“A DEFINITION NOT FOUND
IN THE DICTIONARY
Not leaving: an act of trust and love,
often deciphered by children”

Death[1]

2.

Já passava da meia noite quando Gabriel e Ana desceram do telhado. O menino se dizia aliviado pelo fato dos pais ainda não terem chegado em casa, mas Ana parecia mais tranquila do que ele. Na verdade, ele ainda não havia concebido direito o que acabara de acontecer.

Ele não era virgem, mas também nunca havia feito sexo em um lugar público. Muito menos no telhado de sua casa de praia. A escuridão provavelmente teria escondido os dois dos possíveis olhos curiosos de um eventual vizinho, mas, ainda assim, ele sentia como se não soubesse onde estava, ou quem realmente era. Ele nunca teria feito aquilo se não fosse por Ana.

— Como você consegue ficar tão calma? Meus pais podem chegar a qualquer momento! – disse ele, já dentro da casa, buscando a vassoura e a pá para limpar toda a sujeira das garrafas que haviam caído do teto.

— Relaxa, eles não vão chegar agora. Ainda está cedo...

— Cedo? Já passou da meia noite. Meus pais não são adolescentes...

— Não... São um casal passando férias numa cidade de praia com um adolescente chato e pentelho faz questão de deixá-los sozinhos.

Gabriel quase fuzilou a menina com os olhos. Ela não se importou em continuar.

— Sabe, se eu fosse sua mãe, ia fazer questão de aproveitar ao máximo esse tempo a dois... Assim como nós dois.

O menino demorou, mas entendeu o que Ana estava querendo dizer, e preferiu sair rápido com a vassoura e a pá na mão.

— Que tal a gente não falar disso, em? Eles ainda são meus pais, afinal...

A menina riu e o seguiu para fora, tirando a vassoura da mão dele no caminho. Eles juntaram os cacos de vidro o melhor que puderam, mesmo com a fraca iluminação externa da casa. Levaram menos de vinte minutos, depois buscaram pano, um balde de água e um rodo, de modo que depois de cerca de quarenta minutos a única coisa que restava da bagunça que eles haviam feito era o aroma inconfundível do líquido das garrafas.

— Meus pais vão me matar... – disse o garoto.

— Não vão, não... – respondeu Ana, envolvendo os braços em volta da cintura do garoto e dando-lhe um beijo lento, leve, nos lábios.

— Ouch! – ele disse, sentindo cada parte do corpo arder com o toque das mãos da menina. Pressentia que tinha um problema. Deveria ter passado o filtro solar quando sua mãe lhe aconselhara a fazê-lo.

— O que foi? – Ana perguntou, dando um passo atrás.

— Nada... Vem cá...

Gabriel forçou o riso, puxou a menina novamente para perto e retribuiu o beijo, ignorando a ardência de seu toque. Não entendia como já se sentia tão confortável e íntimo de uma pessoa que acabara de conhecer. Aquilo nunca havia lhe acontecido antes. Ele suspeitava que nunca mais acontecesse de novo. Ele nunca fora pessimista, mas é que aquilo simplesmente não parecia ser o tipo de coisa que acontece com relativa frequência na vida das pessoas. Não de uma maneira tão rápida, não de forma tão intensa.

— Seu dia acabou... – disse ele, ainda abraçado à menina.

— Eu sei... Agora você pode voltar a ser chato e a ler o seu livro. Juro que vou esquecer que você existe...

Ele riu, apertando o abraço.

— Eu acho que você conseguiu me convencer que esse lugar não precisa ser tão horrível assim...

— Ah, então eu estava certa...

A menina o soltou e fez um pequeno gesto de comemoração, quase rindo da cara dele, cantando vitória. Ele não fez questão de contestá-la. Não podia negar que ela havia lhe ganhado o coração.

— Qual, então, é o seu lugar favorito?

Gabriel fingiu estar pensando, confuso, tentando se decidir.

— Da cidade inteira? – ele perguntou, em leve tom retórico. Ana concordou, claramente, tentando esconder a ansiedade com a resposta.

— Bom... Eu acho que não há dúvidas, então...

Gabriel parou de falar e começou a andar, para a surpresa de Ana. Ela começou a rir quando ele parou ao lado da escada que levava ao telhado. A menina balançou negativamente a cabeça, mas ele não deu importância e começou a subir mesmo assim, e, no fim, ela acabou por ceder e segui-lo.

