Notas iniciais
Essa história começa no fim.
Ao longo de sua infância, Akuma pensava que nada poderia ser pior do que ser órfão, entretanto, ter o ápice de sua adolescência, início da vida adulta, marcado por participar de uma das maiores tragédias radioativas da história da humanidade — se é que a população da Terra poderia se denominar assim aqueles dias — se mostrou ser realmente desafiador. Desde então o maior pensamento rondando sua desconfiada e paranoica mente era:
— Nada é tão ruim que não possa piorar… — murmurou a si mesmo, fechando os olhos e tentando regular a respiração o máximo possível.
Após dois dias sem comida, o rapaz de apenas 18 anos se sentia velho. O corpo estava dolorido, se sentia febril. A dor no estômago não era tão forte quanto a fraqueza que lhe atingia em ondas de tontura e enjoo. Era irônico, pensar que atualmente ele considerava o tratamento do orfanato de freiras luxuoso. Seguindo seus instintos mais primitivos ele havia acabado de invadir uma propriedade particular — ou o que costumava ser uma propriedade particular — e roubado alguns mantimentos.
Não havia sido exatamente roubo, ou ao menos era o que ele achava, até que ao sair do lugar que aparentava estar vazio, foi visto pelos três curiosos moradores — dois homens de meia idade e uma garotinha que aparentava ter seus 12 anos — a presença da criança entre eles não os impediu de bradar raivosamente quando notaram o furto e persegui-lo com suas espingardas. Enquanto corria, Akuma só conseguia pensar que gostaria de ter espingardas também.
Por sorte, seu físico magro o fez ser mais rápido que seus perseguidores, e conseguiu despistá-los por entre as casas abandonadas do subúrbio. Seu pulmão ardia e suas pernas tremiam como nunca quando se encostou em um muro mal-pintado de cinza em um lote vazio. Tentou novamente regular a respiração rasa, enquanto abria a mochila e retirava de lá um pacote de bolachas. Sentou-se na grama seca para degustar sua mais nova refeição, ciente de que o sabor deveria estar estranho e o produto com certeza com data de validade expirada, ainda saboreou como se fosse sua última refeição. Afinal, não havia garantias de que isso fosse mentira.
Já metade do precioso pacote, Akuma notou uma dor aguda no ombro que o fez quase engasgar. Ao olhar para baixo, pôde observar o ombro ensanguentado mesmo que por baixo da jaqueta preta, realmente considerando se havia sido prudente trocar alguns mantimentos por um ombro saudável. Com a adrenalina baixa, o coração já não parecia estar saindo pela boca, mas sim, pela ferida aberta em sua pele. Nada é tão ruim que não possa piorar.
* * *
—Merda! – praguejou, apertando o ferimento no ombro e se encostando em uma parede dos inúmeros corredores. Trocou a mochila de ombro, o que havia dentro era mais importante que seu ombro.
Finalmente Akuma achara um hospital... abandonado, mas ainda assim um hospital. O local cheirava a morte – ainda era melhor do que o lado de fora, que cheirava a lixo – as paredes estavam manchadas com sangue e sujeira, algumas tinham até marcas de colisão. O silêncio predominava, e era isso que o preocupava. Entrou na primeira sala da direita, a fim de se esconder e procurar algo para estancar o sangue que jorrava do buraco de bala. Decepcionado, notou que os armários estavam vazios. Tentou mais uma vez, em outra sala, e nada. Quando chegou na quinta sala, sentou-se na cama para descansar. Estava há dias procurando alimento, e há horas fugindo de quem ele havia roubado o mantimento.
Um ruído de passos o fez ficar alerta. “Não é possível que me encontraram”, pensou, sacando a faca do quadril e se levantando, uma perna na frente da outra, os joelhos levemente flexionados, dirigiu-se para um dos armários na intenção de esconder-se. Assim que a pessoa adentrou o local, Akuma puxou-lhe o semi coque (a primeira coisa que viu foi a cabeleira cacheada, impossível não notar) e cobriu a boca carnuda com a mão que lhe restava, ignorando a fisgada que sentiu no ombro ferido.
—Não grite. – ordenou, tranquilamente – Vou soltar. Não grite.
Com o corpo encostado ao dela, o jovem com traços orientais pôde notar que embora mais alta do que o normal — o topo de sua cabeça batia pouco acima de seu próprio nariz — sua estrutura parecia magra e frágil. A moça, que não parecia tão assustada quanto deveria, assentiu com um gesto de cabeça e aguardou sua liberdade. Akuma notou seu jaleco, a segunda coisa que mais lhe chamou a atenção e soltou-a.
—Você é médica? – ela assentiu, ainda em silêncio.
Agora, de frente um ao outro, Akuma observou os olhos negros e grandes da mulher. Quando a estava segurando, pensou que teria no máximo 20 anos, entretanto a maturidade de seu rosto e algumas manchas do sol o fizeram perceber que ela provavelmente teria mais de 25 anos, no mínimo. Ela segurava uma tesoura cirúrgica na mão direita, os ossos dos dedos extremamente sobressalentes, Akuma se surpreendeu com a confiança que ela tivera em suas palavras e não havendo tentado em momento algum perfurá-lo com a ferramenta.
