— Bem vinda as suas novas acomodações – não precisei de muita perspicácia para notar que a mulher estava sendo irônica comigo.

A cela teria cerca de 10m², com duas beliches, o que me dizia que eu dividiria o mínimo espaço com mais três garotas. Havia um sanitário num dos cantos da parede, privacidade era algo bastante superestimado e aparentemente inexistente ali. Não havia ninguém no cômodo quando eu cheguei, mas não pude deixar de notar alguns enfeites que havia sobre os beliches, assim como uma cômoda amontoada de papéis, só torcia para que os lápis fossem confiscados... Nunca se sabe o que uma pessoa pode fazer com um lápis afiado.

— Você ficou com o beliche de baixo – anunciou e eu me abaixei antes de sentar ou chocaria minha cabeça contra o ferro da cama superior. Coloquei as “minhas” coisas sobre a cama. Eles me deram uma duplicata da farda verde e tênis brancos que eu já trajava, um rolo de papel-higiênico, pasta de dente, uma barra de sabonete vagabundo e uma escova. Naquilo se consistia minhas poses. Não falei nada, apenas olhei ao redor um pouco incerta de como diabos eu sobreviveria ali, mas de uma coisa eu tenho total certeza, eu sobreviveria. Sou extremamente resiliente, eu daria um jeito.— Não torne sua vida tão difícil – a mulher de cabelos castanhos e rosto redondo me recomendou, e mesmo que eu não fizesse ideia do que ela queria dizer com aquilo decidi levar aquele conselho muito seriamente.

Eu poderia sair da cela e andar pelos corredores, mas decidi permanecer no meu cubículo. Uma vez que eu começo a associar algo com estabilidade tenho sérias dificuldades em me ajustar a outros ambientes e, ali, naquele mínimo espaço, eu me senti, pela primeira vez naquele dia, realmente tranquila. Possivelmente não seja a coisa mais saudável do mundo, mas é o melhor método de compensação que encontrei até agora.

Escondi a cabeça entre as mãos, mas nenhuma reflexão profunda me atingiu, na realidade eu estava duelando com uma coisa bem mais física; fazer ou não xixi. Por um lado eu queria aproveitar a “privacidade” de estar sozinha, por outro lado me sentia enojada em sequer chegar próximo aquele negócio, mas fui razoável, uma hora eu teria que fazer... Que fosse agora, seria menos humilhante dessa forma.

Fiz xixi quase em pé e, como não havia uma pia ou torneira ali, evitei tocar qualquer parte do meu corpo com as mãos. Fiz uma anotação mental para pedir álcool em gel para Olivia... Isso se ela viesse me visitar, a mulher possivelmente me odiasse por fazê-la passar por toda essa situação. Se pelo menos ela soubesse que eu também me odiava, na realidade, eu poderia me odiar o suficiente por mim e por ela.

— Você deve ser a garota nova – uma voz gelada como aço me atingiu, estava tão absorta nos meus próprios pensamentos que, se aquela garota quisesse me matar, eu nem teria reagido.

Sustentei o olhar que ela me lançou e a avaliava na mesma intensidade, eu não seria intimidada tão facilmente. A garota tinha os cabelos castanhos encaracolados e seus traços sugeriam claramente uma descendência mexicana, no antebraço exibia a tatuagem de uma caveira e quase me senti tentada a lhe mostrar as que eu tinha nas costas, mas preferir não fazê-lo. Após nos medirmos por algum tempo enfim concordei.

— Sim, eu sou – falei tranquilamente – Carter – me apresentei por mera cordialidade.

— Ouvi algumas coisas curiosas sobre você, Car-ter – meu nome foi soletrado com certo escárnio e vi o traço de um sorriso malicioso se formar no rosto da garota desconhecida.

Me ergui da cama e eu era quase dez centímetros mais alta do que a criaturinha petulante, embora fosse bem mais esguia do que ela. O que, pelos meus cálculos, que não são tão bons, nos proveria uma luta justa, caso chegássemos às vias de fato. – Eu adoraria ouvir essa história qualquer dia – respondi no mesmo tom calmo e meu sorriso era quase tão perverso quanto o dela.

— Você e eu somos as únicas que seremos enviadas para uma prisão de verdade quando completarmos dezoito anos, as outras serão enviadas para casas de apoio ou serão liberadas em condicional – algo no tom dela sugeria respeito? Uma certa admiração talvez? Aquela sim era uma pirada da cabeça, mas algo me dizia que minha sobrevivência dependia de como eu reagiria àquele jogo. – Agora preste bastante atenção, eu mando nessa merda, e não gosto nem um pouco de alguém ameaçando meu reinado – sua postura adquiriu um ar mais intimidador e ela parecia um daqueles baicus, todo armada.

Eu realmente riria, mas compreendi que a situação requeria minha sutileza e não meu deboche. Ergui as mãos brevemente em sinal de rendição – É tudo seu – respondi monossilábica e vi em seu rosto um traço de incerteza, como se ela não acreditasse que eu me renderia tão fácil – Olhe, minha situação já é bem fodida, eu não quero absolutamente nada que dificulte ainda mais isso, então acredite em mim quando eu digo que ficarei fora do seu caminho – completei e umedeci os lábios, vendo que a mexicana começava a relaxar.

