Filhos do Olimpo
5 Acampamento Meio Sangue?
Notas iniciais
Já era noite quando nós paramos num hotel de beira de estrada, nós estávamos viajando a seis horas e meu pai não quis dizer para onde estávamos indo, não disse nem sequer quanto tempo de viajem faltava aproximadamente. Eu havia sentado ao seu lado no banco da frente e Arthour tinha ficado no banco de trás, depois de 20 minutos de viajem ele dormiu e ficou assim durante mais umas quatro horas, eu não tinha percebido, mas também estava exausta. Quando já faziam mais ou menos três horas de viajem eu aproveitei que Arthour estava dormindo e comecei uma conversa com meu pai.
– Você acha que ele é um semideus?
– Só semideuses podem ver o que vocês viram, e ele definitivamente também não é uma criatura menos humana.
– Com menos humana você quer dizer...?
– O que você viu hoje, por exemplo, ou um centauro, ou um ciclope... A única explicação plausível é que ele seja um semideus.
– Mas eu lembro de você me dizer que existem outras criaturas, fisicamente idênticas aos humanos, mas ás vezes mais poderosos que os semideuses. Eu esqueci o nome deles...
– Você está falando dos caçadores de sombras. Sim, eles são transformados em caçadores de sombras através do cálice mortal, que foi enviado à Terra pelos deuses, para que eles, os caçadores de sombras protejam os humanos e semideuses descuidados dos demônios. Mas mesmo para os semideuses eles são como mitos, só sabemos deles pelas histórias e pelos boatos de que alguém viu eles, mas nunca se sabe quem é esse alguém e eu não conheço ninguém que tenha visto um deles. Alguns nem acreditam na existência deles.
– Mas e você? Você acredita, não acredita? — Ele suspirou longamente e depois respondeu.
– Sim, eu acredito. Mas o fato de eu acreditar não os tornam mais reais.
Fez-se uma longa pausa até que eu, sem saber porque, falei:
– Deve ser horrível ser adotado, ainda mais quando você descobre que um dos seus pais verdadeiros pode ser um Deus, e ele te abandonou. — falei sem pensar.
– Essas coisas são complicadas Athena... — Ele parecia escolher suas palavras com cuidado antes de falar — Mas saiba que, se sua mãe pudesse, ela nunca teria nos deixado. Ela teve que fazer isso. — Ele achou que eu estivesse falando da minha mãe, mas eu estava me referindo a Arthour mesmo, a situação dele é ainda pior do que a minha.
– Eu não... — mas então, me veio aquela pergunta a cabeça, eu tinha que confirmar minhas suspeitas, por mais que eu já soubesse, eu não ia ter certeza até ouvir da boca do meu pai. — Minha mãe... minha mãe é Athena, não é? — Meu pai pareceu considerar a pergunta antes de responder, como se não soubesse se me respondia uma pergunta dessas agora.
– Athena eu... Eu nunca teria me apaixonado por uma mulher que abandonaria sua própria filha, ela não teve opção... Eu amo sua mãe, sempre amei, não é à toa que seu nome é em homenagem a ela... — ele esperou que eu dissesse alguma coisa, não o fiz, lágrimas rolavam discretamente pelo meu rosto — Sabe, você se parece muito com ela, não só o rosto, e o cabelo ondulado, com esse loiro acinzentado, não, sua personalidade também, volta e meia você faz coisas que me lembram ela... — mais lágrimas, olhei para a janela para que meu pai não visse meu rosto.
– Athena.. diga alguma coisa... — Eu não quis falar com medo que ficasse com voz de choro, meu pai não precisava ver isso. — Athena..
– Ahh — disse Arthour se espreguiçando — Bom dia, onde estamos? — Meu pai precisou de um segundo para se recompor, olhou para o relógio e depois respondeu.
– Já estamos viajando a quatro horas, não vai dar tempo de chegar ao nosso destino hoje, quando anoitecer eu vou começar a procurar um hotel na estrada mesmo para nós ficarmos. — E com isso, nós ficamos em silêncio durante todo o resto da viajem. Apesar do meu cansaço, não consegui dormir, apenas fechei os olhos para evitar qualquer conversa com meu pai.
