Finding Carter
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Não tenho ideia de como chegamos até uma tenda. Minha blusa já havia se perdido entre o percurso da boate até lá e eu não estava nem um pouco interessada em procurá-la.
Sem romantismo algum ambos estávamos despidos, quanto mais carnal melhor, pelo menos nisso Elliot e eu concordávamos.
Nossas línguas travavam uma briga pelo controle, nossos corpos se completavam e uma infinidade de sentimentos estavam envolvidos ali, mas nenhum dos dois parecia se importar muito com isso. Minhas unhas cravaram-se na pele alva de Elliot, enquanto ele comprimia seu corpo contra o meu. Havia até me esquecido o que sexo e drogas têm de diferente: o êxtase é melhor na primeira alternativa.
– A festa acabou, crianças – pude ouvir a voz de Olivia ao longe, falando pelo microfone. A amaldiçoei internamente, enquanto criava forças para tirar Elliot de cima de mim.
– Não, não vai, a policia ainda vai demorar a nos achar – ele falou de forma manhosa, e pelo tom que entoo aquela transa seria apenas o aperitivo da noite.
– Aquela é a minha nova versão de mãe – declarei com sarcasmo, virando-me em busca do sutiã – Puta que pariu, essa mulher não tem vida – resmungava me “ajeitando” da melhor forma que consegui. Minha blusa, cadê minha maldita blusa ?
– Vamos para minha casa ? – convidou, me puxando novamente para o colo dele e selando meus lábios.
– Eu queria, mas não posso largar Lauren só nessa encrenca, já a traí demais por hoje – revelei e me levantei, saindo da tenda e me pondo a procurar minha blusa, mas naquela confusão de adolescentes desesperados por suas fugas, ficou bem difícil. Elliot me seguiu, trajando apenas a bermuda, senti vontade de mandá-lo pôr a camisa. Não, não pode ser, eu estava com ciúmes ?! Nada disse quando ele me pegou pela cintura, me girando para que eu pudesse encará-lo.
– Vamos para minha casa – o tom autoritário dele era tão irresistível quanto o resto. Meu autocontrole é uma merda.
– Carter! – Lauren gritou antes que eu pudesse respondê-lo, ela se aproximava na companhia de Max e parecia realmente nervosa, eu prometi a melhor noite da vida dela e falhei drasticamente com o combinado – Nós deveríamos ir, mamãe deu a maior cena, chamou a polícia e tudo – falava de forma apressada, se atrapalhando nas próprias palavras.
– Um pouco tarde sis, ela está vindo agora mesmo – falei e enfiei a mão no bolso do Max, pegando o resto da remessa e pondo no meu próprio bolso. Minha blusa era irrelevante, as drogas eram importantes ? Vai entender minha lógica.
– Mãe, desculpa, eu posso explicar – Lauren virou e já despejava suas desculpas. Olivia não parecia muito interessada na loura, pois mantinha as orbes escuras sobre a minha pessoa. Deveria me sentir acuada ?! Sei lá, apenas a encarei de volta, arqueando a sobrancelha.
– Vão embora, meninos – ordenei e Olivia não fez nenhuma objeção, embora tenha encarado Elliot muito, muito seriamente, sério, tipo olhar assassino.
– Se divertiram, garotas ? – falou por fim. Lauren estava tão branca que eu estava com medo que ela desmaiasse bem ali.
– Não tanto quanto a diversão que nos espera em casa, certo Lauren ? – retruquei com ironia e marchei à frente das duas, num ar altivo.
– Carter! – Max gritou, me virei para vê-lo – Crash saiu – o louro parecia ter lembrado de algo importantíssimo, então essa era a surpresa dele ? Foi a minha vez de ficar completamente pálida.
†
Não tentei me defender, não disse nenhuma gracinha, não fiz absolutamente nada, apenas me afundei naquele sofá e fiz simbiose com as almofadas. Minha cabeça estava num lugar muito mais distante do que uma simples festa, uma blusa perdida, algumas mentiras inofensivas, e pais superprotetores, como alguém conseguia viver daquela forma, se importando com coisas medíocres ?! Eles falaram tanto que só notei quando era hora de levantar quando Lauren me cutucou.
