Finding Carter
4 Words
Patrick brotou ao meu lado, me dando o susto da minha vida. Estávamos no intervalo e minha intenção era chegar ao refeitório, estava morrendo de fome, comeria um cavalo se me dessem um.
– Puta merda – falei, levando a mão até o coração.
– Desculpa – ele se desculpou, para em seguida sorrir – Vi você falando com a Lisa – ele prosseguiu, jogando verde comigo.
– Sim, algum problema ? – indaguei meio ríspida, pois o achei minimamente intrometido.
– Não, eu só queria saber se tem espaço para um a mais nessa festa – ele enfim revelou suas reais intenções.
Sorri de canto, aquela alma realmente necessitava de ajuda se quisesse escapar do ensino médio intacto – Você tem carro ? – perguntei sem cerimônia e ele apenas concordou.
– Então tem espaço – o respondi, lançando-o uma piscadela antes de praticamente correr para fila da merenda.
Coloquei tanta comida que parecia estar a míngua à semanas, mas o que posso dizer ? Minha genética me impede de engordar e meu metabolismo acelerado consome todas minhas energias. Lidem com isso.
Procurei alguma mesa vaga naquela imensidão de cabeças, mas não encontrei nenhuma, embora tenha encontrado a mesa na qual minha digníssima irmã estava, fui até lá, afinal, não vi problema algum com isso.
Sentei-me ao lado de uma esnobe qualquer que não fiz questão de descobrir o nome, enquanto observava a bandejinha de Lauren que só tinha frutas e água. Eu olhei com descrença e ela me olhou com embaraço ao reparar na quantidade de comida que eu coloquei. Somos muito distintas, e não é só fisicamente.
– Gente, essa é a Carter, minha irmã – a loura falou de forma baixa, nitidamente constrangida.
– A que foi sequestrada – uma morena mostrou interesse.
– Deve ter sido uma experiência muito louca – outra pontuou.
– Gente, ela morou num apartamento de dois quartos em Chicago, não foi vendida para o tráfico humano – Lauren enfim mostrou seu descontentamento.
Observei a reação que ela teve, mas decidi ignorar, afinal, acho que ela está numa situação pior que a minha.
Lancei sorrisos amarelos na direção das amigas de Lauren – É, não fui vendida para o tráfico humano mas tive uma vida bem mais divertida do que a da minha maninha certinha aqui – respondi e arquei a sobrancelha.
– Nota-se, olha que legal essas tatuagens, sua mãe nunca deixaria você fazer uma, Lauren – uma chatinha qualquer comentou e notei as bochechas da loura arderem de fúria.
Decidi que aquilo já havia se estendido demais, nunca me vi cercada por pessoas tão vazias quanto aquelas. Que nojo.
– Vou para lá – apontei na direção da mesa que Elliot estava e nem esperei a resposta de ninguém, praticamente corri até ele. Que me recebeu com um sorriso.
– Me lembre de nunca te chamar para jantar – ele brincou, apontando para minha bandeja.
– Me leva num rodízio e está tudo certo – respondi astutamente e todos na mesa sorriram.
Havia um garoto com a camiseta do time de basquete, abraçado com uma garota que parecia líder de torcida e mais alguns outros integrantes.
– Gente, essa é a Carter – Elliot me introduziu aos demais.
– A menina sequestrada, sim – emendei o que, possivelmente, alguém fosse dizer.
– Oliver, Mia – apontou para o casal à sua frente que sorriu, muito mais simpáticos que as amigas sonsas da sua irmã. — Michael, Bay, Mavi e Alexander – apontou para os demais que foram igualmente cordiais.
– Vocês irão para a festa da Lisa ? – indaguei por falta do que falar.
– Claro! – todos responderam em coro e pareceram meio surpresos por eu sequer saber sobre a festa.
– Você foi convidada ? – Alexander perguntou, era alto, de olhos âmbar e pele clara.
Acenei positivamente com a cabeça e sorri – Não pareça tão surpreso, nasci para ser popular – respondi com humor.
– Você está de pijama e foi convidada para festa da Lisa Truman, com certeza nasceu para ser popular – Bay pontuou e todos sorriram, inclusive eu. Aquelas pessoas eram divertidas, líderes de torcida e jogadores, nunca achei que fosse me afeiçoar mais a eles.
†
– Sra. Humphrey, por favor, tente entender nossa situação, é uma adaptação complicada, só lhe peço um pouco mais de paciência – Olivia tentava “contornar” a coordenadora, que não estava nada feliz com o comportamento de Carter. Nunca fora desrespeitada daquela forma por algum aluno.
– A senhora entende que não iremos tolerar esse tipo de comportamento, certo ? A professora de literatura também tem sérias preocupações referentes ao interesse de Carter em permanecer na instituição – falava num ar rebuscado, como se daquela forma a função de coordenadora pudesse ser mais significante do que realmente era.
