Finding Carter

18 Covered in rain


Por mais que eu tentasse, o que Crash havia dito não saia da minha cabeça, como se não bastasse toda a situação de merda alguém ainda tinha uma gravação daquilo? Quando eu começo a achar que tudo de ruim já aconteceu, algo pior surge. Sinceramente? Eu já deveria estar acostumada a essa altura, geralmente eu não me surpreendo com as merdas que me acontecem (são tantas), mas dessa vez acho que meu carma exagerou um pouco. Tenho essa teoria de que na minha vida passada eu fui algum nazista e que agora eu estou pagando por todos os crimes cometidos, ou talvez eu seja apenas azarada, a segunda opção é bem mais provável.”

Joguei o diário para o lado, sem me preocupar em escondê-lo e olhei para o celular, tomada por um ímpeto de coragem disquei o número de Max. Após o terceiro toque, ele atendeu.

“Alô?” a voz rouca dava um grande indício do que Maximus andava fazendo: chorando.

“Crash tinha muitos CD’s, DVD’s?” a pergunta deve ter sido extremamente confusa para o louro.

“O que?” falou um pouco mais alto e eu até imaginei a cara de dúvida dele. Conhecia cada expressão de Max, o conhecia melhor do que a mim mesma na realidade.

“É exatamente o que você ouviu, no quarto dele há muitos CD’s ou DVD’s?” indaguei novamente.

“Acho que sim... Ele tem muitas coisas, gostava de trabalhar editando vídeos” divagou e fungou, falar do irmão o deixava extremamente emotivo.

“Ponha tudo numa caixa, inclusive o notebook dele, e me encontre daqui a trinta minutos no Red Mango” ordenei de forma enérgica.

“Você tem certeza e se a polícia quiser essas coisas?” Max parecia temeroso.

Minha única certeza é que ninguém veria aquelas filmagens, já sentia vergonha suficiente sozinha, não precisava de mais ninguém para compartilhá-la comigo. “Por favor, Max, eu estou implorando” supliquei.

O garoto do outro lado da linha suspirou pesadamente e estalou os lábios, como se pensasse sobre, por fim apenas concordou “Ok, Rox” sussurrou antes de desligar. Respirei aliviada.

Três minutos depois, e com uma nova roupa, desci as escadas. Usava um moletom cinza com a figura de um panda no centro, uma saia preta e mocassins da mesma cor. A roupa representava meu estado de espírito: negro e cinzento.

— Indo para algum lugar? – Hank perguntou assim que entrei na sala, ele supervisionava a bagunça que Noah fazia na companhia de Bolinha.

Confirmei com a cabeça – Posso ir? – o pedido de permissão saiu de forma natural, não havia mais a raiva de outrora por uma simples autorização.

— Onde está indo? – ele voltou os olhos brilhantes na minha direção.

— Red Mango, conversar com alguns amigos, espairecer – falei a verdade sobre o lugar, menti sobre minhas intenções. 50% de verdade não é uma total mentira.

— Vai trazer sorvete pra eu? – Noah pediu de forma inocente e se agarrou as minhas pernas, foi impossível não sorrir.

— Para mim – o corrigi e apertei levemente sua bochecha – E sim, eu trarei – afaguei seus cabelos volumosos e ouvi um “brigado” distante já que ele se pôs a correr novamente.

— Tudo bem, mas volte cedo – Voight me lançou um sorriso nervoso, podia ler as entrelinhas daquele sorriso: ele estava triste, e mesmo que fizesse o possível para disfarçar, falhava drasticamente nessa missão. Despedi-me com um aceno respeitoso e me dirigi até a sorveteria.

Agradeci por Max já estar lá quando cheguei, ele olhava com apreensão para os lados, como se estivesse com medo de ser pego ou coisa do tipo, se não fosse a minha situação atual, eu riria dele.

—Oi – sua feição se suavizou ao me ver e ensaiou um sorriso, mas ele falhou no meio do caminho.

— Oi – respondi com certo desânimo e olhei para a caixa que ele pôs na cadeira ao seu lado. – Você pegou todos? – perguntei simplesmente.

Ele concordou com a cabeça e umedeceu os lábios – O que vocês fizeram? Tem a prova de algum crime no qual você foi cúmplice dele? Por isso você me disse que ele era uma má companhia? – Max olhou para os lados, se certificando que ninguém mais ouvia aquela conversa.

O fitei longamente, e apenas fiquei em silêncio. Não queria mentir, tampouco queria contar a verdade, o silêncio me pareceu oportuno.

— Me diz alguma coisa, Carter, qualquer coisa! – exasperação era tangível em seu timbre – Eu o matei, me diga alguma coisa que justifique isso, que me ajude a dormir! – a voz caiu uma oitava e os olhos foram invadidos por lágrimas.