Curiosamente, os pais de Gabriel só voltaram para casa quando o sol estava prestes a nascer, e o outro casal só desceu do telhado, escondidos, quando perceberam que eles estavam chegando.

Nota do(s) autor(es):

Nenhum dos dois jamais soube dizer se foi a pessoa ou o lugar, mas aquela noite no telhado foi uma das memórias mais vivas que Gabriel e Ana guardaram daquele verão.

Os dois desceram do telhado pelo lado oposto ao estacionamento da casa, e Gabriel pulou a janela direto para a cama, se despedindo de Ana com um rápido beijo.

— Não tranca a janela – ela pediu, antes de se virar de costas e correr para casa, sem lhe dar chances de pedir uma explicação.

Ele estava com sono demais para discutir, então simplesmente encostou a janela de modo que, caso seus pais entrassem no quarto, pensassem que ela estava devidamente fechada. Ele ainda estava acordado quando os dois entreabriram a sua porta para checar se ele estava ali. Gabriel percebeu que eles se esforçavam para não fazer barulho, mas que riam de alguma coisa, um pouco alto demais, e chegaram a tropeçar um no outro enquanto fechavam a porta.

Mas o que o acordou mesmo foi o susto que tomou quando Ana pulou para dentro do seu quarto, cerca de vinte minutos depois.

— Eu deixei um bilhete falando que tinha ido para a praia cedo, e que iria demorar – disse, trancando a porta do quarto e deitando-se ao lado do menino antes que ele pudesse se levantar. Ele quase acordou de vez quando sentiu a pele arder ao toque dela.

— Mas... Por quê?

— Ora, por que eu queria dormir aqui... – ela disse, dando-lhe um beijo no lado do rosto. – Bom dia, Biel...

Ele bufou, mas não reclamou. Apenas aceitou o abraço e a ardência, e passou o próprio braço em volta do corpo da menina.

— Bom dia...

De fato, aquele havia sido o melhore dia daquele verão.

*-*-*-*-*-*-*-*-*

Quando Gabriel acordou, Ana ainda parecia estar em um sono profundo ao seu lado. Ele se moveu com cuidado e conseguiu se separar sem acordá-la. Seu corpo ardia como nunca havia ardido antes. Sentou-se na cama e, ainda em silêncio, se levantou. Ainda não conseguia acreditar no que estava acontecendo, enquanto contemplava a morena jogada em sua cama.

Saiu do quarto em silêncio, levando a chave da porta consigo e trancando-a por fora, com medo de seus pais entrarem e encontrarem a menina. Quando chegou ao banheiro, porém, percebeu que ninguém estava em casa. Seus pais provavelmente ainda estavam na praia, para seu alívio. Ao chegar na cozinha, percebeu que já eram mais de três horas da tarde, mas não se incomodou. Estava acostumado a passar a noite em claro e acordar à tarde, principalmente nas férias, e agradecia mentalmente o fato de seus pais terem lhe permitido isso na casa de praia, onde normalmente o tiravam da cama sempre cedo demais.

Como sempre acontecia quando ele dormia durante o almoço, o garoto acordou com muita fome. Normalmente ele teria pegado o que quer que estivesse disponível, fosse aquilo apropriado ou não para a sua primeira refeição do dia, mas a imagem de Ana adormecida em sua cama ainda estava gravada em sua cabeça. O menino decidiu fazer um café da manhã próprio para duas pessoas.

Descobriu que não tinha a menor ideia do que Ana gostaria de comer, o que lhe fez pensar. Considerou fazer o café mais americano que fosse possível, levando em conta as tradições canadenses com que a menina estava acostumada, mas então se refreou, lembrando-se de tudo que ela lhe disse quando pensava que ele não estava ouvindo. Concluiu que quanto mais simples e brasileiro, melhor.

Em poucos minutos, tinha preparado um pão frances na chapa, com queijo minas e presunto, e estava prestes a servir um copo de suco de laranja quando pensou que um achocolatado poderia relembrar a menina de sua infância no Brasil. Estava bem satisfeito consigo mesmo, não apenas com o resultado do café da manhã preparado, mas por ter conseguido se refrear o suficiente para comer o seu junto à ela.

