Fix Me
59 Segredos
Acordei com barulho de correntes, de novo. Acordei sentindo meu corpo queimar. Eu estava sentada em uma cadeira dura e gelada. Abri os olhos e pisquei algumas vezes, encontrando Thomas pendurado pelos pulsos na minha frente enquanto dormia.
— Thomas?
— Shi, não queremos acordar nosso amado, não é?
Aquela voz.
— Não.
Minha voz saiu falha. Olhei em volta e não encontrei ninguém e comecei a tentar sair de lá.
— Não se esforce muito. Guarde suas forças para a surpresa final.
— O que você quer, quadrúpede?!
— Quadrúpede? Ainda com esse xingamento inofensivo.
Ela começou a rir e finalmente apareceu atrás de Thomas, que estava apenas com calça e feridas abertas pelo corpo.
Cameron apareceu com salto preto e um vestido vermelho e aquele sorrido de cobra.
— Olá, brinquedo.
— Brinquedo? — Ri fraco. — Qual era mesmo o xingamento inofensivo?
— Ah, menina. O meu é mais forte. Por você ter sido usada como brinquedo pelo meu irmão, meu amigo e meu namorado.
— Primeiro. Lucas foi MEU irmão, cuidou de mim, me protegeu e me deu amor. Nicolas foi MEU amigo e me deu respeito e dias com piadas sem graças e brincadeiras divertidas. E por último Thomas É MEU MARIDO, por ser meu amigo desde criança, por conquistar meu coração e confiança e ser apenas MEU verdadeiramente.
Ela sorriu.
— Ah, é. Confiar? Tem certeza? Por acaso ele falou sobre o Tim?
— Quem?
Falei sem entender e ela riu.
— Nossa, que casal mais confiante! Não sabe nem do falecido irmão, Timothy!
Ela riu alto.
— Pena que seus dias felizes e iludidos acabaram. — Fez bico. — agora você é meu brinquedo e a melhor parte disso é que sei como te atingir. Percebi que machucar sua carne não adianta, mas e se for alguém que você ama?
Falou e puxou um pino acima da cabeça de Thomas fazendo-o cair. Agachou e falou baixinho, mas deixando eu ouvir. Deixou uma pequena faca ao seu lado e saiu cantarolando.
— Mate-a aos poucos com muito sofrimento.
Ele logo respirou fundo e abriu os olhos se levantando e pegando a faca. Meu coração bateu forte e eu comecei a chorar.
— Thomas, sou eu, Alice. Não.. Não precisa fazer isso. Acorda, por favor. ACORDA!
Gritei enquanto chorava. Thomas sentou no meu colo e apertou meu pescoço até eu quase desmaiar, se afastou e levantou me rodeando enquanto eu pegava todo o ar em minha volta e chorava como criança. Passeou a faça no meu braço, indo para meu pescoço e abaixo aos poucos subindo e descendo com minha respiração. Tentei respirar fundo e fechei os olhos enquanto começava a cantar.
— Meu coração, não se preocupe com o escuro. Sempre tem uma luz no final do túnel. E um dia você irá achar ela e abracar com todo amor. O amor que eu te dei um dia. Dia aquele que te vi na primeira vez. A vez que você sorriu para mim e me conquistou. Esse é o motivo de eu viver. Esse é o motivo de eu lutar. Lutar por um mundo melhor. Melhor para você e seu sorriso que me traz tanta paz.
Logo ouvi um barulho de algo cair no chão e, ao abrir os olhos encontrei Thomas com a mão na boca enquanto se afastava e chorava.
— A... Alice? Me... desculpe.
— Tommy.
Falei sorrindo e voltando a chorar. Me remexia e tentei sair, mas meus pulsos ardiam a cada movimento.
— Thomas, preciso de ajuda.
— Eu não posso. Vou te machucar.
Falou e se afastou até um canto e se encolheu.
— Thomas, olha para mim. — Ele negou com a cabeça e fechou os olhos. — OLHA PARA MIM.
Eu estava cansada, ferida e sem paciência, além de fome e enjôo. Ele me olhou obrigatoriamente. — Você vai pegar essa faca e tentar abrir essas algemas que estão me prendendo. Sairemos daqui e depois eu resolvo seu problema de me machucar, entendeu?!
— Alice, eu não... Não consigo.
Falou entre soluços.
— Sim, você consegue. Do mesmo jeito que conseguiu encarar seu pai, me proteger quando eu era pequena, quando estávamos na Itália estudando e quando todos os herdeiros da máfia precisavam de algum refúgio, foi você que nos salvou. VOCÊ, THOMAS!