Foi impossível não sentir o pesar dele, a luta que ele travava. Max sempre foi muito sensível, até nas aulas de ciências, quando tínhamos que dissecar os sapos, eu sempre era a pessoa a abrir o animal. Para uma pessoa incapaz de matar uma mosca, matar o próprio irmão... Odiava-me mais um pouco por forçá-lo a essa situação. Eu arruinava a vida de todos ao meu redor.

— Me perdoe, Max, eu nunca tive a intenção de machucá-lo – torcia para que ele visse o quão sincera eu estava sendo – Você é meu melhor amigo – afirmei e meus olhos também afundaram em lágrimas, olhei para o teto a fim de controlá-las — Eu te amo desde a primeira vez que você sentou ao meu lado naquele ônibus escolar e me sorriu, o único a tentar ser amigo da garota nova e estranha – admiti e a recordação simples aqueceu meu coração

— É isso que eu não entendo – ele comentou, prosseguindo ao ver que eu não estava acompanhando aquele raciocínio – Você me ama, nós somos amigos, mas mesmo assim você mente na minha cara – cerrou os punhos e me olhou com decepção.

Não pude responder com palavras, mas as lágrimas que queimaram minhas bochechas eram um bom indício do que eu sentia.

— A verdade não vai te ajudar a dormir – meu tom era gélido.

— Conte-me – exigiu entre dentes.

O fitei longamente, me decidindo se falaria ou não. Os 'contras' superavam os 'prós', mas Max e eu estávamos juntos nessa... Ele merecia saber. – Você tem razão sobre ser um crime – minha voz era fria, baixa, distante – Mas eu não fui cúmplice nesse crime, eu fui à vítima –

Vítima, como odiava essa palavra, odiava me sentir fraca, indefesa, vulnerável perante terceiros.

— O ser humano que você está tão arrependido por ter matado me estuprou no dia do meu aniversário de quatorze anos, e ainda disse que aquele era meu presente – o olhei acusatoriamente, o culpava por estar me fazendo falar sobre a pior experiência da minha vida, parte de mim odiava-o por estar me obrigando àquilo. — Por que você acha que terminei com você? Tentei me matar? Comecei a usar drogas? Te arrastei para o serviço comunitário? Virei à ninfeta mais conhecida de Chicago? – eu estava irada, queria gritar tudo aquilo, queria extravasar para valer, mas ao invés disso mantive minha voz sob controle, cuspindo minha ira aos poucos.

Os olhos esbugalhados de Max eram de puro pavor e culpa. – Carter... – ele tentou tocar minha mão, mas a puxei de cima da mesa – E-eu n-não sabia – gaguejou debilmente e estava visivelmente abalado com a situação.

— Agora você sabe, Max. Esse segredo não é apenas meu, é seu também, então guarde-o bem, porque nunca mais na minha vida eu quero que alguém me olhe com a mesma pena com a qual você me olhou, eu não preciso de piedade ou complacência – declarei ríspida e levantei, pegando a caixa. – E fique calado, bata uma punheta quando precisar se livrar da tensão, mas nunca mais assuma o que aconteceu naquele apartamento – aconselhei ameaçadoramente e o vi manear a cabeça fracamente, numa afirmativa.

Passei rapidamente na parte dos sorvetes, colocando tudo que Noah possivelmente gostasse.

— Algum problema, Carter? – Pablo estava no caixa, acompanhando por outro rapaz, possivelmente ele havia contratado um ajudante mais normal, o entreguei o dinheiro.

Neguei com a cabeça e forcei um sorriso – Obrigada, Pablo – agradeci, peguei o troco, o sorvete e saí. Por sorte Max parecia muito atônito para tentar me seguir.

**

Entreguei o doce para Noah e subi até meu quarto, todos pareciam curiosos sobre minha caixa, mas ninguém perguntou diretamente o que havia nela. Agradeci mentalmente e apenas subi até meu quarto, pegando Nyx pelo meio do caminho.

Tranquei a porta e virei o conteúdo da caixa sobre minha cama, centenas de CD’s espalharam-se por ela, inclusive o notebook. Cocei a cabeça, já imaginando a minha noite em claro assistindo cada um daqueles vídeos idiotas. Do jeito que sou azarada, vou achar o que eu quero só no final, se é que vou achá-lo. Iniciei minha busca pelo notebook do desgraçado.

— Porra – xinguei e revirei os olhos. Era protegido por senha. Maldita hora que não virei uma hacker. Patrick poderia ajudar, mas não tinha a menor ideia se ele o faria, refleti com certa indecisão, após pensar por alguns minutos me dei conta de que receber um “não” seria a coisa mais normal que me aconteceria em dias, então mandei uma única mensagem.

