Finding Carter

15 Life in color


P.O.V Olivia B

Algo não estava certo naquela história. Tentar arrancar a verdade de Carter era uma batalha perdida, ela parecia mais temerosa em revelar seus segredos do que enfrentar alguns anos na cadeia... Não permitiria que aquilo ocorresse.

– Max – o chamei. Ele estava terminando de dar seu testemunho e parecia muitíssimo abalado.

Não poderia acompanhar Carter até o hospital, mas deixei Amanda com essa missão, confiava plenamente nela.

– S-sim? – ele gaguejou, não conseguia me encarar nos olhos. Não tomei aquilo como um bom sinal.

– Carter está muito encrencada, Max, ela não me dirá o que aconteceu entre ela e o seu irmão, e eu não posso ajudá-la a menos que eu saiba exatamente o que a levou até o seu apartamento quando soube que você havia sido preso – toquei na bochecha do garoto. Eu imploraria se esse fosse o preço... Eu faria qualquer coisa. – Por favor, Max, se eles decretarem que foi premeditado ela vai responder como uma adulta, estamos falando de quinze anos na cadeia – supliquei, com algumas lágrimas teimosas a escaparem. Eu estava desesperada e me sentia culpada, de alguma forma eu me culpava por toda aquela situação... Se ela ainda estivesse em Chicago, nada daquilo estaria acontecendo.

– Eu não sei – ele levou as mãos até os cabelos e foi impossível não notar a marca de suor que estava sobre sua testa – Nós brigamos porque ela disse que eu não deveria confiar no Crash, que ele não era uma boa influência, ela queria que eu voltasse para Chicago, mas não me disse o que ele havia feito, eu juro... É a única coisa que eu sei – afirmou e se distanciou com certa urgência. Parecia a beira de uma crise de ansiedade... Não era o único.

Aquilo não havia sido de ajuda alguma, que ela e Crash tinham um passado nebuloso eu já havia deduzido, precisava saber o quão nebuloso era... A única pessoa do passado de Carter que poderia ajudar era também a última que eu desejava encontrar.

Lorelai Stevens, apenas o nome me dava asco, me transportava para uma época nada agradável... Mas se encontrá-la fosse o necessário para livrar Carter da cadeia, que assim o fosse. Eu faria qualquer coisa para chegar ao fundo daquela história.

Ser tratada como uma criminosa não é nada agradável. Minhas vísceras reviravam-se com os olhares discriminatórios que recebia... Algumas pessoas simplesmente se sentem no direito de julgar, muito embora não sejam capazes de ver aquém da superfície.

Obriguei-me a permanecer séria, sem deixar transparecer o quão assustada estava, sem deixar transparecer o quanto eu gostaria que tudo aquilo desvanecesse no ar.

A médica designada para avaliar minhas lesões ditava os procedimentos, enquanto eu simplesmente a ignorava, muito absorta nos meus próprios problemas para lhe dispensar alguma atenção.

Premeditado. Realmente não julguei aquele detalhe quando assumi a morte de Crash, não levei em consideração que eu já havia o ameaçado de morte, não levei em consideração que vizinhos estúpidos são encontrados em todos os lugares, não achei que fosse enfrentar aquelas enxurradas de perguntas, resumindo, eu não estava pensando sobre os desdobramentos das minhas ações, o que, convenhamos, é bem típico se tratando de mim.

– Podemos começar? – a voz da médica me transportou de volta a realidade.

Concordei fracamente com a cabeça, tomando a bata que ela me oferecia com certo receio. Odeio hospitais.

**

– A médica já liberou o laudo, segundo ela, as marcas demonstram um confronto – Amanda comentou, abrindo a pasta onde, além do laudo, havia as fotografias dos meus ferimentos. Aquilo, supostamente, me ajudaria no tribunal. Não me sentia muito esperançosa.

– Sorte a minha – respondi de forma distante, com um quê de sarcasmo a pairar por ali.

– Agora irão tomar seu testemunho – ela prosseguiu, sem se abalar pelo meu mau humor.