– Onde estão os medicamentos e curativos? — indagou, supondo que ela soubesse.
A morena se virou lentamente para ele, finalmente prestando atenção. A primeira coisa que ela notou foram os enormes chifres avermelhados que despontavam de sua testa, com certeza sua característica mais marcante, e a segunda coisa que mais lhe chamou a atenção foi a ferida em seu ombro, parecia ter sido um tiro.
—Eu ajudo você. – ofereceu, fazendo um gesto com o indicador, sugerindo que a seguisse.
Akuma ficou confuso, não havia pedido ajuda, a moça mal o conhecia e se dispôs a ajudar. Desconfiado, apertou ainda mais a faca entre seus dedos. “Tudo que é bom demais hoje em dia, requer algo em troca”, pensou. Enquanto isso, a mulher de jaleco se movimentava com passos longos, rápidos e silenciosos — “Não deve ser difícil se mover silenciosamente pesando 40kg” — ironizou em sua mente, logo repreendendo-se, afinal, não era por si só um exemplo de massa corporal.
Andaram rapidamente por vários corredores mal iluminados, uma vez que a energia elétrica em todos os lugares já não funcionava há tempos e a única fonte de luz naquele momento provinha dos raios do sol da manhã, irradiando pelas janelas — muitas quebradas — do hospital. Ao chegarem no verdadeiro destino: o almoxarifado, no porão do hospital, Akuma manteve-se cada vez mais alerta, afinal, nada poderia vir de bom em um lugar escuro e abafado, com uma pessoa completamente desconhecida. Observou as escadas de metal e deteve-se no topo, receoso de seguir os passos da morena à sua frente.
Sua hesitação não parecia ter sido notada pela jovem a quem seguia, que continuou seu caminho até o fim da escadaria e sumiu na escuridão do porão. Akuma esperou por alguns instantes e quando viu que ela não voltou em um curto espaço de tempo, posicionou-se em ofensiva com a faca em punho, descendo lentamente os degraus — “Ainda vou me arrepender disso”. Antes que pudesse adentrar o breu completo que era aquele porão, a jovem irrompe a escuridão à sua frente, arriscando ter sido acertada pelo golpe de sua pequena lâmina. Ela não pareceu ter notado o perigo, sentou-se distraidamente com uma caixa branca no colo ao segundo degrau do topo da escada, afastando-se para o canto, obviamente esperando que ele sentasse ao seu lado.
Ele manteve-se em pé, encarando de maneira desconfiada a escuridão da qual ela havia saído segundos antes. Ela notou sua hesitação e suspirou pesadamente:
— Você espera que eu faça seu curativo no escuro? — Ele pareceu não ter se convencido, mas ainda assim achou melhor sentar-se onde ela indicara.
— Você deveria ter estancado o sangue, apertado o... buraco – ela avisou, se aproximando dele sem cautela alguma.
Agora bem mais próximos, ela reparou que a jaqueta preta de um tecido que parecia ser à prova d’água do rapaz estava vestida apenas no braço direito, pendurando-se ao longo do tronco magro. Os olhos puxados de Akuma se arregalaram levemente quando notou que ela vinha com a tesoura em mãos, e segurou seu instinto de proteção mantendo-se no lugar enquanto ela habilmente cortava sua camisa branca, ou melhor, vermelha, e liberava o ferimento do tecido.
— Meu nome é Margareth Kulsec. — informou, tentando quebrar o gelo.
Ele engoliu em seco, observando de maneira paranoica a forma como ela limpava a ferida com gaze e álcool 70. A mulher sentiu-o estremecer com a ardência do processo de desinfecção e levantou os olhos, observando os lábios finos fecharem-se em agonia.
— É possível que fique pior antes de melhorar… — ele a encarou assustado e ela tentou amenizar — Ajuda se você conversar. Qual seu nome?
Ele não costumava sair fazendo amizades com estranhos por aí, mas ocorreu-lhe o pensamento de que seu nome não deveria ser uma informação tão confidencial em um lugar onde cartões de crédito e fichas policiais já não existem mais. Sentindo-se desconfortável com a falta de timidez da mulher ao encarar-lhe, forçou-se a desviar o olhar para a escuridão abaixo de si enquanto respondia:
— Akuma.
— Akuma…?
Ele levantou uma sobrancelha, irritado:
— Akuma. — o tom foi mais ríspido dessa vez.
Margareth apertou firmemente um bolo de gaze em seu ombro enquanto com a mão direita procurava algo dentro da pequena caixa. Akuma aproveitou o momento de distração da morena para analisá-la novamente, notando pouca coisa além do rebelde cabelo longo e cacheado tampando sua visão. Ele julgou, pensando que seria melhor cortar o cabelo para o mais prático possível nas circunstâncias em que se encontravam. Ela levantou a cabeça rapidamente assim que pegou fita e mais gaze.
