Filtro Solar
2 1.
Notas iniciais
“Like most misery, it started with apparent happiness”
Death [1]
1.
Gabriel Gouvêa estava sentado no grande pufe redondo que ficava na varanda, lendo seu livro. Eram oito horas da manhã e seus pais já o haviam acordado, mesmo que ele nunca fosse entender o motivo daquilo. Tudo bem, eles estavam de férias em uma cidade de praia, mas aquela casa era deles, e aquela era a mesma cidade que eles visitavam há mais de cinco anos, todas as vezes que o verão chegava. Eles iam para praia a pé e levavam cerca de cinco minutos. Não existia um motivo sequer para ter pressa.
O menino simplesmente odiava tudo aquilo. Tinha de admitir que gostara da primeira vez que foram, quando ele tinha onze anos, e algumas vezes depois daquilo, mas agora havia acabado de fazer dezesseis. Queria poder usar a casa de praia para trazer os poucos amigos que tinha no colégio, mas nem isso podia. Seus pais ficariam ali por quase duas semanas, e quando voltassem para casa, alugariam o lugar para alguns turistas. Eles sempre alugavam a casa nas férias, logo depois de passar um tempo — sempre longo demais — por lá.
—Precisamos manter a casa, Biel. Com o dinheiro do aluguel, poderemos mantê-la pelo ano todo sem tirar um centavo do bolso...
Gabriel — que ainda se torcia de raiva toda vez que o chamavam de “Biel” — sabia que aquilo faria sentido se os seus pais não alugassem a casa em todos os outros feriados também, mas ele sabia que o preço do aluguel não era dos mais baratos, e, com tantos alugueis durante o ano, duvidava aquele dinheiro fosse estritamente necessário.
No geral, dinheiro nunca pareceu ser um verdadeiro problema para família, por mais que seus pais tentassem lhe convencer que precisavam sempre economizar. Era um tanto quanto irritante ver os gastos supérfluos do dia-a-dia e ainda fingir acreditar quando eles usavam a necessidade de poupar para lhe negar alguma coisa. O garoto tinha certeza que os pais tinham dinheiro para manter a casa e, ainda por cima, lucravam com ela.
Já ele, ficava com o prejuízo de perder o começo das férias longe dos amigos, sem contar todas as vezes que tinha de explicar para eles que, apesar de ter uma casa na praia, nunca podia convidar ninguém.
Nota do(s) autor(es):
Qual o ponto de ter uma casa na praia se ela está sempre alugada para outra pessoa? A casa é sua, mas você quase nunca pode usar...
Eu nunca vou entender isso.
Ele não se importava em ir à praia, mas entre ler o seu livro na areia, sob aquele sol escaldante do verão, e ficar confortável na varada, deitado no seu pufe, a última opção era definitivamente a preferida. Isso, pelo menos, significava não ter de se banhar em filtro solar e ainda assim enfrentar a ardência que a sua pele pálida e sensível aos raios solares sofreria depois.
— Biel, já está pronto?! – A voz de sua mãe veio de algum lugar de dentro da casa.
Ele já estava pronto há algum tempo, mas lhe faltava vontade de responder. Preferia continuar com as palavras de seu livro.
— Biel?! – voltou a gritar sua mãe, e novamente foi ignorada pelo garoto.
Ele tomou um susto quando a voz de seu pai, muito mais grossa e próxima dele, o chamou.
— Dá pra você responder à sua mãe?! Você sabe que ela vai ficar gritando até você falar alguma coisa...
— Eu sei, mas ela vai continuar falando quando eu disser que não vou...
O pai gastou um bom segundo olhando para o filho com os olhos semicerrados, como se o avaliando, até que bufou e voltou para dentro de casa, balançando negativamente a cabeça, sem discutir. Gabriel voltou a encarar as páginas à sua frente, tentando voltar a se concentrar, mas dessa vez foram os sons vindos da casa ao lado que lhe chamaram a atenção. Percebeu com o canto dos olhos que a família que lá estava também saía, todos muito alegres e felizes. Dois casais de adultos e uma menina que parecia ter a mesma idade dele. Provavelmente tinham alugado a casa pela temporada, já que o menino não reconheceu nenhum deles.
Ele se deixou levar um instante pela visão da garota de pele exageradamente bronzeada e cabelos negros, caindo até a metade das suas costas. O corpo era bonito, mas nada extraordinário. Com um pequeno short jeans e a parte de cima do biquíni, ele não se conteve em observá-la por alguns segundos, antes de perceber o que fazia. Não conseguiu, porém, ver seu rosto por inteiro, devido aos óculos escuros que ela usava. Pensou que talvez fosse realmente bonita, mas a incerteza o fez voltar os olhos para o livro novamente.
— Biel?! — voltou a gritar sua mãe, alto o suficiente para todo o condomínio ouvir. – Biel, você já está pronto pra sair?!
— Não! – berrou ele em resposta, finalmente irritado. – Eu estou pronto pra ficar!