Eu já estava trabalhando nessa parte. Crash foi atingindo por trás, então eu tinha que inventar uma história crível para ter atingido um ser humano pelas costas, quando poderia apenas ter fugido... Bem, isso se eu fosse realmente responsável por qualquer coisa.

Suspirei pesadamente, liberando todo ar preso em meus pulmões. A viatura havia estacionado diante da delegacia, pelo menos era a de Voight, me sentia minimamente mais segura. Saltei do carro na companhia de Amanda, que me escoltou até a sargento, passando-me para a “responsabilidade” da mulher.

– Oficial Roman irá acompanhá-la até a sala – sargento Platt anunciou de forma fria e eu apenas concordei. Olhando para a cara do sujeitinho carrancudo com certo desprezo, podia quase ouvir o que o cérebro dele pensava.

– Você deve estar feliz – comentei num ar infeliz, mas ainda sim pedante.

– Por que eu estaria? – ele rebateu com um sussurro, cerrando a mão mais fortemente no meu braço – Eu estou triste por ver mais uma criança arruinando a própria vida – declarou e paramos diante de uma porta de metal.

O olhei de soslaio e estava, estranhamente, sem uma resposta para dar. Na falta de algo bom para dizer, melhor ficar calada, já dizia Lori, e assim o fiz. A porta foi aberta instantes depois, por um negro grandalhão, teria mais de 1,90 com facilidade, não era gordo, mas também não era magro, talvez tivesse o conhecido... Ossos largos? Ele me sorriu, mas eu estava incapacitada de retribuir qualquer gesto de cordialidade naquele momento, então abaixei a cabeça e me sentei, quando ele me indicou a cadeira.

A sala tinha tons de cinza para todos os lados, as paredes, a mesa, a cadeira, o chão, tudo era cinza... Já queriam tirar a esperança da pessoa na sala de interrogatório, logo entendi o propósito daquele ar fúnebre. A única coisa que destoava do tom de cinza era a janela retangular que ficava bem a minha frente, essa era preta e bem, eu já assisti séries policias demais para ter absoluta certeza que por trás daquela janela espelhada alguém assistia.

Uma mulher entrou na sala, trazendo a pasta que Amanda, até brevemente, possuía. Era morena, o cabelo curto, num corte chanel, esguia e parecia muito enérgica. Como se tivesse bebido cinco copos de café, ou mais.

– Olá, Carter, eu sou a detetive Keen e esse é o detetive Atwater – iniciou de forma polida – Iremos esperar seu advogado para iniciarmos – me lançou um sorriso amarelo, possivelmente para quebrar o incômodo clima. Novamente me senti impossibilitada de retribuir o ato.

Esperamos cerca de dez minutos, em um silêncio sepulcral, nem nossas respirações eram audíveis, o que foi minimamente bizarro, e essa calmaria só foi interrompida quando um homem grisalho, num terno elegante e muito conhecido por mim, entrou na sala. Era meu avô. Thomas Andrew Benson. Eu riria da situação, se essa não fosse demasiadamente trágica.

– Me perdoem a demora – murmurou, respeitoso embora sério. Desabotoou um dos botões do paletó antes de sentar-se ao meu lado. Tinha olhos brilhantes bonitos e, diferentemente de Jane, emanava uma aura pacífica. Como se nada pudesse fazê-lo perder a compostura.

– Então, Carter, você poderia me dizer exatamente o que houve no apartamento de Caleb Olsen? – a mulher iniciou, sem maiores delongas.

Olhei para o meu avô, como se esperasse uma confirmação de que poderia prosseguir, e após vê-lo manear brevemente a cabeça, iniciei.

– Eu fui até o apartamento do Crash... Caleb, assim que soube que o Max, o irmão dele, havia sido preso – pausei, acalmando meus nervos – Eu fui até lá porque eu estava convicta de que ele era o motivo para Max ter sido preso... Ele não é uma boa pessoa e se alguém é capaz de fazer tais atrocidades, esse alguém é ele... Eu só queria que ele admitisse – pausei, mordendo o lábio inferior – Nós discutimos, ele me deu um tapa... –

– Discutiram sobre o que? – Atwater me interrompeu.

