Finding Carter
8 Falling
P.O.V Olivia B.
– Deixe-a ir, querido – pedi, vendo-a afastar-se de forma raivosa. Carter era tão cheia de atitude e fúria, ninguém podia negar que aquela garota era uma força da natureza.
– Vovó deu um tapa nela ?! – Lauren indagou, tomando as dores da irmã. Pelo menos elas se davam bem, já era alguma coisa. Pude notar que Carter nunca tratou nenhum dos irmãos mal, com Hank ela geralmente é sociável (quando ele não a pega com drogas e a deixa de castigo), o problema dela é comigo e agora, com a minha mãe. Ela realmente me odeia, ao ponto de nunca me olhar nos olhos e bem, eu não sei o que fazer para me aproximar.
– Não vamos tornar isso mais difícil, por favor, Lauren – respondi – Pegue suas coisas, nós já vamos – completei, mas recebi em retorno um revirar de olhos e uma resposta malcriada.
– Eu vou só –
Fiquei olhando-a atravessar a porta e partir, enquanto Hank me fitava com certa apreensão, Lauren nunca agia daquela forma.
– Podemos pegar seu carro, Olivia ? – Lindsay questionou e eu apenas a joguei as chaves da SUV.
Voight poderia me dar uma carona.
– Deixem Noah na escolinha, por favor – pedi e eles apenas concordaram, saindo em seguida.
– Sua mãe não pode bater nos meus filhos, Olivia – Hank decretou de forma séria, poderia aplicar sua política de “brutalidade” na sua delegacia, mas nunca levantou a mão para nenhum dos nossos filhos e se orgulhava muito desse fato, eu também.
– Ela não fará isso novamente, eu prometo – tentei amenizar a situação, sabia o quanto Voight estava chateado, eu também estava. Lidar com Carter já era difícil do modo que era, não precisávamos agravar o comportamento dela ao dar-lhe motivos para tal.
– Você deveria parar de caçar Lori Stevens – Voight sussurrou, segurando na minha mão – Você nunca terá uma chance com ela, enquanto caçar a mulher que ela tem por mãe, Liv – concluiu de forma terna, sabia que ele só queria meu bem, mas como ele poderia me pedir aquilo ?! Lori Stevens roubou treze anos da minha vida, me fez viver num interminável estado de pavor, tristeza, medo... Aquela mulher me fez sentir-me culpada todas as vezes que eu me permitia ter algum vislumbre de alegria, por ela eu havia perdido tantas coisas da vida dos meus filhos. Todas as vezes que eu sorria, uma parte de mim recriminava essa ação. E se a minha filha estivesse morta ? Com fome ? Medo ? Eu não tinha o direito de ser feliz, não enquanto não soubesse o que havia acontecido com a minha Katherine, Lori Stevens era meu demônio e eu não teria paz enquanto não a pusesse atrás das grades ou a sete palmos abaixo da terra.
– Deveríamos ir, estamos atrasados – mudei de assunto e ele pareceu notar, pois apenas suspirou, respeitando minha decisão.
†
– Você não parece bem – Elliot avaliou e pareceu usar boa parte do seu (pouco) cérebro nessa missão. Ok, Elliot era um gato, mas tinha um intelecto bem limitado, tira-se pela piadinha da primeira vez que nos encontramos e olha, eu repeti de ano, então vá por mim quando eu digo que ele não é a pessoa mais esperta da face da terra. O que diabos Lauren queria com seu completo oposto ?!
– O que eu faria sem a sua perspicácia, Elli ? – rebati cheia de ironia e ele apenas sorriu mais largamente, me acompanhando pelo enorme corredor.
– É um pecado alguém bater num rosto tão lindo – ele era um galanteador meio barato, tenho que admitir, mas as vezes era até fofinho.
– Nisso nós concordamos – admiti com ódio, recordar daquela velha me dava asco, agora ela estava quase no mesmo nível de ódio que eu nutria pela Sra. Humphrey – Mas faço questão que todos vejam, talvez eu possa usar isso no processo que moverei contra os Benson’s quando minha mãe voltar – divaguei, embora tenha quase certeza que o louro tenha ficado um pouco confuso sobre meu “plano”.
– Você iria embora se ela voltasse ? – questionou com certa confusão e me puxou para um local mais reservado. Ok, eu não havia contado aquilo para ninguém ainda, esperava que Elliot pudesse guardar esse segredo.
– Sem nem olhar para trás – respondi com firmeza e senti as mãos dele irem de encontro a minha cintura, me puxando para mais próximo ao corpo dele.