— Eu não sou mais aquele garoto! EU SOU UM MONSTRO, ALICE! Eu mato sem dó e machuco todos que amo sem controle do meu corpo. Não mereço viver.
— Prove para mim que está certo! Prove para mim que tudo que passamos juntos não valeu a pena. Prove que os dias na lanchonete, na faculdade, no hospital e no refúgio não valeram a pena! — Falei com lágrimas incontroláveis caindo em meu pescoço. — Prove para mim que meu amor por você não valeu nada até agora! PROVE PARA MIM QUE VOCÊ NÃO ME....
Na hora senti uma grande dor na barriga e o enjôo estava mais forte, fazendo-me encolher o quanto podia.
— Alice?
Ele mostrou preocupação. E se levantou, se aproximando.
— Thomas. .. me tira... daqui. ..
Fiquei com medo de vomitar. A dor estava aumentando e me queimando. Ele logo correu me soltando sem muita enrolação e me pegou no colo enquanto sentava no chão.
Me encolhi em seu colo e ele me abraçou. Senti falta de ar, fui obrigada a respirar mais rápido. O lugar estava ficando quente e a dor intensa. Thomas me abraçou forte e eu tentei me acalmar.
P. O. V Thomas
Após ver Alice perdendo a cor e mostrando que estava sofrendo, percebi que ela não estava brincando. Preocupado, levantei e tirei-a daquela cadeira e abraçando-a sem saber o que fazer para ajudá-la. Ela tremia, estava quente e com dores, além de vários hematomas recentes. Percebi que não poderia viver longe dela, e que ela poderia se machucar se eu a deixasse. Eu a abracei forte percebendo a besteira que eu faria.
— Me perdoe.
Falei enquanto prendia o choro.
— Não. .. me deixe.
Ela falou com a voz falha, como no dia em que nos separamos, quando crianças. Percebi que eu era um tremendo idiota e que, mesmo sem controle do meu corpo, mesmo sendo perigoso, eu não conseguiria viver longe de Alice. Ela me atura, me aguenta e, por incrível que parece, ela ainda me ama.
— Nunca. Nunca mais.
Decidido, deixei Alice dormir antes de verificar melhor o lugar que estávamos. Um quarto vazio e velho sem janelas com apenas umas correntes que me prendia e uma cadeira, onde minha esposa esteve. Havia uma porta de madeira, mas parecia ser bem grossa. Lembro de Cameron e lembro do que ela queria. Não encontrei nenhuma câmera então tive um plano. Fiz um pequeno corte em meu braço e espalhei meu sangue na Alice e na faca. Aproveitei que sua respiração estava bem lenta, quase não dá para perceber que ela estava respirando. Ela desmaiou. Respirei fundo e bati na porta, após uns minutos ela se abriu apresentando Cameron sorridente com três caras ao seu lado que se vestiam estranho com máscaras pretas de gás. Dei passagens e todos deram atenção à Alice deitada no chão encharcada de sangue. Meu sangue.
— Que bela visão!
Cameron falou dando palminhas. Aproveitei que eles abaixaram a guarda e ataquei um por um deixando eles inconscientes. O primeiro ataquei por trás, atacando as costas e depois a cabeça para ele desmaiar. O segundo e terceiro vieram juntos. Peguei a cadeira e ataque em um enquanto dava atenção no outro e atacando-o pelas pernas com a faca e depois pelas partes debaixo. O último se levantou e me atacou por cima, eu abaixei e ataquei pelas costas. O melhor lugar para atacar em homens altos. Após eu acabar com os caras, ouço um barulho de arma. Levantei as mãos devagar soltando a faca e virei encarando Cameron com a maquiagem já borrada por causa do choro.
— Porque?! Porque me traiu de novo, amorzinho?!
— Cameron, abaixe essa arma.
Me aproximei aos poucos sem ela perceber.
— Você não me ama?
— Cameron, vamos conversar depois de você abaixar...
— NÃO! SE VOCÊ NÃO VAI FICAR COMIGO, ENTÃO ELA TAMBÉM NÃO VAI!
Cameron apontou a a arma para Alice e eu logo a ataquei ouvindo apenas um tiro.
P. O. V Alice
Acordei nas costas de Thomas. Ele estava andando devagar em um corredor cinza com várias portas. Havia luzes vermelhas piscando, mas não se ouvia nada.
— Tommy?
Ele parou e percebi que se esforçava para respirar.
— Oi, Minnie. Já estamos voltando para casa.
— Está tudo bem?
— Vai ficar, pode voltar a descansar. Te chamo assim que chegarmos.
Respirei e voltei a dormir ignorando o barulho de madeira estralada e o cheiro de queimado.