– Sobre ele ser o responsável pelo assassinato das garotas – expliquei pacientemente e só então voltei a minha linha de raciocínio, havia ensaiado aquela parte (mentalmente), algumas vezes. Era hora de ver se eu tinha realmente a veia artística. – Após o tapa eu caí, tentei rastejar para longe, mas ele me puxou e ficou por cima de mim, começou a me sufocar... Eu tentei chutá-lo, mas ele era muito maior do que eu – admiti um ar infeliz — Eu sabia que ele me mataria, então fingi desmaiar, para que ele parasse... – abaixei os olhos, dando ainda mais drama a minha performance – Ele me soltou, mas eu ouvi ele dizendo que “agora teríamos alguma diversão”, aproveitei que ele estava de costas, indo fechar a porta, corri até o taco de baseball e o acertei – finalizei meu relato e não gaguejei em nenhuma parte dele. Estava de certa forma orgulhosa.

– Você disse que tem convicção de que Caleb Olsen é o responsável pelos homicídios, como pode ter tanta certeza? – a detetive questionou, tirando os olhos dos arquivos e os erguendo até mim.

Merda, merda, merda! Era o único pensamento que permeava minha mente, mas me esforcei para não deixar meu desespero refletir na minha cara.

– Eu conhecia o Crash, cresci com ele, e ele sempre foi envolvido com coisas erradas, era muito mais provável ele ter feito aquilo do que Max, Max nunca feriria alguém – falei de forma determinada.

– Pelo que vejo no seu arquivo, você também foi envolvida com coisas erradas, foi sentenciada a fazer trabalho comunitário quando tinha quatorze, assim como seu amigo, Maximus Olsen – Keen pontuou, sorrindo cinicamente.

– Posse de drogas e baderna – admiti. Era de conhecimento geral que minha ficha corrida era um tanto extensa... Considerando minha idade.

– Então você fez a suposição de que ele era o culpado, só porque ele foi envolvido com algumas coisas erradas quando era um adolescente... Mas você também foi – Atwater pressionou.

– E porque Max nunca seria culpado por uma atrocidade assim, seria fácil para Crash incriminá-lo, moram juntos... – divaguei, sustentando o olhar que o negro me lançava.

– Voltando ao incidente... – Keen parecia estar fazendo diversas anotações, o que me fez ficar temerosa com as perguntas que ele poderia me lançar. Só havia ensaiado algumas respostas, as demais teriam que ser na improvisação mesmo. – Você foi no apartamento de Caleb Olsen quantas vezes? – questionou, e eu franzi o cenho, estranhando aquela pergunta.

– Duas – respondi sinceramente.

– Você entrou no apartamento dele quantas vezes? – outra pergunta estranha.

– Uma – admiti.

– Então como você sabia onde estava o taco de baseball? – só então entendi onde ela queria ir com aquele papinho mole.

– Eu vi – a resposta saiu mais rude do que eu gostaria.

– E onde estava? – os olhos dela faiscavam em inteligência e arqueou a sobrancelha como se me desafiasse.

Merda, merda, merda! Não tive tempo de perguntar isso para Max, estava tão nervosa que onde estava o maldito taco era a última das minhas preocupações. Não podia passar muito tempo pensando, eles estranhariam...

Fiz uma ilustração mental do apartamento. Havia um sofá bege, alguns vasos de bonsais na janela, pôsteres de futebol e algumas bandas, pratos sujos na cozinha americana, a televisão estava ligada em algum jogo estúpido... Mas os detalhes eram fugazes, insistiam em me trair.

– Acho que atrás da porta – respondi sem delongas. Minha cabeça levou míseros segundos para formar uma desculpa convincente (eu acho).

– Acha? – a detetive insistiu.

– Sim, eu acho, o taco estava caído no chão, por isso eu o vi. Deve ter caído quando ele abriu a porta e começamos a discutir – revelei, e dessa vez, era eu que a encarava num ar de desafio.

– Você é morena de nascença? – outra pergunta estranha, aquele interrogatório não parecia em nada com os que eu via nos filmes.

– Eu acho que sim, não sei – dei de ombros, um tanto desinteressada.

