Os lobos costumavam dominar esse planeta.

Há muito tempo. Mais tempo do que se é possível contar, mas certamente não o suficiente para se esquecer.

No início, havia apenas Fenrir.

O lobo gigante. Tão grande que quase não enxergava o chão sob suas patas. E dele nasceram Hati e Skoll. Lobos que até hoje perseguem a lua e o Sol.

Um dia eles alcançarão a sua presa, e a serpente morderá a sua própria cauda.

E será este o dia em que não haverá mais dia.

Mas isso não é sobre eles.

É sobre um lobo de cor escura que nasceu em uma matilha secreta. Cercado pelas mais magníficas e impetuosas criaturas. Seu pai era o alfa, e descendia de uma linhagem diretamente ligada ao todo poderoso Fenrir.

Mas esse não era um lobo grande, forte ou mau. Era um lobo pequeno, fraco e indefeso. Chorava para a sua mãe quando o poderoso Thor trazia os raios para a terra. Tremia e rangia os dentes com o frio. Mas nem mesmo sua mãe, aquela que o carregou por dois longos meses, era paciente com a sua fraqueza.

Foi assim que se tornou o lobo gama.

O pequeno lobo escuro era alimentado apenas com o resto, e, quando não sobrava nada, tinha de roer, com os seus dentinhos, os ossos das carcaças. Desprezado por todo o seu bando, o filhote nunca cresceu, embora isso não impediu os anos de passarem. E passou. Passou e passou. Viu alfas caírem, e outros se erguerem no lugar, mas ele se mantinha imutável: o elo fraco da corrente.

Até que os anos começarem a ser cruéis, e a neve lentamente ia embora. Macacos pelados sobre duas patas começavam a aparecer. Os tão poderosos lobos encontraram com o desconhecido: a fome.

E a cada noite que passavam sem comer, batiam no lobo gama. Não era sua culpa, e todos sabiam, mas era sob ele que a punição recaía.

O pequeno lobo gama de pelo escuro já estava velho, embora ainda parecesse um filhote. Numa manhã quente, ainda sangrando com os feridos da noite anterior, encontrou o seu caminho para longe daquela matilha.

Parecia ser a decisão lógica, mas, mesmo assim, era difícil. Para os lobos, viver sozinho é suicídio. E por muito tempo, o pequeno lobo achou que seria este o seu fim.

Caminhou até suas patas doerem como o inferno. Caminhou até não saber mais onde estava. Caminhou até quase alcançar o Sol, e às vezes quase podia sentir um pingo de alegria quando fantasiava-se sendo Skoll.

Caminhou até alcançar as árvores que quase tocavam ao céu, e então encontrou uma clareira. No campo aberto, haviam construções engraçados e também assustadoras. E mais um daqueles macacos que andavam sobre duas patas.

Era uma fêmea, ele pôde observar. Dominava alguns outros animais, passarinhos multicoloridos e galinhas que ciscavam o chão. Entretanto, todos eles se afastaram e foram para longe quando a bípede entrou em sua casa.

O pequeno lobo tremia. Tanto com a excitação por ter achado comida quanto pela fome que o mastigava de dentro para fora. Caminhou com passos vagarosos e em completo silêncio até a construção engraçada. A criatura em seu interior fazia um barulho estranho com a boca. Parecia com os passarinhos, mas era diferente. Mais bonito.

Mas os lobos não se importavam com beleza.

Foi por isso que ele pulou a janela daquela casa. Foi por isso que ele avançou contra a mulher. Foi por isso que ele a calou para sempre.

Na sua boca, o sangue ainda cantava, mas a carne era quente, macia e deliciosa. Soube que sua presa era velha porque tinha a carne cheia de gordura e os ossos fracos, mas não se importou.

Estava terminando a sua refeição quando uma mocinha de longos cabelos castanhos e capuz vermelho empurrou a porta e gritou. O lobo pensou que havia conseguido mais comida, mas um outro macaco sem pelos apareceu e este carregava um machado.

Assustado, o lobo fugiu. Desapareceu entre as grandes árvores da floresta, mas esse não foi o fim da história, como todos costumam dizer.