– Então acho que terei que fazer meu movimento antes de perder a chance – e com isso dito ele aproximou os lábios dos meus. EM MINHA DEFESA... Ok, eu não tenho uma. Sim! Eu correspondi ao beijo, meu Deus, era tão delicioso, sem ser muito melecado e nem muito delicado, tinha a intensidade certa e OMG, que pegada era aquela ?!
LAUREN!
Minha mente estava em todos os lugares possíveis, mas bastou o nome da minha irmã saltar na minha cabeça para eu afastar o louro, interrompendo o beijo. Ele me olhou com confusão, nenhuma novidade até aí e me encarou com aqueles olhos avelã maravilhosos.
– Não gostou ? – tentou descobrir o motivo da minha súbita falta de vontade em correspondê-lo.
– Eu não posso fazer isso – falei e o empurrei para o lado, abrindo passagem e marchando a frente dele.
– Por que não ? – eu sabia que ele iria me seguir, mas contanto que estivéssemos num lugar com mais pessoas, a cena que ele faria poderia ser menor, como previsto, foi, já que ele apenas sussurrava ao meu ouvido.
– Eu tenho um namorado – menti descaradamente, mas não podia revelar os sentimentos de Lauren por ele, seria muito patético para ela, nunca a sujeitaria a essa humilhação.
– Isso é uma novidade – ele parecia duvidar de mim, e tenho dito, sou uma ótima mentirosa, sério, passo a perna em qualquer um. – E onde ele está ? – quis saber, arqueando as sobrancelhas em tom de desafio.
– Sábado você irá descobrir – respondi e sorri sadicamente, dando fim aquela conversa. Quem me dera Max soubesse beijar assim, acho que ainda estaríamos namorando... Mudei rapidamente esse pensamento para minha gêmea, eu não poderia magoá-la daquela forma e que Deus me ajudasse para que ela não descobrisse sobre aquele beijo.
†
P.O.V Elliot Larson
Aquela garota iria me levar a loucura, essa era a única certeza que eu tinha da vida no momento.
– Já tá viajando, cara ? – Alexander perguntou, passando os braços em torno do meu pescoço e me dando uma gravata. O maldito era alto, um pouco mais alto do que eu (ok, bem mais alto), e adorava esse lance de lutas, o que vinha a calhar quando nos metíamos em brigas por aí, mas receber uma gravata por dia não é lá tão divertido assim, me desvencilhei dele, sorrindo fracamente.
– Carter me deu uma fora, sei lá – admiti meio desanimado. Todos da nossa roda de amigos já sabiam do meu interesse por ela, não era nenhuma vergonha falar sobre isso.
– O grande Elliot Larson, levando um fora ?! Isso sim é novidade – ele tentou me “animar” ao estilo Alex de ser. O dei uma cotovelada leve.
– Relaxa cara, ela está se fazendo de difícil, mas tá completamente na sua, amanhã será seu dia – ele realmente se esforçou para me animar dessa vez, foi capaz até de me arrancar um sorriso.
– É, sábado – concordei e fizemos nosso cumprimento usual antes de eu entrar na sala.
Eu não sou o mais intelectual do universo, mas eu reparo muito bem no meu principal assunto de interesse: mulheres. Sou seletivo com as minhas escolhas e muitas daquela sala nunca teriam nem chance, por mais que tentassem, simplesmente não funcionaria. Elas cochichavam e lançavam sorrisinhos toscos na minha direção, não sorri de volta, não hoje, meu humor não era dos melhores e o único pensamento que eu tinha era sobre o beijo que eu havia acabado de roubar. Precisava de Carter, era como uma obsessão sabe ? Não no sentido ruim, eu nunca mataria uma pessoa, ou a machucaria, eu apenas precisava experimentar aquele novo sentimento que crescia dentro de mim desde o dia que eu a vi andando naquela calçada como uma mendiga; fones no ouvido, cabelos desgrenhados, pijamas e aquela tatuagem de cruz... Além do que, ela havia correspondido ao beijo, o que significava que eu tinha uma chance, mesmo que remota.
– Lauren, certo, irmã da Carter ? – indaguei para a menina que sentava na minha frente. Eu nunca havia reparado nela antes, era loura e bonitinha, mas o tipo de beleza comum... E bem, eu sou mais o tipo exótico; afroamericanas, mexicanas, asiáticas, Carter... Não sei, algo no tom mais escuro simplesmente me fascina.