– Ela é – meu avô respondeu por mim e sorriu ternamente.

– Você tem olhos claros, é jovem... – ditava, e eu continuava confusa sobre onde ela queria chegar com aquelas afirmações – Você poderia ser uma das vítimas – declarou por fim e estendeu sobre a mesa as fotos das demais vítimas. Eu não havia visto-as ainda, não sou do tipo que acompanha casos grotescos, tenho uma certa repulsa por esse tema em particular... Mas ela tinha razão, eu poderia ser uma daquelas garotas.

– Você também, isso não diz nada – avaliei de forma perspicaz e empurrei as fotos de volta a detetive.

Vi o traço de um sorriso se formar no rosto dela enquanto abria mais um arquivo... Aquilo não poderia ser bom. – Aqui estão seus relatórios médicos – declarou e eu já sabia aonde ela iria com aquilo, passei os dedos instantaneamente sobre o pulso: “free your mind”, achei uma boa analogia para o ocorrido... Era melhor libertar minha mente e deixar o resto intacto. – Passou um mês internada numa clínica psiquiátrica – falou como se fosse algo tão corriqueiro como pôr o lixo para fora. – Tentativa de suicídio? –

– Se é o que está escrito aí – a resposta saiu mais brusca do que eu pretendia.

– Então não foi isso que aconteceu? Você não cortou seu pulso e teve que receber três bolsas de sangue? – ela me olhava com certa fúria, como se eu houvesse sido favorecida de alguma forma. Eram bolsas de sangue, não os órgãos de alguém!

– Onde você pretende chegar com isso, detetive? – meu avô se remexeu inconfortável na cadeira e pela primeira vez parecia realmente irritado com aquele interrogatório.

– Ela é uma paciente psiquiátrica, isso deve constar nos registros – respondeu pacientemente.

– E irá, só não entendo por que trouxe isso à tona se não tem uma pergunta coerente para acompanhar essa informação – vovô nunca pareceu tão bad-ass. Adorei.

– Mas eu tenho – novamente aquele traço de sorriso, eu teria pesadelos com aquele sorrisinho cínico – Por que tentou se matar? –

– Término de relacionamento difícil, ele me trocou pela líder de torcida – respondi num ar infantil e extremamente forçado – Momento muito difícil na vida de uma garota de quatorze anos – completei com deboche, sustentando o olhar que a mulher me lançou.

Ela sorriu de canto e fitou brevemente o companheiro para em seguida mudar de assunto.

– Maximus Olsen foi a primeira pessoa a chegar ao apartamento após o ocorrido, certo? – notei claramente a ênfase dada ao “após”, mas me mantive imparcial.

– Sim – confirmei.

– Qual foi a reação dele? –

– Ele ficou abalado, tentou ajudar o irmão, ligou para a emergência – dei de ombros.

– Então vocês não conversaram sobre o que havia acontecido ali? Ele não sabia sobre a briga, nada? –

– Eu tentei explicar que tínhamos tido uma briga acalorada e que para me defender eu havia pegado o taco – falei naturalmente.

– Curioso... – divagou, espalhando alguns papéis sobre a mesa – Esse é o testemunho de Maximus Olsen – comentou num ar distraído – E ele disse, “Vi meu irmão caído, a porta estava aberta, Carter estava checando seus sinais vitais, eu não pensei em nada e apenas corri para buscar ajuda” – ergueu a cabeça, me fitando – Ele não mencionou nenhum tipo de explicação dada por você, na realidade, ele alegou não saber o que você fazia lá – concluiu e ficou estudando minha reação.

– Eu tentei explicar após ele ir buscar ajuda, ele foi, mas ele voltou, e eu ainda continuava lá, havia outras testemunhas que me viram tentando explicar e até mesmo compreender aquela situação – dei bastante ênfase ao “após” também, num jogo que eu começava a apreciar.

– É verdade que você já ameaçou Caleb Olsen de morte? – o negro indagou, num ar pacifista.

