Fire
8 Sixth Chapter - I'm just afraid of ghosts
Notas iniciais
" — Espere — puxou-me pelo braço novamente. Não o fez com força, mas digamos que eu também não sou muito forte. Foi apenas uns momentos, um meio minuto, talvez um pouco menos.
E foi aí que aconteceu: acabei por beijar a pessoa que mais odeio.
Sim, agora é que não há dúvida nenhuma de que sou uma completa e total idiota. "
Sixth Chapter — I'm just afraid of ghosts
Abri a porta e me deparei com uma casa vazia e escura, mas estranhamente convidativa. Suspirei, sentia-me segura de novo.
O meu coração foi, gradualmente, diminuindo a velocidade dos seus batimentos. Só depois de fechar a porta é que os meus batimentos cardíacos acelararam, provavelmente por causa do nervosismo que devería ter sentido anteriormente, mas estava demasiado estática para que isso acontecesse. Atirei a mochila para um canto qualquer do hall e inspirei fundo. Aproveitando o facto de me sentir novamente descontraida o suficiente para o fazer.
Merda, merda, merda! Que porra é que eu estou fazendo com a minha vida?! ~
Tá, isto foi desnecessário. Muito desnecessário. Mas não estava nem aí para isso.
Suspirei enquanto caminhava na direção da cozinha. Viver sozinha não era propriamente uma coisa fácil, mas meu pai me falou que ía contratar uma empregada para cuidar da casa, para eu ter mais tempo livre. E ainda bem. Não sou propriamente um génio na cozinha, sei apenas o básico, assim que alguém que me ajudasse somente nesse aspeto já sería suficiente para mim.
Mas quem sou eu para recusar uma oferta dessas, né?
Peguei numa maçã e dirigi-me para a sala de estar. Acendi a televisão e peguei num livro, simultâneamente. Como sempre a televisão serviría apenas de barulho de fundo. Olhei apenas durante uns míseros segundos para o ecrã, mas esse tempo foi suficiente para que, repentinamente, o programa captasse a minha atenção.
– ... ataques terroristas nesta zona da cidade tornam-se preocupantes para os habitantes, que associam todas as mortes a uma maldição muito conhecida na zona. Profissionais encontram-se ainda a avaliar o caso, que se está a tornar deveras preocupante...
No canto superior esquerdo do ecrã apareciam imagens de locais onde os tais ataques terroristas aconteceram. Nunca tinha estado em nenhum deles nem nunca tinha ouvido falar neles. Não me preocupei muito, nem cheguei a prestar atenção.
Nesse momento todas as luzes da casa se apagaram, deixando apenas a televisão a iluminar tenuamente o ambiente. Olhei para todos os lados, á procura não sei do quê, e só então olhei para a imagem, que ocupava todo o ecrã.
Não havia sequer margem para dúvidas. Um portão com uma estranha tonalidade de ferrugem, mais avermelhada do que o normal, paredes de uma cor imperceptível na escuridão da noite, relva com a aparência de espinhos. Uma relva que parecia sempre convidativa e macia de manhã. Era a minha casa.
Um vento gelado abriu a janela da sala. Enquanto isso acontecia, a relva do jardim da imagem também se movimentava. Aquela não era apenas uma simples imagem da minha casa, mas sim um vídeo, em tempo real.
A televisão apagou-se no mesmo instante em que notei uma sombra, com forma humana, dentro do jardim, deixando tudo numa completa escuridão. O meu coração, até aí a bater regularmente, acelarou de susto. Senti-me uma criança com medo de fantasmas, mas não tinha tempo para sentir vergonha disso.
Agora o vento parecia vir de dentro da própria casa. As janelas, não sei como, haviam-se fechado sozinhas. No momento em que ouvi uma respiração acelarada surgir atrás de mim, começei a correr em direção ao meu quarto. Tentei abrir a porta, mas esta estava trancada.
E foi então que o cenário mudou.
A escuridão dissipou-se num segundo, e no mesmo segundo tudo se cobriu com fogo. Labaredas gigantes cobriam tudo, dificultando a minha visão. As escadas ameaçavam ruir a qualquer momento, o mesmo acontecendo com armários e prateleiras de madeira.
