— Como você se sentiria se alguém a dissesse isso ? – Olivia perguntou para Lauren, que se manteve calada durante toda a viagem até a casa. Possivelmente incapaz de formular alguma resposta coerente para dizer algo tão maldoso.

— Eu estava brava, eu não quis realmente dizer aquilo – a garota sussurrou, parecia quase envergonhada.

— Ela sabe que você não quis realmente dizer aquilo ? – a morena questionou num tom brando, sentando-se ao lado da loura no sofá e abraçando-a. Sabia que a adolescente estava tendo um momento delicado, embora não fosse a única. A chegada de Carter mudou toda a rotina da família.

— Eu irei pedir perdão – a garota respondeu e afastou-se da mãe, subindo as escadas a passos rígidos.

Os próximos a chegarem foram Hank e Noah, o homem tinha um picolé numa das mãos, enquanto Noah tinha a sobremesa por todo o uniforme, assim como na cara toda que estava tingida de roxo, numa cena para lá de fofa.

— Hank, pelo amor de Deus – Olivia “brigou”, mas foi impossível não sorrir. Seu coração se aquecia ao ver os filhos, até os gêmeos de Hank, que foram adotados por Olivia já que a mãe deles veio a falecer durante o parto, e antes de dormir, a oração de Olivia Benson era para sentir-se da mesma forma em relação a Carter.

Estava tentando, Deus estava de prova, mas a cada tentativa a escorregadia garota dava um jeito de fugir, ser arredia ou a tratar mal.

Olivia estava novamente sentada no sofá, com Noah em seu colo, enquanto conversava com Hank sobre seu agitado e louco dia, pausaram a conversa ao verem Carter adentrar a casa.

— Boa noite, mocinha – Hank a recepcionou, com um sorriso bondoso. A garota nunca fora arredia com o homem e parecia gostar dele, genuinamente.

— Boa noite, Sr. – ela o respondeu e sorriu de canto, lançando um olhar rápido para onde Olivia estava sentada, não se demorando muito sobre a figura.

— Meio tarde, não acha ? – o moreno questionou, apesar de não ter soado bravo.

— Eu fui arrumar um emprego – ela admitiu e deu de ombros, saindo da sala em seguida, sem se estender em detalhes.

Hank encarou Olivia num misto de dúvida, orgulho e confusão. Carter seria a primeira filha que iria realmente ter um emprego ? Aquela garota era uma caixinha de surpresas.

— Eu irei falar com ela – a mulher enfim criou coragem de se candidatar, passando Noah novamente para o pai – Dê um banho nesse cascãozinho – pediu e afagou as bochechas volumosas do menininho.

"Eu gosto do Hank, ele é meio durão e parece ser do tipo superprotetor, mas sabe, eu nunca tive um pai antes e sempre quis saber como é ter um... Apenas a vaga de mãe está preenchida, então talvez para ele ainda tenha algum espaço."

Joguei minha mochila para o lado e tirei os tênis, empurrando-os para debaixo da cama novamente. As roupas que Lauren espalhara sobre a cama, ainda estavam lá, revirei os olhos e comecei a arrumar aquilo, eu ODEIO bagunça, sou de virgem caso esteja se perguntando. Tinha meus fones no ouvido e escutava qualquer coisa que passava na rádio, foda-se, não tenho paciência para baixar música, deixo a vida determinar o que eu irei escutar, bem mais emocionante. Por conta disso não ouvi o bater na porta, nem ela ser aberta. Estava de costas, coletando as roupas que haviam caído no chão, quando de repente, lá está Olivia, estática atrás de mim. Óbvio que gritei, tamanho o susto.

— Fuck! – reclamei, levando a mão até o coração que batia descompensado no peito.

— Desculpa – ela falou e eu apenas suspirei, tornando a apanhar as roupas que eu havia, no susto, derrubado novamente no chão.

— O que você quer ? – perguntei sem muita paciência.

— Saber se você está bem – a morena respondeu sem muita convicção, ela com certeza queria saber outra coisa tipo: “por que diabos eu havia xingado a coordenadora ?” “ por que Lauren me odiava” e “onde seria meu novo emprego”, mas Olivia iria perguntar diretamente ?! Claro que não, era muito contida para isso, chegava a lhe irritar.

— Ótima, obrigada – falei e a indiquei a porta.

Ela coçou a têmpora e suspirou, mordendo o lábio inferior, num hábito que eu também tenho.

— Eu vim conversar com você sobre outras coisas também – ela enfim admitiu, possivelmente esperando que eu fosse explodir, mas não, eu apenas a encarei, esperando ela prosseguir. Até me sentei sobre a cama, enquanto ela ocupou a poltrona acolchoada a minha frente.