Quando estava se encaminhando para o quarto, com a bandeja preparada nas mãos, ele reparou num papel azul em cima da bancada da cozinha, e sentiu um arrepio na espinha. Reconheceu a sua passagem de volta para casa já comprada, marcada para o dia seguinte pela manhã. Ele não havia sequer pensado em voltar para casa depois que conheceu Ana, e sentiu um forte baque quando percebeu que aquele poderia ser seu último dia com ela.

Ele não tinha ideia de quanto tempo ela ainda ficaria no país, mas pelo que lembrava, ela havia comentado que passaria pelo menos mais alguns dias na cidade de praia, o que significava que ele estaria desperdiçando um tempo precioso se voltasse para casa antes de seus pais, como havia planejado. Lembrava-se da extensa discussão que tivera com sua mãe em relação ao tema, e como o próprio pai, contrariado com o menino, intercedeu por ele e brigou com a mulher para convencê-la a permitir que ele voltasse mais cedo.

Mas, ali, com a bandeja na mão e Ana deitada em sua cama, ele tomou uma decisão, por mais que se sentisse muito mal por ter feito seu pai e sua mãe se desgastarem à toa. Apoiou a bandeja na bancada, pegou a passagem e a rasgou no meio. O movimento durou menos de dois segundos, mas o enorme peso que havia acabado de cair nas suas costas desapareceu na mesma velocidade com que surgiu.

Orgulhoso, ele colocou as duas metades da passagem rasgada na bandeja também, sabendo que Ana gostaria de saber o que ele havia feito por ela. Com um sorriso ainda maior, pegou a bandeja da bancada e voltou a se encaminhar para o quarto. Enfrentou breves dificuldades para destrancar a porta, e, depois, para girar a maçaneta com a grande e pesada bandeja na mão, mas, no fim, ele conseguiu.

E entrou em um quarto vazio, com a cama bagunçada e a janela aberta.

Nota do(s) autor(es):

É engraçado como, às vezes, nos recusamos a ver algumas coisas. Alguns sinais são tão claros, e ainda assim, o amor consegue cegar de tal maneira que simplesmente não conseguimos enxergar.

*-*-*-*-*-*-*-*-*

A decepção de encontrar o quarto vazio apenas fez com que o estômago de Gabriel se mostrasse ainda mais disposto. Ele comeu o café da manhã que tinha preparado para ele e para Ana, e ainda voltou à cozinha para comer mais.

Quando foi ao banheiro escovar os dentes, tirou a camisa para se observar no espelho. Toda sua pele ardia. Chegou a se assustar quando reparou pela primeira vez em como estava vermelho. Seu rosto também ardia, mas parecia menos afetado, talvez por que ficara com o livro sobre os olhos pela maior parte do tempo em que esteve exposto. Não queria nem fazer a comparação entre a cor da pele da sua canela, exposta ao sol, e a de sua coxa, protegida pela sua bermuda.

Ele sabia que, quando sua mãe visse aquilo, teria um surto de preocupação e raiva que ele julgava ser desnecessário. Sim, ele era muito branco e alguns médicos diziam que ele era muito sensível ao sol, e, por isso, deveria tomar certos cuidados, mas ele já havia se descuidado antes e nada (além da ardência insuportável em sua pele) de mais grave havia acontecido.

Em sua defesa, não era como se ele não ligasse, ou fizesse de propósito. Sabia que o maior interessado em sua saúde era ele, e era ele quem teria de aguentar dias com o corpo a queimar incessantemente. Agora que Ana não estava mais com ele, o garoto ficou imaginando como demorara tanto para perceber a gravidade da sua situação. De algum modo, na noite anterior, a ardência parecia algo menor, quase normal e costumeiro. Só percebeu o quanto aquilo o incomodava quando ela se foi. Talvez isso explicasse o que o levara a ser tão descuidado, para início de conversa.

Ele se escondeu quando seus pais chegaram, algumas horas depois. Vestido para esconder a vermelhidão de sua pele, ele pulou a janela quando os ouviu entrando em casa, e, acompanhado do seu livro, se dirigiu a um canto mais escondido do condomínio.

Fez questão de passar em frente à casa de Ana devagar, sem se preocupar em esconder sua curiosidade. Quase se curvou para tentar enxergar melhor dentro da casa da garota, mas tudo o que viu foram dois adultos sentados, assistindo TV. Pensou em bater na porta e perguntar por ela, mas se refreou, pensando que ela talvez pudesse não gostar, do mesmo modo que ele não teria gostado se ela o tivesse feito.

