Final Feliz
2 Capítulo 2
Talvez não houvesse uma madrasta.
Quer dizer, é claro que o seu pai, depois de alguns anos de viuvez, voltou a se casar. Mas a moça não era de toda má. Na verdade, era até simpática. Com grandes olhos castanhos e cabelos louros emaranhados.
Está certo, havia uma madrasta, mas não foi por causa dela que Branca fugiu para a floresta. Foi porque estava entediada. Entediada com a vida na nobreza, os tecidos finos, os flertes dos nobres, os relacionamentos artificiais. Estava entediada com a sua irmã sonhando com quem iriam se casar e com a sua madrasta fazendo os preparativos.
Na floresta não havia lugar para tédio.
Na floresta havia apenas admiração, curiosidade e até um bocado de medo, mas não tédio. Tédio nunca. Já era tarde quando escapou do castelo e, por isso, aproveitou pouco tempo de luz do dia. Mas admirava-se com a naturalidade das coisas, a sinfonia dos seres, a valsa das folhas. Acolheu-se na sombra de uma grande árvore e encontrou o sono sob a luz do luar.
Acordou com fome, e com a garganta seca.
Cantou junto aos passarinhos e pulou com as lebres. Encontrou algumas maçãs aqui e ali, mas já começava a sentir falta das mordomias da nobreza. Seus grandes olhos azuis e brilhosos apreciavam o que via, mas a sua barriga roncava e a pele macia pedia pelos confortos de casa.
Pensou que já havia passado tempo o suficiente em sua própria aventura e teria histórias longas, inventadas e verdadeiras, para contar à sua irmã. Planejou o seu retorno para o fim da tarde, com o horizonte laranja do pôr do Sol, mas isso não aconteceu.
Em seus lábios semicerrados havia música. Um assobio que imitava os pássaros multicoloridos que encontrara. Mas, em completo silêncio, algo a alcançou por trás e fez tudo se tornar silêncio.
Silêncio e escuridão.
Eles eram sete.
Sete homenzinhos que pareciam ser feitos de maldade. Maldade em seus olhos e até em suas risadas. Branca não soube de imediato o que eles estavam fazendo. Só sabia que doía e que eles não estavam dispostos a parar.
No primeiro dia, chorou e gritou até não lhe restar mais forças. Mas ninguém lhe ouviu. No segundo, sentiu raiva. Raiva de si mesma. Que tipo de princesa foge de seu reino para ficar sozinha numa floresta? Entretanto, no terceiro, havia um sentimento diferente dentro do seu peito: pena.
Pena por aqueles homenzinhos que não conheciam nada além da maldade. Pena pelo o que ela ia fazer quando se livrasse deles. Pois tinha a certeza que se livraria.
Por semanas inteiras tentaram a ferir. A marcaram com machucados em sua pele, e tentavam esmagar a sua alma com atos inomináveis, mas eles não tinham esse poder. O espírito de Branca era firme como aço.
E por isso não chorou. Não sentiu raiva.
Guardou a si mesma dentro de seu próprio eu e tornou-se intocável.
Esperou semanas, talvez meses, por uma oportunidade, e, assim que a encontrou, a agarrou com tudo o que tinha.
Uma comitiva real passava por aquela floresta maldita, e os homenzinhos ficaram curiosos. Deixaram-na com o que estava sempre sonolento e esse foi o seu fim. Quando ele caiu no sono, Branca atravessou uma lâmina ao peito dele. Sem hesitar, sem sequer piscar.
Os homenzinhos tiveram medo quando voltaram para a casa e a encontraram colorida de sangue e com partes de seu irmão espalhadas pelos cômodos. Tiveram medo e discutiram. Mas Branca só tinha o seu objetivo em mente. Se houvesse sobrado algum para contar história, diriam que só souberam que era morte quando uma presença gélida lhes alcançou.
E então era tarde demais.
Sua pele antes alva deu lugar ao vermelho. Vermelho das feridas, do sangue, tanto seu quanto de suas vítimas. Caminhava suja, ferida e cansada, suas pernas estavam à beira de simplesmente desistir, mas ela encontrou forças onde não antes havia.
Caminhou floresta adentro até encontrar o fogo e o barulho da comitiva real. O príncipe do reino vizinho lhe acolheu e tomou para si o título de salvador, do herói solitário com a sua espada, e deu à Branca a imagem de dama indefesa. Mas isso não importava, porque ela sabia da verdade.