– Você tem que sair daqui, agora! — uma voz desconhecida vinda do meu quarto quebrou o silêncio.
– Eu não posso sair daqui, não sem você — uma outra voz fez-se presente, mais rouca, mais grave.
Quando o medo e o pânico começaram a ser substituidos por curiosidade, consegui coragem para abrir a porta.
O quarto estava ocupado por duas pessoas que não consegui identificar no meio das chamas. Uma delas, pela estatura, aparentava ser um homem. A outra estava de tal modo subterrada, no meio de destroços e pedaços de madeira, que não consegui identificar o seu género. Nem pela voz. Apenas sabia que era uma voz suave, tilintante. Mas podia pertencer tanto a um homem como a uma mulher.
– Então pode ficar aqui, comigo — sim, sem dúvida era uma voz bastante agradável.
O outro vulto apenas assentiu, ao ouvir esta frase. E eu limitei-me a observar, sem querer intrometer-me. Porque, de algum modo, tinha a sensação de que não pertencia àquele momento. Que devia manter-me calada para não ser notada.
Aproximei-me mais da pessoa envolta em chamas, no meio de pedaços de madeira, já meio consumida pelo fogo. Tentei puchá-la para fora de lá, mas não consegui. Na verdade, eu nem conseguia pegar nos bocados de madeira. As minhas mãos pareciam atravessá-los, ao invés de pegar neles.
– Mais uma vez, o fogo irá destruir as nossas vidas. É essa uma das principais razões que me levam a odiar o fogo — o homem sentou-se junto á janela, com um sorriso irónico, sem humor, enquanto olhava para o corpo, já inconsciente, para quem conversava. Não parecia estar sequer incomodado pelas chamas, que deviam estar a queimar-lhe a pele. Mas não estavam.
De qualquer modo, eu não tive tempo para observar melhor toda aquela cena. O fogo começava a desaparecer, como se correntes enormes de água o fizessem dissipar-se no ar. Nuvens enormes de vapor começaram-se a formar ao meu redor, na mesma proporção em que eu ia recuperando a consciência.
Era como se nada tivesse acontecido. A única coisa que provava que eu tinha estado naquele inferno em chamas eram as minhas vagas memórias, que começavam a desaparecer lentamente, mas não completamente. Senti algumas gotas de água na cabeça, que me indicavam que a minha consciência já tinha voltado, e que aquele quarto em chamas nada mais era do que um sonho vago e distante.
Decidi não abrir os olhos de imediato. Sentia que, se o fizesse, tudo ficaría coberto de chamas novamente. Ainda que esse fosse um receio estúpido e infantil, não saía da minha mente. Assim que me convenci a mim mesma que o único motivo para não abrir os olhos era medo de ficar incosciente de novo.
– Você está me ouvindo? — que droga, agora estou a ouvir vozes na minha cabeça. Tá bom, eu posso ouvir vozes na minha cabeça que não tem problema nenhum, agora tinha que ser precisamente ESTA voz? — Pára de brincar, eu sei que você está acordada.
– Hum... Cala a boca — disse. Cérebro, quem manda nessa porra sou eu. Agora senta lá e deixa de imaginar a voz dele.
– Você que quis assim — perfeito, agora até ouço passos. Agora o barulho de água a cair. E agora...
– Mas que merda!? — Sentei-me com tanta velocidade que me senti ficar zonza novamente. O meu cabelo e a minha roupa, até a droga do sofá, estava tudo molhado. Só aí é que eu abri os olhos... para os fechar de novo.
Havia muita luz. Bem, talvez não seja muita luz, os meus olhos é que haviam se adaptado à completa escuridão. Mesmo assim, na milésima de segundo em que tive os olhos abertos... tenho a certeza de ter visto fogo.
Ah, não... Talvez não seja fogo. Talvez seja...
Esqueci a dor que a luz me provocava e abri os olhos com toda a força. E lá estava ele, olhando para mim. Parecia estar mais puto ainda do que a primeira vez que nos vimos. E depois sorriu, tal como no dia em que o conheci. Mas que droga, por que eu ainda me lembro disso?
