Finding Carter
21 Face the sun
Aproveitei a privacidade do táxi para começar a fuçar os arquivos de Crash, mas havia tantas coisas que minha previsão de terminar tudo ficou estabelecida para 2030. Tentei procurar “palavras-chaves”, mas tive menos sorte ainda, quem seria idiota o suficiente para ter uma pasta com o nome “estupro” de qualquer forma. Abaixei a tampa com irritação.
Pense, pense, pense... Eu poderia destruir o notebook, nunca o encontrariam no fundo do rio Hudson, mas eu tinha o direito de fazer isso? Eu realmente seria egoísta a esse ponto? Quantas outras garotas existiam? Quem eram os responsáveis? Para quem eles faziam esses vídeos? E lá estava eu, considerando jogar no rio a única evidência que poderia esclarecer essas dúvidas.
Estávamos parados num congestionamento monstruoso e o silêncio dentro do veículo começava a me incomodar, então decidi fazer bom uso dos meus $20.
— Senhor? – o interpelei após refletir bem sobre minha pergunta.
— Afonso — ele virou e me lançou um sorriso gentil. – Pode me chamar de você – completou de forma descontraída.
Retribuí o sorriso da melhor forma que consegui – Então, você já fez algo que desejou que ninguém soubesse? –
O homem refletiu um pouco sobre a pergunta antes de encolher os ombros e confirmar – Acho que todos nós já fizemos, kid—
— Mas se você pudesse impedir que todos soubessem, mesmo que isso machucasse outras pessoas, você impediria? Salvaria sua pele mesmo se isso significasse ferir outras pessoas? – questionei num ar distante e pensativo.
O homem se tornou reflexivo novamente e suspirou – Essa não é a pergunta que você deveria estar fazendo – falou com incrível sabedoria, embora eu ainda estivesse um pouco confusa – A pergunta correta é ‘Eu vou conseguir viver com as consequências do que eu fiz?’ – deu de ombros outra vez – No final do dia sua consciência é a única coisa que importa, contanto que você a mantenha limpa... O resto é só pano de fundo –
Acho que estava pré-destinada a entrar naquele táxi e ouvir aquelas palavras, ter uma espécie de iluminação espiritual... Engraçado isso ter vindo de Afonso, o motorista do táxi. Ele parou em frente à estação de metrô.
— Obrigada, Afonso, desculpa eu não ter nenhuma gorjeta – falei sinceramente e ele apenas me sorriu novamente.
— Se cuida, kid— desejou antes de se afastar.
Fiquei estática na calçada por algum tempo, observando o fluxo de pessoas, todas tão absortas em seus próprios problemas, distraídas em seus próprios mundos, mas sempre buscando por algo... Porque é isso que nós humanos fazemos, buscamos por algo que nem mesmo sabemos o que é, daí achamos, ou pensamos ter achado, e passamos a procurar por outra coisa. Nunca paramos... Nunca achamos. Às vezes essa inquietação inerente a todos nós é um problema, não uma solução.
Catei as moedas que sobraram do café da manhã e por alguma sorte divina deu a quantia exata do metrô. Fiquei dentro do vagão por horas a fio, pode soar estranho, mas é um ótimo lugar para pensar e pôr tudo sob perspectiva. Nem preciso dizer que cheguei bem depois do almoço, para ser completamente honesta eu cheguei depois do jantar, em minha defesa, eu tinha muito no que pensar.
Pelo menos não havia uma força tarefa montada quando atravessei a porta, apenas Olivia e Hank, sentados no sofá de forma tensa. Não ver Noah por ali foi no mínimo estranho, não era tão tarde ao ponto dele já estar dormindo. Fechei a porta as minhas costas e me apoiei nela sem dizer nada.
— Que bom que retornou — Hank me recepcionou.
— Nós precisamos conversar – Olivia completou e eu permaneci calada, incapaz de encará-los.
A tensão podia ser cortada com uma faca e eu não via muitas alternativas diante de mim.
— Sente-se, por favor – Olivia me incentivou e tinha um tom tão terno que nem parecia a mesma mulher que eu vi mais cedo.
Passei mais alguns instantes parada, até que minhas pernas voltaram a me obedecer e caminhei até a poltrona diante deles.
— Você precisa nos entregar as evidências que encontrou – a morena pausou e buscou nos olhos do marido suporte – Todas elas – óbvio que notei a palavrinha frisada.