– Você entendeu alguma coisa que dissemos, Carter ? – Olivia exigiu de forma irritada.
– Sim – respondi automaticamente e subi as escadas a passos arrastados. Mais uma mentira.
– Qual é o seu problema, Carter ?! – Lauren quis saber, realmente brava.
– Problemas reais e não essa brigazinha idiota com seus pais – respondi no mesmo tom, me enfiando no meu quarto em seguida. Inferno, o que era necessário para se ter um pouco de paz naquela casa ?!
Passei o resto da noite encolhida ao lado da porta, chorando abraçada as minhas pernas, Crash de volta era meu pior pesadelo, não poderia ser arrastada para aquilo novamente. Ele deveria apodrecer na cadeia...
– Carter ? – Jane ?! Ok, aquilo era estranho, ou nem tanto, bastou eu levantar a cabeça para notar os raios de sol do lado de fora da minha janela. Já era manhã ?! O que diabos aquela velha queria ?!
– O que é ? – respondi de forma impaciente.
– Posso falar com você ? – e o que diabos ela estava fazendo se não falando comigo ?
– Não é uma boa hora – respondi de forma cansada, encarando aqueles arranhões que eu fiz inconscientemente nas minhas pernas.
– Garota, eu estou tentando ... – Jane falava enquanto abria a porta, sem se importar com a própria intromissão, mas parou no meio da frase ao notar meu estado. Me levantei num pulo, enxugando as lágrimas com o dorso da mão – O que aconteceu, você está bem ? Suas pernas... – o tom e semblante da mulher mudaram instantaneamente.
– Eu estou bem – respondi automaticamente, me cobrindo com o lençol.
– Você não parece bem – avaliou.
– Por que as pessoas dessa casa não cuidam da própria vida ? – rebati com voracidade.
– Me deixe ajudá-la e eu não conto nada para sua mãe – a mais velha não se abalou. Ela estava realmente me chantageando ? Yeh, ela estava.
Concordei fracamente com a cabeça, seria melhor lidar com Jane do que com Olivia. A mulher saiu do quarto, voltando instantes depois com um kit de primeiro-socorros.
– Me desculpe por bater em você – falou, umedecendo um pedaço de gaze com iodo e passando sobre meus arranhões, agarrei na borda da cama para reprimir qualquer xingamento que porventura viesse a escapar dos meus lábios.
– A caveira é a representação mais pura do ser humano, ela não tem cor, orientação sexual, religião, status social... Tirando a carne, todos somos caveiras – respondi pausadamente, suspirando a cada nova palavra. Talvez uma explicação do que a caveira representava para mim, fosse fazê-la mudar de opinião.
A mais velha nada disse, apenas arqueou a sobrancelha, com o traço de um sorriso sobre os lábios – Você parece muito com a sua mãe – revelou passando uma espécie de pomada, para só então cobrir as injurias mais profundas com band-aid’s.
– Tenho ouvido isso com certa frequência – admiti.
– E é por isso que eu sei que você não irá me dizer o que aconteceu, mas a qualquer momento que quiser conversar, eu estarei aqui – falou, guardando os objetos que usou para o meu remendo.
– Obrigada – sussurrei antes dela cruzar a porta.
Ela tinha razão, eu não tinha a menor intenção de conversar sobre aquilo, mas eu precisava falar com o Max.
– Merda – xinguei antes de mandar uma única mensagem.
“Precisamos conversar, passe aqui” – C.
Hank, aparentemente, conheceria Max bem antes do que eu previ.