“Oi, Patrick, talvez eu não tenha direito de lhe pedir nada, mas mesmo assim tentarei, preciso que descubra a senha de um notebook para mim. Você tem suas convicções, e eu tenho as minhas, não pedirei desculpas pelo que eu lhe disse, não exijo que peças para mim, estaremos quites, e realmente agradeceria se pudesse me ajudar, mas caso não, eu entenderei.” Fiquei olhando a teclinha ‘enviar’ e apenas apertei, sem pensar muito sobre.

— Carter? – Olivia bateu na porta e tentou abri-la, mas não conseguiu porque estava trancada.

Olhei para todos aqueles CD’s em cima da minha cama e depois para a porta, pensar não é meu forte, acho que já torrei todos meus neurônios naquele interrogatório.

— Você está bem? – a voz de Olivia era preocupada.

Limpei a garganta – Sim – confirmei – Só um minuto – pedi e me pus a empurrar tudo para debaixo da cama, o mais silenciosamente quanto pude. Abri a porta e estava um tanto agitada.

O faro de detetive de Olivia falou mais alto e ela espiou por cima do meu ombro para ver o que acontecia naquele quarto. Diminuí um pouco mais o espaço de abertura da porta.

— Ainda estou viva, o que deseja? – falei com sarcasmo. Ela estava me olhando com a cara “ainda bem que você está viva e não te encontrei cercada por uma poça de sangue”, eu conhecia bem aquele olhar, Lori me lançava um desses ocasionalmente.

— Não brinque com isso – aconselhou e me fitou longamente, como se daquela forma pudesse ler meus pensamentos – Alicia Smith confirmou que Caleb foi o rapaz que a drogou naquela festa, todas as acusações contra Max foram retiradas – falou e ainda estudava minhas feições, mas não entreguei nenhuma reação.

— Que bom – respondi naturalmente.

A mulher estava pronta para me bater, pude sentir toda sua frustração com aquela situação, ela empurrou a porta e entrou no quarto, mesmo que não houvesse sido convidada.

— Sinta-se em casa – novamente fui debochada, sentei-me sobre a cama, enquanto Olivia zanzava pelo quarto, estava com medo que ela afundasse o assoalho, tamanha era a força que ela empregava naquelas passadas.

— Como você sabia que era ele, Carter – não era uma pergunta, ela parecia estar pensando, então apenas a deixei ter aquele momento – Eu rodei muitos cenários na minha cabeça; você conhece alguma das vítimas, você descobriu sobre Crash, já que frequentava a casa dele e do Max, ou – me olhou tão intensamente que me senti até violada – Ou você também foi uma vítima – a frase saiu pelos lábios de Olivia com sofreguidão e ela teve que sentar-se na poltrona, pois o peso daquelas palavras era demais para carregar em pé.

A saliva desceu rasgando minha garganta, e, embora meu coração estivesse prestes a saltar da minha caixa torácica, não fiz nada que fosse capaz de me denunciar.

— Teoria interessante – agarrei a lateral da cama para que minhas mãos parassem de tremer tão freneticamente – Mas não passa de uma teoria, daria um ótimo enredo de filme, mas para a vida real é um pouco exagerado – debochei da ideia e dei um riso nasalado, como se fosse algo irreal. Minha garganta estava seca e meu coração trotava tão depressa que se fosse para eu morrer de um ataque cardíaco seria naquele exato minuto. – Ainda mais considerando que fui a adolescente mais promíscua de Chicago, dar para metade do estado é uma forma estranha de superar um trauma – sorri maliciosamente e minha voz era provocativa, desdenhosa.

Olivia ainda me estudava, não fazia ideia do que ela pensava. Suponho que parte dela desejava que eu estivesse falando a verdade, que Crash nunca houvesse encostado um dedo em mim, mas a outra queria achar uma justificativa para o que eu havia dito naquela sala de interrogatório.

— Eu acho que você está mentindo – falou fracamente e encarou as próprias mãos, reprimindo as lágrimas que ameaçavam desabar. – E eu realmente sinto muito por você não confiar em mim ao ponto de revelar a verdade – falou com a voz carregada de emoção.

A fitei e trinquei o maxilar, com certa irritação – Eu te disse uma vez, mas te direi de novo, eu não sou uma criança, eu sei me cuidar sozinha, não preciso da sua empatia, ou seu remorso – rosnei e levantei, me pondo ao lado da porta – Poderia me dar licença? Você quase me faz desejar estar de volta àquela cela, pelo menos lá era silencioso – falei num ar maldoso, mas Olivia não pareceu tomar aquilo para o lado pessoal, acho que identificou mais como um modo de defesa e uma confirmação de que ela tinha razão. Tocou minha bochecha ternamente antes de sair do quarto.

Merda, aquilo era uma bola e neve. Esfreguei as mãos na calça, me livrando do suor e respirei pausadamente.