O notebook nunca pesou tanto. Minhas entranhas contorceram-se em puro pavor e por mais que todos meus instintos dissessem para eu não fazer aquilo, uma vozinha interna irritante me dizia que muitas pessoas sairiam impunes caso eu não entregasse... Ficariam impunes para machucar outras garotas. Senti o gosto da bile na boca e tremia ao abrir a mochila, tirando de lá o notebook, o olhei uma última vez e só então o coloquei diante da dupla. Talvez eu não pudesse fazer tudo sozinha no final das contas.
— Não é sua culpa – acho que Olivia e Hank não sabiam o que dizer, mas quem é que sabe?
Trinquei o maxilar e engoli a vontade de vomitar, não conseguia pronunciar sequer uma palavra, quem dirá formular uma frase completa, então permaneci calada. O casal se entreolhou, pareciam apreensivos, possivelmente quisessem me dizer frases de conforto, mas ao mesmo tempo não queriam soar clichês, repletos de frases prontas.
— Você não precisa falar sobre isso se não quiser – Hank, muito temerosamente, falou e Olivia concordou ao seu lado, estavam com as mãos entrelaçadas e aquilo era no mínimo irônico.
— Mas se quiser conversar nós estamos aqui também – a morena rapidamente completou e essa foi a vez de Hank concordar. Depois de todos aqueles anos de terapia aquela seria a abordagem deles? Eu disse que aquela terapeuta era uma porcaria.
Podia notar o quanto eles estavam desconfortáveis, infelizmente, não eram os únicos.
— O resto está no meu quarto – quebrei o tenso silêncio e subi até meu quarto, eles me seguiram. Juntei todos os cd’s restantes e os coloquei sobre a cama – Isso é tudo – admiti e permiti que meu corpo deslizasse pela parede.
Olivia lançou um olhar sugestivo para o marido, que rapidamente compreendeu a mensagem, pegando os cd’s e deixando o quarto.
— Eu não posso fingir que sei pelo que você está passando, pelo que você passou, mas eu estou aqui agora e não vou a lugar algum – a mulher tentou uma aproximação, mas eu instintivamente me encolhi, suspirando em seguida ao notar o que acabara de fazer.
— Pare – consegui dizer após me acalmar – Nós não vamos falar sobre isso, até porque não tenho nenhuma intenção de usar isso ao meu favor durante o julgamento, então apenas pare – pedi e posso ter soado mais rude do que gostaria. – Eu já fiz o que você queria... Agora me deixe sozinha, por favor –
Olivia me olhou por alguns instantes antes de acatar meu pedido.
**
Uma semana e meia havia passado desde o dia que entreguei as evidências. Se alguém me olhava de forma diferente eu não notei, me entreguei a um estado de semiconsciência e torpor então não fazia muita diferença. Lori seria realocada para um presídio de segurança mínima em Chicago dali a dois dias e essa seria minha última oportunidade de vê-la por um longo tempo... O irônico é que cumpriríamos quase o mesmo tempo. Sempre fomos unidas, até em tempos como esse.
Sei que o pedido de vê-la deve ter magoado Olivia e Hank, mas ultimamente eu não tenho sido gentil sequer com os meus sentimentos... Pelo menos eles foram compreensíveis.
— Seu julgamento foi marcado para daqui a cinco dias, agora estamos buscando as demais garotas para montarmos um caso, Alicia já reconheceu Crash... – Olivia falava, mas eu não tinha o menor interesse.
— Eu não quero saber – respondi secamente. Não havia me desconectado do mundo externo a toa, não fazia questão de saber.
Ela me olhou de soslaio e usou a sua veia investigativa para extrair alguma informação válida... Não acho que tenha conseguido algo útil. O resto da viagem foi silenciosa e eu apenas a acompanhei pelos corredores que levavam até a cela provisória de Lori.
— Lhe consegui quinze minutos – avisou e eu concordei fracamente, andando mais um pouco até parar diante da cela da mulher.
Um policial abriu o portão e permitiu que eu entrasse, ficamos nos encarando por cerca de trinta segundos. Ela estava mais magra do que usual, mas os cabelos estavam louros novamente, da forma que eu recordava.
— Oi – iniciei aquela conversa. Nunca me senti inconfortável na companhia dela, mas hoje eu estava.
Lori saiu do próprio estado de surpresa e aproximou-se, me dando um abraço apertado. – Meu anjo – falou de forma emocionada e me beijou incontáveis vezes.
Esperei ela terminar a demonstração de afeto, sem fazer muito mais do que apenas ficar parada, não estava exatamente na ‘vibe’ para demonstração de sentimentos.
— Por que você se entregou? – soltei o único motivo de ter ido até ali.