E talvez fosse essa a parte que todos os outros chamavam de “felizes para sempre”. Branca foi prometida para o príncipe como donzela, mas não era uma.
Donzelas são moças de verão, com as bochechas coradas e os olhos brilhantes.
Branca tornou-se fria.
Fria como a neve.
—
A rainha de gelo governava Fabletown.
Quer dizer, não oficialmente. Ela não detinha o título oficial de governante da comunidade das fábulas, mas todos sabiam quem estava no comando. Todos sabiam quem procurar quando tinham um problema: Branca de Neve.
Ou talvez o Lobo.
Mas Branca não queria pensar no Lobo naquela manhã. Foi por isso que, assim que acordou, tomou um banho e esfregou a sua pele até arder, tentando se livrar do cheiro que ficou. O cheiro de desodorante barato, suor e cigarros ruins. Foi apenas um beijo, mas deixou uma marca profunda. Ela banhou a pele tentando se livrar da marca, mas não conseguiu. E nem conseguiria, nem se passasse anos naquela atividade. Ele lhe marcou a alma, e não a sua pele.
Branca não queria pensar no Lobo Mau, mas a todo momento se distraía e o tinha em seus pensamentos. Os modos rudes do xerife, a sua voz que às vezes soava como o uivar de um lobo que perdeu sua matilha. Sobretudo os olhos amarelos. Olhos que conseguiam expressar perfeitamente selvageria e fragilidade.
Tudo em Bigby Wolf era áspero, amargo. Talvez até ácido. Suas palavras, o seu caminhar, sua barba malfeita e mesmo a sua língua contra a dela. Tudo para Bigby era uma briga, mesmo que fosse um beijo. Um beijo que parecia esgrima de línguas. Mas não importava. Trazia uma maré de sentimentos. Sentimentos bem enterrados onde ninguém, nem mesmo ela, tinha acesso. E agora estavam destrancados e caminhavam livre em seu peito.
Isso lhe preocupava. Porque ele era um lobo, e ela uma princesa. E diferentemente do que era para os mundanos, uma princesa não era somente uma dama indefesa em perigo. Uma princesa era, sobretudo, dona de si mesma. Não somente por ter controle sobre sua vida, o seu corpo, e tudo o que fazia com isso, mas porque também era somente a ela a quem pertencia. Era somente a própria Branca que podia conhecer os seus segredos.
Havia algo de Bigby nela, e dele em Branca. Um monstro escondido por baixo da estátua de gelo. Wolf perdia a suas características humanas e deformava a sua essência até só restar o instinto animal e o corpo de lobo. Branca não era assim tão óbvia, e nem podia ser. Mas ainda era a mesma que matou sete homens a sangue frio, e, que mesmo após centenas de anos, não se arrependia. Era a mesma que quis repetir o ato quando descobriu que o Príncipe “Encantado” estava a traindo. Mas ela preferia manter o monstro preso, escondido nas sombras, fingindo que não o conhecia ou que este sequer existia. Na esperança de que morresse de fome.
E a Branca de Neve governava Fabletown.
Ao contrário do que deixava transparecer, se importava com cada uma das fábulas, mesmo com as que não simpatiza. Parecia que não, mas ela estava fazendo o possível. Tentando tornar a vida de cada um deles mais fácil. Fazendo vista grossa para que se endireitem. É claro, eles sempre a culpavam por tudo de mal que acontecia. Mas isso também não importava, porque ela sabia da verdade.
Como o habitual, um coral de vozes se formou rapidamente ao lado de fora de seu escritório, esperando para ser atendido. E, como de praxe, ela era a única em serviço. Havia conseguido tirar Bigby da cabeça quando pensou em suas responsabilidades, mas ele logo voltou, ao se perguntar onde ele estava. Deveria estar ali.
Como se o seu pensamento fosse um grito ao vento, a sua porta abriu com impaciência e a figura masculina se revelou. O lobo mau sobre duas pernas, com uma camisa amassada, uma gravata suja e um cigarro acesso na boca. Não sorria, Branca, não sorria.
Tarde demais.
Ela sorriu, e ele sorriu de volta.
Ficaram por anos se olhando. Talvez por uma vida inteira. Mas só durou um segundo.
Ficou sem saber o que fazer, sem saber o que dizer, e percebeu que suas mãos tremiam. Desviou o olhar dele e respirou fundo antes de abrir a boca e anunciar:
— Temos que conversar...
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