P.O.V — Athena

Tentei me levantar mas meus membros arderam de dor, Arthour ainda segurava minha cabeça, olhei pra ele.

– Eu poderia jurar que aquilo que nos atacou era uma harpia.

– Você já tinha visto um desses antes? Como você sabe disso? — Disse ele, parecendo confuso e preocupado.

– Não, pelo menos não pessoalmente. Meu pai é louco com mitologia grega, e ele adora falar disso pra mim, eu já vi imagens nos livros deles.. Harpia é uma criatura da mitologia grega, são irmãs de Íris, filhas de Taumante e a oceânide Electra, elas são aves de rapina com rosto de mulher, cintura e seios humanos. — Minha cabeça doía a cada palavra que eu falava, tentei ignorar isso.

– Você está muito machucada... vou te levar para a enfermaria, agente inventa uma história. — Dei uma olhada em mim mesma, nenhuma história explicaria aqueles machucados, a história real era a menos acreditável.

– Não... vamos pra minha casa, você liga para os seus pais e conta o que aconteceu, eu ligo para o meu e aviso que está tudo bem e que eu tive que ir pra casa mais cedo, quando ele chegar em casa eu conto tudo pra ele. — Arthour me olhou como se eu
fosse louca.

– Athena, se eu contar o que aconteceu aqui para os meus pais, eles vão achar que eu estou louco, e provavelmente o seu vai achar a mesma coisa de você.

– Não, o meu não.. Olha, você pode dizer o que quiser, mas ninguém sabe mais sobre esse assunto do que meu pai. Eu vou contar o que aconteceu aqui pra ele, se ele achar que eu estou louca, eu saio daquele apartamento e não volto nunca mais.

– Porque você faria isso!? Ele seria louco é se acreditasse na nossa história. — Disse Arthour, surpreso.

– Você não conhece meu pai como eu. Mesmo que ele não acredite na nossa história, que é verdadeira, ele nunca me mandaria pra um hospício ou ousaria dizer que acha que eu estou louca, nunca. Está decidido, nós vamos lá pra casa. — Falei e me levantei com dificuldade.

Arthour acabou concordando. Descemos a escada e depois chamamos um táxi que pagamos com o dinheiro dos nossos lanches, não trocamos uma palavra durante todo o trajeto, Arthour ficava olhando a paisagem com uma cara pensativa e eu só conseguia pensar na minha dor que, ao contrário de diminuir estava aumentando. Tentei pensar melhor no que dizer para o meu pai quando ligasse pra ele, mas acabei desistindo.

Chegamos em casa uns oito minutos depois de termos saído da escola. Arthour, vendo minha dificuldade, me ajudou a sair do carro. Apoiada nele, subimos as escadas para o segundo andar, o prédio tinha três, sem elevador. Chegando lá, não reparei na bagunça e falei pra Arthour ficar a vontade, em seguida sentei no sofá e liguei pro meu pai, a ligação se passou assim:

" — Filha, Graças aos Deuses! Chegou a hora da minha aula e você e um menino não estavam na sala e ninguém sabia onde vocês estavam! E eu só posso dar queixa na polícia depois de 24 horas! Você está bem? Onde você está!? — imediatamente fui invadida pela culpa de ter esperado tanto tempo para ligar para ele.

– Pai, não se preocupe. Eu estou em casa — tentei evitar falar que eu estava bem porque isso não seria verdade — e o outro menino, Arthour o nome dele, também está aqui, ele é só um amigo. Quando acabar o trabalho, pegue a minha mochila e a dele, nós estamos aqui em casa.

– O que aconteceu!? Eu vou pra aí agora.

– Pai, não! O diretor não vai gostar disso, eu estou bem — droga — , não precisa se preocupar. Não dá pra falar o que aconteceu por telefone, quando você chegar a gente conversa.

– Está bem. — disse ele, mas ouvi o som do motor ligando por trás da sua voz."

– Eai? — perguntou Arthour.

– Ele está a caminho. — Respondi, sentindo que eu ia desmaiar antes que meu pai chegasse. Não comentei nada com Arthour.

De alguma forma eu consegui me manter acordada até que meu pai chegasse, Arthour tinha pegado uma água pra mim e pra ele, eu não consegui beber a minha. Meu pai ao chegar (uns cinco minutos minutos depois da minha ligação) e ver o meu estado, quase se jogou ao meu lado no sofá, só notando a presença de Arthour depois.

Antes que eu pudesse começar a explicar o que tinha acontecido ele se levantou e foi para a cozinha. Fiquei olhando ele se afastar sem entender como ele podia pensar em comida numa hora dessas, senti meu estômago embrulhar. Ele voltou logo depois com um copo de cachaça, contendo dentro um conteúdo transparente, semelhante a água, mas um pouco mais denso.

– Beba isso. — disse meu pai.

– O que é isso?

– Você sabe o que é. — Disse ele gentilmente, mas eu não sabia o que era aquilo. Olhei de esguelha pra Arthour, ele parecia esperançoso com o remédio, e bebi.