Olivia suspirou e apenas concordou com a cabeça, de forma cansada.
– Sim, Sra. Humphrey, eu irei falar com ela – Olivia respondeu, enquanto o celular vibrava loucamente em sua mão, não acreditava que estava sentada na sala da coordenadora, nunca antes passara por essa situação. Lauren nunca causou nenhum problema e Carter, no seu primeiro dia, já deixou uma baita impressão. A mulher pediu licença e saiu da sala da coordenadora, sentando-se no banquinho de madeira na parte externa enquanto respondia algumas mensagens referentes à força-tarefa montada para encontrar Lori Stevens. Agora era uma questão de honra achar a desgraçada que a fez viver por treze anos considerando-se a pior mãe do mundo.
A morena olhou no relógio de pulso e no instante depois as sirenes, anunciando o final das aulas, soaram.
Foi até a entrada, esperar as garotas e não gostou nem um pouco do que viu.
†
– Qual é o seu problema ? – eu perguntei para Lauren, a garota estava absurdamente insuportável desde que eu a deixei na mesa e fui passar o resto do intervalo com Elliot.
– Nada – ela insistia em dizer que não era “nada”, que raiva, odiava ter que desvendar o que eu fiz de errado, se é que fiz algo.
– Foda-se você, Lauren, não quer me dizer, ok – respondi de modo ríspido e a deixei seguir o resto do caminho sozinha.
Lembro-me vagamente de ter passado por Olivia em algum momento, mas não fiquei para trocar cumprimentos, tinha outros planos e também não me importei em avisar minha carcereira aonde eu iria.
– Eu queria que você estivesse morta! – Lauren gritou, óbvio que não vira Olivia parada diante da escola, sequer esperava que a mulher estivesse ali, considerando que sempre pegava o ônibus para voltar para casa.
Não respondi, mas admito, aquilo me magoou, afinal, O QUE EU HAVIA FEITO ?!
Marchei para longe delas, enxugando algumas lágrimas teimosas que ousaram rolar; um fato importante sobre mim: Sou mais derretida que manteiga e choro por tudo, mas não na frente dos outros, nunca na frente dos outros. Mamãe sempre dizia para nunca darmos aos nossos inimigos o poder de nos machucar, e eu não a daria o prazer de me ver chorar.
Me afastei até sair da vista das duas e encostei numa das paredes do colégio, respirando profundamente a fim de acalmar meu espírito, afinal, precisava estar com a minha melhor cara, caso quisesse arrumar um emprego.
– É apenas temporário, Roxy, temporário – falei comigo mesma, coisa bem comum ultimamente.
Só então enfiei-me no primeiro ônibus que cruzou meu caminho, não sabia sequer para onde o dito cujo iria, mas eventualmente eu descobriria. Desci assim que me deparei com um bairrozinho repleto de lojinhas comerciais, alguma teria que aceitar alguém de tamanha simpatia quanto eu.
Como escolha temos: Starbucks, uma loja de donuts, um fast-food e uma sorveteria. Indo por exclusão, ficamos com a sorveteria, eu amo sorvete.
– Oi, Pablo – puxei papo com um carinha que dava amostras grátis do sorvete na porta do estabelecimento, e o nome dele estava no crachá, não sou médium ou nada do tipo.
– Olá – ele respondeu, estranhando um pouco.
– Pablo, eu sou a pessoa que você precisa para alavancar suas vendas – falei sem um pingo de modéstia e ele riu, possivelmente achando divertida aquela situação.
– E eu posso saber o por quê ? – questionou, me avaliando.
– Hm, acho melhor você descobrir amanhã, quando eu vier para o meu primeiro dia, combinado ? – perguntei, com um sorrisinho malicioso a passear sobre meus lábios.
– Acho que sim – ele franziu o cenho quando me respondeu e parecia meio incrédulo daquilo ser realmente verdade.
– Ok, Pablo, amanhã eu lhe surpreenderei – falei por fim antes de pegar mais um dos sorvetes da amostra grátis e me distanciar, com a mesma graça com a qual havia chegado.
“Carter, você tem um talento natural” refleti com certo divertimento, e eu realmente tinha. Sempre fui muito para frente, independente até demais, nunca esperei por nada cair do céu no meu colo, minha mãe sempre me ensinou que você tem que lutar por tudo que quer, e o mais importante, me ensinou a nunca desistir.
Meu celular vibrou no meu bolso, era uma mensagem da Lisa, passando as coordenadas para a festa. Sorri, afinal, 85% do meu dia correra perfeitamente bem. Decidi caminhar até a casa dos Benson, agradáveis quarenta minutos da mais pura plenitude espiritual, cheguei a casa até mais renovada, pronta para ter que lidar com qualquer merda que eu tivesse que lidar.
†
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