Finding Carter
11 Ultraviolet
– O que você tem, Carter ? – Lauren me encontrou por algum corredor da vida, eu estava chapada ao ponto de não fazer ideia de como havia chegado ao colégio. Não queria nem pensar no meu estado.
– Eu estou ótima – menti, pondo os óculos escuros.
– Você está drogada ?! – questionou com incredulidade – Por que não fala mais comigo? Eu pensei que você gritando com nossos pais fosse ruim, mas você sendo essa estátua é pior, o que aconteceu? Desde a festa você anda estranha... – Lauren realmente falava muito, nossa, como ela falava.
– Yeh, Lauren, estou drogada, o que você vai fazer ? – retruquei sem muita paciência – Eu não sei o que vocês querem de mim, se eu faço o que me dá na telha, reclamam, se eu sigo as “regras”, reclamam, quando se decidirem o que vocês querem, me avisem – completei e me distanciei.
Mataria aquela aula, não iria fazer diferença mesmo.
Saí do colégio, já que evitar Elliot estava se tornando impossível, quase mais impossível do que evitar a detenção. Ele andava me seguindo por aí, pelo menos não estávamos na mesma sala, e até agora ele não havia encontrado meu novo esconderijo, eventualmente ele desistiria, pelo menos essa era a minha esperança... Simplesmente não estava com cabeça para lidar com aquilo, possivelmente nunca estaria.
Caminhava pela calçada, na direção contrária a casa dos Benson, aquele momento onde você anda avulso e completamente sem rumo ?! Essa era eu.
– Achei que eles haviam te transformado numa quadradinha – ouvi uma conhecida voz ao longe, meu coração pulou uma batida antes que eu me virasse abruptamente.
– Mãe ?! – eu simplesmente não podia acreditar no que meus olhos viam, estava com medo de aquilo ser alguma alucinação, não seria a minha primeira.
– Por que parece tão surpresa ? – a nova ruiva indagou, me abraçando.
Aquele sentimento de pertencimento, aquele cheiro, aqueles braços tão conhecidos... Desatei a chorar obviamente.
– Você nunca demorou tanto para matar aula – Lori brincou, me fazendo dar um sorriso fraco, embora a torneira que meus olhos se tornaram não parassem de jorrar lágrimas.
– Você está bem ? – foi a primeira pergunta que fiz, enquanto nos afastávamos da rua principal. Ouvir a voz dela era tão reconfortante, ver seu rosto... Uma mínima fagulha de esperança crepitou dentro de mim.
– Eu posso explicar por que eu fiz o que eu fiz, Carter – falou de forma apressada, alojando meu rosto entre suas mãos de forma terna – Eu te amo com todas as minhas forças e você é sim minha filha – iniciou e parecia quase magoada com algo.
– Eu sei, você doou os óvulos – caminhávamos lentamente pela rua transversal, disfarçando da melhor forma o teor daquela conversa.
– Eu era jovem, precisava do dinheiro para pagar a faculdade, a ideia me pareceu nobre na época... – divagava – Anos passaram, eu casei, quis um filho, mas não conseguíamos, fui no médico e ele me diagnosticou com falência ovariana precoce, isso que é ironia – sorriu com tristeza – Ele me recomendou buscar uma doadora, então eu lembrei dos meus óvulos... Mas os últimos já haviam sido fertilizados e implantados... Não era justo alguém ter meus filhos... Eu só queria ser mãe – admitiu e me encarou, em busca de compreensão talvez.
– Você magoou muitas pessoas, mom, agora é uma fugitiva... Haviam outras crianças no mundo... Você poderia ter adotado, sei lá – falei com um traço de ressentimento, embora sentir raiva fosse impossível, eu amava aquela mulher com todas as minhas forças.
– Nenhuma delas é você – nossos olhos se cruzaram e ambos estavam afundados em lágrimas — Eu não me arrependo de nada, Carter, você é a melhor coisa que já me aconteceu – falou, me comprimindo contra seu colo. Foi impossível não retribuir o abraço.
– Você não pode me levar com você ?- indaguei com a voz falha, parte de mim já sabia a resposta, a outra simplesmente não queria acreditar.
– Eu queria muito, meu amor – afirmou, me amassando naquele abraço – Mas eu te prometo, nós nos veremos outra vez – completou, me afastando a fim de me fitar.
– Quando, onde?! – perguntei, reprimindo da melhor forma que consegui meus soluços.
– Eu sempre irei te achar... – me sorriu, mas eu sabia que ela não estava sendo sincera, havia tristeza naquele sorriso.
– Eu sempre menti melhor que você – minha voz estava tão embargada, e tudo dentro de mim sangrava, doía, rasgava de um modo que eu não acreditava que fosse sarar.
