O dia se passou de forma arrastada e eu realmente não estava no humor para estudo em grupo, mas não queria desmarcar em cima da hora, além do que, aquelas aulas viriam a calhar, eu acho.

– Você entendeu qualquer coisa que eu disse, Carter? – Patrick me tirou do meu mundo particular e me trouxe de volta a essa triste realidade.

– Desculpa – suspirei e acomodei minha cabeça sobre os braços, olhando para aquela infinidade de coisas que eu teria que estudar, minha cabeça doía só com a possibilidade.

Lisa não parecia nada melhor, considerando a cara de puro terror que ela expunha, pelo menos ela tinha Nyx para distraí-la um pouco, já que Patrick confiscou nossos celulares, já prevendo aquele tipo de reação.

– Eu quero desistir do colégio – falei com mau humor.

– Você e metade da MHS – Lisa brincou, rindo nervosamente.

– Mas eu falo sério, eu nunca vou entrar numa faculdade mesmo, qual é o propósito? – suspirei pesadamente. Eu até gostava um pouco de história, mas ser boa em apenas uma matéria não me faria passar nas demais.

– Seus pais nunca concordariam com isso e o que você faria sem um diploma do ensino médio? Acho que nem o McDonald’s contrata – Patrick me relembrou de um importante fato.

– Minha mãe concordaria – falei, escrevendo inconscientemente o nome dela sobre um dos papéis – Eu não sei, talvez eu vire atriz, ou me torne uma fotógrafa da vida selvagem... Sei lá, algo divertido, viajando, não essa merda de rotina – bufei com irritação, pensar sobre meu futuro era algo que me dava mais medo do que excitação. Minha mãe costumava dizer que eu poderia fazer o que eu quisesse, ser quem eu quisesse... Meu erro foi ter acreditando nisso.

– Você gosta de escrever, talvez devesse fazer isso, uma autobiografia sobre seu sequestro, sua volta pra cá, como foi sua vida durante todo esse tempo... Aposto que seria um best-seller, eu mesma tenho curiosidade – Lisa declarou, me olhando de forma animada, enquanto ditava suas ideias de título que incluíam: “Losing Katherine&Finding Carter”, “Missing Carter” e “Little BIRD”, particularmente não entendi os dois últimos, o primeiro era bem autoexplicativo.

– Não teria nada para escrever nesse livro, eu tive a melhor mãe, a melhor infância – murmurei, enfiando a cara num dos livros.

– Mas se você pensar bem... Foi tudo uma mentira... – Patrick externou sua opinião. Tato, definitivamente, não fazia parte da sua extensa gama de aptidões.

– Uma mentira?! – franzi o cenho em pura descrença de que havia, realmente, escutado aquilo – Cala a boca ou vá embora, só não seja um maldito idiota perto de mim – balancei a cabeça negativamente, tornando a encarar o livro sem o mínimo interesse.

– Ela te sequestrou, ela mentiu para você todos os dias da sua vida, os sentimentos poderiam ter sido reais, mas a situação nunca foi – afirmou, arrumando as próprias coisas e saindo. Não tentei impedi-lo. Que Patrick fosse acertado por um trem, pouco me importava com aquele presunçoso filho da mãe.

– Como ele poderia saber, ele nunca esteve na sua posição? – Lisa tentou me confortar, enquanto eu chorava silenciosamente. Eu e meu problema para controlar a porcaria dessas lágrimas!

– Talvez ele tenha razão... Ela nem quis me levar com ela – admiti, enxugando as lágrimas teimosas com o dorso da mão e sorrindo nervosamente. – O pior de tudo é que eles não são ruins, eles se importam comigo, são uma família legal... – dei de ombros e desabafei, buscando nos olhos de Lisa algum tipo de compreensão. Me sentia terrível por estar despejando sobre ela meus dramas.

Nosso “momento” foi interrompido por Lauren, que desceu as escadas correndo, com uma cara de assombro.

– O que houve? – quis saber com preocupação.

– Max, ele foi preso – “explicou”, pegando o casaco antes de sair porta afora.

– Drogas? – perguntei com confusão, aquilo não fazia o menor sentido e apenas a segui pelo jardim.

– Não, homicídio – respondeu com a voz engasgada enquanto eu simplesmente encarava-a com descrença.

Não, Max nunca mataria alguém.

– Eu posso te levar até a delegacia – Lisa ofereceu, vendo o desespero de Lauren para conseguir um táxi.

A loura rapidamente entrou no carro da latina, enquanto eu permaneci estática.

– Você vem? – Lisa me tirou do meu torpor e eu apenas acenei negativamente. Não, eu não iria. Elas aceleraram, sem exigir maiores detalhes.