– Sim – assumi e nunca desejei ter sido menos impulsiva. Merdas. Sempre. Acontecem. Comigo. Não seria diferente daquela vez. – Eu só queria que ele não machucasse Max, que ele não o pusesse em problemas – suspirei com cansaço – Eu digo coisas estúpidas o tempo inteiro, não significa que vou necessariamente fazê-las – tentei me justificar, um tanto em vão.

– Você estava sob o efeito de drogas no momento que foi ao apartamento de Caleb Olsen? – Keen parecia começar a simpatizar com a minha causa, ou talvez fosse apenas um teatro.

– Da primeira vez sim, mas estou limpa desde então – respondi sinceramente.

– Lembra quais drogas usou no dia? –

Fechei os olhos e umedeci os lábios. Só pensar em drogas me dava uma inquietação, um formigamento na palma das mãos, um nó no estômago, como se todos os sinais da abstinência voltassem subitamente, sem serem convidados e sem serem anunciados. Era horrível e só parecia passar quando eu voltava para o meu ciclo infinito.

– Oxi e coca – respondi e limpei o suor das mãos sobre a calça jeans.

Ambos os detetives arquearam a sobrancelha, um tanto surpresos/admirados.

– Drogas bem pesadas – o negro comentou, enquanto eu me mantinha calada. — Ele era seu traficante, por isso você temia pela segurança de Maximus? – indagou por fim.

Neguei com a cabeça. — Não, ele não era – respondi sem me ater a detalhes.

– Você tem ou teve algum tipo de relacionamento amoroso com Maximus Olsen? – não entendi o propósito daquela pergunta, mas novamente, quem consegue acompanhar a linha de raciocínio da detetive Keen?

– Eu tive –

– Então ele não é mais seu namorado, correto? – prosseguiu.

– Não, ele não é – respondi um tanto impaciente. Minha boca já estava seca, eu estava com fome, não fazia noção de quantas horas havia passado ali, mas parecia uma eternidade. Meu corpo implorava por uma noite de sono.

– Mas você ainda parece se importar muito com ele, tem um motivo para tanta preocupação? – soltou a bomba no meu colo e assistiu de camarote a explosão.

– Eu tive minha vida inteira arrancada de mim, cada mínima coisa um dia estava lá, no outro? Havia sumido – falei entre dentes, com os punhos cerrados sobre a mesa – Ele é meu melhor amigo, a única pessoa que sobrou da minha vida de mentira, eu faria qualquer coisa por ele – declarei ferozmente.

– Inclusive assumir um homicídio que não cometeu? – Erin Keen me olhava tão compenetradamente que eu quase desviei daqueles olhos inquisitivos. Estava notando uma certa tensão sexual provinda da detetive, mas possivelmente fosse apenas meu corpo deficiente em açúcar alucinando um pouco. Ignorei aquele pensamento.

– Acho que nunca descobriremos – respondi obliquamente e a lancei um sorriso torto.

Ela ainda ficou me encarando por alguns instantes, enquanto caímos em silêncio.

Atwater pigarreou, chamando a atenção da companheira.

– Acho que terminamos – falou num ar respeitoso e só então levantou. Apertando a mão do advogado mais pacato da história.

– É, acho que sim – Keen concordou, também levantando-se e repetindo o gesto do negro.

– Estou com fome e alguém tem que alimentar a Nyx – falei na direção do meu avô, que me olhou com bondade. Sorrindo fracamente.

– Iremos providenciar algo e pedirei para sua irmã alimentar sua gata, eu vou tentar tirá-la daqui ainda hoje, eu prometo, little bunny – ouvir aquele apelido pareceu ativar algo no meu cérebro, uma memória remota da minha infância com os Benson’s.

Levantei e o abracei, afundando meu rosto no terno caro e o estragando um pouco com as minhas lágrimas. Acho que ele não se importou.

– Obrigada – sussurrei, enquanto ele beijava o topo da minha cabeça e só então saiu do cômodo. Onde fiquei sozinha... Pensando em Orange Is The New Black, e imaginando em que grupo eu me encaixaria na prisão, possivelmente fosse ser a Soso, a inconveniente e deslocada. Admito, aquele pensamento não alegrou meu espírito, mas fazer o que... É a vida, merdas acontecem.