A família ao lado já lançava olhares furtivos enquanto faziam os últimos preparativos em sua própria varanda e o garoto se arrependeu por gritado ter tão alto. Já havia perdido a conta de quantas vezes tentara se focar na leitura de seu livro, mas aquela, com certeza, não seria a última. Enquanto sua mãe estivesse em casa, ele não conseguiria ler em paz.
A mulher apareceu à sua frente menos de um minuto depois, como ele já sabia que ela o faria. Ela trazia o filtro solar de fator cem nas mãos.
— Eu já deixei você voltar pra casa na segunda-feira. Você não vai passar nem o sábado e o domingo com a gente, na praia? – ela perguntou, tentando se fazer de vítima. Gabriel, porém, já conhecia aquela técnica há muito tempo.
— Não... Eu nem queria ter vindo para começo de conversa. São oito da manhã e você já me fez pular da cama! Não vai me arrastar pra praia também...
O menino fora um pouco mais ríspido do que costumava ser, em parte porque não gostava do fato da família ao lado agora estar passando em frente à casa deles, no caminho da saída do condomínio. Todos faziam a mais estrita questão de manter seus olhos no chão, por educação.
— Eu te levantei da cama porque é um absurdo você passar essa manhã linda dormindo...
— Pois é! Aí você me arrasta até aqui e me faz passar ela acordado deitado no pufe... Valeu mesmo!
Sua mãe levou uns segundos para se conformar com a ideia de que não poderia convencê-lo e voltou para dentro de casa, vermelha de raiva e praguejando, para voltar a arrumar todas as mil coisas que ela julgava que iria precisar na praia que ficava a menos de um quilometro de onde eles estavam. Era sempre assim. Eles discutiam um pouco, ela saia praguejando e desistia de convencê-lo, o que a levaria a passar o resto da viagem dando pequenas indiretas que ele teria de ignorar. Era o que se passava por diálogo na casa deles.
Gabriel se virou para o outro lado, já ignorando as interjeições da mulher, quando pensou ouvir uma breve risada, vinda de outra direção. Por um momento pôde jurar que um dos vizinhos que acabavam de passar havia rido da discussão com sua mãe, mas quando não viu nada de anormal, deixou aquilo de lado.
Essa mulher ainda vai me deixar maluco... Pensou, voltando-se, finalmente com calma, para o livro. Sua mãe ainda soltou alguns comentários maldosos antes de sair definitivamente, mas ele já não se sentia mais na obrigação de responder, ou sequer ouvir. Dois dias. Dois dias e eu volto pra casa e deixo ela aqui. Dois dias para liberdade... era tudo o que ele conseguia pensar.
*-*-*-*-*-*-*-*-*
Eram mais de quatro horas da tarde quando Ana voltou ao condomínio, deixando seus pais e seus tios na praia. Voltou correndo apenas para buscar sua canga e botar uma calça. Seus tios diziam que era absurdo usar uma calça na praia, e eles teriam a mais absoluta razão, não fosse a ventania tão forte que fazia com que a areia machucasse. Eles diziam que aquilo era normal ali, porém ela percebeu que muitas pessoas deixaram a praia quando a situação piorou.
Mas não ela. Ela não queria fugir. Tinha quatro dias ali. Quatro dias apenas, antes de voltar para casa. Ela iria botar uma calça, independente do quão ridícula ela fosse parecer quando voltasse para a areia, e aproveitar o tempo que tinha em seu país de origem.
Seus pais haviam se mudado para o Canadá quando ela tinha apenas sete anos. Fora uma mudança muito difícil para ela, deixar grande parte de sua família para trás para enfrentar o desconhecido naquele lugar frio que ela aprendera a chamar de casa. Acabara de ser alfabetizada, mas ainda assim teve que se acostumar a uma nova língua, completamente diferente da sua. Lembrava que as únicas palavras que sabia dizer quando se mudou eram, “yes”, “no”, “blue” e “pink”.
Mas o tempo e a dificuldade passaram, ela cresceu, estudou e fez amigos, e agora os nove anos que passara em outro país lhe pareciam uma verdadeira eternidade. Era como se a sua vida passada no Brasil fosse algo muito distante, quase utópico. Voltar ao país era como visitar uma terra de faz de conta que ela tinha pintado em sua cabeça, e sonhava retornar todos os dias antes de dormir, desde o momento em que se mudara. E era exatamente assim que ela se sentia ali. Aquela sensação fria quando se descobre que o seu sonho de criança está ali diante dos seus olhos, mas você não é mais a criança que sonhou e tem que aprender a aproveitá-lo no meio de todo aquele vento e areia.
Determinada como era, a garota não estava prestes a se deixar vencer por qualquer condição climática adversa, mas era impossível não admitir que tudo era ligeiramente decepcionante. Como uma aquarela borrada, que de longe parece linda, mas é irreconhecível quando se chega perto. Então ela entrou no quarto, vestiu-se com um jeans surrado que ela quase não colocara na mala, considerando o seu destino de férias, e voltou a sair em direção à praia.
Nota do(s) autor(es):
Os sonhos não deveriam ser assim, certo? Os sonhos deveriam ser mágicos... Deve ser devastador descobrir que o seu sonho não passa de uma realidade como outra qualquer.
