Fire
2 Fugitiva
Eu expandi a janela silenciosamente até obter espaço suficiente para meu corpo se esgueirar por ali. Meus braços estavam doloridos, mas eu realmente precisava escapar. Por mais que a janela fosse alta, era uma necessidade minha sair e ver a lua novamente. Não deixei de pensar nos acontecimentos da noite anterior: o estranho fogo e o meu desmaio, bem como o fato de que eu tinha sido capturada.
Já liberta e caminhando pelas ruas da cidade, tinha um buraco no meu estômago. Não um corte físico como os diversos espalhados no meu corpo; mas um buraco psicológico. Eu não comia a horas e não estava disposta a me arriscar novamente para recuperar minha mochila.
Sem um meio de locomoção rápido e exausta, resolvi procurar algum mapa ou coisa do gênero para ter uma noção mínima de onde iria parar se prosseguisse com a minha caminhada lenta.
Meus olhos pararam em uma barraca destinada a turistas. Pegando um mapa e me agachando atrás do stand de madeira, comecei a ler com certa dificuldade, — já não sou fã da atividade, mas fazer isso no escuro realmente é irritante e complicado — anotando os pontos que seriam bons para alguma fuga inesperada.
O pequeno mapa contava com a minha localização atual (a placa de Bem Vindo) e algumas informações. Sem perceber, caí no sono.
Asuka! Acorde! Todas as tropas estão atrás de você. Faça as escolhas certas e viaje pelo melhor caminho! Mas a prioridade por agora é que você acorde! Fuja!
Sequer percebi que tinha acordado. A única coisa que fiz durante horas a partir do momento em que acordei foi correr. Sim, correr. Se eu não fugisse, saberia que o reino me acharia e me esquartejaria violentamente. Eu já estava estampada na rua, mesmo aquela sendo minha primeira vez ali.
Não exatamente pela primeira vez, fui perseguida. Não tinha ninguém perto de mim, e mesmo que tivesse, eu não saberia. Estava ocupada demais ofegando e disparando pela estrada.
Me deparei com uma garota ruiva, mas com os cabelos um pouco mais longos. Sequer sabia se ela estava contra mim ou me perseguindo, mas ainda assim saudei-a e perguntei o que fazia ali sozinha no campo.
— Olá — respondeu. — Estou apenas caçando. Mas e você, o que faz aqui?
Mesmo percebendo o ênfase no você que provavelmente significava uma provocação, dei de ombros e respondi educadamente. Afinal, a última coisa que eu queria era mais pessoas me odiando.
— Ah eu... Estava apenas indo para casa.
— Ninguém vai pra casa correndo e ofegante. Muito menos com cortes espalhados pelo corpo. Vamos lá, conte-me a verdade!
— Eu cometi um crime... — respondi, receosa. Eu não sei se tinham me dado álcool para que eu ficasse com a língua solta, mas continuei andando.
Elesis me seguiu. Eu não queria deixar tão claro que sua companhia era irritante e que eu não exatamente desejava falar mais sobre minha vida, então simplesmente deixei um silêncio desagradável pairar.
— Um crime? Qual?
— Eu roubei as joias de Lire, princesa do Reino. Porém só salvei dois colares e um par de brincos.
Ela riu. Não sei se achou meu feito engraçado ou se eu a havia agradado. Mesmo assim, retribuí com um sorriso seco e parei para observar seus cabelos.
— Eu também já cometi muitos crimes — ela suspirou. — Fui perseguida, como aparentemente você foi agora a pouco.
— Sim, eu fui perseguida. Sabe, gostaria de ter companhia as vezes... — logo me vi em outro mundo, mais relaxada.
Percebi que ela tinha a mesma mania que eu, a de fitar as pessoas até ver se elas lhe fariam mal. Finalmente alguém que tinha tanto em comum comigo!
— Eu preciso ir para algum local grande e que eu não tenha ido. De preferência, um bem longe daqui, assim as pessoas não saberão de tudo sobre mim...
— Ah, espere. Eu também! Hum, não perguntei seu nome.
— Eu... Eu me chamo Asuka! Prazer em conhecê-la!
Pelo visto, Elesis percebeu que eu era desajeitada com as palavras e simplesmente sorriu novamente. Logo pensei que eu nunca sorriria tanto assim em um dia.
— Asuka, se você quiser, pode morar comigo... Mas terá de enfrentar encrenca em dobro!
Eu simplesmente aceitei, mas sem acrescentar que meus problemas já valiam por uma manada de Asukas... Logo a ruiva começou a me guiar pela grama alta que nos cercava.
A casa dela era espetacular. Não sei se aquilo tudo vinha de crimes ou se ela simplesmente nascera com berço de ouro, mas aquilo era muita diversão para mim...
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