Ao acordar, me encontrei em um quarto moderno e bem grande. Eu estava com um camisa que chegava até minhas coxas e shorts preto. Sai da cama king size, senti uma pequena tontura e após respirar fundo e sai do quarto descobrindo que estou num apartamento dúplex. Dei alguns passos e cheguei na ponta da escada que era de vidro encontrando alguém de terno olhando pela janela. Ele estava com cabelo num topete e terno preto, com as mãos no bolso. Desci devagar para que ele não percebesse, mas ao chegar no último degrau, ouvi sua voz grossa.
— Conseguiu descansar?
— Tommy?
Ele virou e encontrei ele novinho! Limpo e bem arrumado. Abri a boca surpresa.
— Thomas?!
Ele sorriu e se aproximou.
— Bom dia, Minnie.
Passou a mão em meu rosto e deu aquele sorriso meigo que amo.
— O.. o que houve? Cadê todo mundo? Onde estamos? E...
Minha barriga logo reclamou e Thomas riu fraco.
— Bom, parece que nem sua barriga aguenta mais suas bombas de perguntas.
Coloquei a mão na barriga e olhei para ele.
— Desculpe.
— Vamos. O café da manhã está pronto e eu te explico tudo.
Ele me guiou para uma ilha que havia num dos cantos do lugar. A cozinha era moderna de metal prata e detalhes vermelhos. Havia frutas, sucos, café e pães na mesa quase toda. Logo sentei e comi enquanto olhava a televisão que estava ligada no jornal, onde dizia sobre cães bem cuidados e não cuidados. Thomas sentou na minha frente e apoiou os braços na mesa de mármore.
— Vai explicar?
Ele suspirou e ficou sério.
— Após o ataque dos soldados de Dragon, fomos sequestrados pela Cameron. Mas conseguimos fugir do lugar e descobri que estávamos no interior de São Francisco. Peguei um dos carros de seus empregados e fugi até a cidade onde entrei em contato com minha mãe numa linha segura e avisar sobre o ocorrido. Ela encontrou o avião e contatou Nicolas pelo rádio levando eles para uma ilha em Cancún.
— Sua mãe sabe onde encontrar os melhores lugares.
Falei sorrindo. Ele riu e voltou a ficar sério.
— Assim que desliguei fiquei num hotel com você. Tive necessidade de roubar um carro para não nos localizar e depois de sete horas, recebi a ligação da minha mãe avisando onde ir e o que fazer. Viemos para esse apartamento, que é um dos três que ela tem pelo mundo para descansar. Se alguém perguntar, somos casados e nos mudamos a pouco tempo de Londres.
— Não deixa de ser, um pouco, verdade.
Apoiei meu rosto na minha mão e sorri enquanto o encarava.
— Verdade, tanto que preciso comprar novas alianças. As antigas sumiram.
— A minha solitária que você me deu está seguro em Cancun junto de nosso vídeo de casamento.
Falei levantando as mãos. Thomas ficou surpreso e riu.
— Mesmo no meio de tanto terror, você conseguiu lembrar dessas coisas?
— Quando é algo importante, ficamos com medo de esquecer.
Falei e olhei para copo de suco à minha frente.
— Esta tudo bem?
— Quanto tempo eu fiquei apagada?
Ele desviou o olhar e passou a mão na cabeça.
— Alguns dias.
— Thomas Durann ...
— Esta bem, esta bem. Cinco dias.
— Cinco dias?! O que houve mesmo para eu ficar apagada assim?!
— Você estava sentido dores estranhas e tinha febre muito alta.
Falou com um olhar triste.
— Como você conseguiu nos tirar de lá?
— Eu tenho meus métodos, e não se preocupe, Cameron não vai mais nos atrapalhar.
— Thomas, o que você fez?
Perguntei com um pouco de medo. Ele respirou fundo e colocou um pouco de ovos mexidos na minha frente.
— Coma mais, não precisa se preocupar com isso agora. E sim com sua saúde!
O cheiro dos ovos logo atacou minhas narinas e o enjôo voltou. Desta vez eu não conseguiria segurar e corri para o banheiro.
P. O. V Thomas
Após Alice correr para o banheiro por causa de algo que ela comeu, olhei para a televisão onde agora mostrava a casa de descanso da familia Carter em chamas. O título dizia que a única filha do casal morreu com seus amigos, Thomas Cameron e Alice Wayne por causa de um vazamento de gás. Sorri e desliguei a TV, quando Alice chegou e sentou no sofá.
— O que eu perdi?
— Que os cachorros são o melhor amigo do homem.
Sorri e agi naturalmente. Alice não estava pronta para este mundo.
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