Antes de sair do condomínio, porém, olhou para o lado distraidamente, atraída por alguma coisa que não sabia explicar. Foi quando ela viu o menino pálido, magro, vestido apenas com uma bermuda preta um pouco abaixo da linha de cintura.
Nossa, como ele é branco... Ela não se conteve em pensar, parando por um momento, como se tivesse levado um susto.
Em seguida, percebeu que toda a situação colaborava com aquilo. Ele estava deitado em uma espreguiçadeira branca, debaixo de uma barraca branca, com um livro de capa branca nas mãos. O piso a sua volta era claro, e o sol refletia nele, deixando tudo mais claro ainda. E, para terminar, seu cabelo e sua roupa eram negros, o que apenas servia como um contraste para realçar a alvura da cena. Ainda assim, a palidez daquela visão era tanta que ela não se conteve em olhar.
Reconheceu-o como seu vizinho, pelo menos por aquela semana. O “Biel” que havia tratado a mãe como se ela o tivesse sentenciado a morte por tê-lo tirado da cama. Ela parou em seu caminho por um segundo, fitando o garoto absorto em sua leitura e lembrando-se da breve cena que não se conteve em espiar antes de sair para praia. Toda a sua família havia ouvido a discussão dos dois e chegaram a comentar o fato no caminho para a areia.
E então ela sentiu um impulso desmedido que ninguém nunca conseguiria explicar.
— Ei! – disse, andando na direção do rapaz. – Por que você tratou a sua mãe daquele jeito, cara?
Por um momento o menino pareceu atordoado. Ele olhou em volta, procurando quem era o destinatário da súbita e inexplicável acusação da garota.
— É você mesmo, Edward...
Ela deu pequeno sorriso, rindo da própria piada como se ela fosse inesperada. A situação era tão absurda que nem mesmo ela parecia saber o que estava fazendo.
— Eu?! O quê?!
— É, você... Eu te vi hoje berrando com a sua mãe porque ela te chamou para ir à praia...
Garbriel sentou-se e fitou a garota, forçando os olhos contra o sol. A surpresa em seu rosto só não era mais visível do que a dificuldade para processar o que estava acontecendo. Se ela parecia perdida, ele começava a dar sinais de revolta e incredulidade.
— Eu... Eu... Quem diabos é você?! – ele disse, finalmente.
— Wilson. Ana Maria Wilson, prazer. – Ela se aproximou e estendeu a mão esperando que ele apertasse. – E você é?
— Gabriel...Gabriel Gouvêa. – Ele olhou para a mão da menina sem saber se ria ou não. Continuou a falar sem apertá-la. – E eu trato a minha mãe como eu quiser, ok? Você não tem que se meter nisso...
Ana recolheu sua mão, resignada.
— Você é ridículo, sabia? A sua mãe te traz até aqui, nesse lugar maravilhoso, pede a sua companhia na praia e tudo que você faz é gritar com ela... Se um dia meu filho falar assim comigo, ele vai aprender a me respeitar nem que seja à força.
— Bom pra ele. Ainda bem que eu não sou seu filho...
Ana bufou, parecendo se irritar cada vez mais com a atitude do garoto. Gabriel já havia se levantado da espreguiçadeira e começou a caminhar em direção a sua casa, dando as costas para a garota.
— Você ainda se acha engraçadinho. Aposto que foi ela que te deu esse livro, não foi? E você dispensando ela para ler. Custava ler na praia? É o que eu estou fazendo...
— Eu não perguntei... – disse ele, continuando a se afastar.
— Vem comigo!
Gabriel parou e se virou para a garota, com a expressão de quem nunca ouvira um absurdo tão grande em toda a sua vida.
— O quê?! Você pirou?!
— Vem comigo, por favor! – Ela agora se aproximou dele, quase implorando com os olhos. Subitamente, ela passou a agir como se tudo aquilo fizesse sentido em sua cabeça, e que ele é quem estava ficando maluco. Para ela, aquele era o mundo ideal, a mais perfeita realidade, o seu planeta de conto de fadas. E ele estava desprezando tudo aquilo por nada. Ela não podia deixar aquilo acontecer sem fazer algo a respeito.
— Olha, você não sabe o quanto isso aqui pode ser legal. O quanto que esse lugar tem para oferecer, o quão único isso é no mundo...
— Bem, eu venho aqui todo ano há cinco anos – ele respondeu. – Eu acho que eu devo saber alguma coisa...
— Não, você obviamente não sabe, porque você está aqui fazendo o que você pode fazer todo dia em casa! Vem comigo, por favor. Deixa eu te mostrar...
Ela se aproximou dele e estendeu a mão novamente. Gabriel olhou para a oferta, hesitando pela primeira vez, sem saber como responder. A garota parecia tão convicta de si que ele não sabia o que fazer. Ela viu quando ele não se controlou e lançou um olhar para o livro em suas mãos, pensando em como preferia ficar em casa lendo.
