Fire
7 Fifth Chapter - I'm an idiot
Notas iniciais
"Liguei o modo automático para arrumar as minhas coisas e sair. Reparei que a minha mala, dos Metallica, estava meio aberta quando sentir uma bola de papel amachucada entrar nela. Tirei-a de lá de dentro para ver se me tinha dado uma resposta mas lá apenas estava aquilo que eu escrevera.
"Não volte a me chatear de novo, cabeça de fósforo""
Fifth Chapter — I'm an idiot
O caminho estava demasiado calmo e silêncioso. Não havia sequer um carro na rua, o que era meio assustador, já que aquela era uma rua não muito movimentada, mas também não costumava estar sempre deserta. Quanto mais acelarava, mas o âmbiente parecia macabro, por assim dizer. A velocidade, para mim, sempre fez as coisas ficarem mais interessantes, mas as leves silhuetas e figuras das casas pareciam tiradas de um filme de terror. Quando finalmente avistei o jardim da minha casa já o céu estava ficando mais escuro.
Saí da moto e tirei a mochila meio à pressa. Aquele portão de ferro parecia-me ameaçador e a erva verde familiar tinha a forma de garras prontas para me matar.Como uma visão, na minha cabeça passavam imagens da mesma rua, mas num caos e destruição tal que senti o meu corpo paralizar por completo. Era como se um dos meus olhos visse um vídeo macabro que se passava precisamente no mesmo local que eu estava, e só o outro conseguisse visualizar o espaço na sua normalidade.
Agachei-me no chão, tapando o olho que me mostrava uma espécie de apocalipse. Arrependi-me imediatamente de o ter feito quando deixei de ver o meu jardim, agora ambos os olhos viam um monte de escombros, onde consegui distinguir alguns elementos que me eram familiares.
Sangue e morte, eram definitivamente características marcantes daquele local em toda a sua extensão. A chacina era evidente, fogo cobria cada centímetro visível de relva, agora chamuscada, e as únicas pessoas que permaneciam no meio daquele desastre eram mortos ou feridos que não tinham coragem nem força para se levantarem.
Eu estava lá, muito quietinha, a abraçar as minhas próprias pernas e a esconder a minha cabeça nos meus joelhos, para não assistir àquele pesadelo real. Contudo, conseguia ouvir perfeitamente cada detalhe da destruição, desde pessoas a gritarem até ao ruído característico do crepitar de brasas. Encolhida, no meio da relva meio queimada, permanecia e tentava ignorar tudo o que se passava à minha volta.
Mesmo com os meus olhos cobertos pelas minhas mãos, conseguia ver as caras de horror das pessoas na minha mente.
Uma criança aparentemente inofensiva, com olhos ónix e cabelos de fogo, rosto angelical e branco que contrastava com todos os outros aspetos marcantes da sua face. Um demónio. Era isso que eu via no meio do caos.
Enquanto tentava encontrar coragem para enfrentar todo o terror daquele momento, senti a parede atrás de mim desaparecer e o meu corpo a ser impelido para a frente como se fosse uma pena, como se o meu peso fosse nulo. Não senti dor com a queda que dei, acho que estava demasiado assustada para sentir seja o que fosse. Algumas gotículas minúsculas de suor formavam-se na minha testa, juntamente com uma pequena ruga que aparecia sempre que eu estava preocupada ou com medo. Os meus olhos abriram-se e mostraram-me uma criança demoníaca pronta para me matar.
Fechei os olhos com força e senti que voltara a estar na relva macia do meu jardim. Senti uma dor lacinante onde, no aparente pesadelo, bati contra o chão com toda a força. Ignorei-a completamente e voltei a levantar-me, segurando a mochila na mão e não me dando ao trabalho de a pôr no ombro. A dor foi gradualmente desaparecendo, assim como a minha ideia de tudo aquilo se ter passado na realidade.
Quando os meus olhos se voltaram a abrir vi que não estava no jardim da minha casa. Eu estava numa rua desconhecida.
Não fiquei desesperada, afinal havia de encontrar um caminho que me levasse a casa. Ou à escola novamente, talvez. Mordi o lábio quando vi que a minha mota não estava ali. Droga.
Começei a andar numa direção, que pensei ser a certa para ir para casa. Conforme fui andando o trânsito foi aumentando, gradualmente. E como eu não sou nada distraida, fui quase atropelada várias vezes, mas graças a alguma divindade sobrevivi. Mas não reconhecia nada do local de onde estava, talvez tivesse ido na direção contrária à que eu queria. Perfeito.
Estava a caminhar junto à estrada (provavelmente por isso é que todos me tentavam atropelar, só pode), a pensar seriamente em ir pedir indicações a alguém, coisa que eu odeio, quando um cara passou mesmo ao meu lado, de mota. Não houve impacto, mas mesmo assim eu, como controlo na perfeição o meu equilíbrio (sinta o sarcasmo...), quase caí para o meio da estrada.
– Merda! Você não tem olhos na cara, seu filho da puta?!
Tá, eu estava mesmo com uma vontade louca de matar aquele cara. Para depois ficar cheia de medo de ele me matar, quando vi que ele tinha parado bem na minha frente.
– Então você sabe chingar. E também controla perfeitamente os palavrões, muito bem. Nota dez para você.
Acho que o meu queixo caiu na hora, quando ele tirou o capacete, deixando á vista o seu cabelo cor-de-fogo.
Ele só podia estar me seguindo! Ele quer me matar! E quase ía conseguindo, de susto!
Devo ter ficado demasiado tempo o encarando, porque ele soltou um longo suspiro, para logo depois dizer:
– Então, você vai subir ou não?
