Finding Carter

6 Sky still blue


Após toda minha arrumação, eu enfim estava satisfeita com o que via; lençóis limpos, roupas bem dobradas e separadas por tipos, meus tênis enfileirados num dos cantos da parede, me permiti apreciar aquela cena maravilhosa por alguns instantes.

— Cate – ouvi uma vozinha conhecida me chamar, era Noah e sua dificuldade com a letra “r” o impedia de me chamar corretamente, mas convenhamos, é super fofo.

Abri a porta e sorri para a figurinha parada diante de mim, qual a necessidade de ter tanta bochecha meu Deus ?! Ele, como usual, arrastava o Bolinha consigo, um labrador atrapalhado que Olivia detestava que fosse trazido para dentro de casa pois ele simplesmente destruía tudo.

— Papai está chamando para comer – ele falou num ar infantil e me sorriu de volta.

Que garotinho prestativo. Sorri mais largamente – Ok, já vou descer – o respondi, vendo-o afastar-se feito um trem desembestado, fiquei observando-o até ter certeza de que ele não morreria nas escadas e só então entrei novamente no meu quarto, dirigindo-me até o porta-retrato ao lado da minha cama, uma foto minha com a minha mãe.

— Eu estou te esperando, mamãe – sussurrei e passei a ponta do indicador sobre o rosto sorridente dela. Saindo do quarto em seguida, indo enfrentar mais um pouco do meu martírio diário.

Os gêmeos estavam lá, fazendo suas brincadeiras internas, Lauren estava com um livro de Freud, ela poderia ser mais caricata ? Não. Noah corria por ali, na companhia de Bolinha, e Hank ainda estava na cozinha, possivelmente nos preparativos finais, de Olivia não havia sinal, o que me deixou minimamente mais confortável. Eu juro por tudo que é mais sagrado, aquela mulher tem alguma coisa contra mim e não, não é meu complexo de perseguição.

— Precisando de ajuda ? – me ofereci, lançando um sorriso fraco para o homem.

— Claro, se você pudesse cortar esses tomates para mim, eu agradeceria – ele respondeu, tirando o frango do forno, inundando a cozinha num cheiro bom.

— Isso parece delicioso – comentei, lavando as mãos antes de ir cortar a fruta.

— Sou um cara de muitas qualidades – ele brincou, me fazendo sorrir um pouco mais largo, mas foi só pensar em todos aqueles anos onde o que eu mais desejei foi ter um pai, como todas as outras crianças, para minha expressão se fechar novamente.

— Algum problema ? – ele inquiriu com preocupação.

Balancei a cabeça negativamente e dei de ombros.

— Minha mãe me disse que meu pai era um cara ruim, que batia nela, por isso tínhamos que nos mudar constantemente, para que ele nunca nos encontrasse... – revelei, possivelmente minha primeira confissão sobre algo da minha “vida passada” – E agora, olhando para você... Passei minha vida toda desejando que meu pai não fosse um monstro, acho que se realizou – concluí, sem, no entanto, olhar diretamente para Hank, sentia minhas bochechas arderem tamanho era meu constrangimento em estar revelando aquilo e para minha completa surpresa, ele me abraçou. Acho que fiquei meio rígida a princípio, afinal, eu não esperava por aquilo, mas a medida que o abraço se estendeu, um sentimento de pertencimento tomou conta de mim. Acho que foi a primeira vez que não me senti uma completa estranha largada acidentalmente ali.

— Amor, o jantar ... – Olivia entrou no cômodo e eu rapidamente me afastei de Hank. Terminando de cortar os tomates e colocando-as na bandeja a minha frente.

— Terminei – anunciei baixo e limpei minhas mãos numa toalha, antes de sair da cozinha de forma apressada.

O jantar correu “bem” Lindsay e Justin com suas costumeiras piadas e histórias mirabolantes foram capazes de me arrancar alguns sorrisos fracos. Noah era outro que sempre que tecia algum comentário, me fazia imaginar da onde aquela criança tirava tanta criatividade. Lauren não olhou na minha cara, em nenhum momento durante todo o jantar, eu também não a encarei, embora ainda tentasse desvendar o que eu havia feito de tão ruim.

Me mantive em silêncio a noite toda, aquela situação já era difícil da forma que era. Não precisava dificultar ainda mais. Pus meu prato e talheres na máquina de lavar e subi, tomando o banho que meu corpo andava implorando.