A bebida desceu quente pela minha garganta, mas não um quente que queima, era um quente bom, e eu senti a bebida se espalhar pelo meu corpo e aquecê-lo até chegar nos dedos, senti meu corpo relaxar e os machucados se curarem, senti como se eu estivesse ganhando vida de novo, na minha boca o sabor da estranha bebida era de café, idêntico ao que o meu pai fazia, e depois, lentamente mudou para mel. Eu sabia que bebida era essa, tinha ouvido meu pai falar sobre ela durante toda a minha infância. Maravilhada, falei, quase que num sussurro.

– Ambrôsia. — Falei, abrindo um leve sorriso. Meu pai sorriu de volta. — Isso quer dizer que... Eu sou... Minha mãe é... — Falei tudo isso num sussurro quase inaudível, pensando em voz alta, mas sem conseguir concluir um só pensamento.


– O que é ambrôsia? — Perguntou Arthour. Eu me dando conta da presença dele ali de novo. Meu pai respondeu por mim.

– Na mitologia grega, os semideuses, filhos de Deuses com humanos, tomavam essa bebida criada pelos Deuses para curarem seus ferimentos. Ela é extremamente poderosa, e se um semideus tomar mais que dois copinhos dessa bebida, ele corre o risco de se incinerar. Já um humano, se beber uma gota que seja desta bebida, se incinera.

– Isso quer dizer que Athena é.. ela é... uma semideusa. — Disse Arthour, espantado com a própria afirmação. Eu, ao ouvir o que já suspeitava ser dito em voz alta, não sabia o que pensar, não conseguia digerir toda essa informação repentina.

– Isso é verdade. — falou meu pai, e olhou pra Arthour com tristeza. — E você também deve ser, você viu o que ela viu, senão não estaria aqui. Mas nós temos que nos concentrar no agora, haverá tempo para falar sobre isso depois. Por mais que eu já imagine, eu tenho que perguntar, o que aconteceu lá?

E então Arthour contou tudo, comigo fazendo uma observação ou outra. Não comentei nada sobre o meu sonho. Meu pai escutou tudo com calma, dando de vez em quando sinal para que Arthour prosseguisse a narrativa. Sua expressão variava de compreensão, para surpresa, para medo por sua filha, para compreensão de novo, com aquela cara de quem vê um filme pela segunda vez e de vez em quando repara em cenas que não tinha reparado na primeira vez em que assistiu. Ao fim da narrativa, ele suspirou, como se sentisse por tudo o que tinha acontecido e por tudo que ele sabia que estava para acontecer, ele olhou para suas mãos, olhou para Arthour e depois para Athena, e então falou.

– Aqui não é mais seguro, só tem um lugar seguro pra vocês. Athena arrume suas coisas, Arthour, sugiro que ligue para o seu pai ou mãe, se você é um semideus, você não precisará contar toda a história para que eles concordem em te mandar para esse lugar. Eu vou para o meu quarto pegar uma muda de roupas porque o caminho é longo e eu não ouso ir pelo ar. — Eu já ia para o meu quarto começar a arrumar a mala, quando Arthour fez sinal para que eu não me levantasse ainda. Meu pai olhou pra ele.

– Eu tenho pai e mãe, mas meus pais não são meus pais... Eu sou adotado. Então, eu não precisarei contar toda a história para que antes de terminar eles me coloquem num hospicio. Eu... eu não preciso passar lá em casa, eu vou com vocês com essa roupa mesmo. — Era evidente que meu pai estava com pena dele, eu odiava as pessoas que sentiam pena de mim por ser uma "garota problemática", mas não pude deixar de sentir um pouco de pena por ele também. Meu pai tentou parecer indiferente.

– Mesmo que sejam seus pais adotivos, eles são seus pais e se importam com você. Você não pode deixá-los preocupados, ligue só para dizer que você está bem e que não vai poder voltar pra casa hoje, isso vai acalmá-los um pouco. — Disse meu pai.

Era estranho ver ele dar esse tipo de conselho, nós nunca falávamos sobre sentimentos um com o outro. Arthour pareceu hesitar, mas acabou concordando. Meu pai sussurrou pra mim para deixá-lo sozinho, então fui para o meu quarto e joguei tudo o que eu achei que poderia ser útil, roupas de verão e de inverno, afinal eu não sabia pra onde eu estava indo nem quanto tempo eu iria ficar lá. O que quer que seja esse lugar, meu pai nunca me falou sobre ele. Quando eu voltei pra sala, Arthour já tinha falado com os pais e estava sentado no sofá junto com meu pai me esperando. Além da minha, haviam mais duas malas ali na sala.

– Pai, essas duas malas são suas? — Perguntei eu, espantada.

– Não, eu achei umas roupas minhas de quando eu era mais novo no fundo do armário. Arthour é um pouco maior do que eu era, mas acho que vai servir, além disso, ele vai precisar. — Olhei de esguelha para Arthour que parecia constrangido.

E com isso nós enfiamos as malas no carro e partimos para Deus sabe onde, ou melhor, Deuses sabem onde.