Teve de se contentar então em sentar em uma cadeira da área comum, perto da sauna e do deserto salão de jogos – que contava com nada mais do que uma mesa de totó torta e uma mesa de sinuca, sem bolas, tacos ou quadro de giz. Antes de conseguir abrir o livro, entretanto, ele se pegou imaginando o que teria tirado Ana da cama, e por que ela saiu sem nem dizer nada. Perdeu alguns bons minutos pensando naquilo, até concluir que não importava o quanto especulasse, ele não saberia a resposta. Não até conseguir perguntar para ela. Abriu então o seu livro e se sentiu estranhamente decepcionado, pela primeira vez aquele verão, por ter de recorrer a ele para se distrair.

Quando o sol se pôs e ela não apareceu, ele se ressentiu por não estar assistindo mais aquele pôr-do-sol em cima da pedra na praia.

*-*-*-*-*-*-*-*-*

Ana só voltou a aparecer quando a noite já havia caído há mais de uma hora. Chegou de carro, acompanhada por seus pais, e Gabriel levou algum tempo para perceber que era ela quem chegava. Ele estivera muito mais atento ao movimento de pessoas no condomínio aquela tarde do que se permitia admitir, mas não esperava ver Ana chegando de carro. Só notou quando ouviu sua risada, já inconfundível aos seus ouvidos, quando ela atravessava a parte comum do condomínio conversando animadamente com sua mãe.

Elas não pareciam ter uma idade muito diferente entre si, e, se ele não soubesse, diria que eram amigas, ou irmãs, antes de adivinhar que eram mãe e filha. Lembrava-se de Ana ter mencionado que seus pais a tiveram ainda quando muito jovens, e que esse foi um dos motivos do êxodo rápido do país. Uma oportunidade em um país mais seguro e desenvolvido era algo indispensável para jovens pais em busca de estabilidade financeira e de tempo para criar o primeiro filho.

Gabriel estava tão bem escondido que ninguém o viu, mas ele não conseguiu tirar os olhos da menina enquanto ela cruzava o condomínio em direção a sua casa. Levantou com um só impulso quando percebeu que seria muito mais difícil falar com ela discretamente se a permitisse entrar. Seu movimento foi tão súbito e desajeitado que a cadeira em que esteve sentado durante toda a tarde balançou e caiu, embaralhando o silêncio calmo da noite no condomínio.

Tanto Ana quanto seus pais pararam e olharam para a direção de Gabriel, parecendo percebê-lo pela primeira vez. A garota sorriu e ele sentiu seu rosto esquentar ainda mais. Se aliviou ao perceber que, caso estivesse corando, a exposição ao sol lhe pouparia o trabalho de esconder suas emoções. Afinal, alguma vantagem toda aquela ardência tinha que ter, mesmo que uma tão pequena.

Ele ficou terrivelmente aliviado quando viu que Ana, dizendo alguma coisa aos seus pais, se distanciou e começou a caminhar em sua direção. Ela o abraçou antes mesmo que seus pais entrassem em casa.

— Oi! – ela disse, lhe dando um beijo estalado no rosto.

— Ouch... – ele disse, rindo ao se afastar um passo para trás, com o corpo ainda queimando.

Os dois riram.

— Onde você foi depois que acordou? – os dois perguntaram, quase em uníssono.

Riram novamente.

— Eu estava preparando café da manhã para você... – O tom do menino era irônico, quase acusador, mas ela se manteve bem humorada.

— Olha, um homem para casar... – riu. – Eu realmente estava morrendo de fome quando acordei.

— Então, para onde você foi?

— Ah, meu despertador tocou e eu tinha que voltar para casa. Eu e meus pais tínhamos marcado de pular de paraquedas hoje...

— Ah... – Ele disse, antes de processar o que ouvia — Espera... O quê?!

A menina riu enquanto Gabriel dava dois curtos passos para trás, lhe olhando sem preocupação em esconder a surpresa e o espanto em seu rosto.

— É... Paraquedas... Foi sensacional!

— Eu não sabia que dava para pular de paraquedas por aqui...

— Ué... Não era você que vinha para cá todo ano, pelos últimos cinco anos?!

Gabriel encolheu os ombros, aceitando a derrota. A menina riu da surpresa que insistia em permanecer na expressão dos olhos dele.

— Você devia tentar... É libertador... Eu mal posso esperar para escrever sobre isso.