— Vamos, pelo amor de Deus! É uma praia, não o inferno! Só por hoje... Traz o livro, o que você quiser, mas vamos!
Gabriel olhou-a nos olhos novamente, e quando ela sorriu, ele sabia que já tinha tomado uma decisão. Deixou a cabeça cair, sacudindo negativamente, mas esticou a mão e apertou a da garota, aceitando a proposta. Não era todo dia que uma menina, mesmo que aparentemente maluca, lhe chamava para sair.
— Você tem hoje, e apenas hoje, entendeu? Amanhã você esquece que eu existo... – A menina sorriu ainda mais, assentindo sem responder. Ele continuou: — Você é doida, sabia?
— Yeah... Sabia.
*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*
Gabriel não viu seus pais quando chegou à praia. Achou curioso, mas não se deteve muito naquilo. Encontrá-los não seria realmente agradável, considerando quanto ele teria que ouvir da mãe depois de ter feito tanta força para ficar em casa.
—Aqui, para esse lado – disse Ana, puxando-o pelo braço para a direita.
A praia não era extensa, e era bem acolhedora. O arco que fazia era limitado por duas pequenas colinas rochosas, que penetravam algumas centenas de metros no mar a frente, fazendo daquele curto corredor de areia quase uma piscina. O vento, porém, não estava de brincadeira naquele dia. A areia batia em suas pernas como pequenas agulhas atiradas contra sua pele. Aqueles dias até podiam ser relativamente comuns, mas isso não os fazia menos desagradáveis.
Gabriel conhecia muito bem aquele lugar, mas não se incomodou em mostrar surpresa quando viu que a menina o guiava em direção as rochas do lado direito. Quanto mais perto das rochas, menos as pessoas gostavam de se deitar ou de passar o tempo.
— Os seus pais gostam das pedras? — ele perguntou.
— Não... Óbvio que não. Eles estão para o outro lado...
— Então por que estamos vindo para cá?
Ela sorriu, mas continuou guiando-o em direção às rochas, e ele deduziu, quase imediatamente, para onde ela o estava levando.
— Você foi até a casa buscar calças para molhá-las? – ele disse, quando percebeu ela se aproximando do mar. Ela precisaria andar pelo menos alguns metros na água para subir nas pedras.
— Eu fui até em casa para me proteger dessa areia estupidamente violenta...
Gabriel sorriu e a seguiu, levantando os braços como ela para proteger seu livro. Trazê-lo tão perto da água o incomodava de uma maneira que ele não podia descrever. As ondas não passariam da metade de suas pernas, e o livro só se molharia se ele permitisse, mas ainda assim, sua garganta ficara subitamente entalada.
— Você pediu para eu trazer meu livro para cá... Ótima ideia...
Ana revirou os olhos.
— Eu não sabia que vínhamos para cá. Eu só olhei para as pedras e tive uma ideia.
— Que ideia?
— Você vai ver... – ela disse, enquanto dava o primeiro passo na pequena parede de pedras que eles precisavam escalar.
Gabriel suspirou, profundamente arrependido de ter concordado em seguir a garota. Sua mão esquerda apertava com força o livro.
Ana subiu e ficou de pé acima dele, sorrindo. Com a mão direita, pegou o livro de sua mão, enquanto estendia a esquerda para ajudá-lo a subir. Não apenas ele não tomou a mão da menina, como também não soltou o livro. Talvez ele não quisesse, ou, talvez, por algum motivo, ele não conseguisse.
— Hey, relax... – ela disse, com uma voz mais doce e tranquilizadora. – Desculpa ter falado para trazer o livro. Prometo que não vou deixar nada acontecer com ele...
Gabriel olhou para ela e viu, pela primeira vez, sinceridade no que eles lhe falavam. E então, ele soltou o livro.
— Vamos, me deixa te ajudar a... – ela disse, quando viu que ele ainda não aceitara a ajuda da outra mão, estendida.
Antes que ela pudesse terminar, porém, ele já estava ao seu lado, de pé, pegado novamente o livro de suas mãos.
— Vejo que não é a sua primeira vez aqui – ela disse, impressionada.
— Se tudo correr bem, será a última – ele disse, voltando a ficar mal humorado.
E ela se pegou torcendo para que aquilo não fosse verdade.
Eles escalaram um pouco mais até chegar a um trecho mais arenoso da rocha, quase como se coberto por uma camada de terra molhada. Era o caminho que a maioria das pessoas que subia ali usava. Crianças gostavam de ir até lá apenas para sentirem-se aventureiras e desafiar o comando dos pais. Gabriel não fora diferente, e já havia até se ralado algumas vezes brincando por ali, mas depois foi ficando mais velho e se cansou.
Eles andaram pelo caminho em direção ao mar, se afastando um pouco da areia. Quando criança, quanto mais longe ele ia, mais seus pais brigavam com ele. Talvez porque ali algumas pessoas se sentiam um pouco mais tentadas a desafiar o mar. Em alguns pontos, alguns até mesmo se arriscavam a pular da ponta de algumas das pedras. Gabriel sabia que era possível fazê-lo e que quase ninguém se machucava, mas não gostava da ideia. Sempre se lembrava de um amigo que havia se machucado em um mergulho semelhante. Desde então, ele passou a respeitar as pedras um pouco mais.