†
Era inútil tentar dormir, por mais que eu me esforçasse, meu cérebro simplesmente se recusava. Quando entendi que havia perdido aquela luta, me forcei a pôr uma calça e, finalmente, uma blusa. Minha barriga resmungava de fome, mas não a acatei, muitas pessoas bateram na minha porta, não prestei atenção a nenhuma delas. Olhar o nada se tornou a coisa mais interessante para mim, pelo menos até ouvir o som da campainha. MAX.
Levantei da cama e caminhei até estar no topo da escada, Lauren foi a pessoa a ir atender a porta, notei-a corando à km de distância. Max e ela deram um abraço meio sem jeito, sorri de canto, eles formariam um belo casal e só então desci os restantes dos lances.
– Esse é o Max – apresentei o louro, que estava mais deslocado que uma freira numa sessão de filmes pornôs.
Ele lançou um sorriso tímido para todos.
– Olá, rapaz – Hank o cumprimentou, avaliando-o muito atentamente e oferecendo a mão, a qual Max rapidamente apertou.
– Quer alguma coisa para beber, Max ? – Olivia foi mais hospitaleira.
– Não, ele não quer nada – respondi pelo garoto e o puxei pelo braço, subindo as escadas com ele no meu encalço.
– A porta permanece aberta – Voight falou e foi necessário todo meu autocontrole para não mandá-lo a merda.
– Eles parecem pessoas legais – Max iniciou de forma incerta, sentando-se sobre a cama. Senti vontade de estapeá-lo, era isso que eu mais odiava e ao mesmo tempo amava sobre ele, Max parecia incapaz de sentir raiva, ódio, falar coisas maldosas sobre outras pessoas...
– Não me vem com essa merda zen hoje, Max – sussurrei de forma raivosa, encostando a porta, afinal, não poderia fecha-la, ele não mencionou nada sobre deixá-la entreaberta.
– Desculpa –
Não queria descontar nada nele, Max não merecia ser meu saco de pancada.
– Você precisa voltar para Chicago, Max, eu sei que você foi expulso de propósito – iniciei, reprimindo as lágrimas da melhor forma que pude.
– Eu não quero ir – ele me interrompeu e parecia confuso sobre o porquê de eu estar o dizendo aquilo – Por que você quer que eu vá embora ? – quis saber.
– Você tem seus pais, nossos amigos, você ama Chicago – ditava coisas completamente aleatórias, o que apenas aumentou a confusão do louro a minha frente.
– Eu amo você – deu a cartada final, eu poderia usar aquele argumento sobre o porquê eu gostaria que ele fosse embora, eu também o amava.
– Você tem que ir, ficar com o Crash não é uma boa opção, você tem que confiar em mim – praticamente implorei.
– Ele é meu irmão, nós crescemos juntos, Carter, o que você quer dizer com isso ?! – inquiriu um pouco mais alto do que eu gostaria.
– Ele não é quem você pensa que ele é, eu não quero que você se machuque, Max – falei, tentando uma aproximação.
–Você tem noção que está falando sobre meu irmão certo ?! – praticamente gritou aquelas palavras, apontando de forma raivosa na minha direção — Eu não ficaria contra ele nem por você, Carter, ou você corta essa baboseira ou nós, ou o que quer que isso seja, acabamos agora – decretou. Aquela era a primeira vez que Max usava suas palavras para magoar alguém, eu odiava o fato de eu ser a pessoa a quem ele resolveu ferir.
Meus olhos afundaram-se em lágrimas e apenas abaixei a cabeça, deixando que elas rolassem pelo meu rosto.
– Vá embora – sussurrei após reencontrar minha voz. Não conseguia sequer encará-lo, preferiria me lembrar do Max que nunca me olharia com ódio, que nunca me recusaria um abraço, que nunca me falaria aquilo... Meu melhor amigo, não aquela pessoa.
Ele não respondeu e apenas atravessou a porta, partindo de forma furiosa. Meu consolo residia no fato de que eu tentei, eu tentei protegê-lo.