– Dê para eles a chance que os tirei, Rox, só nunca esqueça o quanto eu te amo – sussurrou, beijando a minha bochecha e me encarando longamente antes de se afastar. Possivelmente para sempre.
Fiquei esperando ela olhar para trás, dizer que poderíamos fugir juntas, mas esse não foi o caso. “Minha mãe, a pessoa que sempre esteve ali para me remendar, hoje se transformou na pessoa que mais me quebrou....”
Deixei meu corpo deslizar até o chão e fiquei naquela exata posição por horas a fio... Até que não houvesse mais lágrimas sobrando.
**
Não sei como cheguei a casa, mas ao chegar havia uma pequena força-tarefa montada. Lauren, Max, Lindsay, Justin, Hank, os policiais do outro dia, Olivia, os avós, o cachorro ... Elliot?! Enfim, todo mundo. E eu não estava no espírito de dar explicações, meus olhos estavam tão inchados que parecia que eu tinha apanhado da Ronda Rousey, minhas roupas estavam úmidas pela friagem que havia pegado, eu estava com fome, o efeito das drogas já havia passado... Resumindo, eu não estava no humor para absolutamente nada.
– Carter! – alguém exclamou, possivelmente Jane, ela tendia a ser a mais escandalosa da família.
– Estávamos tão preocupados – Thomas falou de forma terna.
– Você está bem ? – Lauren se prontificou a perguntar.
– Onde você estava ? – outra pergunta.
Enquanto isso eu passava reto por todos, arrastando meus passos até as escadas, sem pronunciar sequer uma palavra. Eu conheço meus limites, eu iria começar a chorar novamente, e aquilo seria horrível, haveria gritaria, eu quebraria alguma coisa... Como todos estão cansados de saber, eu não tenho autocontrole, ou nenhum tipo de filtro, principalmente quando estou sóbria.
Tirei minhas roupas molhadas e me joguei na cama, foi só a lembrança da minha mãe me abandonando brotar na minha cabeça para as lágrimas tornarem a queimar minhas bochechas, não queria que aquela multidão escutassem meus soluços, então os abafei no travesseiro.
Duas batidas na porta me fizeram controlar um pouco as lágrimas.
– Vai embora! – gritei com irritação.
– Eu tenho algo que vai te fazer se sentir melhor – Olivia respondeu de forma incerta. Completamente deslocada com aquela situação, dramas juvenis talvez não fosse sua especialidade.
Fiquei em silêncio, duvidava que ela pudesse ter algo capaz de me fazer sentir melhor, mas também sou uma pessoa curiosa. Olivia entendeu o silêncio como um “ok” e entrou no quarto, depositando sobre a cama algo que começou a caminhar, me virei rapidamente e lá estava a gata mais linda do mundo, minha Nyx, uma ragdoll que ganhei no meu aniversário de treze anos. Afundei meu rosto nos pelos longos da gata que adorava um bom afago.
– Como ela veio parar aqui ? – perguntei, com um sorriso tímido a permear meu rosto.
– Lori – respondeu, afagando meus cabelos com ternura.
– Por isso essa pequena multidão amontoada aqui ? – perguntei retoricamente – Achavam que eu havia fugido com ela – concluí, enxugando as lágrimas com o dorso da mão.
– Fico feliz por não ter fugido – declarou.
Não iria admitir que havia visto a minha mãe, muito menos dizer onde eu estava, se eles rastreassem meus passos e a encontrassem ?! Então me mantive calada.
– Obrigada, realmente ajudou – sussurrei, pegando Nyx e me virando novamente.
Olivia, por sorte, também entendeu aquela deixa e apenas abandonou o quarto.
†
Eu tinha plena consciência que estava me afundando, e, daquela vez, não viria ninguém ao meu socorro. Então eu decidi fazer a coisa mais plausível, racional, lógica e coerente (ok, um pouco redundante), mas o fato é, eu tomaria as rédeas da minha vida... Eu não faço ideia se isso são as drogas falando, mas vamos ver aonde isso vai me levar.
“Lauren!” disse logo que a garota atendeu (ela estava num “retiro espiritual”, pelo menos foi o que ela me disse, mas na verdade ela tinha ido numa viagem com Max, eu extorqui Justin para me dizer.) Tudo bem, eu não estava chateada por ela mentir, eu também guardava um segredo dela, estávamos quites.
“O que você quer, Carter ?” ok, ela estava um pouco impaciente, não poderia culpá-la.
“Qual o endereço do Max ?” indaguei sem rodeios.
“Por que você não pergunta a ele ?” agora ela estava sendo apenas malvada, com certeza sabia que não estávamos nos melhores termos.
“Ele está no seu retiro espiritual ?” indaguei com ironia.
