Finding Carter

19 Badge and gun


— Ok, Carter, ao trabalho – falei só. Tranquei a porta novamente, contei e organizei os CD’S. Duzentos e dezessete. A noite seria longa pelo visto. Peguei meu próprio notebook e comecei. Como todos já devem imaginar, não estava no primeiro. Na realidade, eu fui achar algo no CD 128. Não era eu, mas também não era nenhuma das garotas assassinadas, ou Alicia. Eu até imaginava que havia outras garotas, mas não queria acreditar.

Trinta segundos, esse foi o tempo exato que consegui assistir àquilo antes de vomitar, usei o cesto de lixo para aparar todo o líquido esverdeado que eu expelia. Encostei as costas contra a parede e tampei a boca com a mão, como se aquilo fosse me impedir de vomitar ou fosse abafar meu choro, não tive sucesso em nenhuma das duas situações. Fechei a tampa do notebook, não poderia assistir àquele vídeo, só em pensar nele meu estômago se contorcia inteiro e vomitei mais algumas vezes até que não sobrou mais nada para pôr para fora, embora a ânsia tenha persistido.

Precisava entregar aquilo para a polícia, alguém completamente neutro naquela investigação, ou a promotoria diria que as provas haviam sido fabricadas, e descartariam tudo. Talvez se entregasse anonimamente para a sargento Platt... Não! Melhor, mandaria Max entregar. Sim. Parecia uma boa ideia. Ele diria que estava remexendo pelas coisas do irmão, e que encontrou esse CD, não era uma mentira e para quem já cometeu perjúrio uma vez, a segunda é moleza.

Levantei, em busca do meu celular e o achei em cima da cama, com umas mil mensagens não lidas. Estava ignorando a maioria das pessoas, passei os olhos por cima de algumas, pelo menos para ter noção do que falavam e a confusão que se formou na minha cara logo foi substituída por resignação. Liguei a televisão.

“Nosso filho foi assassinado pela pessoa que ele tinha como uma irmã, Carter e nossos filhos cresceram juntos, eu não entendo porque ela está acusando meu filho de tê-la agredido, é uma acusação absurda. Caleb teve um tempo difícil na adolescência, mas nunca machucou alguém, meu bebê” a senhora Olsen chorava no ombro do marido, estava tão devastada que eu me senti da mesma forma, não importava o que eu soubesse, nada abrandaria a dor daquela mãe. “Meu bebê foi assassinado, ele estava em casa, ela foi até lá para matá-lo” tinha dificuldade para falar e teve que puxar o ar longamente.

“A senhora acha que o fato dela ter sido sequestrada influenciou em algo? Acha que os pais dela alegarão problemas psicológicos?” uma repórter perguntou, estavam todos reunidos em frente à residência que passei boa parte da minha infância.

Margareth Olsen acenou numa afirmativa e olhava para a câmera com ódio, parecia saber que eu estava a assistindo “Só espero que a justiça seja feita e que ela saiba o que tirou de mim, que ela tenha noção do que fez a minha família, me tirou a única coisa que não poderei nunca substituir” desliguei a televisão, já me sentia miserável o suficiente, não precisava de ajuda nesse quesito, e simplesmente me joguei sobre a cama. Era quase como se eu flutuasse, a dor parecia uma anestesia, enquanto as palavras de Mag reverberavam na minha cabeça incessantemente, quase como um lembrete macabro. Tudo estava errado, e eu pagaria duplamente.

**

“Reprimir cada mínimo sentimento era extenuante, eu tinha vontade de gritar, quebrar tudo, me enfiar no lugar mais longínquo do planeta... Mas ao invés disso, engoli qualquer descontrole e encarei o teto, tendo a voz na minha cabeça que me dizia que eu era uma inútil, e que a vida de todos seria melhor sem a minha presença, como companhia. Ela ganhava forças à medida que eu começava a acreditar nela. Vamos encarar os fatos, o que eu trouxe de bom para qualquer um dessa casa? Não consegui pensar em nada.”

Meu quarto era uma bagunça quando acordei na manhã seguinte, caí no sono com meu diário sobre o peito e Nyx monopolizando meu travesseiro. Me espreguicei e tirei o CD do leitor, o devolvendo de volta ao estojo, o separei dos demais e estava prestes a ir assistir mais alguns quando ouço o toque do meu celular.

“Carter” era Max. “Meu tio pediu os CD’s e o notebook do Crash, disse que seria para a cerimônia, mas acho que tem algo errado” ele sussurrava, possivelmente estivesse no trabalho e não quisesse ser escutado.