— Eu não sei o que você fez para parar aqui, mas eu não me importo em ter mais alguns anos adicionados a minha sentença, então é melhor você não estar me sacaneando, ou isso não terminará bem para você, princess— havia definitivamente desprezo quando ela soltou meu “apelido”. Não me ofendi, eu podia ser muitas coisas, podia ter muitos complexos e ser quebrada da forma que fosse, mas minha aparência nunca foi uma preocupação e eu tinha clara noção dos meus atributos, então ser “xingada” por uma baixinha, com cara estranha e um corpo masculino não me afetou nem um pouco.

— Alba! Saia já daí! – a guarda que havia me guiado até a cela surgiu às costas da mexicana e trocou um rápido olhar comigo, talvez para se certificar que eu ainda estava inteira. Então era sobre aquilo que ela se referia quando disse para eu não “tornar minha vida tão difícil”, ela realmente achou que eu fosse competir por um posto medíocre de “chefe” de um bando de adolescentes criminosas? Aquilo beirava a insanidade.

Suspirei pesadamente quando fui deixada sozinha. Talvez aquilo fosse ser mais difícil do que eu imaginei.

POV Lauren B.

— O que fizemos, Max? O que fizemos?! – estava no apartamento do garoto porque eu simplesmente não conseguiria atravessar a porta da minha própria casa sem me desmanchar em lágrimas. Sem ser acometida por uma culpa que me corroeria até eu revelar tudo, mesmo que possivelmente fosse sofrer da mesma forma por mandar Max para cadeia no lugar de Carter.

O louro me abraçou, seu queixo sobre meus cabelos e seus braços protetoramente ao redor dos meus ombros.

— Basta você dizer e eu me entregarei – Max transmitia tanta verdade ao falar aquilo que eu simplesmente sabia que ele realmente se entregaria... Mas não era o que eu queria também.

Eu não saberia como viver sem aquele abraço, sem aquele calor, sem as piadas de Max no meio da noite, sem o cheiro de erva doce que os cabelos dele exalavam... Eu não saberia viver sem o gosto dos lábios dele.

— Eu não quero isso – o beijei com certa fúria, o salgado das minhas lágrimas unindo-se as nossas salivas. Tateie o cinto dele, desafivelando-o bruscamente, sem quebrar o beijo. Eu apenas precisava de contato, precisava que Max me relembrasse o porquê estávamos deixando Carter pagar por um crime que ela não cometeu e na minha confusa mente, sexo selvagem era a resposta.

— Lauren... – ele falou libertando-se do beijo e tentando chamar minha atenção, mas eu estava mais focada em outra coisa. Fiz menção de me ajoelhar, mas ele me impediu, me segurando pelo braço – Pare, tudo bem? Eu me importo demais com você para que façamos sexo nesse estado – ele falou naquele tom plácido e sábio, mas foi impossível não notar que ele usou “eu me importo” e não “eu te amo”. Sei que pode parecer bobagem, ainda mais agora, mas aquilo me incomodou.

— Você tem razão – concordei, tentando recuperar minha compostura e quanto enfim estava calma o suficiente para raciocinar peguei minha bolsa do chão e saí do apartamento antes que ele tivesse oportunidade de dizer qualquer coisa a mais.

Minhas companheiras de cela não eram tão assustadoras quanto a tal Alba, embora elas parecessem temerosas comigo. Não olhavam diretamente para mim, ou falavam comigo, mas também não me ameaçaram ou invadiram meu espaço pessoal. Era melhor do que nada.

— E então o que fez para parar aqui? – a mais baixinha do grupo indagou. Tinha olhos cor de oliva e algumas sardas sobre o nariz.

— Olivia! – as outras duas falaram em uníssono, dando um beliscão na mais nova.

— Eu sei que vocês também estão curiosas! – Olivia protestou, passando a mão sobre o beliscão.

Eu sinceramente riria da cena, mas minha exaustão possivelmente tenha levado meu senso de humor.

— Eu matei o irmão do meu melhor amigo – respondi naturalmente, nada no meu tom indicava orgulho sobre aquilo. Esperei um coro de surpresa provindo do trio, mas não veio, apenas um longo silêncio.

— Ele mereceu? – o silêncio foi quebrado por essa simples pergunta. Pensei que aquelas garotas fossem delinquentes, não gênios mal compreendidos.

— Cada segundo – meus olhos pela primeira vez se encontraram com os das demais garotas e elas não me olhavam com censura, ou recriminação. Havia uma certa fúria em cada uma delas, camadas que ocultavam histórias muito mais complexas... Elas simplesmente entendiam que a nossa vida seria definida por esse único momento para sempre, o resto, por pior que tenha sido, não teria importância para ninguém. – Meu nome é Carter – falei por fim e forcei um sorriso, mas ele não saiu.