E foi por isso que fez questão de se negar a seguir Ana quando ela começou a andar em direção a uma das rochas que mais se projetava para fora do corpo montanhoso em direção ao mar.
— Eu não vou pular daqui... Não mesmo...
— Eu sei que não, né? Eu nunca iria pedir para você molhar o seu livro.
— Sim, é... O meu livro... – ele disse, seguindo-a com precaução. – O que você está indo fazer ai então?
— Nada – ela explicou. – Apenas indo me sentar.
E então, a menos de trinta centímetros da ponta da rocha, Ana simplesmente se sentou. Esticou as pernas, esticou os braços para trás e colocou seu peso sobre eles, deixando-se banhar pelo sol, que descia do lado oposto do céu, bem de frente para eles.
— Você vai tomar sol aqui? No meio das pedras? De calça?
— Elas não estão quentes... Você pode se sentar também...
Gabriel não conseguia acreditar.
— Foi para isso que você me trouxe até aqui? Para tomar sol nas pedras? Essa era a sua ideia?!
— Claro que não. Mas você me deu o seu dia, lembra? Eu tenho hoje, e apenas hoje para te mostrar como isso aqui pode ser bom, não é?
Gabriel manteve o silêncio, encarando a garota sorridente enquanto se arrependia das palavras que dissera.
— Pois bem, nessa parte, você vai sentar aqui e conversar comigo enquanto eu tomo sol. Ou então ler o seu livro, eu não me importo...
Ela voltou a fitar o céu, tirando um par de óculos escuros de um dos bolsos da calça e vestindo-os. Gabriel, sem saber como reagir, simplesmente a seguiu. Sentou-se ao seu lado, fitou o mar e a areia por alguns instantes, e então, sem maiores cerimônias, abriu o livro para voltar à sua leitura.
Ana ficou surpresa quando percebeu que ele realmente iria ler como se estivesse sozinho ali, mas fingiu não se importar com o silêncio por alguns momentos sem saber como reagir. Enquanto isso, Gabriel acabou se envolvendo ainda mais pela leitura, mergulhando mais profundamente nas paginas do livro.
Depois de quase quinze minutos, entretanto, a menina não aguentou mais, e começou a falar, mesmo sem ter sido convidada. Deixava espaços para que ele pudesse comentar, mas Gabriel continuava a correr os olhos pelas paginas, sem interromper a leitura.
Nota do(s) autor(es):
Não. Esse não foi um dos melhores momentos do rapaz. Ele não tinha a menor ideia de (ou ao menos se importava em saber) como aquilo estava irritando Ana. Alguns, porém, dizem que se ele não tivesse agido desta maneira, talvez essa história nunca tivesse acontecido.
Mesmo sem obter resposta, a garota lhe contou sobre o que estava fazendo ali, e como se mudara para o Canadá. Contou-lhe sobre suas melhores amigas no colégio, sobre como tinha curiosidade de saber como é estudar no Brasil e sobre como sentia falta de sua terra natal. Antes que ela pudesse se controlar, o silêncio do rapaz deixou ser algo que lhe irritava e tornou-se algo consolador, e ela nem mais lançava olhares para saber se ele resolvera prestar atenção.
Ela mencionou o ressentimento que tinha dos pais por terem-lhe privado de viver em um lugar que ela amasse, e sobre a confusão em que sua cabeça se tornara quando ela percebeu que construíra uma vida tão sólida em outro país que nem mesmo se sentia em casa ali, no lugar que amava. Percebeu, pela primeira vez, como se sentira sozinha durante todo aquele tempo, como uma pessoa sem casa. Sentia não pertencer ao lugar que amava e clamava não amar o lugar a que pertencia.
Naquele fim de tarde, Ana falou como nunca havia falado antes, e se surpreendeu com o quanto tinha para dizer a si mesma, sem que percebesse. Ela não chorou, ou sequer demonstrou raiva ou frustração. Simplesmente falou, como se tudo aquilo fosse natural. Até que, em algum momento, ela parou novamente, sem que Gabriel esboçasse qualquer reação, ou falasse qualquer palavra. Na verdade, ele continuou passando as páginas do livro da mesma maneira que estava passando antes.
— Olhe – ela disse, cutucando o garoto, vários minutos depois de ter se acostumado ao silêncio novamente. – Essa era a minha ideia.
Quando ele finalmente levantou os olhos das páginas brancas do seu livro, viu que o céu estava vermelho. Não se conteve em arregalar os olhos por um instante, e Ana sorriu quando ele o fez, imaginando que aquela seria a maior reação que conseguiria arrancar do silencioso menino naquele dia.
— O pôr-do-sol, de uma pedra em cima do mar... – ela falou, quase orgulhosa. – Essa era a minha ideia.
