parece não muito saudavelmente agitada.

– Estou de luto. E se eu ficar aqui não haverá maquiagem que perdure com o excesso de lágrimas. E quer saber? Seu avô fez muita coisa para não merecer minhas lágrimas! Quando eu imaginava o velório dele, seria porque eu o teria matado, aquele desgraçado.

De alguma forma, ouvir sua avó dizendo aquelas coisas o fez se sentir bem. Quase sorrir, até. Ele estava ficando preocupado que Cissy nunca mais fosse ser a mesma. Ela não seria a mesma, afinal de contas, uma grande parte dela havia ido embora. Mas Cissy era Cissy. Seria Cissy até morrer.

– Todo mundo sabe que você o amou – provocou Scorpius sorrindo.

– Claro que sim. Mulher adora homem que não presta. Pergunte pra sua ex. Todas. Vi todas em um mesmo lugar ontem, e eu posso ver que elas ainda babam por você. Mulher não aprende a lição. Eu não aprendi a lição. Quantas vezes eu já quis me separar do Lucius? Milhares. No fim... eu não podia viver sem ele. Eu não posso viver sem ele.

A essa altura o discurso de Narcissa foi abandonado e ela parou de andar, quando os olhos voltaram a se encher de lágrimas e a voz falhar um pouco. Pousou a mão no rosto a fim de cessar as lágrimas, e Scorpius pigarreou antes de se aproximar. Com as mãos gentis, apertou os ombros tensos da avó. Ela não conseguiria ficar ali por mais um minuto... ou começaria a pirar.

– Quer ajuda com as malas? – ele ofereceu e Narcissa pousou a mão sobre a dele, para agradecer silenciosamente pela ajuda dele.

***

Ter uma filha era fazer coisas que nunca faria em outras circunstâncias. Uma delas era assistir a filmes infantis. Todos os filmes que Scorpius assistia com Zoe, ela já sabia o que ia acontecer e tinha decorado quase todas as falas. Mesmo assim, não perdia a oportunidade de assistir tudo de novo quando o pai estava disponível. Ficar ao lado dele segurando o Olaf de pelúcia no colo era tudo o que Zoe queria fazer até a hora de dormir. E, sinceramente, Zoe torcia para que ninguém atrapalhasse.

Naquela noite, uma simples noite de setembro, poucas semanas antes do aniversário de oito anos de Zoe, Scorpius tinha duas escolhas:

Passar a noite em uma festa para procurar alguém e relaxar apenas até o dia seguinte.

Ou ver Zoe. E se sentir bem.

Escolhas que ele hesitaria em fazer se Zoe e Rose ainda estivessem nos Estados Unidos. Mas agora elas estavam por perto, e ele, mais uma vez, percebeu que isso era significante.

Naquela noite, estavam assistindo a Rei Leão.

Scorpius nunca assistiria se Zoe não fosse sua filha. Nunca, nem em um milhão de anos, ele assistiria a Rei Leão.

E não se arrependeu.

Ficou com sono em algumas partes no começo, exceto na parte que Zoe juntou as mãozinhas no rosto e o sobressaltou com o aviso:

– Não gosto dessa parte!

Escondeu a cabeça ao lado de Scorpius, que segurou o ombrinho dela. O que ia acontecer agora que ela não suportaria ver? Ficou curioso e prestou atenção.

Quando o pai do Simba morreu, Scorpius soube.

Já passou?

Aquilo deixou Scorpius surpreso. A crueldade em um filme aparentemente tão inocente. Ele ficou olhando para a imagem do filme, o pequeno leão pedindo para o papai dele se levantar, meio aflito.

– Não – ouviu-se murmurar.

Nunca vai passar.

Então ele se sentiu idiota porque aquilo era só um filme infantil e animais não falavam. Zoe voltou a assistir e enxugou os olhos com as costas da mão, encostando a cabeça no ombro de Scorpius. Quando o filme terminou, Zoe saiu do sofá e foi até a poltrona onde Rose estava sentada, com os óculos de leitura no rosto, distraída, lendo um livro sobre percepção visual ou algo assim.

Foi surpreendida e interrompida com o abraço da Zoe.

– Por que o pai do Simba sempre morre? Por que nunca muda?

– Bem... – suspirou Rose, pensando no que responder, enquanto acariciava o cabelo dela. – A história não seria a mesma se isso não tivesse acontecido. E, às vezes, na vida, não mudamos o que acontece. Não podemos mudar.

Zoe ainda não compreenderia isso, mas se acalmou e foi até Scorpius novamente.

– Mas você viu o que aconteceu depois, Zoe – disse Scorpius seriamente. – Simba não teria virado o rei que o reino precisava. Ele não conheceria o Timão e o Pumba. Quero dizer... sua mãe tem razão. A história não seria a mesma.

Rose quase deixou o livro cair depois de ouvir aquelas palavras saindo da boca de Scorpius. Zoe pensou no que ele disse e mordeu os lábios.

– E o filme não teria graça sem Hakuna Matata! Você riu nessa parte, né, papai?

– Não.

– Riu sim. Eu ouvi!

– Tá, só um pouco – admitiu, porque era impossível passar despercebido por Zoe.