— Eu estarei fora da cadeia quando você tiver vinte e um, eu quero fazer parte da sua vida, da forma correta dessa vez – respondeu me olhando fixamente e sorrindo fracamente.
— Ninguém sabe se eu estarei fora da cadeia com vinte e um, mas trinta e um sem sombra de dúvida – fui irônica, embora nem um pouco divertida.
— Você é mais forte do que isso – ela rosnou e eu poderia contar numa única mão as vezes que ela falou daquela forma comigo antes – Pare de se punir, você não merece ir para o reformatório e sabe disso, por isso é tão difícil digerir toda essa situação... Porque bem aí no fundo você sabe que não merece nada disso – decretou com irritação e o fato dela não tentar amaciar meu ego era bastante reconfortante – Ninguém lutará suas batalhas por você, lembra? – levantou meu queixo me fazendo encará-la.
— Estou cansada – admiti e trinquei os dentes, não queria sucumbir às lágrimas ou tinha a impressão que elas nunca cessariam.
— E você tem todo direito de estar cansada, você só não tem o direito de desistir. Eu te criei melhor do que isso – falou seriamente e meus olhos instantaneamente encheram-se de lágrimas. Ela me abraçou mais uma vez e dessa vez eu retribuir o gesto, decorando aquela sensação e me agarrando a ela o máximo que pude – Você só será uma vítima se permitir que ele vença – sussurrou ao meu ouvido e beijou minha testa.
Eu odiava o fato de entender perfeitamente ao que ela se referia.
— Vá me visitar sempre que puder – disse de forma autoritária, embora o traço de um sorriso fosse visível em seu semblante.
Sem sombra de dúvidas eu iria, nunca seria capaz de odiá-la ou me ressentir pelo que ela fez.
— Eu te amo, mom – comecei a me despedir quando o guarda anunciou o final daquele encontro.
— Eu te amo ainda mais, sweetie – me amassou em mais um abraço antes de permitir que eu partisse.
†
Aquele era o dia do meu julgamento. As bolas arroxeadas embaixo dos meus olhos eram um bom indicativo de como eu me sentia, isso e a minha lista de cuidados com Nyx que entreguei para Lauren. O quarto estava impecável quando o deixei e senti uma pontada quando enfim o deixei, muito interessante sentir saudade de algo que você costumava odiar.
Ninguém me perguntou como eu estava, fato que eu não poderia agradecer o suficiente e minha, assumidamente, última refeição em casa foi tranquila. Afonso tinha razão, ao final do dia sua consciência é a única coisa que lhe sobra.
— Você tem certeza que quer fazer isso? – Lauren me abordou enquanto eu sentava placidamente no futon da varanda.
— Como está o Max? – retruquei e deixei subentendido minha resposta.
— Belo mártir você é – sentou ao meu lado e encostou a cabeça no meu ombro. — Posso contrabandear cigarros para você – completou e eu franzi a tez, em estranheza.
— Por que você faria isso? – perguntei com um quê de diversão.
Ela deu de ombros – Eu vi em filmes e séries, não quero que você apanhe de ninguém – sorri da inocência dela e da discrição de Olivia e Hank, que, como eu pedi, não contaram para mais ninguém sobre os vídeos.
— Eu irei para um reformatório, não uma Gulag – respondi naturalmente e ela sorriu com a referência – Além do que, estarei na “sessão” das assassinas, ninguém mexe com uma assassina – podia ter um ou outro amigo que já esteve no belo sistema, eu mesma já escapava dele a algum tempo. Simplesmente não fazia ideia se não estar nervosa era um bom sinal ou não.
— A mãe do Max estará lá – falou baixinho e me encarou, era impressionante como tinha os mesmos trejeitos de Lori.
— Não estou surpresa – realmente não estava, onde mais ela estaria se não fosse no julgamento do assassinato do próprio filho?
— Vamos, meninas? – Hank surgiu no nosso campo de visão e apenas concordamos, o seguindo até o carro. Olhei por cima do ombro para a casa que até poucos meses atrás eu estaria mais do que feliz em abandonar e só então entrei no veículo.
— Você irá voltar conosco – Olivia me pegou lançando o olhar de despedida para a casa. Não sei se ficava feliz por seu otimismo, ou triste por sua possível desilusão.
Pelo que pude entender do sistema judiciário, o que não foi muito, não poderíamos mencionar nenhuma acusação pós-morte, ou nenhum processo em aberto no nome do Crash, já que isso “modificaria” a forma que o júri o enxergaria sem as devidas provas da “veracidade” dos fatos já que não havia ocorrido um julgamento ainda, traduzindo, não poderíamos mencionar o que ele fez com todas aquelas garotas, mas eu poderia falar o que ele fez comigo... Já que, teoricamente, eu tenho direito a expor meu lado da equação. Irônico, não?