— Escrever sobre isso? Você escreve?

— Sim. – Ela parecia assustada com o fato de ele não saber daquilo. – Adoro escrever... Quero muito escrever um livro um dia... — O menino olhava para ela como se nunca a tivesse visto antes, admirando-a silenciosamente.

Nota do(s) autor(es):

Aquilo era tão inacreditável que não podia ser verdade. A menina escrevia. Ela queria escrever um livro... Ela não podia ser mais perfeita, nem se quisesse.

— O que foi? Você deve estar me achando maluca, não é?

— Eu acho. Você também, por sinal... A gente concordou nisso ontem. Lembra?

— O quê?! Não! Eu nunca diria isso de mim! Você que é o maluco aqui. Só você...

Ela fingiu estar revoltada com a acusação, e ele quase acreditou que ela estava falando sério quando ela lhe deu um forte tapa no braço.

— Ai! – ele disse, não sabendo se o braço ardia por causa do tapa ou por causa das queimaduras do sol. – Isso dói!

Ela lhe deu outro tapa desfez a sua máscara de revolta, voltando a sorrir. Ele parou por um segundo, nem sequer reclamou do segundo tapa, que ardera ainda mais do que o primeiro. Tinha alguma coisa naquele sorriso. Alguma coisa que fazia com que ele parasse. Com que toda sua mente se focasse única e exclusivamente nela. Aquele sorriso deixou uma marca para sempre na sua cabeça, e, talvez, em seu coração.

O segundo passou e ele sentiu no coração batendo novamente. Explodindo. E então ele segurou a mão da menina e a puxou para perto. O movimento foi brusco e inesperado, e ela praticamente caiu em seus braços, mas era exatamente o que ele queria fazer. Passou um dos braços pela sua cintura, enquanto o outro subia pelas costas e acariciava seus cabelos. Sua boca encontrou a dela com sede, e aquele beijo durou mais tempo do que eles conseguiriam contar, se tentassem.

*-*-*-*-*-*-*-*-*

— Eu tenho que ir – Ana falou, depois de quase uma hora deitada ao lado dele na espreguiçadeira em frente à piscina do condomínio. – Está ficando tarde.

— Mas já? Não são nem dez horas ainda.

— Eu sei, mas eu já passei o dia inteiro sumida ontem, e a noite toda também. Meus pais reclamam um pouco quando isso acontece...

— Mas a gente não tem muito tempo junto. Deixa eles para lá. Daqui a uns dias você vai embora pro Canadá e a gente não vai mais poder se ver.

Era a primeira vez que um dos dois tocava no assunto. Gabriel o fez sem querer, pensando alto e dizendo o que lhe vinha a cabeça antes de refletir. Ana, por sua vez, preferiu ignorar o assunto.

— Eu tenho mesmo que ir – disse, se levantado e se separando de seu abraço.

— Ok, mas que tal você aparecer lá em casa depois que eles forem dormir. A gente podia dar uma volta na praia de noite, juntos. Deve ser bonito.

Ela sorriu com sinceridade, imaginando a cena em sua mente, pintando a aquarela da noite estrelada e do casal, passeando de mãos dadas, nas areias desertas, acompanhados apenas pelo negro mar ao seu lado. Mas a noite não estava tão estrelada. As nuvens cobriam boa parte do céu, e não era possível ver a lua. Além disso, o vento continuava forte. Ana duvidava que a cena seria tão bonita na realidade quanto fora em sua cabeça.

— Sim, parece uma boa ideia – ela disse, deixando o sorriso esmaecer um pouco. – Eu passo lá então.

Ele se levantou também e a beijou sutilmente na boca. Ela o puxou mais para perto, para um beijo propriamente dito, e então o soltou.

— Até mais – ele disse.

— Não dorme antes de mim... – ela falou, por fim. Se virou e se dirigiu a sua casa, sem olhar para trás.

Nota do(s) autor(es):

A intuição é algo complicado de se entender, e, por consequência, de se explicar. Quem quer que se atenha a fatos e explicações racionais sabe que não deveria acreditar nela. Mas, ainda assim, é difícil argumentar que ela não existe.