– S-sim – ela gaguejou e pigarreou para em seguida se corrigir – Sim, desculpa –
Franzi o cenho, vendo-a corar inteira, não entendi se era por minha causa... Tinha que ser né ? Eu era o único falando com ela. Preciso de tempo para processar, sou meio lento com essas coisas, após divagar por um tempo resolvi ignorar o constrangimento dela e ir direito ao assunto – Ela falou algo sobre algum namorado ? – questionei sem delongas.
– Ela me falou sobre um tal de Max, disse que eram amigos de infância, mas que haviam terminado antes dela... Voltar – a loura me respondeu num tom meio desanimado, será que eu havia feito algo ?! Acho que não, eu estava sendo um completo cavalheiro.
– Ela mentiu para mim – pensei alto e suspirei, cruzando os braços sobre o peito.
– Como assim ? – a garota quis saber.
– Eu a beijei e ela disse que tinha um namorado – admiti de forma distante e no minuto seguinte o professor adentrou a sala, iniciando a matéria do dia, que era... Não faço ideia.
†
– Você não vai ficar no caixa com essa cara – Pablo disse ao me entregar uma bandeja cheia de sorvetes da amostra grátis.
– Daí quer que eu fique no sol segurando uma bandeja na frente de todo mundo ? – rebati sem muita paciência. Aquele não era meu dia, pus meu avental e revirei os olhos antes de ir até a entrada do estabelecimento.
– Quero ver um sorriso, Carter – Pablo “pediu” de dentro do lugar, senti vontade de mostrá-lo o dedo médio, mas sabe ? Eu sou muito profissional, então apenas fiz como ele havia mandado e sorri, mesmo que fosse o sorriso mais falso do universo.
– Aqui vende sanduíche ? – ouvi algum idiota perguntar, só poderia ser uma piada né ? Tem uma placa gigante com a PORRA DO NOME DO LUGAR: Red Mango Frozen Yogurt and Smoothies, e o escroto tá me perguntando se vende sanduíche ?!
– Não, nós não vendemos – respondi com toda a paciência que me restou, e olha, não foi muita.
– Por que não ? – o inconveniente realmente me pegou num péssimo dia, eu aceitaria gracinhas sobre quaisquer outras circunstâncias, só não naquele dia, Deus não deve ter ouvido minhas preces. Então é, eu estourei, e estourei epicamente.
– Porque a porra do dono decidiu que só venderia sorvete, frozen e smoothies, o que você vai fazer ?! Chamar a polícia porque não vende seu maldito sanduíche aqui ? Não sabe ler, esse fundo de garrafa não serve para nada ?! Não tá vendo que do outro lado dessa maldita rua tem a merda de um fast-food para você ficar ainda mais gordo e imundo ?! – vociferei para todos que quisessem escutar e parecia uma psicopata. Pelo menos eu tinha plena consciência do quão perturbada eu aparentava. Não me importei com nada disso, nem com o garoto que parecia a beira das lágrimas a minha frente – Estúpido! – acho que exagerei, porque ao fim do meu “descontrole”, me sentia leve como uma pena, embora tenha sido demitida.
“Sabe aquele momento onde você faz uma grande merda e depois se arrepende, no mesmo instante ? Foi assim que me senti ao entrar novamente na sorveteria e me deparar com o olhar decepcionado de Pablo sobre mim, ele havia me dado uma chance e o que eu fiz ?! Caguei por cima, como usual. Eu era amaldiçoada, eu era a pessoa mais amaldiçoada do universo.”
Não, não iria para casa. Após um dia infernal como aquele, eu precisava espairecer e por espairecer eu digo usar drogas, é a única forma que eu sei de fugir da realidade. Como eu suspeitava, achá-las não foi nenhum problema, até o número do traficante eu consegui, acho que minha carinha bonita faz mesmo sua mágica. Nada muito forte, alguns analgésicos, maconha e dez gramas de coca, não iria usar tudo em conjunto, nenhuma intenção de ter uma overdose.
Andava até a estação de metro quando ouvi uma sirene as minhas costas, não virei a princípio, simplesmente não acreditei que meu dia pudesse ficar ainda pior, parecia impossível um dia ser tão fodido assim, mas eis, que mais uma vez eu me enganei.
– Paradinha aí – uma mulher falou e eu fiz como pedido.
Correr não faz bem meu estilo.
– Sou a policial Burgess e aquele é o policial Roman – a baixinha de olhos esbugalhados falou, parecia temerosa com algo e pude notar que ela me “conhecia”.
