Fire
6 Fourth Chapter - The first day or the last one?
Notas iniciais
"Enquanto massajava o meu nariz e me certificava que este não estava partido, reparei nos raios de sol a entrarem pela janela. Não era o sol da tarde de quando eu me deitei, era um sol mais suave com vestígios de azul... Um sol da magrugada. Será que eu consegui dormir tanto tempo? Adormeci às três da tarde... O meu relógio indica-me que são agora seis e meia da manhã. Dormi exatamente dezasseis horas. Tenho de me dasabituar de dormir tanto tempo, na outra vez o meu pai deixou-me faltar à escola mas agora...
Pára tudo. Escola! Hoje é o meu primeiro dia na escola!"
Fourth Chapter — The first Day or the last one?
Me achei uma completa idiota por não me ter lembrado antes. Sabia vagamente onde a escola era, culpa de visitas anteriores, mas nada para além disso. Graças a Kami ou a outra divindade, já tinha os livros escolares e uma velha mochila preta dos Metallica, que não usava na minha escola anterior. Tería de ir numa escola que nem lembrava direito onde era, que felicidade!
Ainda passava a mão pelo nariz de vez em quando, enquanto me vestia o mais rapidamente que podia. Primeiro dia de aulas com o nariz partido deve ser um máximo, sinta o meu sarcasmo. De qualquer modo, este não é o momento para me queixar, o melhor que posso fazer é passar uma pomada ou algo do género.
Corri toscamente escadas abaixo, quase caindo umas duas vezes, mas chegando inteira à cozinha, onde tomei o meu pequeno almoço. O meu celular indicava que ainda era cedo, meia hora antes da primeira aula, mas o nervosismo apoderava-se de mim mesmo assim. Não queria que tudo corresse como na outra escola, nem me atrevo a lembrar novamente o que aconteceu.
Do lado de fora, o ar estava frio e me anestesiava a ponta do nariz, de modo a que eu parasse de sentir dor, que se transformava apenas em um leve desconforto. Não havia vento, mas o baloiço do meu jardim abanava levemente, deixando cair um pouco de geada no chão. Peguei um impermiável antes de fechar a porta, por precausão, e montei na minha velha mota, pondo a mochila debaixo do compartimento já predestinado a ela.
Demorou um pouco para ligar e, quando ligou, decidi não acelerar muito para poder ver tudo calmamente e fixar um mapa na minha memória. As ruas eram-me meio conhecidas, mas estavam muito mudadas, assim que não sabia se me estava de facto a dirigir para a escola. E só pude confirmar isso quando consegui avistar o recinto escolar.
Lembrava-me daquele local, andei lá durante algum tempo, até completar nove anos de vida. A minha memória falhava-me um pouco, mas conseguia distinguir algumas parecenças com a escola que um dia fora. Lá estava aquele aspeto frio de sempre, rígido e reto, agora ligeiramente disfarçado com umas paredes cor de salmão que tentavam aquecer um pouco tudo aquilo. O pequeno parque do recreio já não se encontrava lá, assim que presumi que a escola já não incluia o ensino primário nem pré-escolar. Apesar daquela jovialidade aparente naquele local, não havia sinal de vida visível.
Aproveitei que o estacionamento estava vazio (lá apenas se encontravam um carro sem matrícula que não consegui identificar e uma chevrolet mal cuidada) para estavionar a minha mota no local mais próximo ao portão e tirei pus a minha mochila ao ombro, como sempre faço. Ainda estava a olhar para os detalhes daquele local, mas não me era possível ver mais alguma coisa que me lembrasse dos meus bons momentos da infância. O tempo estava negro, ameaçando que ía chover, não ajudando muito no meu objetivo.
Passei o portão caminhando lentamente, dirigindo-me à secretaria. Lá deram-me um mapa da escola e tentaram conversar comigo, algumas pessoas diziam inclusive que me conheciam, mas eu não me lembrava de nenhuma delas. Deram-me também um mini-horário, de bolso, onde descobri que a próxima aula iría ser Biologia. Mesmo assim, ainda faltavam uns dez minutos para a entrada, às sete e meia.
Começei a caminhar, vagarosamente, dirigindo-me ao parque de estacionamento novamente, para ouvir música ou algo parecido. Qual não foi o meu espanto quando vi que este estava cheio e alunos caminhavam de um lado para o outro, dirigindo-se às suas salas, que ficavam em espaços diferentes. Não estava habituada a um ambiente assim, na escola anterior havia apenas um edifício e todas as salas de aula estavam no seu interior, enquanto nesta escola haviam, pelo menos, uns sete edifícios diferentes.
Desisti rapidamente da minha ideia de voltar para o estacionamento quando um garoto veio na minha direção. Tinha cabelo loiro e olhos da liases claros, e aparência simpática.
– Oi, tudo bem? — perguntou, e não esperou pela minha resposta para continuar. — Nunca vi você aqui, deve ser a garota nova.
Esbocei o meu melhor sorriso, que deve ter saído mais como um esgar. Não estava habituada a estas coisas de falar com desconhecidos, na verdade, acho que nem sequer estou habituada a ter uma conversa civilizada com alguém que não sejam os meus pais.
– Hum... Tudo. Sim, sou a garota nova. Sou tão conhecida assim? — perguntei, com o meu sorriso a melhorar ligeiramente de forma. A parecer mais real, eu acho.
