Finding Carter
20 After all
— Quanto tempo ainda vai levar? – aquela era a terceira vez que eu fazia a mesma pergunta em menos de dez minutos.
Achei uma loja de eletrônicos 24h e agora tentava desbloquear o notebook do Crash, pelo que o técnico disse não levaria muito tempo, então sentei ao lado dele e fiquei observando cada parte do processo, não queria que ele visse nada que não deveria.
Suava frio, mas não fazia ideia se era de nervosismo ou por não ter comido. Não consigo lembrar a última vez que me alimentei para ser honesta.
— Estimativa? – perguntei quando minha barriga protestou.
— Vinte minutos – ele respondeu pacientemente.
Havia uma lanchonete na esquina, passei por ela ao descer do ônibus, eu poderia buscar algo e voltar em sete minutos. Não podia deixar Max plantado naquela praça por mais tempo do que o necessário.
— Eu vou à lanchonete e volto já – falei e o rapaz concordou, pude notar um certo alívio em sua postura quando disse isso.
Olhei uma última vez para o notebook antes de me dirigir até o estabelecimento. Comprei um sanduíche e café, em exatos dez minutos eu estava de volta e quase engasguei ao ver que ele já havia desbloqueado.
— O que tá fazendo?! – rosnei em tom acusatório.
Ele me olhou como se eu fosse uma psicopata ou coisa do gênero – E-eu – gaguejava debilmente – Nada, é a página que aparece após desbloqueá-lo – se explicava nervosamente.
O avaliei por longos instantes, ele não tinha cara de quem acabara de presenciar algum crime, suas bochechas vermelhas provavelmente eram em decorrência do meu descontrole.
— Terminou? – abrandei meu tom de voz e ele apenas maneou a cabeça numa afirmação.
Abaixei a tela do notebook e pus os $50 sobre a mesa – Desculpa qualquer coisa – sorri fracamente, mas ele não correspondeu. Peguei minhas coisas e saí dali.
Eu estava completamente falida. Das minhas economias antes dos Benson’s, das gorjetas do Red Mango e do dinheiro da venda de drogas agora me sobravam $20, também pudera, drogas são caras e ser extorquida pelos gêmeos não melhorou em nada minhas finanças. Será que Lauren me faria um empréstimo, para eu pagar daqui a dois anos? Ri solitariamente com esse pensamento, era melhor rir da situação mesmo.
**
Peguei o metrô. O trânsito maldito de NY me faria chegar ao parque dali a dois dias se houvesse tomado o ônibus, o problema era a longa caminhada que eu teria que fazer, sou sedentária demais para andar. Uma hora e quarenta e três minutos depois eu chegava ao ponto de encontro. Max agradeceria minha pontualidade. Primeiro avistei a cabeleira loura e bagunçada dele, depois estreitei os olhos ao ver um carro que eu julguei impossível estar ali.
— Maldição – amaldiçoei quando tiver certeza se tratar de Olivia montando guarda a alguns metros do local onde Max estava, possivelmente para me pegar no flagra, mas como ela sabia? Estava me seguindo? Meu celular vibrou e esse foi um daqueles momentos de pura revelação. Ela havia me grampeado. Mordi a língua ou um palavrão dos feios iria escapar e eu não estava particularmente interessada em xingar Jane.
Parei no meio do caminho e simplesmente virei às costas, andando para o meio da multidão novamente, sendo englobada pela massa de seres humanos. Precisava pensar, era tarde demais para dar as costas e ir embora.
Como opções temos: 1- Ir embora e deixar Max completamente ferrado, essa foi a mais fácil de ser descartada.
2- Ir eu mesma entregar a caixa para o tio do Max, essa com certeza foi a mais idiota. Por que diabos a assassina estaria entregando os pertences do defunto?
Ficamos com o plano C, aquele plano que não é excelente, mas te faz passar de ano.
Agarrei a caixa embaixo de um dos braços, o meu notebook embaixo do outro e saí em disparada até o ponto onde Max estava.
— MAX! – gritava enquanto desviava de algumas pessoas e olhava com certo terror para onde Olivia estava. A mulher começava a sair do carro, mas para minha sorte, eu estava mais perto.
O louro me encarou de forma assustada e parecia completamente perdido sobre o que fazer em seguida. Entreguei a caixa e o notebook nas mãos dele, e o empurrei, quase o fazendo cair – Corre! – exclamei e foi exatamente o que ele fez.
Olivia já estava a poucos metros de nós e pude ver toda sua feição se transformar numa máscara raivosa ao me encarar. Ela voltava para o carro, possivelmente para seguir Max, mas eu não poderia deixar. O notebook de Crash sacudia tão fortemente na mochila, durante a corrida, que eu tinha a impressão que iria quebrá-lo em poucos instantes. Estava ofegante quando me pus à frente do carro da mulher, se ela quisesse seguir Max, teria que me atropelar para realizar esse feito. Realmente torcia para não ser o caso.