Sentei ao lado do meu avô e evitei ver quem estava as minhas costas. Só me dei conta do meu nervosismo quanto a juíza atravessou a porta e ordenou que nos levantássemos. Era como se aquela fosse a primeira vez naquele dia que eu me dava conta da REAL situação que me encontrava.
A promotoria queria minha cabeça, me acusar como uma adulta e pedir quinze anos. Para tal trouxe mais testemunhas do que eu achei capaz de existir, simplesmente não fazia ideia da onde aquela gente havia surgido, mas aparentemente todos tinham algo bom para dizer sobre Crash, patéticos... Meu avô bem que tentava remediar o dano, mas o fã clube do Crash era inabalável. Podia ver na cara do júri a inclinação deles em me condenarem.
Meu avô me chamou para testemunhar e depois de toda baboseira que tive que fazer com a mão sobre a bíblia, ele iniciou.
— Poderia nos elucidar sobre aquele dia, Carter? –
Me senti instantaneamente tonta, mas mantive a compostura, ou parte dela – Eu fui até o apartamento do Caleb após o irmão dele, Max, ter sido preso, iniciamos uma discussão... – pulei alguns detalhes.
— Discussão sobre? – meu avô pressionou.
— Sobre ele ser o responsável por Max estar preso –
— Objeção, Meritíssima, insinuação – a promotoria parecia realmente ultrajada.
— Por favor, Meritíssima, esse é o ponto central da nossa defesa, o motivo dela ter ido até lá naquele dia – meu avô argumentou, mas não teve jeito.
A Juíza me olhou antes de concordar com o promotor – Mantido, desconsiderem essa informação – pediu aos jurados. – Prossiga, Srta. Stevens – aconselhou e eu acatei.
— Nós discutimos, ele me bateu, um tapa com as costas da mão, eu caí, ele começou a me estrangular, eu fingi desmaiar e quando ele estava indo em direção a porta, para fechá-la, eu o acertei com o taco de baseball – ditei e sei que não transmiti nenhum sentimento de remorso, até porque eu não sentia algum.
— Todas as agressões relatadas pela minha cliente são corroboradas por esse laudo médico – os jurados já tinham uma cópia de todas as evidências, mas meu avô ficou mais do que feliz em relembrá-los do fato. – Isso já classifica o caso como legítima defesa, não acham? Se minha cliente é uma assassina tão impiedosa, como a promotoria tenta pintá-la, por que ela iria para casa de Caleb Olsen sem nenhuma espécie de arma se a intenção dela, segundo a promotoria, desde o começo era matá-lo? – o homem finalizou antes que o promotor tivesse tempo de objetar aquela observação e algo no semblante dos jurados mudou... Agora eles pareciam receosos.
Permaneci sentada enquanto o promotor vinha na minha direção, num ar bastante ameaçador.
— Você se arrepende do que fez? – a pergunta quase me fez soltar da cadeira e acho que todos naquele recinto puderam notar meu susto.
— Eu... Me arrependo do que causei a família dele – respondi sinceramente.
— Objeção, Meritíssima, relevância? – foi a vez do meu avô.
— A relevância de saber como a ré se sente sobre a vítima? – o promotor retrucou e novamente a Juíza concordou com ele, mandando-o prosseguir – E sobre a vítima, nenhum tipo de remorso? – perguntou novamente e olhava diretamente para os jurados, com um sorriso amarelo.
— Em breve você será a pessoa a ter remorso por estar o defendendo e, respondendo a sua pergunta, eu não nutro nenhum sentimento pela sua suposta vítima – tentei manter minha voz contida, mas sei que soei mais furiosa do que deveria. Se para salvar minha pele eu precisava dizer que me arrependia do que havia “feito”, que me arrependia por Crash estar morto, então a cadeia parecia um agradável lugar para passar meus futuros quinze anos.
O homem franziu o cenho, possivelmente avulso ao que eu me referia, já que o processo das garotas corria em segredo de justiça, mas ignorou e simplesmente virou-se para os jurados novamente – Eu não consigo me imaginar matando um ser humano e não sentir nada relacionado ao fato – deixou subentendido que eu era uma sociopata para em seguida tirar o comentário, antes que meu avô pudesse protestar, mas a essa altura o estrago já estava feito e os jurados estavam completamente inclinados em sua direção.
Ser humano... Engraçado como Crash havia subido na cadeia alimentar.
— Qual era a natureza da sua relação com a vítima? – perguntou pretensioso.
