Finding Carter

12 Ready my mind


Estou a dois dias em casa, desde a minha visita ao apartamento do Crash eu tenho esses ataques de pânicos... Toda vez que penso em pôr os pés para fora de casa, é como se eu fosse morrer, sério, essa foi a melhor analogia que encontrei, é o puro sentimento da morte, com o adicional de pavor e sudorese. É horrível, e minha desintoxicação das drogas me dá bons sintomas para conseguir passe livre para permanecer em casa. Então minha situação é basicamente essa: eu penso em sair de casa e sinto que vou morrer, eu permaneço em casa e realmente acredito nessa possibilidade, cada célula do meu corpo implora pelo seu torpor diário, que não virá, já que meu estoque acabou e o traficante que eu peguei o número não faz delivery, Max eu nem cogito... Deveria lembrar o quão terrível a desintoxicação é antes de ficar chapada de novo. Já vomitei tanto que tenho pensado seriamente em pôr meu colchão no banheiro e ficar por lá, para me evitar o translado, sem falar da febre que é pior que a da malária, se bem que nunca tive malária.”

– Essa gripe é realmente terrível – Olivia afirmou, eu sequer a notei entrando, estava enrolada debaixo de três edredons e ainda tremia feito alguém com epilepsia. Nem Nyx tolerava ficar perto de mim.

– Eu bem queria que isso fosse uma gripe – falei de forma arrastada, reunindo todas minhas forças nessa simples missão. Olivia sabia muito bem que aquilo não se tratava de uma gripe, mas apreciei o fato dela não externar minha reabilitação e estar me enchendo de sucos, já que comer estava fora de cogitação, nada passava pela minha garganta.

– Você não pode parar de uma única vez, pode levar seu sistema nervoso a um curto – falava, sentando-se na beira da minha cama, me olhava com piedade, o mesmo olhar que eu tanto tentava evitar. Odiava ser um objeto de pena.

– Eu realmente não preciso da sua dó e seu conselho veio um pouco tarde – suspirei pesadamente, me enrolando um pouco mais sobre meu próprio corpo.

– Precisamos abaixar essa febre – a mulher decidiu ignorar meu mau-humor, e quis agir pró-ativamente.

– Eu sou alérgica a qualquer coisa derivada do AAS – logo tratei de falar, já que havia parado na emergência na primeira vez que Lori me medicou e não tinha nenhuma intenção de repetir a dose. Trauma de infância.

– Eu sei – revelou, quase ofendida por eu mencionar, mas vai saber né ? – Você não passou três anos sem ficar doente, vivíamos numa casa com muitas crianças – admitiu e puxou os edredons de cima de mim, choraminguei e tentei puxá-los de volta, mas foi bem inútil. Só o contato com o ar me fazia querer chorar, doía me mover, doía ser o objeto do qual o ambiente tentava roubar o calor.

– Não, por favor... – choraminguei e com certeza derrubei algumas lágrimas, já até tinha ideia do que ela estava sugerindo.

Ok, isso foi inútil também, Olivia me arrastou para o banheiro sem dificuldade alguma e me jogou debaixo do chuveiro. Aquilo era tão terrível, meu Deus, eu quase implorei para morrer e minha natureza dramática me fez preencher a casa com gritos, isso e o fato de que eu odiava ser contrariada, males de ser filha única.

– Carter ?! – a voz do Max me pegou de surpresa, admito, embora eu soubesse que ele e Lauren, ultimamente, tenham passado bastante tempo juntos. Aparentemente, haviam retornado do “retiro”.

Cobria meu rosto com ambas as mãos, aceitando da melhor forma que pude aquela situação horrível, chorar era uma boa válvula de escape.

Olivia desligou o chuveiro e alternou seu olhar entre mim e o louro estático na porta, suspirando antes de entregá-lo uma toalha e deixar o cômodo.

– Você não parece muito bem – Max, muito astutamente avaliou, lá estava o sorriso que eu tanto sentia falta.

– Muito obrigada, Maximus – respondi com um fiapo de voz e tentei me levantar, estava completamente ensopada, assim como minhas roupas. Meu cabelo havia grudado por toda minha cara, deveria estar com mais olheiras do que o Edward mãos de tesoura... Resumindo, eu estava na merda.

– Tentando parar de novo ? – ele questionou de forma terna, abaixando-se a fim de me entregar a toalha e me ajudando a levantar.

– Digamos que eu não tive muita escolha dessa vez – peguei o objeto e rapidamente me envolvi ao mesmo, não era excelente, mas daria para o gasto.

Ficamos sem ter o que dizer por alguns instantes, e o silêncio incomodava, dentro de mim tudo gritava, mas no exterior nada demonstrei.

– Você está bem ? – todas as vezes que eu perguntava isso, eu tinha genuína curiosidade com o bem-estar da pessoa, não era só um meio de quebrar o gelo.

– Melhor que você – ele respondeu, me ajudando a permanecer de pé.

Dei um riso nasalado, Max tinha um humor memorável.