– Não sabia que vocês entravam na academia para se tornarem babás – falei ao sentir o oficial Roman pegar minha mochila, revistando-a, enquanto Burgess fazia o mesmo comigo – Voight deve estar desesperado – comentei nem um pouco alterada.
Óbvio que eles acharam as drogas, mas para minha grande felicidade eu já havia usado o analgésico, então seria um anjinho por algumas horas, até o efeito passar pelo menos.
– Iremos a levar até a delegacia – ouvi alguém dizer, não sei se simplesmente decidi ignorar quem era, ou se realmente não fazia ideia. O que sei é que me enfiaram num carro e no instante seguinte, SÉRIO, tipo teletransporte, eu atravessava a porta da delegacia, subindo umas escadazinhas e sendo colocada numa cela individual, nada delicados. Não fiz nenhuma exigência e apenas aceitei meu destino.
Uma sensação de deja vu se apoderou de mim, aquilo não era estranho. Me deitei sobre o concreto frio, usando minha touca como “travesseiro” e fiquei horas encarando o nada, com o olhar completamente vazio. Acho que Hank sabia que eu estava drogada, porque ele esperou até o efeito passar para vim falar comigo, não apreciei muito a ação, preferiria ter aquela conversa sob o efeito de entorpecentes, não iria aguentar mais outro sermão sóbria. CADÊ A CORDA PARA EU ME ENFORCAR ?
– Levanta – a voz rouca dele ecoou pela cela, demorei algum tempo para me mover, mas acabei o fazendo, por falta de melhores opções.
Não sei porquê, mas me sentia incapaz de encará-lo, então fiquei com os olhos baixos, fitando meus tênis e esperando o temido sermão, mas ele não veio.
– Oficiais Burgess e Roman não irão a fichar, quero que vá até eles e agradeça – acho que eu iria preferir vê-lo gritando, algo naquele tom contido era igualmente assustador.
– Agradecer por estarem me seguindo ? – questionei com deboche, força do hábito eu diria.
– Cale a boca e faça o que eu mandei, ou eu irei deixá-la por um mês nessa cela – respondeu com impaciência e algo no semblante dele denunciava que ele falava sério. Havia cansado das minhas brincadeiras. Ele não era o único a se sentir miserável naquele jogo infinito.
Engoli qualquer resposta que pretendia dar e o lancei um breve aceno em concordância, saindo da cela e o seguindo por um enorme corredor, repleto de celas iguais a que eu estava. Passamos por uma porta metálica e em seguida já estávamos na parte dos policiais, ele ficou parado na porta, enquanto eu esquadrinhei o recinto, em busca da dupla dinâmica.
– Hank Voight me obrigou a pedir desculpa – falei ao me aproximar deles, que pararam de conversar a me ver chegar.
A baixinha de olhos esbugalhados sorriu meio sem graça, o louro não.
– Dessa vez passa – ele falou de forma mal-humorada.
– Se pararem de me seguir, não haverá uma segunda – respondi sem me abalar pela pose “policial do mês” e me distanciei da dupla. Babaca.
– Satisfeito ? – questionei ao me aproximar do carrancudo que me aguardava com os braços cruzados e uma cara de poucos amigos.
Ele não respondeu e eu apenas revirei os olhos. Aquele mês na cela ainda estava disponível ?
– Sua mãe está a esperando – me levou até a porta da delegacia para enfim dizer algo.
– Duvido disso – sussurrei pelas costas dele, mas alto o suficiente para que ele pudesse escutar.
– É sua escolha, Carter, podemos passar dois anos vivendo dessa forma, ou você pode encontrar um meio de torná-los suportáveis, tanto para você, quanto para nós – ele virou-se e falou com o dedo em riste na minha direção, parecia extremamente magoado.
Se minha mãe não voltasse e se eu não me encaixasse naquela família, em dois anos estaria completamente só no mundo. A possibilidade me assustava, embora não tanto quanto a possibilidade de nunca ver minha mãe novamente.
– Dois anos então – sibilei e me distanciei dele, indo até o carro de Olivia, me enfiei no banco ao lado dela e pude observar Noah no banco traseiro, com a farda do futebol, assim como uma bola entre as pernas. ADORÁVEL.
Fiquei esperando algum drama provindo da morena, mas também não veio. Ela manteve-se calada e apenas dirigiu, fato que eu apreciei.
– Oi Cater – Noah me cumprimentou.