Os transeuntes assistiam a cena com discreta curiosidade e me mandavam sair do meio, mas eu estava determinada a ficar exatamente ali.
— Entra nesse carro, Carter! – Olivia gritou ao descer do veículo e estava com uma cara para lá de assustadora. – Agora! – gritou mais uma vez ao ver que eu não me movera.
— Não! – rebati no mesmo tom e cerrei os punhos.
Ela ia se aproximando e eu aumentava a distância ao dar passos para trás, quando ela notou que era inútil, simplesmente parou.
— Quer fazer isso aqui? – abriu as mãos e olhou ao redor, alguns curiosos ainda acompanhavam o desenrolar daquela cena.
— E desde quando você se importa com privacidade? – retruquei com todo desprezo disponível e arqueie a sobrancelha ao ver que ela nem tentava se defender. Desgraçada, estava mesmo me monitorando.
— Pelo visto eu tinha razão, afinal, olha onde estamos e o que você está fazendo – apontou para o notebook, que era grande demais para ser completamente escondido na mochila. O comprimi mais fortemente contra meu corpo. Seria um dia gelado no inferno se ela quisesse tomar aquilo de mim.
— Você não sabe o que eu estou fazendo – falei e estava verdadeiramente ressentida com aquela desconfiança, mas pensando bem, não dei muitos motivos para ela confiar em mim.
— Eu acho que nem você sabe o que está fazendo, Carter, apenas entre naquele carro e podemos resolver isso juntas – deu mais um passo, e eu dei mais um passo para trás, negando com a cabeça.
— Eu estou tentando consertar, por que ninguém consegue ver que eu quero fazer o certo?! – estava irritada ou triste, era difícil discernir quando tudo acontecia ao mesmo tempo. Minha cabeça doía e tudo que desejava eram drogas... Se eu tivesse drogas nada daquilo importaria, eu simplesmente não ligaria para quem visse o maldito vídeo, não daria à mínima se fosse ou não para a cadeia, mas sóbria? Cada maldita coisa importa.
— Eu sei que você quer – Olivia abrandou o tom de voz e suspirou sofregamente – Você tenta ajudar todo mundo, me deixe te ajudar dessa vez –
Ficamos nos encarando por longos minutos, até que o celular de Olivia interrompeu minhas ponderações. Eu estava realmente considerando mostrar para ela, onde eu estava com a cabeça?! Assim que qualquer um visse aquilo, todas as vezes que olhassem para mim seria a única coisa que lembrariam... Eu não poderia viver dessa forma.
— Você deveria atender isso – aconselhei friamente e a mulher pegou o aparelho com certa frustração. Não fiquei para saber sobre o que aquilo se tratava e entrei no primeiro táxi que cruzou meu caminho, mandando-o acelerar.
— Para onde? – o senhorzinho perguntou.
— O mais próximo que possa ficar da estação de metrô por vinte pratas – respondi e passei o dinheiro pela frestinha. Lá se ia o resto do meu dinheiro.
†
P.O.V Olivia B.
— Péssima hora para ligar, Amanda – descontei parte da minha raiva na loura, embora entendesse que ela não tinha culpa.
— Lori está aqui – simplesmente não acreditei quando ela disse, então pedi para que repetisse, coisa que ela fez – Lorelai Stevens está aqui, ela se entregou – a mulher falou mais uma vez e eu quase bati com o carro em algum poste.
Ir atrás de Carter ou encarar meu demônio particular? Estacionei e pus na balança onde eu poderia ser mais útil. Carter preferiria ver qualquer pessoa que não fosse eu. Ela precisava de um tempo e honestamente? Eu também.
— Estou indo – respondi após longos minutos de silêncio.
Liguei para Hank, ele não ficou tão feliz quanto eu pensei que ficaria, para ser sincera, eu também não sei se o que sinto é felicidade. Ouvir a voz de Hank, dizendo que me apoiaria independente de qualquer coisa, me ajudou a atravessar aquela porta. As pessoas olhavam, mas nenhuma delas me abordou, eu tinha sorte por aquele lugar não estar repleto de jornalistas carniceiros na porta, mas em breve vazaria e aquilo se tornaria uma confusão.
Sabe o que eu acho que irá acontecer? Lori escreverá um livro, ele virará um best-seller, se for a julgamento, Carter testemunhará a favor dela, o que significava que em cinco anos, com bom comportamento, ela estará fora da cadeia e possivelmente mais rica do que eu. A vida é uma vadia injusta, quanto antes aprender isso melhor. Então eu não estava feliz, eu sentia raiva daquele verme.