— Você teve sorte, não ficaram vestígios de pólvora… — Ela se remexeu um pouco, tentando enxergar mais, e franziu o cenho — A bala não atravessou, mas parece estar no seu músculo.
Ele não entendia o motivo de tantas explicações, e começou a ficar impaciente com os comentários que para um leigo, não significavam nada.
— E daí?!
Margareth manteve a cabeça alinhada com a ferida, levantando apenas os olhos para encará-lo de maneira quase debochada:
— Bom, você não deve se incomodar em ficar com essa bala aí dentro por uns 10 anos, né?
— O quê?!
“OK, já fui longe demais” , pensou, se levantando abruptamente “Confiando em uma mulher que pode bem ser uma sociopata vestida de médica… Ou pior: uma médica sociopata!”. Seus pensamentos e fuga repentina são interrompidos pelo corpo dela rapidamente prostrando-se em frente ao seu, as mãos na cintura e os olhos se revirando em algo parecido com tédio:
— Ah, nos poupe desse show, ok? Eu era residente nesse hospital, e não que você entenda… — ela fez uma pausa, julgando-o com o olhar. Akuma se sentiu envergonhado, algo que aprendeu a ignorar com o tempo, levando em conta os chifres que sempre teve:
— Mas a bala atingiu seu músculo, sendo assim é mais fácil nas nossas condições deixá-la aí do que retirá-la e ter que fazer uma cirurgia pós-apocalíptica! Agora sente-se e me deixe costurar essa ferida.
O tom dela poderia não ter sido o mais agradável possível, mas pareceu convincente para Akuma, que realmente não tinha nenhuma opção a não ser deixar o braço inteiro apodrecer. Respirou fundo e sentou-se novamente na escada.
Os minutos seguintes pareciam ter levado uma eternidade, embora Akuma fosse do tipo que se sente confortável no silêncio, aqueles momentos haviam sido desconcertantes. Primeiro, ela pediu que ele tirasse a camisa. Depois, quase sentou em seu colo para tratar o ferimento, só isso já foi o suficiente para que o rapaz sentisse a respiração calma da morena à sua frente bater em seu pescoço. Em outras ocasiões, ele consideraria uma oportunidade perfeita para um flerte, mas considerando a dor que sentia e a fome que não havia sido completamente sanada com as bolachas que havia ingerido, essa opção estava fora de cogitação.
Ao final dos pontos, Margareth se levantou com um sorriso de satisfação e desceu novamente a escadaria escura. Akuma escutou o barulho de tecido sendo remexido e imaginou que ela estivesse limpando as mãos em alguma toalha. Ele olhou fixamente para sua mochila, e comovido pela bondade da moça, abriu o zíper, retirando mais um pacote de bolachas. Virou-se para a residente assim que ela se aproximou, e se surpreendeu com o que viu.
Ao fitar o pacote nas mãos do rapaz, Margareth marejou os olhos, mas se conteve, engolindo em seco. Akuma notou o olhar desesperado que ela lhe lançara, e foi o sentimento despertado em si que o surpreendeu, tinha um gosto amargo, com certeza pior que a fome. Lembrava-o de momentos tristes no orfanato com Viktor, seu amigo com esclerose múltipla, quando diversas vezes sua doença o fez sofrer tanto que Akuma pensou não suportar observar.
—É seu. — estendeu o pacote — Como agradecimento.
Sem pensar duas vezes, Margareth tomou o pacote, abrindo-o desesperadamente logo em seguida. Visto que estavam quites, o rapaz virou-se com a mochila no ombro saudável e seguiu o caminho rumo à saída do hospital.
Notas finais
Nome:
Altura:
Idade:
Local de Nascimento:
Cor, Comprimento e Estilo do Cabelo:
Raça/Nacionalidade:
Sotaque (inclui voz, estilo da fala, gírias, frases ou palavras que são sua marca registrada):
Religião:
Estado Civil:
Cicatrizes ou outros atributos físicos notáveis:
Desvantagens (emocionais, mentais, físicas):
Estilo de Roupa que Usa:
Cores Favoritas:
Relação com os pais e família:
Memórias da Infância:
Formação Educacional (astuto/manhoso/safo? Formal/educado? Ele/ela lê?):
Experiência Profissional (se não tem, deixar em branco):
Asseado ou Desarrumado?
Traços de Personalidade (tímido, extrovertido, dominador, capacho, honesto, bondoso, tem senso de humor):
Traço mais forte:
Traço mais fraco:
O que o personagem teme?
Do que o personagem se orgulha?
Do que o personagem se envergonha?
Visão da Vida (otimista, pessimista, cínico, idealista):
Ambições:
Como o personagem se vê?
Coisa mais importante a saber sobre esse personagem:
Problema Individual Atual:
Qual é o objetivo do personagem na vida?
Que traços de personalidade irão ajudar ou atrapalhar o personagem a atingir seu objetivo?
O que faz o personagem diferir de personagens similares?
Por que os leitores irão se lembrar vividamente desse personagem (característica mais marcante)?
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