Chegando no hotel meu pai pagou um quarto com três camas de solteiro, o quarto era bem pequeno, mas era o suficiente para uma noite. Nós nos revezamos para irmos tomar banho, o chuveiro era fraco e a água quase não esquentava, eu fui primeiro, depois foi Arthour e por último meu pai.
– Obrigada. — disse eu pra Arthour enquanto meu pai estava no banho.
– Pelo quê? — apesar de ter dormido na viajem, ele parecia tão ou mais cansado do que eu.
– Por me salvar da Harpia, aquele spray nunca teria dado certo. — Ele abriu um leve sorriso.
– Sem o spray, eu nunca teria tido uma deixa para espetar aquele pedaço de aço na Harpia. — Eu queria saber porque eu gosto tanto desse garoto. Isso não pode ser bom.
– Considere um trabalho em equipe então. — Falei sorrindo, e ele sorriu de volta. Depois de uma certa pausa ele continuou.
– Então, como se sente sendo filha de Atena? — Imediatamente, meu sorriso sumiu sem que eu mandasse.
– Como você sabe que ela é minha mãe!? — Perguntei eu, surpresa.
– É meio óbvio, não acha Athena? — Respondeu ele. Eu me dando conta da minha burrice, apesar de ser filha de Atena.
– Sinceramente?... Não muito diferente de antes de saber. — Disse, tentando tirar o embargo da minha voz. Arthour parecia na dúvida se continuava ou não, a curiosidade foi maior.
– Como assim? — disse ele, cauteloso.
– Me sinto abandonada. — Foi tudo o que eu disse. Arthour pareceu desapontado, provavelmente ele também se sentia assim.
– Sinto muito.
– Eu também.
Então me enfiei embaixo dos lençóis e fingi dormir. Quando meu pai chegou, nós dois já estávamos deitados. O resto da noite se passou lentamente, eu fiquei girando na cama tentando achar um posição que me ajudasse a dormir, mas acabei passando a noite em claro, em parte por causa do calor e em parte porque estava com medo de que o meu pesadelo se repetisse.
Quando chegou a manhã, todos fomos bem cedo tomar café da manhã, depois voltamos para o quarto, nos arrumamos e fomos embora, Arthour tinha colocado a roupa que meu pai lhe deu, que por incrível que pareça serviu como uma luva, a blusa era branca com o desenho de um tridente azul marinho atrás, e a calça era de tecido cinza. Eu botei um short jeans, uma camiseta lilás e um chinelo, bem confortável na viajem, e meu pai botou suas roupas tradicionais, uma blusa de algodão marrom e uma bermuda branca lisa, com seu tênis preto, simples e confortável, a cara dele. Quando nós partimos eram 10 horas, dessa vez Arthour foi na frente com meu pai e eu fui atrás, eu inventei uma desculpa para nós trocarmos e ele pareceu bem feliz em ir na frente.
– Ué? Trocaram de lugar agora? — perguntou meu pai, que não esperava por isso.
– Ah.. é. Arthour queria ir na frente porque ele ficou meio enjoado quando ele foi atrás, e como eu nunca fico enjoada eu falei pra ele ir na frente. — inventei eu.
– Eu não sabia que você tinha ficado enjoado, eu podia ter comprado um remédio pra você lá no hotel. — Disse meu pai para Arthour, que hesitou, mas acabou respondendo.
– Eu realmente nem pensei em falar com o senhor. Mas Athena me ofereceu o banco da frente e eu achei uma boa solução.. — e depois completou — se não tiver problema para o senhor, é claro. — meu pai olhou de esguelha pra mim e depois respondeu.
– Não, é claro que não tem problema. É mesmo um saco ficar com enjoo durante uma viajem.. — foi tudo o que disse. Arthour olhou para mim através do retrovisor interno do carro, desenhei em meus lábios a palavra obrigada e ele fez que sim com a cabeça, um sinal quase imperceptível que, graças aos Deuses, só eu percebi.