– Você devia mesmo ver a sua cara agora — pensando bem, a bipolaridade sempre continuou igual. E acho que também nunca vai mudar. Ainda há uns segundos atrás ele estava irritado e agora está rindo da minha cara. Para variar.
– Que porra é que você está fazendo aqui? — seca e direta: algo que eu nunca sou. Nunca. É preciso eu estar MUITO brava para ficar assim.
– Ouvi gritos e vim ver o que era — ele estava com cara de "Não é óbvio o que eu estou fazendo aqui?" — E quando entrei encontrei você deitada no chão gritando que nem uma louca.
Ele parecia estar dizendo a verdade, mas né... Nunca se confia num desconhecido, por mais que se conheça ele. Que maravilha, agora não estou fazendo sentido.
– Deixa ver de percebi. Você estava passando por aqui no preciso momento em que eu estava deitada no chão gritando — disse, e depois acrescentei com sarcasmo: — Parece-me verdade.
– Ainda bem que parece verdade para você — e esboçou um sorriso sarcástico. — Ah, e de nada. Sei que você está muito agradecida por eu me ter preocupado com você, mas não é preciso agradecer assim tanto.
– Não enche — me levantei do sofá em que estava deitada. Não me lembro de estar deitada aqui antes de desmaiar... — Também tenho de agradecer isto a você? — disse, puchando uma mecha do meu cabelo e espremendo, para ele ver a quantidade de água que saía.
– Esperimentei uma toalha molhada, mas você estava demasiado quente. Parecia quase que ía começar a queimar. E depois reparei que você estava a recuperar a consiência, mas não queria abrir os ollhos. Juntei o útil ao agradável.
Ele estava com uma nova expressão, que nunca tinha visto nele. Cara inexpressiva, mas olhos fixos em mim, tão penetrantes que pareciam atravessar até a minha alma. Os meus olhos arregalaram-se quando me lembrei onde eu já tinha visto aquela mesma expressão. Mas tentei disfarçar. Mais uma coisa para a lista das que tenho que tirar a limpo mais tarde.
Nenhum de nós desviava o olhar, o que se estava a tornar constrangedor. Eu normalmente nunca desviava o olhar nessa situação, mas com ele tinha mesmo que ser. Não que fosse desconfortável, mas parecia que ele estava a olhar para dentro de mim, a ler os meus pensamentos.
– Eu te odeio.E desviei o olhar e abaixei a cabeça. Ele aproximou-se de mim e abaixou-se de modo a ficar com a cabeça à mesma altura que a minha, para me encarar.
– Eu sei que você me ama, não precisa falar — novamente aquele sorriso torto. O mesmo sorriso que sempre o caracterizou. Tinha quase a certeza que este é que era o sorriso verdadeiro dele, e que todos os outros eram falsos ou forçados.
– E eu já sei que você quer me matar, nem precisa falar. Até entrar na minha casa você já consegue, só falta a arma. E agora você passa à frente da minha casa precisamente quando eu estou sozinha e inconsciente. O sonho de qualquer Serial Killer.
Ele continuava me encarando, mesmo eu já tendo desviado o olhar há algum tempo.
– Quem falou que eu estava passando por aqui?
Pronto, agora ele próprio estava a admitir que queria me matar! Se ele não estava passando por aqui como ele me ouviu gritando? Provavelmente estava me seguindo.Mas que droga. Ou eu tenho razão ou ando a ver muitos filmes. Só uma forma de descobrir qual das duas opções está correcta.
– Então como conseguiu ouvir os meus gritos?
Porque é que o meu coração acelarou de repente?
– Você não sabe? — fiz um gesto de negação com a cabeça. Não estava compreendendo nada.– Nós dois somos vizinhos.
Eu estava à espera de uma confissão de um assassinato, mas não disto.
Como assim?
Vizinhos?
Next Chapter — You have me
Notas finais
Mas bem, acabei o capítulo. Mais tarde vou ainda fazer a correção (porque a onça deste lado da tela não teve tempo), assim que não dê muita importância a erros e a esse tipo de coisas. E também sei que já é muita sacanagem perguntar mas... mereço reviews?
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