— A coordenadora me falou o que você a disse... – iniciou, mas eu não a deixei prosseguir.

— Ela disse na minha cara que eu iria repetir e que meu boletim era insatisfatório para os padrões da instituição – a interrompi, encarando-a seriamente – Ninguém me diz o que eu sou ou não capaz de fazer, muito menos uma insignificante feito aquela mulherzinha – concluí, sustentando o olhar que Olivia me lançava.

— Mas você não pode dizer esse tipo de coisa para um adulto – a outra pontuou, talvez querendo que eu enxergasse a razão, óbvio que não obteve sucesso.

— Por que não ? Você acha que alguém vai lutar minhas batalhas por mim ?! – ri, quem aquela mulher achava que eu era ?! Fui criada para vencer ou perder minhas próprias lutas, mas nunca, NUNCA, me esconder atrás de alguém. – Eu já sou grandinha o suficiente para me cuidar – finalizei de forma desdenhosa.

A mulher suspirou, resignada, não havia nada que pudesse usar para rebater aquilo.

— E você acha que conseguirá conciliar o emprego e a escola já que tem tantas matérias para recuperar ? – Olivia tentou questionar aquilo delicadamente, embora eu soubesse o que ela realmente queria dizer: “Você já está na merda, quer se atolar ainda mais ?”

— Não seria a primeira vez que faço isso – respondi friamente e pus minha melhor cara de tédio.

— Ok, eu e seu pai estamos orgulhosos por você mostrar interesse em ter seu próprio dinheiro – Olivia dizia, enquanto levanta-se da poltrona. Possivelmente considerando aquela conversa uma vitória, já que não havia tido nenhum grito ou acusação direta. Que ela não cantasse vitória antes do apito final, afinal, eu sou uma caixinha de surpresas.

Balancei a cabeça negativamente, em pura descrença. Bando de parasitas que eles tinham como filhos, não era de se estranhar estarem tão orgulhosos. Lauren podia ser perfeitinha na escola, mas eu bem gostaria de vê-la ralando aquela bundinha branca em algum lugar. Lindsay e Justin nunca procuraram um emprego, ninguém nunca os obrigou, contanto que eles fizessem coisas básicas dentro da casa, ganhavam uma mesada para lá de confortável... Bizarro. Eu, desde meus treze anos, todo verão costumava trabalhar, com quatorze passei a trabalhar meio-período e não, minha mãe nunca me obrigou, mas ela me ensinou um princípio básico da vida: o mundo não te deve nada, então não sinta-se no direito de ser uma acomodada.

— Não fale como se me conhecesse – sussurrei para as costas dela – E também não diga que está orgulhosa de uma coisa que já faço a três anos, diferentemente dos seus filhos, eu não acredito que dinheiro saia da bunda de alguém – concluí e não esperei pela resposta dela, fechando a porta na cara da mesma.

Babaca” pensei na quietude da minha psique e me pus a organizar aquela zona.

P.O.V Olivia Benson

É, obviamente ela me odiava, até aí, nenhuma novidade, mas o que realmente me chamou atenção foi aquele lado maduro, que ela não demonstrou nas nossas outras conversas, melhor dizendo, brigas. Carter parecia ser o tipo de pessoa com a qual eu me daria extremamente bem, sob outras circunstâncias.

Havia perdido treze anos da vida da minha filha, não esperava recuperá-los em uma semana, para ser bem honesta, não irei recuperá-los nunca... Mas ainda mantenho a esperança de que possamos pelo menos conversar mais civilizadamente, talvez um sorriso sincero, se não for pedir demais ?

— A conversa não correu tão bem assim ? – Hank indagou, dei um sorriso cansado, abraçando-me ao homem.

— O que me dedurou ? – indaguei com sarcasmo e selei os lábios dele.

— Vá tomar um banho, eu irei preparar o jantar – ele me recomendou, afagando meus cabelos ternamente.

Achar Hank e iniciar uma família com ele foi a melhor decisão que tomei na vida. Nunca imaginei que uma cerveja, com o marrento sargento, me renderia tudo aquilo. Quando perdermos Katherine, foi ele que sustentou aquela família nas costas, eu devia praticamente tudo a ele... Ele era minha âncora.

— Você é o melhor – respondi, sorrindo de canto e me dirigi até o quarto, não iria protestar contra aquela oferta.

Me livrei das roupas, mas não do peso do mundo que parecia estar sobre as minhas costas. Peguei uma aspirina e entrei na banheira de água morna. Tendo meus pensamentos à voarem para uma época onde tudo era simplesmente perfeito, uma época que minha felicidade refletia em cada fibra do meu corpo. Uma época antes de Lori Stevens ferrar com tudo.