P.O.V Olivia

– Max, me ajude aqui, suas digitais foram encontradas na arma do crime – falei de forma calma. Tentando achar alguma lógica naquela situação, tudo bem que quem vê cara, não vê coração, mas Max ? Não fazia sentido, além do que, ele tinha um álibi nos dois assassinatos.

– Eu não sei, eu trabalho na loja de conveniência de um posto, meus tios mantêm uma oficina nos fundos... Eu juro, Sra. Benson, eu não fiz isso – ele praticamente implorava e enquanto Alicia não acordasse, não havia como corroborar aquela versão.

Uma digital parcial não era o suficiente para exigir um mandato de prisão, ainda mais de um menor. O advogado de Max sabia disso, por isso estava tão tranquilo ao lado do seu cliente.

– Você não tem a menor ideia de quem possa ter feito isso, que tenha acesso as ferramentas da oficina? – perguntei com certa urgência.

Max abaixou os olhos, como se houvesse tido uma epifania, ou algo do tipo, toda a cor do seu rosto se esvaiu e eu tive esperança que ele fosse dizer algum nome, mas ao invés disso ele apenas ergueu o rosto e balançou a cabeça negativamente, quase como se tentasse proteger alguém.

O olhei de forma suplicante, mas nem assim ele me falou mais alguma coisa.

– Posso ir? – sussurrou de forma quase inaudível e eu apenas concordei, resignada. Dezenas de pessoas, por dia, tinham acesso àquela oficina... A busca não seria, nem remotamente, fácil.

– Eu quero vê-lo! – ouvi Lauren gritar assim que a porta foi aberta.

Vê-la nos braços de um provável assassino me fez tremer inteira, a afastei dele, me pondo protetoramente entre os dois.

– Não quero vê-lo próximo as minhas filhas, Maximus – decretei, enquanto Lauren chorava copiosamente. Me cortava o coração vê-la daquela forma, mas eu tentava protegê-la, muito embora duvidasse que Max fosse o assassino.

– Tudo bem – ele sussurrou de forma respeitosa, saindo em seguida.

– Ei, ei – me ajoelhei diante da garota, abraçando-a ternamente – Vai ficar tudo bem – a certifiquei, muito embora eu não tivesse convicção no que dizia.

– Ele não fez isso, mãe, ele não pode ter feito isso – ela soluçava no meu colo.

Vi Lisa um pouco mais atrás e vasculhei o cômodo em busca de Carter, não vê-la ali deixou meus sentidos ainda mais alarmados. Eram amigos de infância, por que ela não estaria ali também?

– Cadê a Carter? – perguntei, forçando a loura a parar de chorar um pouco e me encarar.

Lauren deu de ombros – Ela não veio, ficou em casa – respondeu com a voz embargada, tornando a derramar mais algumas lágrimas.

Franzi o cenho em confusão e tateie o celular, discando o número da minha residência.

“Mercedes, Carter está em casa?” questionei com apreensão.

“Não, Sra. Olivia, ela saiu com a Lauren e a garotinha latina” a mulher respondeu, e essa foi a minha vez de lutar contra todos meus instintos de chorar.

Choquei minhas mãos com voracidade contra a porta do apartamento de Max e Crash, toda adrenalina que corria nas minhas veias dedurava que eu não estava no meu juízo perfeito, acho que nunca estive.

– O que é?! – ouvi o grito dele, que abriu a porta com mau humor. O empurrei para dentro do apartamento e o olhei acusatoriamente. Meu ódio poderia incendiar todo aquele quitinete medíocre.

– Você vai tirar o Max daquela delegacia, seu maldito! – afirmei, completamente alterada.

– Delegacia? Max?- ele parecia realmente confuso, ou talvez fosse apenas mais um dos teatros de Crash.

– Os assassinatos, as garotas estupradas – tentei “iluminá-lo”, vendo a feição dele se contorcer na máscara bestial que eu tão bem conhecia. – Você vai deixá-lo ser acusado de assassinato? Quando todos sabem que o verdadeiro monstro é você! – gritei, cerrando o punho fortemente.

– Eu não sei o que você está falando e... – ele falava com uma calma descomunal e eu não esperei ele terminar para desferir um tapa na cara daquele cretino.

– Para de mentir! Para de mentir! – gritei novamente, meus olhos já estavam afundados em lágrimas.

Ele devolveu o tapa, me fazendo cair no chão com o impacto.