Gabriel sorriu. Ele, de fato, nunca havia pensado em assistir o pôr-do-sol dali. Era magnífico. O sol se punha atrás da ponta oposta da praia, se escondendo por trás de uma das pedras mais distantes e mais baixas. Podia-se vê-lo mergulhando atrás de rocha e atrás do mar, ao mesmo tempo. Uma esfera alaranjada pintando uma infinidade de cores no céu. Ele sorriu, fechou o livro e o colocou de lado, para a surpresa de Ana.
— É lindo, não é? – ela falou.
— É... Realmente... – ele respondeu.
Sem olhar para a menina, ele estendeu um dos braços e tocou uma das mãos dela. Ela sentiu o toque, mas não recolheu a mão.
— Olha... – ele começou. – Fica tranquila, ok? Eu sempre morei na minha casa, nunca sequer mudei de bairro, e ainda assim não sei a que lugar do mundo eu pertenço. Não é só você... Isso é tudo muito normal...
Ele podia sentir a surpresa no silêncio da garota. Ele nem mesmo a ouvia respirar.
— Eu... – ela tentou dizer.
— O quê? Achou que eu não estivesse ouvindo? – Ela concordou com a cabeça. – Você estava do meu lado não é?
— É, mas você estava lendo... Estava virando as páginas e tudo...
Ele sorriu, também um pouco orgulhoso.
— Quando eu percebi que você estava se empolgando, eu não quis me intrometer. Achei que se eu falasse alguma coisa, você podia parar de falar... — Ele estava certo. Ela nunca teria dito tanto se ele estivesse interagindo. – Então eu marquei a página em que eu estava, e continuei mudando de página, apenas para que você não percebesse que eu estava ouvindo...
Nota do(s) autor(es):
Quem em sã consciência faria alguma coisa assim? Sério... Quem?!
Ana nunca soube explicar o impulso que lhe veio naquele momento, assim como nunca soube explicar qualquer dos impulsos que tinha. Ela simplesmente se inclinou e beijou Gabriel. No primeiro momento, ele não conseguiu afastar a surpresa com o gesto da garota, mas, alguns segundos depois, deixou-se levar pelo beijo. Foi um beijo rápido, e ela logo se afastou.
Eles, muito próximos, olharam para os olhos um do outro por alguns segundos. Ele mergulhou nos dela como nunca havia feito antes. E então ela sorriu um sorriso nervoso, se recolhendo e corando, em nada lembrando a menina forte e determinada que acreditava ser. Naquele momento, ela lhe pareceu tão inacreditavelmente bonita que ele pensou que teria um ataque cardíaco. Ele nunca havia visto alguém brilhar daquela maneira.
Naquele momento, ele sabia que estava com sérios problemas.
*-*-*-*-*-*-*
— Eu ainda tenho o resto do dia, não é? – disse Ana quando eles se separaram, já de volta ao condomínio.
Gabriel rolou os olhos, arrependendo-se novamente de ter prometido um dia inteiro à garota. Como ele bem vira, algumas horas teriam sido mais do que suficientes para que ela lhe conquistasse. Eles voltaram da praia de braços entrelaçados, e, apesar de alguns poderem interpretar aquilo como um gesto de amizade mais forte, ele sabia que era algo a mais. Pelo menos para ele. Um dia inteiro até poderia lhe parecer um exagero, mas ele não podia negar que a perspectiva de sair à noite com ela lhe agradava.
Gabriel entrou em casa sorrindo sem notar, mas percebeu que seus pais já haviam retornado também. Já estava na hora deles se arrumarem para o seu costumeiro jantar na única rua de restaurantes da cidade.
— Veja só quem resolveu aparecer... – disse seu pai, assim que ele entrou em casa. O homem estava sentado no sofá da sala, próximo à entrada, e reparou no sorriso que rapidamente se apagou do rosto de seu filho, substituído por uma expressão de falsa surpresa. – Já estávamos achando que você tinha nos abandonado e corrido de volta para casa.
— Quem me dera... – disse Gabriel, subitamente muito consciente do fato de que mentia.
— Por onde esteve então?
— Por aí, pai... – disse ele, atravessando a sala o mais rápido que pôde. Nem ao menos reparou que sua mãe estava na cozinha.
— Por aí... Sei... E de onde veio toda essa areia? – perguntou a mulher, apontando para as pernas sujas de seu filho.
— É... Uhm... Tem areia em todos os cantos dessa cidade! – balbuciou ele, nervoso sem saber exatamente por quê.
Seu pai riu, sua mãe se assustou com a exclamação do filho e Gabriel se dirigiu diretamente para seu quarto, fechando a porta atrás de si. Estava prestes a deitar quando ouviu as batidas na porta.
— Nem pense em se deitar sujo desse jeito, mocinho. Acho bom você ir tomar um banho se quiser ir jantar com a gente...
Gabriel suspirou. Os jantares normalmente eram a única parte daquela viagem que costumavam valer a pena. Seus pais tinham um bom gosto para gastronomia no geral, e eles gostavam de ir aos melhores restaurantes numa tentativa de, ele supunha, convencer o garoto a passar mais tempo com eles e não tornar a viagem tão insuportável. Gabriel gostava de admitir que aquilo funcionava, então foi com uma leve pontada de prévio arrependimento que ele avisou seus pais de seus outros planos para aquela noite.