— Eu sou Olivia – a garota sorriu largamente, ela era bastante animada o que era de certa forma adorável – Essa é a Ellie e essa é a Jayden – apresentou as demais. – Nós pusemos fogo na casa dos nossos pais provisórios – explicou o motivo de estarem ali, mesmo que eu não houvesse perguntado. — Eles também mereceram – completou num ar distante, mas logo estava a expor o sorriso de anteriormente.

Me tornei pensativa por um tempo, uma tristeza crescente se apoderando de cada partícula do meu corpo. Eu queria chorar, mas não poderia demonstrar fraqueza, não ali. Eu precisava encontrar uma forma de ser forte... Eu precisava de um alívio para minha dor. Ignorei minha última ponderação, eu simplesmente não poderia cair novamente naquele ciclo infernal. Pela primeira vez eu estava com medo de que eu não fosse sair com vida de mais um ciclo de uso de entorpecentes.

— Olivia... – provei o nome, que me trouxe mais lembranças do que achei que traria – É o nome da minha... – pausei, confinando tudo que eu sentia no lugar mais remoto da minha mente, local que nem eu pudesse acessar, muito embora eu já soubesse, ele me encontraria eventualmente... Minhas piores memórias sempre encontravam uma forma de emergir.— Mãe – me recompus e novamente forcei um sorriso, tendo mais sorte dessa vez. Não tenho certeza, mas acho que essa é a primeira vez que me convenço dessa afirmação, ela é minha mãe, tanto quanto Lori... E eu a amo, mas isso não me faz sentir-me melhor, muito pelo contrário na realidade.

Nós caímos em silêncio, mas não era nada incômodo ou estranho. Era uma espécie de entendimento mútuo, uma compreensão de que compartilhávamos mais do que apenas uma cela no reformatório.

— Vamos dormir, amanhã podemos te mostrar por aí... Se você quiser – Ellie sugeriu de forma incerta e eu apenas concordei com a ideia.

Poderia ter sido pior. Refleti antes de fechar os olhos e tentar dormir.

POV Olivia B.

Eu não queria desmoronar, não completamente pelo menos. Noah não compreendia o que estava acontecendo e eu realmente me esforcei para não afundar em lágrimas quando ele perguntou da forma mais inocente possível “Cadê Cate?”. Eu menti para ele, mas uma parte dessa mentira foi para sobrepujar minha própria dor.

Absolutamente tudo doía, era quase como se meu corpo houvesse desistido, acho que aquela sensação era a forma dele de dizer “Já chega, eu desisto”... Eu queria desistir também, perdê-la para segunda vez foi tão doloroso quanto da primeira e novamente, eu não via um motivo para viver.

“Não podemos desistir, nós estamos tão perto de desmembrar esse grupo” — Amanda

“Nós iremos reunir provas suficientes contra Crash e pedir um segundo julgamento para Carter, vai dar tudo certo, Olivia” – Papai

“Você precisa ser forte, ela precisa de você” – Mamãe

Claro que todos sabiam o que dizer, sabiam como eu deveria me portar diante daquela situação, eu também sabia que eles apenas tentavam ajudar... Mas hoje, só hoje, eu me permitiria ser vulnerável e sentir tudo que empilhei durante anos... Amanhã eu lutaria.

— Como você consegue? – minha voz saiu mais baixa do que eu previ.

Hank estava pensativo, mas ele era mil vezes melhor em esconder as próprias emoções do que eu. Demorou um momento para sua atenção se voltar para mim, sua postura continuou rígida, os dedos cruzados sobre o colo num ar sério e eu procurei o brilho intrínseco àqueles olhos dourados, o sinal no qual eu me apoiava quando tudo ao meu redor parecia ruir, aquele brilho era minha luz no fim do túnel, mas hoje, ele não estava lá. Não havia nada na expressão de Hank e aquela era a forma dele transmitir toda sua dor.

— Eu irei matá-los, Liv – a voz rouca ecoou pelo quarto, mas, diferentemente das demais vezes, não me trouxe conforto, muito pelo contrário, minha espinha gelou com aquela afirmação – Eu irei matar todos os desgraçados que tocaram nossa filha – concluiu, igualmente distante e só então me dei conta de que ele refletia sobre isso, não sobre o fato da nossa filha de dezesseis anos estar sozinha num reformatório rodeada por delinquentes. Eu queria ficar irritada com ele, mas eu não poderia, aquela era a forma dele lidar com a situação, eu não poderia forçá-lo a ver as coisas pela minha ótica, assim como eu não enxergava a vida sob a ótica dele.

Não o respondi. Ele bem sabia que eu era completamente contra a premissa da lei de Talião. Eu não queria vingança, eu queria justiça... Mas acima de qualquer coisa, eu queria Carter de volta.

— Descubra um jeito de trazer nossa filha de volta, antes de pensar em matar alguém – comentei igualmente distante e deixei meu corpo desabar sobre a cama.

Obviamente eu não dormi, eu apenas desisti, temporariamente, de tudo ao meu redor.

Notas finais
Podem dizer que duvidaram que eu fosse mesmo continuar .n
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.