Encontrei Amanda fazendo vigília à frente da sala de interrogatório, estranhei um pouco.
— Ela só aceita falar com você – explicou ao notar minha confusão – Já providenciei os papéis – completou me entregando uma pasta.
— Quando eu pensava que meu dia não poderia ficar mais louco – comentei e entrei na sala.
Meu ar altivo e minha carranca esnobe disfarçavam a confusão de sentimentos que se embaralhavam dentro de mim. A mulher a minha frente era uma cópia fiel de Lauren, mas com Carter não tinha nenhuma semelhança, fiquei grata por ela não ter mais essa coisa em comum com a minha filha. Sentei-me calmamente e fiquei a fitá-la por longos minutos, ela não desviou o olhar, na realidade, o sustentava com uma imparcialidade que eu nunca vi antes.
— Então... Cá estou, que tal começar a se declarar culpada, assinar o termo e aceitar seus anos na cadeia? – falei naturalmente, tamborilando o indicador sobre a mesa.
— Eu não me entreguei por isso – a voz dela era firme e os olhos me estudavam com curiosidade. Havia lido que ela era uma psicóloga, talvez viesse daí aquela pose. Não me intimidei e estava realmente orgulhosa do meu autocontrole, caso contrário já teria a matado. – Carter está com problemas – prosseguiu e fitou as próprias mãos, talvez se culpasse por isso. – E eu quero ajudar – concluiu e a voz era firme novamente, como se tivesse absoluta certeza que aquela fora uma decisão acertada. Se entregar a fim de ajudar Carter.
Franzi o cenho e semicerrei os olhos, eu não confiava naquela mulher. Não me importava se ela ressuscitaria Jesus, eu nunca acreditaria em algo que dissesse. – É mesmo? E como fará isso? – um traço de ironia brincou na minha voz.
A mulher ignorou meu sarcasmo e umedeceu os lábios — Eu sei o que aconteceu com ela — revelou seriamente e só então conseguiu ter minha total atenção, ao notar isso, prosseguiu – Carter começou a ficar estranha após o aniversário de quatorze anos –
— Como se você soubesse o dia do aniversário dela – a interrompi e falei com extremo desprezo. Ver aquela mulher relatando acontecimentos sobre a vida de Carter era uma tortura.
— Doze de setembro – a loura sussurrou e eu ergui o rosto – Eu sei o aniversário da minha filha – vê-la chamando Carter de “filha” foi o estopim. Choquei as mãos com voracidade contra a mesa metálica e o barulho a fez se sobressaltar na cadeira.
— Ela não é sua filha, ela é minha filha – rosnei ameaçadoramente.
Lori nada disse, apenas me encarou de forma imparcial antes de prosseguir – Ela não me diria o que havia de errado, e eu não a pressionei, dois meses depois, mais ou menos, eu a encontrei desacordada numa poça de sangue – ditava e parecia estar fazendo um gigantesco esforço para relembrar sobre aquele dia, já eu preferia nem imaginar tal cena – Uma médica veio falar comigo uns vinte minutos depois e disse que precisava me dizer algo sério – suspirou visivelmente abalada – Pensei que ela fosse me dizer... – deixou a ideia no ar e notei algumas lágrimas rolarem por seu rosto – Mas ao invés disso ela disse ‘Conseguimos estancar o sangramento, mas o bebê não resistiu’ – minha boca foi gradativamente abrindo a medida que meu cérebro processava aquilo.
— Ela estava grávida?! – perguntei o óbvio apenas para ter certeza que estava realmente acompanhando bem aquilo.
Lori concordou com a cabeça e fungou antes de prosseguir – Ela nunca me esconderia algo assim, ela sabia que eu não me importaria, eu sempre fui liberal, não me importaria em ser avó, eu posso ter feito muitas coisas erradas, mas Carter não é uma delas, ela sabia que podia confiar em mim, eu nunca viraria as costas para minha filha, além do mais, se ela queria um aborto, não teria porque se matar no processo... – me olhou, mas eu estava muito chocada para gritar com ela novamente — Então simplesmente soube que algo estava errado, e que alguém havia machucado meu bebê, ela estava com vergonha, não com medo – revelou tristemente.
— E o que você fez? – perguntei com certa urgência.
— Eu fui para casa, a única coisa que Carter confiava mais do que em mim era naquele diário, então eu o li... Ela dizia que havia sido violentada, não dizia quando e também não mencionava nomes, mas não havia nada sobre gravidez, eu acho que ela não sabia que estava grávida. Roxy nunca machucaria algo tão indefeso... Ela sempre foi boa demais para viver nesse mundo – falava de uma forma tão carinhosa sobre Carter que quase senti uma mínima empatia – Então eu voltei para o hospital e ordenei que ninguém a dissesse sobre o bebê, ela não precisava de nada que a machucasse ainda mais – ergueu os olhos até os meus como se esperasse encontrar alguma compreensão, estranhamente, eu a compreendia.