— Eu não vou jantar. Vou sair... – disse, abrindo a porta e passando pela mãe, tentando não olhar nos seus olhos enquanto falava.
— Vai sair?! Pra onde? – perguntou sua mãe, surpresa tanto com a súbita saída de seu filho do quarto quanto com a sua resposta.
— Não sei...
— Como assim não sabe?
— Não sei, ué... Vou sair – Gabriel entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si, obrigando sua mãe, que o seguia um pouco atrás, a estancar.
— Vai sair sozinho?
— Não, com a... – O menino precisou de um momento para decidir o que dizer. – Com um pessoal que eu conheci aqui da casa ao lado...
— Ah... Sim... Entendo... – disse a mulher, com um tom que misturava o de uma surpresa positiva com a de um leve desapontamento. – E já sabe para onde, exatamente?
— Na verdade, não...
— Bom, você sabe que a cidade não tem muitas opções, não é, querido?
Gabriel suspirou, reconhecendo pela primeira vez naquele dia que sua mãe estava certa. Ele não havia antecipado aquilo. Ele, Ana e seus pais poderiam até mesmo não estar no mesmo restaurante, mas estariam na mesma rua e a probabilidade de esbarrarem um no outro em algum ponto da noite era, no mínimo, considerável. E o rapaz não queria nem conceber aquela ideia.
Ele levou as mãos à cabeça e coçou, tentando pensar em alguma saída. Tinha prometido o resto da noite à Ana e não queria quebrar aquela promessa. E não apenas pelo valor de sua palavra.
— Pois é... – ele balbuciou, sem saber o que dizer.
— Você vai querer carona?
— Não... não, eu já disse que não sei para onde vou...
— Mas... – Sua mãe deu uma pausa, carregando o silêncio com sua confusão, e o menino, esperto, aproveitou a brecha para ligar o chuveiro. Abriu a água o mais forte que conseguiu, justamente para que o barulho fosse alto o suficiente para atrapalhar a mulher no que quer que ela fosse dizer em seguida.
Foram mais de trinta minutos no banho e outros vinte no quarto, se vestindo e terminando de se arrumar. Aquilo não era um hábito para ele, que costumava ser mais prático, eficiente e ecológico em casa, mas ele tinha bons motivos para se demorar naquele dia. Dera tempo suficiente para seus pais saírem de casa e, por fim, ainda lhe deu tempo o suficiente para ficar o mais pronto possível para Ana.
Nota do(s) autor(es):
Quando um garoto gasta mais de trinta minutos além do seu tempo habitual para se arrumar por causa de uma garota, ele deveria tomar vergonha na cara... Alguns, porém, acham isso “fofo”.
Ficou mais tranquilo quando ouviu seus pais se despedirem e a porta da frente batendo, indicando que estava, finalmente, sozinho em casa, e, por isso, não precisaria dar nenhuma outra explicação ou desculpa. Mas ele não teve tempo para respirar com calma. Três batidas fortes na sua janela o fizeram pular de susto.
— Ei! – a voz de Ana se fez ouvir. – Eu ainda quero minha noite, entendeu?! Não adianta ficar se arrumando até meia noite... Não é justo.
— Não são nem oito horas ainda! – disse o garoto, tentando se recuperar do susto.
Ela riu.
— Vamos logo!
Gabriel abriu a janela para vê-la parada no corredor que corria por trás da sua casa, passando pelas janelas de todos os quartos. Ela parecia arrumada para jantar, assim como ele também estava, mas o menino não viu aquilo com bons olhos.
— Vamos logo para onde?
— Ora, para a cidade. Para a rua. Vamos comer, dançar, sei lá...
Ele bufou.
— Sério?
— Você parece desapontado... Estava esperando outra coisa?
— Na verdade, estava – disse ele, esperando conseguir convencer a menina.
— Que pena... A sua noite é minha, lembra?
Ela riu e pulou para se sentar no peitoril da janela aberta. Pousou uma mão na dele e lhe deu um rápido beijo estalado no rosto, tentando provocá-lo. Ele não resistiu. Passou a outra mão pela nuca da garota e deu-lhe um beijo mais demorado na boca.
— Sim, eu sei... – disse, quando se separaram e ele recuperou o ar — Mas eu esperava que você me surpreendesse novamente... Ir para a cidade é tão normal...
Ele tentou soar desapontado, mas ela foi mais perspicaz.
— Aham... Ok... Isso é porque seus pais vão estar lá?
Ele arregalou os olhos por um instante e ela não precisava que ele dissesse mais nada para confirmar. Gabriel, porém, ainda era um menino na adolescência, muito confiante em sua habilidade de esconder seus sentimentos e expressões faciais.
— Não! É claro que... Espera! – disse, tentando soar surpreso e quase ofendido. – Como você sabe que eles estarão lá?
Ela riu novamente.