Os dias se passaram, e a lenda do lobo solitário era contada à noite, para que as crianças se comportassem.

Mas isso não importava, pois o lobo de pele escura não iria parar. Em cada canto escuro, ele aparecia. Seja para três porquinhos construtores, ou um garotinho que engana os outros gritando “lobo”. E o pequeno lobo gama que apanhava de sua matilha se tornou grande. Grande e mau.

—

O lobo mau caminha pelas ruas de New York.

Vestia sua melhor camiseta amassada e a sua gravata menos feia, e isso significava apenas que ela não estava muito manchada. Na sua boca, um cigarro acesso. Ele gostava daquele cigarro. Gostava do sabor amargo que deixava na boca. Era um lembrete da sua própria vida. Tudo na vida de Bigby Wolf tinha sido amargo. Desde quando caminhava sobre quatro patas, como um lobo pequeno em algum lugar do passado, até a noite passada.

A noite passada ainda era inverno e ele estava com a Branca de Neve, mas não houve frio. Juntou toda a sua coragem, e o desejo que alimentou há séculos, e avançou. Um beijo. Ele queria vê-la nos olhos, mas teve de fechar os seus.

Esperou por tanto tempo por aquele momento. Os braços finos dela ao redor do seu corpo, sentir lentamente a princesa de gelo derreter com a dança de suas línguas, o queixo bem formado e perfeitamente macio dela roçando contra a sua barba por fazer, o perfume dela penetrando as suas narinas.

Todos esses elementos, e mais um milhão de outros, tornaram aquele momento eterno.

Mas Bigby Wolf sabia que o eterno tinha fim. Ou então Branca de Neve teria tido o seu ‘felizes para sempre’ realmente para sempre e aquele momento nunca poderia ter acontecido.

E aquele momento eterno também ficou para trás.

Agora um lobo mau caminha pelas ruas.

Há muito tempo o lobo caminhava pelas sombras do mundo inteiro, e as pessoas se escondiam. Agora, ele caminhava entre eles. Como eles. Com as duas pernas, um cigarro na boca, e uma atitude ruim. Bigby parecia humano, andava como humano e, na maior parte do tempo, tentava agir como humano, mas ele nunca deixaria de ser o lobo grande e mau. O lobo que devorou dois dos três porquinhos. Que devorou a vó da Chapeuzinho Vermelho. Que devorou as crianças más, e muitas que eram boas também.

Ele adotou um novo nome, tinha um novo rosto e até novos hábitos. Mas, por mais que tentasse esconder, ainda havia um lobo escondido dentro do seu peito e ele queria sair.

E ele saía. Quando o trabalho de xerife de Fabletown ficava muito complicado. Ou quando alguém saía da linha e o irritava demais. Coisas assim.

Mas o lobo nunca se atrevia a escapar quando Branca estava por perto.

Não. Quando Branca estava por perto, o lobo enfiava o rabo entre as pernas e se encolhia. Não só pela vergonha que sentia em mostrar o seu focinho feio e maldoso, mas também por medo. Não medo do que Branca podia fazer, mas medo do que crescia dentro de si sempre que ele a olhava.

Medo.

Mas não era o medo que impulsionava o lobo a andar pelas ruas de New York naquela manhã, com a sua melhor camiseta e o cigarro na boca. Era a esperança. A esperança que, pelo menos uma vez, a vida poderia imitar as fábulas. Não as fábulas verdadeiras, cheias de terror e violência, que mesmo ele tinha vivido, mas as fábulas que os mundanos costumavam contar. Cheias de finais felizes.

Ele sabia que estava mentindo para si mesmo, mas não queria acreditar. Foi por isso que chegou ao escritório dela, abriu a porta e passou os olhos à sua procura.

Encontrou-a sem dificuldades, e ela, diferente dele, estava a mesma que sempre foi: fria como a neve. Bigby sorriu, e ela tentou. Um tímido movimento nos lábios que mais parecia um espasmo, mas que ele sabia ser algo mais.

— Temos que conversar...