— Então você não chamou a polícia – minha voz era algo distante, até eu tive dificuldade para reconhecê-la.
A loura maneou a cabeça negativamente – Eu não chamei a polícia, eu tentei levar Carter para casa, mas a psiquiatra que a avaliou disse que ela ficaria internada por mais um mês... Hospital e remédios não eram o que Carter precisava, eu tentei levá-la para casa mesmo assim, mas o serviço social ameaçou tirá-la de mim caso eu desobedecesse às ordens médicas – relembrou com amargura e deu um sorriso fraco — Quando Carter saiu ela estava tão quebrada quanto antes, a única diferença que ela era uma viciada dessa vez, perdeu o ano escolar, começou a sair com diversos garotos, drogas, serviço comunitário, drogas novamente – pausou e escondeu o rosto entre as mãos – Foi o Crash, certo? – a pergunta foi quase uma confirmação.
Dei de ombros – Eu não sei – admiti no mesmo ar abatido – Se ela não estava disposta a falar disso há dois anos, a iminência da prisão não mudou essa convicção – completei amargamente.
— Me desculpe -
Aquelas duas palavras me pegaram de surpresa, e acho que minha confusão se estampou na minha cara.
— Você ao menos sabe pelo que está se desculpando? – rosnei e cerrei os punhos tão fortemente que minhas unhas cravaram-se na palma da mão.
A loura maneou a cabeça em afirmação — Eu tirei um pedaço da sua alma – sussurrou e parecia verdadeiramente arrependida. Nada apagaria os últimos treze anos, mas Lori tinha razão, ela roubou uma parte da minha alma.
— Você tirou – concordei e tive que respirar profundamente ou iria chorar tudo que andava represando nos últimos dias. – Você a tirou de mim e não a protegeu como deveria! – esbravejei e me permiti perder o controle, ela era a pessoa a quem todos deveriam estar culpando... Ou eu precisava culpá-la, fazer com que ela sentisse pelo menos 1% de como eu me senti quando não pude proteger meu bebê. — Tudo é sua culpa na realidade, você estragou a vida dela – não posso negar, magoá-la era estranhamente prazeroso, embora eu soubesse que quando a adrenalina saísse da minha corrente sanguínea eu me arrependeria daquilo... Apesar de tudo que aquela mulher me fizera, eu ainda me arrependeria.
Lori aceitou tudo que eu tinha para dizer calada, e o fato dela ser tão “civilizada” era ainda mais irritante. O completo oposto de como a imaginei.
— O diário irá ajudar? – questionou após eu me recuperar do meu descontrole.
Dei de ombros novamente, eu não fazia ideia. Foda-se, eu estava aceitando qualquer coisa a essa altura.
— Está em um depósito em Chicago, eu o guardei junto as nossas outras coisas que não couberam no apartamento – deu um sorriso tenso — Carter se envolveu com um cara casado... Tivemos que nos mudar por questões de segurança – revelou e mordeu o lábio em sinal de nervosismo.
— Ela não quer falar sobre isso, e eu não tenho a intimidade para fazê-la falar, então essa é nossa situação: Eu posso pôr esse diário na frente de um Juiz, posso até provar que Carter realmente escreveu isso há dois anos, posso acusar Crash de ter sido o responsável, mas no momento que o Juiz a confrontar, ela negará. Se não há vítima, não há crime. Eu não posso sustentar toda defesa dela em algo que Carter não confessará, – expus sucintamente meu dilema para Lori, e foi bem libertador tirar aquilo do peito.
— Ela não falará para se ajudar – comentou obliquamente.
— Foi o que acabei de dizer – respondi com enfado.
— Você não entendeu, ela só falará se isso puder ajudar outra pessoa – revelou – Diga que ela estará ajudando outra pessoa – aconselhou e só então voltou os olhos para os papéis à frente dela, suspirou antes de assiná-los.
Lori não pediu por um advogado, sequer leu todos os termos, simplesmente assinou os papéis que a responsabilizam pelo sequestro de Carter e me encarou, quase como se dissesse “hora de pagar pelo que eu fiz”. Realmente era hora dela pagar.
— Por que a Carter? – me lembrei de uma pergunta que Carter me fez durante o jogo de Noah, apesar da resposta que eu a dei, não fazia ideia do real motivo.
A mulher tirou os olhos dos papéis e sorriu timidamente, como se uma lembrança boa acabasse de lhe ocorrer – Ela era a mais feliz – revelou simplesmente e abaixou a cabeça.
Um nó se formou na minha garganta e antes que eu pudesse detê-las as teimosas lágrimas ousaram rolar... Minha Kate era realmente a mais feliz.
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