Virei brevemente, o lançando um sorriso – Olá, capitão Jack – ele estava numa fase de Piratas do Caribe.
Olivia deu um sorriso amarelo, possivelmente impressionada com o fato de eu saber daquilo.
– Você vai assistir meu jogo ? – ele questionou e parecia realmente entusiasmado. Eu nunca fiz nada por ele, mal falava com ele na realidade, mas mesmo assim, Noah sempre era extremamente acolhedor.
– Eu não perderia por nada – respondi e o pisquei de forma cúmplice, recostando-me no banco em seguida. Deixando meus pensamentos vagarem pelos recentes eventos da minha vida.
**
– Você quer ? – Olivia me interpelou, sentando-se ao meu lado na arquibancada de madeira. Ela me oferecia pipoca e refrigerante, recusei a ambos com um manear breve de cabeça.
Caímos em silêncio, nenhuma das duas sabia exatamente o que dizer. Muitas coisas precisavam ser ditas, mas nenhuma se atrevia a ser a pessoa a iniciar aquilo. Mantivemos nossos olhos sobre Noah enquanto isso.
– Me desculpe pela minha mãe – Olivia falou, e eu apenas concordei com a cabeça, com um nó se formando na minha garganta. Se controle, merda, não é hora de chorar.
– Eu não estou facilitando a vida de ninguém, a minha inclusa nessa conta – admiti de forma distante, encarando o campo a minha frente.
– Não posso discordar disso – a outra brincou e deu um sorriso fraco.
– Me desculpe pelas drogas na sua casa – sussurrei após um longo momento de reflexão, não havia sido a coisa mais esperta a se fazer e de certa forma, eu entendia o porquê dela ter ficado tão irritada. Lori simplesmente nunca se importou com isso, falávamos sobre tudo... Acho que é disso que sinto mais falta, ter alguém com o qual conversar que não vai me olhar com reprovação.
– Mercedes as achou, pensou que fossem anticoncepcionais, ela é uma católica muito devota, o fato de uma adolescente estar fazendo sexo é ultrajante para ela – a morena deu um riso nasalado e passou os dedos nos cabelos — Eu preferiria que fossem anticoncepcionais – revelou e me olhou, parecia estudar meu rosto, o que era um pouco estranho.
– Eu tomo injeção, lembrar de tomar a pílula não é meu forte – falei de forma neutra, merdas acontecem quando você esquece de tomar. Olivia apenas arqueou as sobrancelhas, talvez ela esperasse que eu fosse virgem ?! Acho que não. – O que foi ? – perguntei após ela me olhar de forma chocada por tempo demais.
– Você é muito parecida comigo – afirmou e alargou um sorriso pelo rosto, não consegui manter a seriedade por muito tempo e também a acompanhei, embora duvidasse que ela pudesse ter passado pelas mesmas experiências que eu.
– E o que uma certinha Olivia Benson tem de parecida comigo ? – indaguei com certo sarcasmo.
– Eu simplesmente frustrei todos os planos da minha mãe sobre debutar na sociedade, sobre me tornar uma socialite, casar com um cara pró-eminente, nunca fui a princesa que ela esperava que eu fosse... A levei a loucura na adolescência, odiava ir à escola, fugia a menor oportunidade que tivesse, sempre namorava o carinha que ela mais detestava, festas, algumas leves transgressões – ia ditando aquilo, enquanto eu a olhava num ar incrédulo, nunca imaginei algo daquele tipo vindo dela. Na maior parte do tempo, pelo menos para mim, Olivia parecia uma máquina de matar.
– Sua mãe tinha sonhos medíocres para você – declarei, recostando-se mais no banco e levando a mão até o saquinho de pipoca, roubando algumas.
Noah corria na direção oposta ao campo adversário, me arrancando uma audível gargalhada quando ele marcou um gol contra. Ele olhou em direção a arquibancada, numa carinha esperançosa e com o sorriso mais fofo do universo, fui a primeira a levantar e aplaudir, assoviando em aprovação – Essa criança tem que procurar outro hobbie da vida – falei para Olivia, que não demonstrava nenhuma surpresa com a falta de coordenação do caçula, e parecia concordar com aquela premissa. Futebol possivelmente não fosse a melhor área para Noah.
Me sentei novamente, após o jogo recomeçar, fui a única a aplaudir com tanta veemência, que pessoas sem senso de humor. – Eu era terrível no futebol também – revelei com um sorriso triste a brotar sobre meu rosto, Lori também aplaudia quando eu fazia gol’s contra, ou quando eu resolvia dançar no meio do jogo, sem motivo aparente... Ela nunca precisou de motivo para sentir orgulho de mim.