– Eu nunca toquei em você, Carter – sussurrou bem próximo ao meu ouvido. Eu não conseguia mover sequer uma fibra do meu corpo e tudo que queria fazer era sair correndo dali e nunca mais voltar, nunca mais ter que relembrar daquele dia – Eu só filmei, aquele cara que te molestou não era eu – revelou, levando a mão até minha garganta, me prendendo fortemente ao chão. Nossos olhos se cruzaram por breves instantes, e algo ali me dizia que ele falava a verdade... Embora isso não mudasse o fato que ele enganou uma garota de quatorze anos, alegando que iria levá-la para sua festa de aniversário, mas ao invés disso a levou para um armazém abandonado, a vendou e permitiu que ela fosse estuprada.

– Quem foi? – perguntei reunindo toda minha coragem, lágrimas já queimavam minhas bochechas e o aperto dele no meu pescoço se intensificava. Já estava ficando sem ar àquela altura.

Ele riu naquele ar macabro e aproximou-se calmamente de mim, selando meus lábios à força, tentei me desprender, chutando-o, mas era em vão, ele tinha o dobro do meu tamanho. Minha única certeza é que não aguentaria passar por aquilo... Não novamente.

– Solta ela! – ouvi Max gritar e no instante seguinte Crash havia caído imóvel ao meu lado. Eu ainda tentava recuperar o fôlego e compreender o que havia acabado de acontecer.

Rastejei até o lado do garoto, checando seus sinais vitais, ou a falta deles, enquanto Max largava o taco de beseball no chão, olhando de forma catatônica para a cena do irmão morto.

– Ele está morto – anunciei o óbvio e olhei com assombro para Max.

– Eu o matei, eu o matei – ele falava debilmente, levando as mãos até os cabelos.

Olhar para Max e vê-lo tão devastado foi a única coisa que necessitei para tomar as rédeas da situação. Eu faria qualquer coisa por ele... Inclusive assumir a autoria daquilo. — Não, eu o matei – exclamei, pegando o taco de baseball, limpando o cabo e o segurando firmemente, para ter certeza que minhas digitais ficassem ali. – Max, você precisa confiar em mim nessa, eu vou nos tirar dessa, eu prometo, só fique calado e me deixe assumir a culpa. Nós estávamos brigando, ele tentou me matar, eu reagi, você apareceu e ele já estava morto, ligou para a emergência – ditava de forma apressada, o empurrando para fora do apartamento – Max, você entendeu? – estalei os dedos diante dele, que acenou uma única vez numa afirmação. Ainda em choque com o ocorrido.

– Eu deveria ter acreditado em você, ele matou aquelas garotas, ele é um monstro – Max gaguejou, de forma chorosa, sem conseguir tirar os olhos de sobre o irmão morto.

– Ele não matou – afirmei, embora não tivesse completa certeza disso. – Vá buscar ajuda e fique quieto, legítima defesa, foi isso que aconteceu aqui – conclui com o coração a trotar descontroladamente no peito. Eu realmente morreria de um ataque cardíaco.

Após olhar para o irmão mais uma única vez o garoto se pôs a correr, em busca de ajuda e um álibi.

**

A ambulância não demorou a chegar, assim como carros policiais. Eu fui levada em custódia após admitir ter matado Crash, me jogaram numa sala de interrogatório. Algemada. Como se eu fosse um risco para a sociedade... As marcas da discussão de mais cedo começavam a se revelar sobre minha alva pele, meu pescoço tinha claramente marcas do enforcamento, minha bochecha estava num vermelho vivo, começando a ir para o roxo, e havia um mínimo corte sobre meu supercílio, onde o anel me atingiu... Mas mesmo assim, lá estava eu, algemada.

Aquela não era a delegacia de Voight, eu estava em outra jurisdição, então não iria esperar muitas regalias.

Um homem de meia-idade e um ar meio alcoólatra adentrou o cômodo, me olhando de cima a baixo. Parecia estudar toda minha “periculosidade” e deu um audível suspiro.

– Srta. Stevens? – iniciou, abrindo uma pasta qualquer a minha frente.

Concordei fracamente com a cabeça, só então me dando conta o quanto, aquela simples ação, era dolorosa.

– O que a Srta. foi fazer na casa da vítima? – foi direto ao ponto, cruzando os dedos sobre a mesa e me encarando de forma compenetrada. O cheiro de álcool que ele exalava me deixaria embriagada. Aquela não era uma boa vizinhança, óbvio que não teria um bom distrito policial, então não me assustei com a falta de finesse do detetive.

– Avisar que o irmão dele havia sido preso – respondi sinceramente.

– E vocês brigaram... – jogou verde comigo, querendo que eu revelasse os detalhes da minha visita.