“Fica calmo, eu irei te devolver, mas seu irmão não vai ser enterrado em Chicago?” perguntei no mínimo desconfiada. Cerimônia? Não sei se acredito nessa história e para quê ele queria o notebook?

“Sim, mas ele quer agora, disse que o corpo do meu irmão já está ficando podre, que ele precisa ser enterrado, me mandou para casa para pegar tudo” Max parecia nervoso demais, o tio dele desconfiaria assim que pusesse os olhos sobre ele.

“Sai logo daí, Max, e não deixa ninguém te ver, vou te esperar naquela praça perto do teu prédio” falei e olhei no visor o horário. Merda, todos ainda estavam em casa.

“Trinta minutos?” ele perguntou e parecia já ligar o carro.

“Duas horas no mínimo, tenho algo para fazer antes” respondi, revisando o “plano” na minha cabeça.

“Duas horas?! O que eu vou dizer para o meu tio?” Max era uma pilha de nervos e eu tive que usar toda minha pouca paciência para acalmá-lo, por que diabos eu tinha que fazer tudo, pensar em tudo?!

“Seu irmão morreu Max, diga que ficou emocionado por mexer nas coisas dele, chore, sei lá, dê seu jeito” respondi sem muito tato e desliguei. Bufando com irritação.

Joguei todos os CD’s que eu assisti, e eram irrelevantes, de volta à caixa, não devolveria os que eu ainda não havia assistido. Duvidava que o tio de Max soubesse a exata quantidade. O problema era o notebook. Ele o destruiria, eu tinha certeza disso, ele destruiria toda evidência que havia ali, mas se Max não o levasse... Não queria imaginar o que aconteceria. Olhei meu celular, Patrick havia lido a mensagem, mas não havia respondido... Perfeito.

Encarei o notebook de Crash e depois o meu, as marcas eram diferentes, mas as cores eram iguais, respirei profundamente, pensei em todas as temporadas de House e Nikita e simplesmente troquei a tela de bloqueio pela mesma que havia no notebook de Crash, pus uma senha qualquer, arranquei os adesivos idiotas, os colei no meu notebook e torci para que nenhum deles fosse um técnico em informática que conseguisse desbloquear o aparelho, pois assim que o fizessem iriam se deparar com muitas séries e livros em pdf.

Não sou uma pessoa muito religiosa, minha mãe era uma ateia convicta, mas eu sempre gostei da sensação de que havia algo mais poderoso a olhar por nós, sei que parece hipocrisia só lembrar Dele nos momentos difíceis, mas em minha defesa, esse é um momento BEM difícil, então fiz uma prece silenciosa, prometi até entrar na lista de doadores de medula óssea, e eu odeio agulhas, se ele me ajudasse com aquilo.

Peguei a caixa, a mochila com os notebook’s, meus mocassins do dia anterior, e enxotei Nyx para fora do quarto, enquanto o trancava por fora, guardando a chave no bolso da saia. Eu tinha bastante noção que minha cara não era das melhores, tampouco meu cabelo, mas aquelas eram preocupações irrelevantes no momento. Me tranquei no banheiro e dei uma geral na minha própria bagunça. Prendi os cabelos num coque firme, lavei o rosto, escovei os dentes, apliquei um pouco de blush sobre as maçãs das bochechas, para pelo menos me tirar aquele ar cadavérico, e saí do banheiro. Agarrava a caixa com tanta força que parecia que alguém iria me matar caso eu a derrubasse e por mais que eu tentasse disfarçar, minha cara de culpada era cristalina, se eu estivesse com aquela feição no dia do meu julgamento antes mesmo do meu avô abrir a boca o júri já teria um veredicto: culpada.

— Algum problema, Carter? – Lauren me abordou no corredor e olhava com curiosidade para o objeto que eu segurava protetoramente.

Neguei com a cabeça, passando pouquíssima convicção.

— É por causa da entrevista que a mãe do Max deu? – pelo menos havia algo no qual eu pôr a culpa, aproveitei essa justificativa para ocultar minhas reais preocupações.

Abaixei a cabeça e apenas confirmei, me senti minimamente culpada quando Lauren me abraçou e despejou um beijo sobre a minha bochecha.

— Vai ficar tudo bem – me assegurou e sorriu de soslaio.

Oh fuck! — Obrigada – ignorei meu pensamento e sorri nervosamente.

— Lauren, nós já vamos! – Hank gritou da sala de estar e a loura despediu-se rapidamente, dizendo um audível “já vou”.