– Como se eu tivesse alguma escolha...
Ele deu um sorrisinho torto, como se ele de algum modo estivesse feliz com esse facto. Rangi os dentes e subi. Digamos que aceitar boleia de alguém que odeamos não é uma coisa que nos faça sentir bem, mas quando não tempos outra escolha é ainda pior.
– Cuidado para não cair — não precisava de olhar para ele para saber que ele estava rindo. Rindo de mim.
Ele pensa o quê? Que eu nunca andei de mota na minha vida? Que eu caio na estrada com um ou dois solavancos?
E aí é que eu percebi o porquê de ele falar isso. A velocidade a que íamos era vertiginosa, e mesmo eu estando completamente segura, parecia que podia cair a qualquer momento. Os meus cabelos, que antes estavam presos num coque ao cimo da cabela, soltaram-se sozinhos e agora eram puxados para trás pelo vento.
– Eu avisei para ter cuidado para não cair — ele resmungou, virando a cabeça só um pouquinho para trás e, com uma mão, me puchar na sua direção, me fazendo bater com a cabeça nas suas costas, com pouca força. Ele, como que para me irritar, acelarou ainda mais, me fazendo ficar quase completamente abraçada nele. Maldição.
Passávamos, a grande velocidade, por uma série de ruas desconhecidas. A lua já estava bem alta no céu, o que achei estranho. Não saí da escola assim tão tarde, e á velocidade a que íamos já devia ter chegado a casa há séculos.
É isso! Ele não está me levando para a minha casa, e sim para a casa dele! Provavelmente ele quer me matar! E assim não deixa provas nenhumas que o possam incriminar!
Sim, talvez eu esteja a ser um pouco dramática demais. Talvez isso seja apenas por causa dos pesadelos estranhos de últimamente. Que não me deixam pensar com coerência.
– Chegámos — ele disse, frio e direto, quebrando o silêncio.
De facto eu não tinha reparado no completo sitêncio que se formara. Não entendi também o motivo do gelo na sua voz. Ele antes não estava, sei lá, diferente? Quase parecia alguém normal, até! E agora, voltamos para a bosta de sempre, com um cara bipolar e anormal. Será que eu não consigo socializar com alguém normal? Bem, tem o carinha que eu conheci na escola, ele é simpático, mas estranho.
– Gosta assim tanto desse cara? — ele puchou pelo meu braço, com força, me tirando dos meus pensamentos.
E só aí é que eu me toquei. Como assim? Como... de onde veio essa pergunta? Como é... como é que... como é que ele...
Parei de andar, estupefacta. Ouvi um "droga", mas ignorei. E recomeçei a andar. Eu um dia iria tirar isso a limpo.
– Então, o que levou uma garotinha indefesa como você a aceitar a boleia de um estranho com segundas intenções? — perguntou, tentando esquivar-se ao assunto em que eu estava a pensar.
Eu sabia o que ele estava fazendo. Ele mudou de assunto para eu não fazer questionar o motivo da sua pergunta anterior. E estava tentando me irritar. E conseguindo. Ele pode ser um idiota completo, mas até consegue ser bem inteligente.
Desta vez vou entrar no jogo. Como já disse, um dia eu irei tirar isso a limpo.
– Me perdi. E depois você apareceu à minha frente quase me atropelando, e meio que me obrigando a entrar à força, e eu senti que seria de má educação recusar uma abordagem tão gentil.
– Hum... Você nunca cá esteve antes? Para se perder desse jeito... Você estava quase do lado oposto da cidade...
– Na verdade eu já morei aqui antes. Mas nunca conheci a cidade inteira, ficava pelo caminho casa-escola e conhecia também algumas outras ruas próximas — Ele continuava me puchando, pelo que me parecia a minha rua.
Lindo, estou a ser acompanhada por um completo estranho (mais ou menos, né) que quer me matar e sabe onde é a minha casa. E estou conversando com ele sobre o meu passado. E depois eu o chamo de idiota né...A idiota aqui sou eu.
– Chegámos — fechei e abri os olhos novamente, com força, e voltei a acordar dos meus pensamentos. Quando o fiz vi que ele estava com a cara perigosamente próxima à minha como se estivesse a encarar uma coisa rara nunca antes vista. Provavelmente isso devia-se o facto de eu quase adormecer em pé quando começo a pensar. Fico completamente alheia ao que acontece ao meu redor.
Estávamos de frente ao jardim da minha casa. Nem sequer tinha notado que ele já havia parado de puxar o meu braço.
– Um "obrigado" pela boleia, não? — Voltou a rir-se, como se a sua frieza anterior nunca tivesse existido.
E nunca existiu, pois ele é puro fogo.
E eu não acredito que acabei de pensar isto.
– Talvez. Obrigado — e virei-me para abrir o portão.
– Às vezes você simplesmente não entende... — puxou-me pelo braço novamente. Não o fez com força, mas digamos que eu também não sou muito forte. Foi apenas uns momentos, um meio minuto, talvez um pouco menos.
E foi aí que aconteceu: acabei por beijar a pessoa que mais odeio.
Sim, agora é que não há dúvida nenhuma de que sou uma completa e total idiota.
Next Chapter — I'm just afraid of ghosts
"Nunca ficamos tão perto do que amamos quanto gostaríamos. Quem nunca parou para pensar que esta vez podería ser a última? E nesse aspeto, o amor é muito parecido com o fogo. Nunca estamos tão perto dele quanto gostaríamos, nunca o sentimos verdadeiramente na nossa pele. E, quando o olhamos fixamente, por vezes vêm-nos à cabeça situações em que este sería o causador da nossa morte.
"Maya Yamamoto (autora)
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