Eles ficaram discutindo mais um pouco sobre o filme até o momento em que Rose precisou mandar Zoe sossegar e dormir. Já passavam das dez horas e a menina ainda estava agitada, eufórica. Ela não queria dormir para aproveitar o tempo que tinha com Scorpius, mas no fim precisou obedecer a mãe porque ela não tinha intenção de fazer birra na frente do pai.

– Tchau, papai – ela disse, andando até ele com sua pantufa e o pijama com a estampa “Que o sono esteja com você” e o desenho de um sabre de luz em cima das palavras. Zoe abraçou Scorpius pelo pescoço.

– Boa noite, coisinha.

E foi até Rose que a esperou com os braços abertos para abraçá-la.

– Você quer que eu acenda a luz do abajur?

– Eu não tenho medo de escuro, mãe!

– Tudo bem, tudo bem – disse Rose quando Zoe protestou imediatamente. Ela ria por dentro. – Desculpe, não quis ofendê-la.

Scorpius e Rose se entreolharam quando o silêncio reinou na casa, exceto pela música dos créditos do filme. Scorpius engoliu um longo suspiro. Não tinha percebido que já era aquele horário. O tempo passou rápido porque Scorpius gostou de Rei Leão. Talvez o preferido dele entre todos os outros que assistiu com Zoe.

Sorriu para Rose, que retribuiu o sorriso, mas ajeitou os óculos no osso do nariz e voltou a prestar atenção na leitura que fazia. Ela usava um deliberado curto shorts por debaixo de um moletom do time de futebol que ela torcia com seu pai. Rose o flagrou olhando para suas pernas flexionadas, mas preferiu não comentar nada.

– Eu deveria ir – ele disse e, com um embalo, levantou-se. – Minha avó está hospedada no meu apartamento e eu não acho bom deixá-la sozinha com o Cupcake a noite inteira. Sai briga.

– Claro – disse Rose, pousando o livro no sofá ao se levantar também. Estavam rindo quando pararam no buraco da porta. – Ela realmente tentou pintar as unhas dele?

– Ela quer se ocupar com qualquer coisa. E eu quero dizer qualquer coisa mesmo. Outro dia ela conseguiu arrastar o zelador para ouvir o ensaio dela de uma peça que ela mesma está escrevendo. Quer saber o nome da peça?

– Eu não sei se quero – ela disse temerosa.

– As Noites de Clarisse.

– Oh. Parece poético. Não é tão ruim-

– Clarisse é uma prostituta.

– Bem. Pelo menos ela está se distraindo.

– Ela detalha as cenas de sexo, Rose. E ela as lê para mim. – Ele fingiu um arrepio com o corpo enquanto Rose abria a porta.

– Agradeça que pelo menos ela não pede para você vê-la ensaiando

– Ah, credo! Não fala uma coisa dessas! Porra, Rose!

– Desculpe, desculpe, desculpe. – Ela não soube por que achou necessidade de segurar o rosto dele quando pediu desculpas, rindo.

Não soube muito bem o que fazer com a mão quando elas pararam no rosto dele. Só soube que imediatamente o clima mudou de uma hora para outra e eles se olharam bem próximos, parando de rir.

Ela o beijou, sem exatamente saber o motivo dessa vez. Foi um impulso que ela teria se arrependido de ter se Scorpius, ao soltá-la, não tivesse mordido os lábios e sussurrado:

– Jante comigo amanhã.

– Como um encontro?

– Exatamente como um encontro. E se você me der uma décima chance de fazer alguma coisa certa dessa vez...

– Não me prometa nada – ela pediu imediatamente.

– Eu não ia prometer. Quero só sair com você. Conhecer você. Tudo de novo.

– Eu não sou aquela Rose. Você se apaixonou por aquela Rose e se você tentar encontrar alguma coisa daquela Rose... não irá encontrar.

– Não espero encontrar nada. Só quero um tempo sozinho com você. Não com aquela Rose. Com você. Hoje. Do jeito que você está. Eu não sabia que você começou a usar óculos.

– Vai dizer que meus olhos são lindos sem eles?

– Estão melhores com eles.

– Como “melhores” você quer dizer...

– Sim, mais gostosa – admitiu, sorrindo.

Ela soltou uma risada e bateu no ombro dele. Ele, por outro lado, inclinou-se para beijá-la no rosto.

– Boa noite, Rosie.

E andou pelo corredor com uma postura tranquila.

Rosie.

Não escutava o apelido há muito tempo.

Notas finais
Passinho de bebes entre Rose e Scorpius. Ou foi um grande passo? Tivemos a recaída dele. Ainda um pouco reprimido mas é só uma questão de tempo. Ele já percebeu o importante: ele tem que ficar com as duas. Mudando de assunto, queria apenas comunicar um aviso adiantado. Eu irei viajar daqui três semanas para ficar duas semanas fora, então teremos no começo de junho um pequeno Hiatus. Até eu conseguir me recuperar, botar as coisas em dia e adiantar os novos capítulos, pode demorar um pouco depois da viagem, então já deixo avisado para não pegá-los de surpresa! Mas, não se preocupe, já temos um garantido para semana que vem. É só aguardar e espero que compreendam. Beijos a todos e até o próximo!