– Obrigada – rebati sarcasticamente, me jogando sobre a cama quando estávamos de volta ao quarto. – Eu sinto sua falta – admiti, observando as costas do garoto que remexia no meu guarda-roupa, em busca de um dos meus pijamas.

– Espero que você melhore, Carter – eu odiava quando ele me chamava de Carter, para ele eu era Rox, pelo menos costumava ser. Ele deixou o pijama de coala ao meu lado e deu um beijo casto na minha testa. Aquilo sim era o puro declínio.

– E eu espero que você nunca tenha que descobrir sobre o que eu estava falando – respondi baixo, vendo-o atravessar a porta em seguida... Levando uma parte do meu coração consigo.

Nunca me senti tão solitária, tão isolada ...

É estranho estar sóbria, nem consigo lembrar a última vez que não tive meu analgésico diário, era meio que minha vitamina-C do dia... E cara, como sobriedade é horrível, por isso os índices de reincidência são tão grandes, sobriedade significa encarar a realidade sem nenhum tipo de filtro, e a realidade é uma vadia impiedosa, tire como exemplo a Sra. Humphrey, ela é a minha personificação de realidade e ela é completamente odiosa.”

Foram necessários seis dias para eu estar minimamente mais humana, tinha emagrecido tanto que as aulas de anatomia podiam ser feitas in vivo, minha força vital parecia ter sido sugada por algum dementador ou algo do tipo.

– Vai pegar o sorvete ? – Olivia me surpreendeu, afinal, eu realmente não esperava alguém acordado àquela hora. Desde que me aposentei das drogas, tenho tido sérios problemas em controlar meu novo vício: doces.

– Você quer dividir ? – indaguei, me sentiria menos culpada se alguém comesse comigo, seria como cometer um crime em dupla.

– Definitivamente – ela concordou e eu o pesquei da geladeira, pondo-o sobre a mesa enquanto ela pegava as colheres.

– E então, o que tirou a ilustre detetive Benson do seu sono da beleza ? – perguntei, levando um pouco da sobremesa até a boca.

– Um caso difícil – admitiu, mas não entrou em detalhes, não seria eu que iria a pressionar. – E você, o que a tem mantido acordada ? – questionou com um sorriso sugestivo sobre os lábios.

– Não é o que você está pensando – tratei de cortá-la.

– E o que eu estou pensando ? – aquela psicologia reversa ainda me poria em apuros.

– Que eu estou acordada pensando em algum garoto, para ser completamente honesta, eu virei gay – falei, pegando uma colherada generosa.

Ela gargalhou alto, e eu também, poderia ser muitas coisas, mas gay possivelmente não entraria na lista.

– Qual é o nome dele ? – indagou quando conseguiu controlar o riso.

Revirei os olhos e suspirei – Elliot – sussurrei, tendo minhas bochechas a coraram em seguida.

– Ele é o carinha com quem você perdeu a blusa ? – agora Olivia estava sendo apenas maliciosa.

– É, você sabe, ele derramou suco de uva sobre ela, tive que tirar e pôr para lavar ou iria manchar e eu não queria dar mais trabalho a Mercedes... – entrei no jogo dela, rebatendo de forma perspicaz.

– Muito gentil da sua parte – respondeu ainda sorrindo – Ele é fofo – avaliou – Vocês estão namorando ? –

Balancei a cabeça negativamente e agitei as mãos no ar para dar ainda mais ênfase ao grande “não” – Não, eu meio que o tenho evitado desde a festa – revelei e deixei a colher dentro do pote, aquilo me fez perder até o apetite.

– Por que ? –

– Não sou uma monogamista e eu não quero um relacionamento – tentei deixar minha condição mais culta, quando na verdade podia muito bem substituir por: 'eu sou uma puta sem coração que não fica com apenas um cara'.

– Não acredita em casamento, construir uma família, dormir ao lado da pessoa que ama ? – Olivia parecia surpresa com meu ceticismo.

Dei um riso nasalado e abaixei os olhos – Eu não acredito nesse conceito para mim, você e o Hank parecem ter algo legal... Mas não é para todo mundo – divaguei.

– Por que não ? – ela inquiriu ainda sorrindo.

– Porque eu nunca depositarei minha confiança numa pessoa ao ponto de passar o resto da minha vida com ela – revelei e cai em silêncio.

Olivia franziu o cenho, possivelmente confusa. — É um maneira muito solitária de viver, não acha ? – questionou também abandonando o talher.

Dei de ombros – Talvez – admiti – Mas eu nunca me machuquei dessa forma – afirmei, sustentando o olhar que a morena me lançou.

Encarei o relógio de parede com apreensão, eu ainda não havia saído de casa desde meu momento ‘Crash-rehab’, ver aqueles ponteiros passando, anunciando minha iminente volta ao colégio... Meu estômago já se revirava, e eu possivelmente não iria conseguir dormir.

– Quer ver um filme ? – convidei e Olivia apenas sorriu mais largamente, concordando.

– Eu faço a pipoca, você escolhe o filme – delegou como se aquilo fosse uma espécie de conspiração.