Gabriel a acompanhou com os olhos, triste por vê-la ir embora, mesmo que racionalmente soubesse que em breve ela retornaria. Aquela sensação era tão desconhecida para ele que chegava a incomodar fisicamente. Olhá-la ir embora daquele jeito lhe perturbava mais do que ele se permitia admitir. Ele coçou o peito e imediatamente se arrependeu, sentindo a mais forte ardência que já sentira em toda a sua vida. Sentiu que aquilo, talvez, estivesse mostrando ser um problema maior do que normalmente o é.

Decidiu voltar para casa e pegar um creme hidratante de sua mãe. Parecia besteira, mas ele sempre se sentia melhor quando pegava sol demais e, em seguida, passava o creme. Ajudava a aliviar a ardência das queimaduras, o que seria muito necessário se ele ainda quisesse abraçar Ana com mais força naquela noite sem se sentir pegando fogo. Pelo menos não pelo lado de fora.

Quando entrou em casa, porém, soube imediatamente que estava com problemas. Abriu a porta da sala exatamente no mesmo momento em que sua mãe virava o corredor. Eles ficaram frente a frente, e os olhos dela se arregalaram de surpresa e preocupação. Gabriel conhecia aquele olhar bem demais para ter esperanças de que a noite fosse correr como o planejado.

— Gabriel, o seu rosto... – ela disse. – Você está todo queimado!

Gabriel sabia que seu rosto estava vermelho, mas aquela não era a pior parte. Na verdade, o rosto fora a parte que ficou parcialmente protegida pelo livro que o escondeu do sol. Sua mãe se aproximou e ele recuou, sabendo que ela iria tocá-lo. Mas a mulher fora mais rápida e o segurou pelo braço.

— Ai! – disse ele instintivamente, se desvencilhando. – Não faz isso, está ardendo.

— É obvio que está, olha o seu estado... – disse ela, em uma mistura de raiva e preocupação. – Tira a camisa agora!

— Não! – disse ele, surpreso com a reação desproporcional da mãe. – Eu só ia passar aquele creme que melhora o arder. Só isso... Está tudo bem, relaxa.

— Que relaxa o quê, menino?! Você sabe muito bem a pele que tem! Ou você acha que eu compro protetor 100 à toa? O médico mandava eu comprar um mais forte, até. Você está maluco?

— Mãe, calma... Deixa eu só pegar o creme que...

— Tira a camisa, agora! – ela quase gritou, e ele percebeu que provavelmente a discussão poderia ser ouvida da casa do lado. Pensou em gritar em resposta, mas pensou no que Ana poderia falar daquilo. Decidiu então acabar com a discussão.

— Tudo bem, ok. Eu tiro a camisa então... — Ele a puxou por cima da cabeça e a deixou cair no sofá, ao seu lado. A expressão no rosto da sua mãe foi a de um espanto que ele não podia explicar. – O quê?!

Quando olhou para baixo, se viu surpreso por ver pequenas bolhas formadas em alguns pontos do peito. Não tinha reparado nelas ali antes. Isso nunca tinha lhe acontecido.

— Ok, nós vamos pro hospital...

— Mas... – Gabriel não conseguia processar. Não acreditava que pudesse ter se queimado tanto. Aquilo era inédito para ele.

— Agora! – completou a mãe, já com a bolsa e a chave do carro na mão. Gabriel olhou para o pai, que viera do quarto para ver o que estava acontecendo, e o viu sacudindo negativamente a cabeça, enquanto calçava o chinelo, pronto para seguir a mulher.

— Vamos – ele disse, curto, firme e definitivo, como sempre.

E o garoto não teve outra escolha senão fazer o mesmo.

*-*-*-*-*-*-*-*-*

Já eram quase quatro e meia da manhã quando Gabriel e seus pais chegaram em casa novamente, exaustos e estressados. O menino já estivera em hospitais, mas nunca estivera em um hospital ali, na cidade pequena de praia. Se é que aquilo poderia se chamar um hospital de verdade. Mais parecia um posto de saúde improvisado.

As condições, que já não eram boas, estavam ainda piores graças a alta movimentação de turistas na região, no início do verão. A quantidade de jovens embriagados era tão alarmante que ele tinha certeza que sua mãe nunca o deixaria trazer os amigos para a sua casa, caso a chance aparecesse.

Eles esperaram horas pelo atendimento. O número de médicos disponíveis era pequeno e eles pareciam correr para atender qualquer outro caso, que não o dele. Gabriel não os culpava, já que julgava que não era necessário estar ali, mas não podia contrariar seus pais naquele momento. Ele realmente se queimara além da conta no sol, e ter cuidados especiais parecia ser uma ideia razoável, mesmo que não estritamente necessária.