†
“Estou vivendo num loop infinito... E eu sinto falta da minha mãe”
Que merda de situação, eu estava tão deprimida ao ponto de não conseguir sequer escrever no meu diário ? Aparentemente. O celular que eu tinha entre os dedos dedurava que a dias eu aguardava uma única mensagem... Uma que não viria. Max já aguentou minhas merdas por tempo demais, seria injusto eu exigir qualquer coisa dele.
Que dia era mesmo ? Quarta, quinta ? Não que faça alguma diferença.
– Você está pronta ? – Lauren já não se dava nem ao trabalho de bater na porta, inteligente da parte dela, já que eu nunca respondia – Aparentemente não – constatou ao ver meu estado.
Eu estava deitada sobre uma pilha de folhas de trabalhos que eu precisava fazer, atividades atrasadas... Eram tantas coisas que eu não sabia nem por onde começar, justamente por isso eu fiz a coisa mais lógica, não comecei nada.
– Eles irão te forçar a ir nessa terapia idiota, então é melhor agilizar – resmungou num tom mais brando, saindo em seguida.
Me forcei a sair da cama, espalhando uma quantidade absurda de papel pelo chão, pouco me importei. Troquei de roupa e desci, pelo menos a terapeuta atendia a domicílio, apenas assim para aquilo ser minimamente mais tolerável.
Me enfiei na única poltrona vaga, minha ilustre presença, pelo visto, era o que faltava para aquela sessão começar.
– Carter, é bom finalmente conhecê-la – a mulherzinha, a qual não prestei muita atenção, me cumprimentou com um sorriso polido sobre os lábios.
Suspirei e continuei encarando-a sem esboçar nenhuma reação.
– Quem quer começar compartilhando algo hoje ? – ela prosseguiu quando notou que eu não iria respondê-la. Era só eu que achava, ou aquilo parecia uma sessão do AA ?
– Eu gostaria de confiar mais em vocês – Hank se prontificou a iniciar. Nunca achei que terapia fizesse o estilo dele...
Lindsay e Justin se remexeram de forma inquieta no sofá, acho que tomaram aquela indireta bem mais arduamente do que eu, ou Lauren.
– Ela não é um bebê – Lindsay externou sua opinião, fitando o pai num ar de desafio.
– Mas seus pais os deixaram responsáveis por Carter naquele dia, certo ? – a terapeuta intermediou aquela conversa.
Deram de ombros, para enfim concordarem.
– E o que vocês fizeram ? – a mulher pressionou mais um pouco.
– Ela fugiu, não foi nossa culpa – Justin mentiu descaradamente, aqueles dois tinham índoles bem duvidosas.
– Até quando vocês continuarão mentindo ? – Olivia se intrometeu e parecia fazer um grande esforço para manter o tom de voz baixo.
– Carter, você tem algo a dizer ? – novamente a terapeuta intermediou uma provável discussão.
Eu poderia dedurá-los, mas que graça isso teria ?! Eu podia estar um pouco deprimida, mas ainda pegaria meu dinheiro de volta, com juros e taxas adicionais.
– Essa é a pior terapia na qual estive e olha, já estive em algumas. Por que vocês não conseguem esquecer ? Já passou, acabou, eu já fiz, não dá para mudar, vocês entendem o conceito de passado ? É disso que esse episódio se trata, p.a.s.s.a.d.o – falei ou tinha a impressão que iria morrer com aquelas palavras engasgadas – Superem e por favor, da próxima vez não esperem minha presença para iniciarem essa idiotice, pois eu não virei – e com tudo isso dito, me levantei, eu daria uma ótima oradora, pena que acho que não chegarei à concluir o ensino médio, anyway, eu daria uma ótima oradora mesmo assim.
Tranquei a porta e fui ao meu mais novo esconderijo de drogas (eu fiz um furo no colchão e enfiei tudo lá, não sirvo para ser uma espiã, I know), como opção temos: coca, maconha, algumas pílulas... Meu estoque estava se esvaindo bem rapidamente, assim como a minha sanidade.
Eu estava rumando de volta a um lugar pouquíssimo agradável.
†
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