**

– EU ESTOU ATRASADA! – foi com esse lindo grito que eu acordei. Lindsay descia feito um trem-bala pelas escadas, vestindo as calças e calçando os tênis durante seu percurso, realmente impressionante a técnica empregada ali. Tinha os cabelos desgrenhados e apanhou apenas uma maçã da cozinha antes de correr porta a fora, sequer esperou por Justin, que, literalmente, teve que correr por sua vida.

Cocei os olhos e só então notei que havia caído no sono no colo de Olivia, ergui o tronco rapidamente, aquela situação era no mínimo estranha.

– Foi um bom filme – Olivia tratou de cortar o “clima”.

– Eu posso ficar em casa ? – perguntei, tentando aproveitar o bom humor da mais velha.

– Não – ela respondeu com um sorriso amarelo e levantou, espreguiçando-se antes de iniciar o “dia” na residência Benson.

– É, pelo menos eu tentei – resmunguei baixo, desligando a televisão antes de me preparar.

Em tempo recorde todos estavam prontos, inclusive eu, embora suasse frio e respirasse intercaladamente, uma pelo nariz, outra pela boca. Consegui pôr ambos os pés para fora da residência, mas segurava no pulso de Lauren tão fortemente que tinha a impressão que iria torcê-lo (fizemos as pazes, ou estamos caminhando nesse sentido).

– Por que eu parei meu rivotril ? – sussurrei quando enfim consegui chegar até o carro. Possivelmente estivesse mais pálida que os integrantes da família ‘Cullen’ no inverno.

Ninguém dentro do carro se deu ao trabalho de me responder, provavelmente melhor para mim, tinha a impressão que ficaria de castigo até completar dezoito, não queria estender isso para vinte.

– Façam boas decisões e se não puderem... – Hank falou, assim que Olivia estacionou o carro diante do nosso colégio, apenas franzi o cenho em confusão e saltei do veículo.

– Não seja pega – Lauren revirou os olhos ao responder e beijou a bochecha do pai, antes de me seguir.

– Tchau, Carter – ele acenou, mas não me virei, ainda estava irritada com ele.

– Que merda é aquela ? – indaguei para a loura que apressou os passos até ficar ao meu lado.

– É nosso mantra, é um Voight ditado – me explicou, o que não tornou nada daquilo menos estranho.

– Whatever, te vejo no intervalo ? Preciso falar algo com você – indaguei ao chegar ao meu armário, ela apenas concordou e se afastou.

– Você vai me evitar até quando ? – Elliot estava parado atrás de mim, lindo como eu recordava.

– Eu não estou te evitando, eu estou evitando a situação – respondi sinceramente.

– Mas eu amei a situação – sussurrou no meu ouvido de forma maliciosa.

O empurrei educadamente e o lancei um sorriso amarelo – Não vai acontecer novamente –

– Por que não ? – quis saber, me seguindo pelo corredor que supostamente deveria me levar até minha sala de aula do dia, caso eu fizesse a mínima ideia de qual aula seria essa.

– Patrick! – gritei ao avistar o ruivo, me aproximando dele e ignorando Elliot momentaneamente – Que aula temos hoje ? – indaguei, estendendo a mão no ar quando o louro tencionou dizer algo.

– Geometria – o ruivo respondeu de forma incerta.

– Obrigada – agradeci e girei nos calcanhares, me pondo a encarar Elliot novamente.

– Você já teve um drunk mistake ? Foi isso que tivemos... Se houver outra festa, eu ficar bêbada, o que provavelmente não vai acontecer, eu larguei as drogas, não sei se você ficou sabendo... – falava sem parar, deixando o louro um pouco confuso com toda aquela informação – Enfim, se acontecer, e você quiser, a gente fica outra vez, caso contrário, eu não sou o tipo de garota que anda de mãos dadas por aí, que vai ao cinema, e todas essas merdas sabe ? – tentei sintetizar um pouco.

– Quem disse que eu quero algo assim ? Nós podemos ter a diversão, sem o relacionamento – Elliot propôs, me encarando com aqueles olhos cor de avelã divinos.

Ah, autocontrole...Saudades.

– Sem relacionamento e se você falar para alguém, eu nego – respondi, com um pouco de raiva de mim mesma.

– No meu carro, depois da aula – o louro parecia triunfante com aquela “vitória” e saiu todo sorridente.

Fiquei observando suas costas bem definidas se afastarem de mim e só então notei que Patrick continuava ali, e que havia escutado tudo.

– O que ?! – questionei, erguendo as mãos no ar ao notar o olhar de julgamento dele.

Ele deu de ombros, se isentando de me dar qualquer explicação. O segurei pelos ombros e o lancei meu olhar de ‘desembucha logo ou vou socar sua cara’, ele compreendeu o recado.

– Isso não é uma boa ideia – enfim revelou, pondo-se a andar novamente.

– Você acha que eu não sei disso ? – rebati sem muito humor.

Eu acima de qualquer um sabia o quão perturbadora aquela situação era.