E então seguimos a viajem em silêncio. Quando deram 13 horas, nós paramos em um restaurantezinho de beira de estrada para comer, apesar da visível decadência do lugar, a comida estava boa. Continuamos a viajem. Depois de mais algumas horas viajando, me bateu uma inquietação, comecei a me perguntar coisas, coisas como "em quantos hotéis nós ainda vamos ter que dormir para chegarmos neste lugar?", "Porque meu pai nunca me falou neste lugar?", "Será que ele mentiu e quer nos mandar para um hospício?", "Não, mas ele falou que minha mãe é Atena, ele me deu ambrôsia..", "Será que eu estou ficando louca?". Não aguentei mais e, mesmo correndo o risco de ouvir uma maré de silêncio (o que só me deixaria mais inquieta), perguntei.
– Pai, a quantos dias de distância nós estamos deste lugar? — Perguntei com um pouco de sarcasmo, Arthour que estava acordado, olhou com curiosidade para ele na expectativa de uma resposta.. Devia ter se passado um minuto quando ele suspirou e respondeu.
– Nós devemos chegar hoje... — uma mistura de empolgação, expectativa e medo invadiu meu corpo. A expressão de Arthour de surpresa. — Mas tem algumas coisas que vocês tem que saber sobre esse lugar... — interrompi ele.
– Qual o nome dele? — Perguntei eu. Reparei em Arthour que estava quieto, mas atento a conversa.
– Acampamento Meio Sangue. Mas deixa que eu vou cont...
– Você vai nos levar para um acampamento? — perguntei eu interrompendo ele novamente.
– Porque Meio Sangue? — perguntou Arthour.
– Eu direi tudo o que vocês quiserem saber, se me deixarem falar, depois haverá tempo para perguntas — gritou meu pai, irritado. — Pois bem — disse ele, baixando a voz — Sim, eu estou levando vocês a um acampamento, mas ele é um acampamento diferente. Diferente como? Bem, a resposta para a pergunta de Arthour responde isso. Meio Sangue, porque é um acampamento para semideuses. Metade humanos, metade deuses, por isso Meio Sangue. O que vocês fazem neste acampamento? Lá, eles te ensinam a se defender de criaturas como por exemplo, as harpias e as fúrias. Lá, vocês terão aulas de esgrima, de arco e flecha, de hipismo... tudo o que é necessário que vocês saibam para poderem se defender sozinhos e lidar com situações exclusivas do dia a dia de um semideus, infelizmente alguns realmente são atacados todos os dias e é por isso que vocês precisam saber se defender. Lá os semideuses são atacados? Não, o acampamento tem uma proteção mágica que só permite que semideuses entrem lá, qualquer outra criatura precisa de autorização de alguém de dentro para entrar. Agora sobre os dormitórios, cada Deus tem um dormitório para seus filhos, sendo assim, filhos de Apolo em um dormitório, filhos de Hermes em outro... Alguma pergunta? — Minha cabeça girou com todas aquelas informações que pareciam ter vindo de algum sonho. Arthour foi mais rápido.
– E se o semideus não souber quem é seu pai ou mãe divino? — Perguntou, obviamente se referindo a ele mesmo.
– Então ele fica em um dormitório para os semideuses não reclamados até que seu pai ou mãe divino o reconheça como filho. — Respondeu meu pai.
– E se ele nunca for reconhecido? — Perguntou Arthour, inseguro.
– Infelizmente, existem casos em que o semideus nunca é reconhecido, nesses casos ele é sempre bem vindo no dormitório dos não reclamados.. Mas normalmente, quando o semideus chega no acampamento, em alguns dias ele é reconhecido.
– Mas porque nós não somos reconhecidos antes de chegar no acampamento. — Percebi que era a primeira vez que Arthour se referia a um semideus realmente incluindo ele como um.
– Porque assim que um semideus é reconhecido o cheiro dele fica muito mais forte, um cheiro que só os seres do submundo sentem, e esse cheiro atrai essas criaturas. Quando o semideus vai para o acampamento ele está protegido dessas criaturas. Os Deuses fazem isso para proteger seus filhos.