A rotina na casa Benson havia voltado ao “normal”, e todos saíram para seus respectivos empregos, colégio, creche e universidade, mas eu tinha certeza que não me deixariam sozinha em casa, teoria comprovada quando dei de cara com Jane, sentada rígida no sofá, com um copo de café numa das mãos e o jornal na outra. Bem que tentei sair pela porta dos fundos, mas a mulher tinha a audição de um leopardo, ou qualquer outro animal com uma boa audição.

— Indo para algum lugar? – nem levantou a cabeça ao perguntar, aproveitei o momento para empurrar a caixa pelo espaço na porta que o Bolinha usava para invadir a casa.

A saliva desceu cortando minha garganta e impus a minha melhor cara de paisagem – Sim, aproveitar meus últimos minutos de liberdade – respondi o mais naturalmente quando pude.

A mulher tirou os olhos do jornal e os ergueu até mim, mesmo de longe me avaliava com extrema atenção, como se estivesse decidindo se deveria ou não confiar, pela forma que contraiu os lábios e semicerrou os olhos a resposta era bem óbvia: não confiar.

— Meio cedo para aproveitar essa liberdade não é? Indo para onde? – era bastante evidente onde Olivia havia herdado a veia investigativa.

— Eu ouvi o que Thomas falou, um ano e quatro meses em algum buraco do outro lado do estado – sim, eu resolvi apelar para o sentimentalismo. A feição de Jane se suavizou e ela suspirou, abaixando os óculos de leitura – Então não é tão cedo no final das contas – concluí e cruzei os braços.

Jane não queria me deixar sair, era visível em cada célula do seu corpo, mas ignorou qualquer coisa que sua consciência a dizia e simplesmente me liberou – Esteja em casa antes do almoço –

Concordei e suspirei aliviada quando saí pela porta, pegando novamente minha caixa e praticamente correndo dali.

P.O.V Olivia B.

Eu sabia que o que estava fazendo era errado, eu sabia que o grampo no celular de Carter deveria ser usado apenas se ela mantivesse contato com Lori, mas meu desespero sobrepôs minha racionalidade, então sim, eu ouvia às ligações dela, mais exatamente as que ela fez para Max.

A primeira era da noite anterior. CD’s, então era isso que ela tinha naquela caixa, Alicia havia dito que os outros dois agressores ficavam mandando Crash filmar, Max disse que o irmão gostava de editar, fazia sentido, mas por que Carter queria essas filmagens? Eram evidências e ela poria tudo a perder se as adulterasse.

Minha cabeça latejava com tudo aquilo. Quando a minha vida se tornou tão complicada? O papel de resignação do caso estava sobre a minha mesa, mas me sentia temerosa em assiná-lo, prometi que pegaria os responsáveis, abandonar a investigação, pelo menos legalmente, era uma forma pouco convencional de atingir esse objetivo, mas eu não via alternativa.

— Você viu a entrevista da Sra. Olsen? – Amanda entrou no meu escritório após bater duas vezes.

Fiz uma cara de confusão – Que entrevista? – eu não estava particularmente “antenada” por esses dias.

A loura mordeu o lábio com certo nervosismo – Não é nada bom – falou e arremessou o jornal na minha direção.

A notícia de que havíamos recuperado Carter após treze anos rendeu algum tempo na mídia, até ofereceram dinheiro por uma entrevista, mas quando declinamos de todas as ofertas eles pararam de encher o saco e agora, pelo visto, encontraram uma história ainda melhor para vender. Aquilo era um pesadelo.

— Eu deveria ir à televisão também e falar que o anjinho dela está envolvido com o estupro de três mulheres e o assassinato de duas – rosnei um tanto furiosa com toda aquela situação.

— Mas você não fará isso... – Amanda arqueou a sobrancelha.

Bufei e apoiei o rosto sobre a mão – Óbvio que não farei isso – suspirei com cansaço – Há muitos conflitos de interesse aqui, Amanda, eu tenho que me afastar dessa investigação – declarei o que possivelmente todos estivessem esperando que eu fizesse, afinal, ser mãe da pessoa que matou o único suspeito do seu caso não lhe torna muito confiável aos olhos da Justiça, algo sobre imparcialidade ou qualquer idiotice do gênero. Peguei meu casaco e assinei o papel, entregando-o nas mãos de Amanda.

— Pegue-os – sorri fracamente para a loura e apoiei a mão sobre seu ombro num gesto afável.

— Para onde vai, Olivia? –

— Ainda há outros casos, a força tarefa para capturar Lori... Mas agora tenho algo mais importante – revelei e me distanciei.

Era hora de esclarecer tudo com Carter.

Notas finais
Andei vendo muito How to Get Away With Murder pra fazer bonito no dia do julgamento .sqn HAHA, não sou de humanas -QQ