— Porque eu perguntei para eles quando saíram, ora. Agora há pouco. Quem você acha que me falou qual era a janela certa para bater?
Gabriel sentiu seu rosto esquentar enquanto a vergonha lhe entalava as respostas na garganta. Tanto esforço para manter seus pais no escuro, por água abaixo.
— Tudo bem, eu entendo... – Ana falou, dando mais um curto beijo nos lábios do menino envergonhado. – A gente pode ficar por aqui, mas tem que ser nos meus termos...
Ele pressentiu problema, mas assentiu. A garota sorriu, pulou da janela novamente para fora do quarto, pegou uma bolsa que nem mesmo Gabriel sabia que estava no chão e correu para o lado da casa. O que quer que estivesse dentro da bolsa, fazia o som de vidro se chocando com vidro. O menino suspirou, presumindo que deveria segui-la e, portanto, pulando da janela e indo atrás da garota.
Quando virou a esquina da casa, observou sem palavras enquanto ela subia uma escada que já estava estrategicamente posicionada para levá-los ao telhado da casa. Ele percebeu, então, que tudo aquilo havia sido planejado muito antes dela saber que os pais dele iriam para a cidade. Sorriu, surpreso mais uma vez com a garota que acabara de conhecer e a seguiu escada acima.
O telhado era ligeiramente inclinado para frente, no estilo colonial, mas havia uma pequena torre para a caixa d`água, e ali eles tinham cerca de dois metros quadrados de espaço reto. Quando Gabriel chegou àquele espaço, Ana já tirava uma toalha de mesa da bolsa.
— Um piquenique no telhado, que tal?
Ele riu.
— Ok, você me surpreendeu de novo.
— Sempre... – ela disse, piscando um olho para ele, incapaz de parar de sorrir.
Ela estendeu a toalha, jogou duas almofadas uma ao lado da outra, tirou seis garrafas de vidro verde, e, surpreendentemente, um lampião, esvaziando finalmente a mochila.
— Um farto piquenique – disse Gabriel, reparando na falta de comida. – E isso ai não é exatamente refrigerante...
— Não, não é – ela concordou, tirando do bolso um isqueiro e um abridor de garrafas. Em menos de dois minutos, ela acendeu o lampião, iluminando pouco mais de meio metro em volta deles, e abriu as tampas. Estendeu uma ao garoto, que aceitou. – Senta ai.
— Um lampião? — ele perguntou, sem entender o motivo daquele objeto estranho. Mais estranho ainda era o fato de a menina saber exatamente como usá-lo.
— Eu achei ele lá em casa. Não queria correr o risco de ficar escuro demais aqui em cima. Pensei em velas, mas elas podem se apagar com o vento. Pensei numa lanterna, mas achei que quebraria o clima... Então eu achei o lampião...
— Clima? E que clima é esse exatamente? – ele riu.
— Senta logo, ok?!
Ela apontou, ainda rindo, para uma das almofadas e ele se sentou, apoiando as costas contra a parede que dava suporte à caixa d’água. Ela sentou-se ao seu lado e se aninhou em seu peito, obrigando-o a passar os braços por seu ombro.
— Às estrelas – disse ela, olhando para o céu e estendendo a garrafa para o menino.
— À você – ele disse, tentando soar romântico. A menina apenas riu e bateu com a mão livre na testa, deliberadamente.
— Ai meu Deus...
— O quê?! – disse ele, tentando se defender. – Foi você que disse que queria um clima...
Ana se ajeitou para olhar diretamente nos olhos dele.
— “A única coisa pior que um menino que te odeia é um menino que te ama”[2] — citou, recitando uma passagem do livro que Gabriel passara o dia tentando ler.
— Eu... Eu não disse que te amo...
— Você não precisa — ela falou, se aproximando e lhe dando um beijo de verdade.
O beijo começou suave, quase que uma surpresa, como fora na praia e na janela, mas, dessa vez, ele cresceu. Ele apertou o corpo dela com força contra o dele e, no movimento, ela derrubou o lampião recém aceso, apagando-o. As outras garrafas também caíram, e logo tudo estava rolando pelo telhado, em direção ao chão.
O barulho foi alto e a sujeira foi muita, mas os dois não se importaram. Na verdade, nem ao menos escutaram. Estavam ocupados demais com o beijo e com tudo o mais. A sujeira poderia ser limpa depois. Eles poderiam arrumar a bagunça outra hora. Ali, sobre o telhado da casa, sob um teto infinito de estrelas, eles tinham preocupações mais urgentes na cabeça.
Nota do(s) autor(es):
Somente adolescentes se conhecem, fazem confissões de amor e sexo no telhado, tudo em menos de vinte quatro horas. E, pior ainda, acreditam em tudo aquilo. É o tipo de coisa para o qual tento alertar os leitores. Não digo que esse amor à primeira vista não pode ser real.
Só digo que ele é perigoso.
[1]“Como todo sofrimento, este começou com aparente felicidade”. ZUZAK, Marcus. A Menina que Roubava Livros.
[2] ZUZAK, Marcus. A Menina que Roubava Livros.
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