“A noite é o pior momento para mim, é quando eu penso mais sobre a minha mãe, como ela deve estar assustada estando só no mundo, sendo caçada pela mesma mulher que serve meu jantar... Eu sinto como estivesse me afogando e ninguém viesse ao meu socorro. Eu não posso gritar, estou morrendo e tudo que eles fazem é assistir. Pior sentimento do mundo”

Algumas lágrimas escorriam pelos meus olhos, atingindo o porta-retrato que eu tinha entre os dedos, eu e minha mãe... Ela sempre fez com que eu me sentisse especial, única e indescritivelmente amada. Eu seria capaz de perdoa-la por qualquer coisa, inclusive me sequestrar.

— Carter, posso falar com você ? – ouvi a voz de Lauren através da porta, enxuguei as lágrimas e pus o porta-retrato sobre a cômoda novamente.

— Yeh – respondi com a voz meio falha, pigarreando para disfarçar.

A loura adentrou o cômodo, acho que notou que eu estava chorando, meus olhos e meu nariz sempre ficam muito vermelhos nesses momentos.

— Você está bem ? – questionou com preocupação, aproximando-se de mim.

— É, apenas minha rotina diária – respondi fracamente, a lançando um sorriso triste.

Ela me olhou e retribuiu o sorriso, pude notar bem ali que ela entendia exatamente ao que eu me referia.

— Eu sinto muito – ela falou, sentando-se ao meu lado.

— Eu também Lauren – admiti de forma distante.

— Pelo que eu disse mais cedo, eu sinto muito, eu fui uma idiota por dizer algo tão maldoso quanto aquilo – a loura prosseguiu, tocando na minha mão, mantinha os olhos baixos, verdadeiramente envergonhada.

— Vai me dizer o que eu fiz ? – indaguei, apertando levemente a mão dela.

Primeiro ela deu de ombros, depois suspirou e só então me encarou, tinha os olhos marejados e aquilo, de alguma forma, partiu meu coração, tenho que perguntar se sou a irmã mais velha, sinto que sou.

— Nada, esse é o problema. Você é tão legal, e todos parecem gostar de você, teve uma vida incrível com sua mãe, viajou por todos os locais do globo, as tatuagens, as festas... – falava, sem conseguir manter uma linha de raciocínio lógica, o que não era do feitio de Lauren – Você é tudo que eu gostaria de ser, mas que nunca tive coragem – concluiu, parecia ter tirado um peso das costas ao me revelar aquilo.

— Não é bem assim, Lauren – iniciei, fazendo-a fitar-me ao levantar seu queixo – Eu viajei muito, verdade, mas sempre que eu fazia amigos, eu tinha que ir embora, eu nunca tive estabilidade como você, eu nunca senti como se pertencessem a algum lugar sabe ? E eu ainda não me sinto parte de algo, minha vida é movimento e movimento significa que tudo é temporário – declarei, suspirando longamente, eu e minha mãe somos movimentos, ela é a única coisa constante na minha vida, talvez por isso eu não soubesse viver sem ela ? Possivelmente. — Festas ?! E daí que eu sei beber ?! Isso não me fará entrar em nenhuma universidade, nem ter amigos de verdade, não é a festa que te faz feliz, Lauren, são as pessoas que estão ao teu redor – sorri fracamente com algumas recordações — E minhas tatuagens ? São um lembrete de que existe uma pessoa por debaixo de tudo isso, que por fora eu sou mutável, irrelevante, mas minha essência ?! Meu caráter ?! Ninguém põe uma tinta nisso, ninguém altera... – acho que ela entendeu onde eu queria chegar com aquilo, mas mesmo assim continuei – Você é incrível, Lauren, mas sua felicidade, só você pode determinar, então não se baseie no pressuposto que minha vida é um conto de fadas, eu lhe garanto, não é, e cometa seus próprios erros... A vida é sobre se arrepender de ter feito algo, não se arrepender por não ter feito – finalizei, tendo uma loura chorosa a se agarrar ao meu pescoço, me abraçando.

Retribui o abraço e sorri – Você nasceu primeiro ou eu ? – indaguei uma coisa completamente nada a ver, quebrando completamente o momento, ela gargalhou, largando meu pescoço.

— Você nasceu primeiro – ela afirmou e eu sorri um pouco mais largamente.

— Eu sabia – anunciei e ambas sorrimos.

“Não sei... Acho que é legal ter uma irmã, talvez eu possa telefonar quando for embora. Eu não sei cara, essa situação toda é muito ferrada, não quero me apegar a essas pessoas, não quero sofrer com outro adeus.”