Ele apenas lamentava muito pela caminhada na areia da praia que prometera a Ana, mas tinha certeza de que a garota o entenderia. Além disso, era um modo, mesmo que sem intenção, de se vingar por ela ter desaparecido naquela tarde.

O médico finalmente o atendeu pouco depois das três da manhã, e confirmou que sua queimadura era um pouco pior do que aparentava ser. Era de segundo grau, e um pouco mais profunda do que a mais usual. Ele disse que apesar de doer menos, ela precisaria de mais tempo para ser curada. Recomendou um creme de hidratação que ajudaria a aliviar a dor, pasta d’água e mandou o menino se hidratar continuamente, dispensando-o em seguida sem muita cerimônia, cansado da longa madrugada de trabalho que ainda não havia acabado.

Eles então entraram no carro e voltaram para casa, um pouco mais tranquilos. Gabriel não aguentava mais a repreensão de seus pais pelo seu descuido. Ouvira a noite toda, esperando que uma resposta do médico os acalmasse, mas aquilo pareceu surtir o efeito contrário, e eles apenas aumentaram o nível das críticas e repreensões, citando coisas que o médico havia dito fora de contexto. Sua mãe, particularmente, parecia ter se prendido tanto ao momento em que ele disse que a queimadura poderia deixar uma cicatriz, que não ouviu o que ele falou logo em seguida, dizendo que, na sua opinião, a probabilidade era muito baixa. Ela, inclusive, omitiu essa parte quando contou a história para a atendente mal humorada do caixa da farmácia 24 horas em que eles pararam para comprar o creme que o médico havia receitado.

Mas aqueles momentos não foram os piores da noite para o garoto. Ele chegou ao seu condomínio distraído e desatento, focado demais em não escutar o que seus pais diziam e em ignorar a dor das queimaduras, que pareceu aumentar assim que o diagnóstico mais grave do que o esperado foi proferido. Em sua distração, ele não percebeu que o carro da sua família era o único da garagem.

Foi só quando finalmente chegou ao seu quarto e fechou a porta, aliviado por finalmente estar sozinho, que ele viu o bilhete sobre a cama e a janela aberta.

Imediatamente percebeu que não gostaria do que encontraria ali.

Era um papel branco com linhas azuis, um pouco amassado, mas dobrado em um quadrado. As bordas da folha estavam rasgadas nos lugares em que ela fora arrancado às pressas, de um caderno. Quando se aproximou, Gabriel viu que era endereçado a ele. “Biel” estava escrito na face dobrada, com caneta azul, em letras simples, mas bonitas.

Desdobrou a folha e encontrou poucas linhas para ler:

“Eu tenho que ir. Me desculpa, de verdade. Meu pai recebeu uma ligação do trabalho, eu acho. Ele não quis explicar muito. Parece que a empresa pagou para adiantar a nossa passagem de volta para amanhã de manhã, mas eles não sabiam que estávamos numa cidade de praia, e não na capital. Temos que pegar a estrada a noite.

Você foi uma das melhores coisas que me aconteceram nesse verão. Obrigada pelos últimos dias. Me manda um e-mail e a gente troca celulares depois, para podermos continuar nos falando.

Você ainda me deve uma caminhada pela praia. Eu vou cobrar.

Sempre sua,

Ana.”

Nota do(s) autor(es):

É engraçado como os adolescentes tendem a acreditar nesse tipo de besteira. “Vamos trocar e-mails, mensagens instantâneas e conversas de vídeo”; “Vamos nos ver em tanto tempo. É só termos paciência até lá”. Como se os adolescentes soubessem o que é a paciência, ou que você não pode cobrar uma caminhada na praia pela internet. Novamente, não digo que o amor não possa sobreviver assim. Sei que, muitas vezes, ele sobrevive.

O que não significa que isso seja saudável.

[1] “UMA DEFINIÇÃO NÃO ENCONTRADA NO DICIONÁRIO: Não ir embora: Um ato de confiança e amor, comumente decifrado pelas crianças.” ZUZAK, Marcus. A Menina que roubava livros.

Notas finais
E aí? O que acharam? Espero sinceramente que estejam curtindo. Quero ouvir a opinião de vocês nos comentários. Não custa nada e me deixaria muito feliz ;) Até a semana que vem!