– Sim nós... – fui interrompida por Olivia que entrou feito um furacão na sala, fazendo o detetive se sobressaltar e eu encará-la de forma assustada.

– Não diga mais nada, Carter – recomendou com seriedade, encarando o homem de cima do seu salto.

– Detetive Gordon, o senhor tem noção que está interrogando uma menor sem nenhum representante legal, correto? – falava de forma altiva, fazendo o homem franzi o cenho em confusão – Assim sendo, tudo que ela disse deve e será desconsiderado, ou processarei seu distrito por abuso de poder – até eu fiquei com medo dela naquele momento. Nunca a vi agindo tão “profissionalmente” antes – E tire as algemas – exigiu de forma autoritária.

O homem engoliu a bile e apenas concordou fracamente com a cabeça, tirando as algemas para sair da sala em seguida, deixando-me sozinha com a fera, que só então me encarou, relaxando um pouco ao ver que eu estava “bem”.

– Eu irei tirá-la daqui – enfim falou algo, me abraçando instintivamente. Retribui o abraço e a lancei um sorriso fraco.

– Me desculpe – sussurrei de forma envergonhada. Realmente sentia muito, nunca tive a intenção de arrastar Olivia para meus dramas pessoais, muito menos ser acusada de homicídio aos dezesseis, até eu compreendia que algumas linhas não foram feitas para serem cruzadas, mas que outra opção eu tinha? Deixar Max assumir a autoria? Ele já estava encrencado com aquela digital na arma do crime de dois homicídios e uma tentativa de homicídio, não poderia correr o risco de ele ser acusado por um que ele realmente havia cometido...Não, eu faria qualquer coisa para proteger Max.

Uma mulher loira de feições gentis entrou na sala, olhou para Olivia por breves instantes e a morena rapidamente aproximou-se. Permaneci sentada, algo na feição da desconhecida me dizia que eu não sairia dali tão cedo.

Elas sussurram por algum tempo e Olivia parecia realmente irada quando virou-se novamente para mim.

– Eles estão alegando que foi premeditado – anunciou com notável pesar.

– O que? – aquilo simplesmente não poderia ser sério, então eu havia saído de casa, ido brigar com Crash, com a morte dele premeditada na minha cabeça? – Como eles podem afirmar isso? – questionei, me esforçando ao máximo para não chorar e falhando majestosamente nessa missão.

– Os vizinhos disseram que já a viram antes e que você ameaçou matá-lo, o porteiro confirmou – falou num ar cansado e deixou o corpo desabar sobre a cadeira a minha frente.

Meus olhos mantiveram-se perdidos, eu realmente havia ameaçado matá-lo, mas tudo que ocorreu naquele dia estava longe de ter sido premeditado.

– Foi um acidente, eu juro, eu não sou uma assassina, por favor, você tem que acreditar em mim – supliquei, escondendo o rosto com ambas as mãos, como se daquela forma eu pudesse ser tirada daquele pesadelo.

– Nem por um segundo eu acreditei que você fosse – ela me confortou. Parecia tão desesperada quanto eu. – Mas você tem que me dizer por que foi até lá, eu quero te ajudar mais do que tudo Carter, mas você tem que ser honesta comigo –

Desviei do olhar que ela me lançou, sentia-me nua, vulnerável de uma forma que eu me prometi nunca mais estar.

– Quando eu soube que o Max estava sendo acusado... Eu fui falar com o Crash, ele é o responsável, não Max – declarei, mantendo os olhos baixos, tinha medo de que Olivia pudesse ver através da minha omissão.

– Por que você acha que ele seja o culpado, Carter? – pressionou.

– Ele tem passagem pela policia – falei a primeira mentira que me veio a mente. Era um argumento meio merda, admito.

– É, ele tem, mas por roubar um carro – pausou. Ainda podia sentir o peso do olhar dela sobre mim. – Roubar um carro e assassinar duas pessoas são coisas bem distintas – podia notar o tom de censura. Ela sabia que eu escondia algo.

– Foi legítima defesa – falei por fim e Olivia apenas suspirou, balançando a cabeça negativamente.

– Amanda te levará para fazer o exame do corpo de delito, eu já contatei nosso advogado e seu pai está tentando sua transferência para a delegacia dele – anunciou monocromaticamente, levantando-se em seguida.

– Olivia? – a chamei de supetão.

– Sim? –

– Obrigada – agradeci e a lancei um sorriso fraco que foi prontamente retribuído.

Notas finais
Gostaram? Não gostaram? Críticas? Não sou particularmente guiada por comentários, mas seria bom recebê-los e pf, sou muito simpática quando os respondo U_U'