– Entendi. — e então não disse mais nada.
– Pai? — disse eu, de repente me dando conta de uma coisa. — Você disse que só semideuses podem entrar lá, e você não é um...
– É verdade, eu não tenho como entrar lá. — disse ele com tristeza.
– Mas você falou que se tiver permissão...
– Eu não posso pedir permissão à não ser que seja uma emergência e infelizmente, para eles, eu querer entrar para você não ficar sem mim não é uma emergência.
Após isso, voltamos ao tradicional silêncio. Eu nunca tinha sequer dormido fora de casa até ontem, agora eu ia ter que ficar sem ver ele. Tudo bem que eu tenho 16 anos, mas eu nunca tive muitos amigos, e a maioria não durava um mês, então isso é novo para mim, na verdade, tudo isso é novo para mim, além disso eu irei sentir falta dele. De repente me bate uma vontade de chorar, e eu decido tentar dormir.
Deram 18 horas e eu estava olhando a paisagem pois parece que dormir em viajem para mim é uma coisa impossível, e então meu pai saiu da estrada entrando numa estradinha de terra, olho para ele e olho o caminho à frente, tinham muitas curvas, então não era possível ver muito longe, de repente animada, olho para trás e ao ver Arthour dormindo acordo ele, que me olha sem entender porque eu tinha acordado ele.
– Olha. — disse eu para ele, apontando para a janela. — Acabamos de sair da estrada. — disse eu sorrindo com a expectativa. — Pai, quanto tempo até lá ainda?
– 10... 9... 8...
– O que você está fazendo? — Perguntei eu, sem entender.
– ... 5... 4... — e então, enquanto ia acabando a curva, um portal foi aparecendo — ... 2... 1. — No portal, estava escrito alguma coisa que eu não entend... As letras flutuaram até formar a frase "Acampamento Meio Sangue".
– Como... como eu li aquilo!?
– Grego antigo, seus olhos estão acostumados a ele. — Ele parecia triste, eu já ia perguntar porque, quando me dei conta.
– Você pode me visitar.. não pode?
– Dois meses por ano enquanto você estiver em período de aprendizado... — Ele nem olhou para mim ao responder. — Vamos, até que vocês atravessem o portal, não estarão protegidos, vamos. — Disse ele, tentando se recompor.
Eu e Arthour pegamos nossas bagagens no porta malas e andamos lentamente até o portal. E então chegou a hora da despedida, odeio essas partes. Nos encaramos, sem saber muito bem como fazer isso. Eu tomei a iniciativa.
– Então... Eu tô indo... Eu... Eu vou sentir a sua falta... muito... Até julho.. né?... Lá agente se vê de novo... é. — Eu já disse que odeio essas partes? Meu pai me deu um abraço e disse.
– Eu também vou sentir a sua falta... Te vejo em julho. — E tentou abrir um sorriso, sem muito sucesso. Nós dois não somos muito bons com essa coisa do "eu te amo" "ah, eu também te amo", mas nós também somos do tipo que se entendem sem ter que falar, então não tem problema. Arthour apertou a mão dele e disse que foi um prazer, meu pai concordou e disse para ele se cuidar. Olhei para Arthour.
– Vamos? — Ele concordou. E então atravessamos, foi como um leve estalar no ouvido ao atravessar a barreira invisível, mas fora o estalar, eu não senti nenhuma pressão como se realmente houvesse uma barreira, não, só um leve estalar mesmo. Ia perguntar para Arthour se ele também tinha escutado quando eu olhei para trás e vi que ele ainda estava do outro lado, com uma expressão de surpresa.
– O que foi? Está com medo de atravessar? — Falei, zombando dele.
– Eu não... não consigo...
– Olha, você não sente nada, só um barulhinho no ouvido, não dói.. — Falei, entrando e saindo do acampamento para ele ver que não tinha problema.
– Não, eu realmente não consigo atravessar. — E foi então que eu percebi o que estava acontecendo, o portal estava bloqueando a entrada dele.
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