– Você foi feliz ? – aquela pergunta me pegou de surpresa, mas eu não precisei pensar muito sobre a resposta.
– Muito – respondi e mordi o lábio inferior, engolindo todas as lágrimas que ameaçavam descer – Eu não sabia o quanto até perdê-la – conclui num ímpeto de sinceridade.
– Eu sei – a mais velha deu um sorriso triste – Parte de mim não poderia estar mais feliz por você ter crescido com alguém que lhe amou dessa forma, a outra parte não sabe se aguentaria te perder novamente – revelou.
Tirei os olhos que mantinham-se sobre o campinho e os pus sobre a figura ao meu lado, tínhamos alguma similaridades, eu acho, levando em comparação que minha mãe era loura... Pensando bem, Lauren parecia bem mais com Lori do que eu.
– Como foi ? – indaguei com curiosidade, não fazia ideia de como Lori conseguiu sequestrar a filha de dois detetives.
– Você e seus irmãos estavam brincando no jardim, eu estava trabalhando, seu pai também, meus pais estavam intermediando uma briga entre Justin e Lindsay... Quando eles voltaram para o jardim você não estava mais lá, Lauren estava escondida atrás da porta, então eles acharam que você estava escondida também, te procuraram por quase trinta minutos antes de ligarem para nós... – relatou aquilo com amargura – Você sempre foi a mais falante, a mais independente, tão cheia de personalidade... Nesse quesito, não mudou muito – falava com um sorriso nostálgico, tive que acompanhá-la, se aos três anos eu já tinha tanta personalidade assim, era algo do qual se orgulhar.
– Você não tem ideia do por quê a mim ? Por que eu fui a única criança que ela sequestrou ? Por que não Lauren ? – tentava achar alguma lógica naquela situação. Lori não era mentalmente instável, pelo menos ela nunca aparentou ser, tinha que haver um motivo. De preferência um que fosse coerente.
Olivia deu de ombros e umedeceu os lábios – Lauren era bem mais tímida do que você, ela nunca iria com um estranho sem fazer um escândalo antes, você, por outro lado, nunca estranhou uma alma vivente, eu poderia passá-la para os braços de qualquer um que você não reclamaria, já Lauren só era eu ou Hank. Acho que minha mãe trocou mais suas fraldas do que eu – admitiu e bebericou um pouco mais do refrigerante.
Não sei se foi a menção à Jane, mas minha face ardeu, relembrando-me do tapa de mais cedo.
– Você achou que eu estivesse morta ? –
A mulher apenas maneou a cabeça em concordância – Eu não fui a melhor mãe para Lauren e os gêmeos, perdi muitas coisas da infância deles, me afundei no trabalho como um meio de escapar... Dez anos passei dessa forma, até que Noah chegou as nossas vidas, foi uma surpresa, não achei que eu pudesse engravidar, não sei ao certo, mas ele trouxe a vontade que eu tinha de viver... –
– Como assim não pudesse engravidar ? – a interrompi e inquiri com o cenho franzido, eu não diria que uma gravidez gemelar seja considerada “não achei que pudesse engravidar”.
Ela me olhou com apreensão e acho que se arrependeu por ter dito aquilo, mas agora não tinha mais volta, eu não a deixaria sair dali sem me dar uma explicação – Fizemos uma inseminação – declarou num tom baixo – Nós tentamos ter um bebê, mas todos os médicos diziam que seria praticamente impossível, então optamos por uma inseminação – concluiu com os olhos a encararem o horizonte.
– Lori foi a doadora ?! –
Olivia apenas concordou com um manear breve de cabeça, enquanto eu fazia a cara de incredulidade mais épica da história. Então havia um motivo e um dos bons por sinal.
– Lauren sabe ? – indaguei após bons três minutos do mais completo silêncio.
– Não, e nem pode, pelo menos até eu prender essa mulher – respondeu com frieza, logo se retratando ao notar meu semblante fechar numa carranca séria – Essa mulher me fez viver um inferno, Carter, você não faz ideia... –
– "Essa mulher" é minha mãe e Lauren deveria saber – opinei, me calando em seguida.
O que diabos levaria uma mulher que doou seus óvulos a sequestrar uma dessas crianças ? Consciência pesada ? Arrependimento ? Precisava de algo lógico caso quisesse continuar defendendo-a tão veementemente.
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