“Não, você poderia ligar” pelo menos ela havia aprendido a mentir um pouco melhor, nem gaguejou.
“Eu não quero falar com ele! Vai me passar o maldito endereço ou não ?!” agora eu estava ficando impaciente.
“Não, Carter, você o magoou muito, o cara veio do outro lado do país por você e você o deu um pé na bunda desse jeito, eu não a darei o endereço dele” ELA ESTAVA TOMANDO AS DORES DELE ?! Aquilo não poderia ser sério.
“Ainda bem que você sabe por quem ele viajou isso tudo, não está fazendo papel de idiota dessa vez, aproveite seu retiro espiritual pra perder esse hímen, sis” respondi de forma maldosa, não queria magoá-la, ou talvez eu quisesse, sei lá.
Desliguei, ela não me ajudaria. Sorte a minha que sou uma pessoa engenhosa, e o fato de que os pais do Max simplesmente me veneram também ajudou um pouco.
**
Apartamento B-203. Eu. Uma porta. E pelo que o porteiro disse, essa é a única coisa que me separa do Crash no momento.
Comprimi a alça da mochila mais fortemente entre os dedos e suspirei mais vezes do que o necessário, para só então tocar a campainha, me afastando gradativamente da porta.
Lá estava ele, com toda pompa possível. Era bastante parecido com Max, mas ao contrário desse, Crash tinha os cabelos castanhos e olhos frios como duas lápides, o torso desnudo revelava algumas tatuagens que me deram instantâneo asco. E eu ? Simplesmente não conseguia trazer oxigênio até os pulmões, e dessa vez, não era por um bom motivo.
– O que a traz aqui ? – ele iniciou naquele tom odioso que fez todas minhas vísceras se contorcerem. Notei reconhecimento naqueles olhos, mas não arrependimento.
– Por que você está aqui ? – indaguei com incredulidade, a bons três metros de distância.
– Porque eu moro aqui – Crash sempre foi o cara das “piadas”, até que não havia mais ninguém sorrindo.
– Você sabe muito bem ao que meu refiro, por que está aqui em NY ? – tentei mais uma vez, Crash tinha uma enorme possibilidade de ser realmente retardado.
– Essa é a terra das oportunidades, Chicago é pequena demais para mim – revelou com sadismo.
– Você ainda é o cara das piadinhas pelo que posso ver – avaliei com sarcasmo – Mas ouça com muita atenção, eu te conheço, sei o tipo de ser humano repugnante que você é... Eu posso viver com o que você me fez – pausei, algumas memórias eram impossíveis de controlar — Agora se você machucar o Max, de qualquer forma, se você o puser em risco, se qualquer coisa, qualquer coisa, acontecer com ele, eu juro, eu te mato – ameacei entre dentes e toda minha postura dedurava que eu falava sério.
– Pelo visto o que eu fiz com você te deu alguma coragem, você era tão chatinha, com certeza está mais divertida agora, Max deve ter gostado do quão bem treinada eu te deixei – Crash tinha aqueles olhos frios macabros, mas era o sorriso bestial que ele expunha a pior parte.
– Você não tem mais o poder de me machucar, Crash, já passamos desse capítulo, só considere muito seriamente o que você fará, porque se isso prejudicar o Max, eu farei meu objetivo de vida destruir a sua – falei pausadamente, com uma calma que eu não sentia, mas algo no meu tom era tão gélido que congelaria o inferno.
– Eu direi ao Max que você passou por aqui... Aliás, sua irmã não é de se jogar no lixo também – finalizou, arqueando a sobrancelha, cheio de malícia, o maldito sorriso sobre os lábios... Ele era a personificação do mal. Fechou a porta e eu fiquei encarando-a sem conseguir me mover, meu corpo simplesmente não respondia mais aos meus comandos, meu coração batia tão depressa no peito que eu tinha a impressão que ele sairia pela minha boca a qualquer momento... Saí correndo, me enfiando no primeiro táxi que cruzou meu caminho.
**
“Foi necessário todo meu autocontrole para não sair correndo dali aos prantos. Eu fiz uma promessa, nenhum homem iria ter o poder de machucar outra vez. Eu meio que virei uma piranha, não posso discordar disso, mas fazer sexo com outros caras se tornou minha forma de provar para mim mesma que eu havia superado o que Crash fez comigo, sexo e drogas, foi meio que um combo na época. Nenhum dos dois realmente ajudou, Crash ir parar na cadeia foi o divisor de águas... Mesmo que ele tenha ido por um crime muito menor. Eu nunca contei o que ele fez, sequer para minha mãe... Eu já me sentia um lixo, não precisava do olhar de piedade de alguém para animar meu espírito. E modéstia a parte, eu estou indo muito bem... Ok, eu estou indo consideravelmente bem... Eu preciso de ajuda.”
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