Fire
3 Perseguida
Elesis pôs a comida na mesa. Pelo visto, aquilo tudo era fruto do trabalho alheio. Não que eu tivesse algo contra isso. Eu vivia da mesma forma... Ela me contou mais sobre sua história. Existiam milhares de semelhanças entre nossos passados...
O barulho de janelas se quebrando e portas caindo no chão me acordou. Por mais que eu me esforçasse, não conseguia sequer mentir para mim. Tentei imaginar que era apenas um sonho e que estava tudo bem com minha amiga.
Sorrateiramente, fui até a cozinha. Pelo que Elesis chamava de entrada secreta, espiei o que acontecia ali fora. Meu pior pesadelo veio a tona: eu seria morta. Depois de 17 anos de crimes.
Concentrei minha força. Se eu produzisse algum ruído seja com batimentos cardíacos ou minha respiração, estaria nas mãos do reino. Puxei minha adaga, hesitante. Meu medo me consumia, eu nunca tinha sentido temor por causa de um leve barulho.
Se eu saísse, seria perfurada por centenas de lanças. Se permanecesse na casa, logo me achariam. Decisão difícil, eu podia dizer. Cheguei a pensar em cometer suicídio, mas não. E se eu acabasse abandonando Elesis à mercê de guardas?
— Asuka — senti um leve toque no ombro. — Vamos fugir agora.
Minha felicidade era infinita. Ver que a ruiva tinha acordado me revitalizou, ainda que estivéssemos cercadas por pessoas sedentas pela nossa morte. Ou melhor, pela minha morte.
— Não, Elesis! Você tem de ficar aqui. Eles querem ver o meu sangue derramado aqui. Se eu morrer sabendo que você ficará ferida e ainda sozinha, nunca me perdoarei!
— E se você morrer porque eu atendi a seus apelos, eu nunca mais ficarei feliz! Eu lhe acompanharei. Não te abandonarei!
Fiquei emocionada, confesso. Alguém suplicando para não me deixar sozinha foi uma visão ótima. Toda a Terra suplicava para me ver sozinha, pronta para morrer...
Ela agarrou minha mão e nos esgueiramos juntas pelos corredores. Meu rosto estampava um sorriso, apesar de toda a nossa condição. Permaneci radiante até que vi seu corpo caindo, seus pés tropeçando e um guarda agarrando-a pelo pescoço...
— Pare! Pare com isso! Ela é inocente, a criminosa sou eu!
Todos olharam para mim, mas eu simplesmente continuei.
— Eu sei que todos estão atrás de mim aqui! Então porque não matam a mim? Vocês querem assistir a minha queda, mas não a morte dela! Venham atrás de mim, mas não a machuquem!
— Parem, vocês todos. Ela está certa. — Vi os olhos verdes da Princesa me fitando. — ATRÁS DELA!
As tropas atiçaram suas montarias. Eu já estava morta. Eu não tinha nenhuma chance. Era diferente de todas as outras coisas que passei. Ali eu tinha uma possibilidade de vencer, uma luz no fim do túnel. Mas agora era oficial. Eu tombaria e nunca mais abriria os olhos, tão simples...
Até que meu corpo esquentou totalmente. Aquele fogo novamente. Não que eu estivesse decepcionada, afinal ele me salvara inúmeras vezes. Eu apenas queria saber a sua origem, de onde eu tinha aquele dom de invocá-lo e porque ele só aparecia nos momentos difíceis...
Fale com o autor