– Bem... na verdade não. Só nunca tinha visto uma garota com uma mochila dos Metallica... — e pareceu pensativo por um instante, voltando a sorrir no seguinte. Acho que, pela primeira vez nesse dia, consegui sorrir decentemente.
Começamos a falar descontraidamente, sem esforço da nossa parte para a conversa fluir. Fiquei a saber algumas coisas sobre ele e ele também ficou a saber algumas coisas sobre mim. Ele se chama Cole, joga basquete e curte Linkin Park, temos inclusive algumas coisas em comum, como o gosto por rock.
– Qual a aula que você vai ter agora? — me perguntou ele, ainda rindo com algo que eu disse.
– Biologia. — E era para lhe fazer a mesma pergunta, mas fui interrompida.
– Na sala E5? — perguntou, esperançoso, e aproximando o seu rosto ao meu. Corei um pouco, não sei porquê, e peguei no meu horário de bolso para comprovar. E de facto era verdade, lá dizia claramente "Biologia — sala E5".
– Exatamente. Mesma turma então? — disse-lhe. Não lhe obtive uma resposta, apenas um grande abraço, como se nos conhecessemos desde sempre. Sentia-me um pouco constrangida com este acto, mas não tinha o que dizer para o afastar. De qualquer modo, já estou conversando com um desconhecido, assim que abraçar esse mesmo desconhecido, que por acaso é da minha turma, não deve ser um crime tão grande assim.
Reparei que todos os que passavam por ali começaram a me dirigir uns olhares um tanto estranhos. Não sei exatamente o porquê, mas acho que também não ía ter tempo nem oportunidade para perguntar.
Fomos caminhando até à sala, que definitivamente não devia ter esse nome pelo aspeto que tinha. Devia ser um laboratório pela pilha de tubos de ensaio que estavam guardados nuns armários no fundo da sala.
O mesmo garoto que tinha vindo falar comigo e se comportara como se fosse o meu melhor amigo desde sempre não me falou mais assim que entrámos na sala de aula improvisada. Estava falando com uns garotos no fundão, no lado oposto onde eu estava, mas dirigía-me por vezes uns olhares que me levavam a entender que ele não me estava a ignorar de todo.
Depois disso a aula decorreu aborrecida como qualquer outra. O último momento que me lembro minimamente foi do professor pedir para eu me apresentar à turma (e de me estrangular e mutilar com os olhos quando eu disse que não) e depois disso apaguei completamente. Aproveitei o facto de estar no fundo da sala para olhar pela janela e ignorar a matéria chata que o professor estava dando, já que eu já havia finalizado essa mesma matéria na minha outra escola.
Acordei do transe quando já estava na aula de História, que por acaso tínhamos na mesma sala. Acho estranho termos de mudar de sala, esta era (penso eu) uma das poucas aulas em que não era necessário trocar de sala. Mas adiante...
Acordei quando uma bola de papel amachucado veio parar à minha cabeça. Não magoou, mas foi o suficiente para sentir vontade de fuzilar o filho de uma mãe que me jogou o papel. Era para o atirar na mesma direção que ele veio quando reparei que havia algo escrito no outro lado.
Abri rapidamente e começei a ler.
"Que cara é essa?"
O papel tinha um cheiro de fumaça. Olhei para o lado para ver quem era o engraçadinho. Era um cara conhecido: cabelo vermelho e olhos verdes faiscantes, T-shirt dos Metallica e uns jeans normais, um pouco rasgados.
Tentei imaginar um plano, não muito doloroso, para me suicidar. Mas que raios aquele cara estava fazendo aqui? Ele não era novo lá na outra escola onde eu andava? Mas que porra é essa?!
As minhas mãos começaram a tremer um pouquinho, mas deu para eu escrever. Apreciei a minha letra "bonitinha" impressa naquela porra de papel. Amachuquei novamente e fiz pontaria à mesa dele.
"O que você está fazendo AQUI?"
A resposta foi quase automática. Não tive de esperar muito para o papel amachucado voltar a cair na minha mesa. Por sorte, o professor não estava prestando muita atenção em nós.
"Isso era o que eu te ia perguntar. Esta é minha escola, você que a invadiu."
"Affs"
Demorou ainda, assim que presumi que estivesse esperando mesmo uma resposta.
"Mudei de casa, ironicamente exactamente no preciso momento em que você mudou de escola! Não é uma BELA coincidência?"
"Eu me fartei da outra escola"
É, o que me parcia mais é que ele apenas tinha mudado de escola para me chatear, esse é o modo como ele se fartou da escola...
"Tá. Agora senta lá"– respondi.
Vio-o olhar para mim e a boca dele abrir, provavelmente para me falar alguma coisa, mas foi interrompido pelo sinal. Final da aula de História, minha última aula de hoje.
Liguei o modo automático para arrumar as minhas coisas e sair. Reparei que a minha mala, dos Metallica, estava meio aberta quando sentir uma bola de papel amachucada entrar nela. Tirei-a de lá de dentro para ver se me tinha dado uma resposta mas lá apenas estava aquilo que eu escrevera.
"Não volte a me chatear de novo, cabeça de fósforo"
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"Eu temia o colégio como uma prisão, assustava-me a simples ideia de viver submetida a uma campainha..."
Maya Yamamoto (autora)
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