— Nenhuma, sou amiga do irmão dele – respondi seca.
— Não eram amigos de infância, como mostra essas fotos? – expôs as fotografias para os jurados, os deixando ainda mais suscetíveis a me condenarem.
— Max é o meu amigo de infância – pontuei firmemente — Não faço ideia do que você está insinuando, então apenas faça uma pergunta e me poupe dessa encenação ou cale a boca – falei naturalmente e a cara de surpresa de todos os presentes foi impagável, não era sempre que alguém mandava um promotor calar a boca... Eu sempre disse que minha impulsividade me colocaria em apuros, hoje era o dia.
— Srta. Stevens controle-se ou terei que adicionar desacato a sua sentença! – a juíza ordenou e eu apenas abaixei a cabeça – Mas tenho que concordar com a ré, faça uma pergunta coerente, Sr. Promotor – pediu mais brandamente e o homem, que havia ficado completamente vermelho, recuperou a compostura.
— Você ameaçou matar a vítima semanas antes do ocorrido? – óbvio que ele já sabia a resposta para aquilo, só queria criar ainda mais efeito àquele teatro.
— Sim – falei e ele sorriu triunfante.
— Sem mais perguntas, Meritíssima – sorriu na direção dos pais de Crash, como se tivesse absoluta certeza da minha condenação.
— Há dois anos, mais ou menos, você foi admitida numa clínica psiquiátrica, o que a levou até lá? – Thomas indagou e eu o fuzilei com os olhos, qual parte de nenhum detalhe sobre meu passado ser tocado eles não compreenderam?
— Eu tentei me matar, isso que me levou até lá – respondi tentando inutilmente esconder minha ira.
— Por que você tentou se matar? – ele não se intimidou e eu quase podia ler as entrelinhas do olhar que ele me lançou; aquela era minha única chance.
— Eu prefiro não responder essa pergunta – todos tornaram a me olhar com estranheza, afinal, aquele era meu advogado e eu me recusava a responder uma pergunta que possivelmente fosse me beneficiar, o que posso dizer? Sou teimosa demais para meu próprio bem.
— Gostaria de pedir um recesso, Meritíssima – meu avô se virou na direção da juíza que apenas maneou a cabeça em concordância.
— Recesso de quinze minutos – falou antes de nos liberar.
**
— Você está maluco?! – esperei estarmos numa sala particular para soltar todo meu descontentamento.
— Eu posso lhe fazer a mesma pergunta, você faz ideia do que está em jogo aqui, Carter?! Porque eu acho que a sua ficha ainda não caiu, você está encarando quinze anos! – ele rebateu no mesmo tom e eu podia jurar que ele me daria um tapa caso Olivia não houvesse se posto no meio.
— É melhor todo mundo se acalmar, vá tomar uma água, papai – a mulher pediu, apartando aquela pequena confusão e Hank acompanhou Thomas, nos deixando a sós.
— Eu. Não. Irei. Falar. Sobre. Meu. Passado. – deixei minha posição bastante clara, já que as duzentas outras vezes que mencionei parecia não ter surtido efeito – Eu te dei o que você queria, não dei? Não estou pedindo muito em retorno –
— Mas você está pedindo muito em retorno, Carter – ela falou e eu franzi o cenho, sem entender o que ela queria dizer – Você está pedindo que eu passe mais quinze anos longe de você, os treze que fui obrigada não foram suficientes? -
Me forcei a engolir o nó que se formou na minha garganta. Ao contrário do que todos pensavam, eu também não queria passar quinze anos na cadeia... Eu apenas era mais inclinada a aceitar essa pena em detrimento a minha exposição pública. Eu nunca contei sobre aquele dia, Olivia podia ter uma mínima noção do que eu havia passado, mas REALMENTE saber o que havia acontecido, ela não sabia... Ninguém sabia.
— Me desculpe, eu não posso – admiti, ainda de costas para a mulher.
Não mudei de posição e me recusei a dar qualquer detalhe que pudesse me ajudar, como consequência fui sentenciada a dez anos. Não chorei, na realidade não esbocei nenhuma reação, mas doeu ver o desespero da minha família... Minha família. Lauren parecia à beira de um colapso e Max teve que ampará-la, eu precisava a dizer que estava tudo bem, que eu ficaria bem... Max tinha um futuro brilhante a sua frente, eu não tinha previsões muito promissoras, antes eu do que ele, e com bom comportamento eu poderia sair em sete anos... Não era tanto tempo assim... Me agarrei a esse pensamento enquanto era algemada e levada para minhas novas acomodações.
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