Filhos do Olimpo
6 Nephilim
Notas iniciais
– Não consegue atravessar? Como assim não consegue atravessar!? Você é um semideus! — Gritei eu, entrando um pouco em desespero. Peguei a mão dele do outro lado e tentei puxá-lo para dentro do acampamento.
– Ai! Para! Isso não tá dando certo! — Soltei a mão dele, derrotada.
– Pode ser um defeito nessa barreira estúpida.
– Não tem como... A barreira não erra... — murmurou meu pai, mais como se estivesse falando para ele mesmo, como ele costuma fazer quando está tentando resolver um problema.
– A barreira permite a entrada de... de Caçadores De Sombras? — Perguntei para o meu pai, que olhou para mim meio pensativo e meio assombrado, como se ele estivesse considerando a questão e só o fato de considerar que isso possa ser verdade o assombrasse.
– O que são Caçadores de Sombras? — Perguntou Arthour. Meu pai continuava com aquela expressão, nem parecia que ele tinha ouvido a pergunta de Arthour quando ele respondeu.
– Haverá tempo para discutir teorias, mas agora eu preciso que você, Athena, ache uma pessoa.. aqui ainda não é seguro para Arthour.
– Quem? Essa pessoa vai poder autorizar a entrada dele?
– Henry, o diretor do acampamento. Espero que sim.
Ele me deu as coordenadas e eu fui. Logo após o Portal, continuava uma trilha de terra e mais a frente eu conseguia ver uma quadra de vôlei que estava sendo utilizada, enquanto eu andava, mais pessoas iam reparando em mim e ficavam me encarando, e eu continuei andando normalmente como se eu passasse por lá de vez em quando nos finais de semana, ninguém veio falar diretamente comigo, mas estava claro que aquelas pessoas sabiam que eu não era dali... ou pelo menos, não ainda.
Logo após a quadra, eu vi uma espécie de cabana, onde era possível ver dentro dela várias telas e materiais de pintura, mas pelo menos nela não havia ninguém dentro. Continuei andando pela estradinha, até que cheguei num ponto da estrada em que eu ia para a direita ou para a esquerda, eu não consegui lembrar das coordenadas que meu pai me deu, já estava temendo voltar ou ter que perguntar para alguém, quando eu notei uma placa ao meu lado. Sem saber como eu não a havia notado antes, vi que a diretoria do acampamento era para a esquerda. Segui a estrada até chegar numa grande casa de madeira com dois andares, respirei fundo, subi os degraus da entrada e quando eu ia bater na porta, ela se abriu, mas quando eu olhei não havia ninguém na porta, estranho.. Olhei ao redor, era um lugar simples e confortável, a esquerda da sala havia uma mesa de escritório cheia de folhetos em cima, não cheguei mais perto para ver do que se tratavam, à direita havia uma estante com alguns livros e quatro poltronas, arrumadas simetricamente com duas de frente para as outras duas e a minha frente, havia uma porta que estava fechada, eu não sabia muito bem o que eu fazia, mas acabei optando por tentar bater numa porta que poderia se abrir magicamente para mim de novo, dessa vez eu consegui tocar, e então um homem alto, mas grisalho e uma expressão cansada, devia ter uns 50 anos, abriu a porta. Ele olhou para mim com sabedoria, como se soubesse quem eu era.
– Henry?
– Sim, sou eu. Seu pai acabou de me ligar, estava com medo que você não me encontrasse.. Já permiti a entrada do seu amigo. Pedi a um professor que o trouxesse até aqui. — Depois de falar da ligação ele pareceu um pouco menos sábio. Eu estava um
pouco confusa.
– Espera.. você não tem que ir lá para deixar ele entrar? E meu pai... ele já foi embora?
– Não, não há a necessidade de ir lá. E sim, infelizmente eu não poderia deixá-lo entrar.. — Senti uma pontada, tinha esperança de vê-lo uma última vez. — Vem, sente-se aqui — e apontou para uma das quatro cadeiras, me sentei. Ele se sentou de frente para mim. De repente a porta se abriu e eu vi Arthour e um homem com duas pernas.. peludas... tipo de cavalo, e os pés com cascos e tudo. MEU DEUS, um sátiro! Eles também existem! A essa altura eu acho que eu não deveria mais me surpreender, mas a cada hora eu só me surpreendo mais e mais. Fiquei aliviada ao ver Arthour, que se sentou ao meu lado, também de frente para Henry.
– Obrigado Celsyus. — O homem acenou com a cabeça e foi embora. E eu só conseguia pensar em e agora? E agora meus Deuses? Olhei para Arthour, ele parecia calmo, mas reparei que ele não parava de tentar estalar os dedos, como ele fazia quando estava nervoso. Nossa, eu não sabia que eu já conhecia ele assim.. Henry parecia esperar que nós começássemos a perguntar, olhei para Arthour e percebi que teria que ser eu.
– Ele é um Caçador de Sombras? — Henry, pegou o pulso de Arthour com cuidado e o virou para poder ver em baixo, ele encarou por um tempo, com uma expressão de maravilhado, então soltou o pulso, encarou Arthour e respondeu.
– Sim, ele é... Os Caçadores de Sombras, também conhecidos como Nephilim, têm instrumentos que se chamam estelas e as estelas servem para fazer umas certas espécies de tatuagem no corpo deles, mas não são tatuagens qualquer, essas tatuagens, chamadas runas, são quase transparentes, é preciso prestar atenção para conseguir vê-las e cada runa têm um poder, existem runas para velocidade, força, entre outras. Tem uma runa que é aplicada em todo Caçador de Sombras assim que ele nasce, que é a do Poder Angelical, todos os Caçadores recebem esta marca após o início e representa seu vínculo angelical, normalmente ela fica no mesmo lugar onde está a de Arthour, mas também pode ser aplicada no peito. Ela também tem essa mesma forma... — Arthour parecia pasmo.
– E você sabe da existência de outros? Porque sempre que eu ouço falar sobre eles é como se fosse um mito sem pé nem cabeça... — Disse eu, curiosa.
– Basta dizer que eles gostam de fazer o trabalho deles sem chamar a atenção. Sim, conheço alguns, mas não pessoalmente, como eu sou o diretor do acampamento eu tenho o número de uma das bases deles, apenas para o caso de uma emergência, eles não são muito receptivos.. — Disse ele. Fiquei curiosa para perguntar o que ele quis dizer com isso, mas acabei achando melhor não. Em vez disso falei:
– E isso não é uma emergência?
– Infelizmente, não para eles. Eles não viriam aqui para resolver isso, o que eu posso fazer é dar o endereço da base deles para Arthour ir lá e ver o que pode ser feito, mas não posso deixar vocês saírem sem treinamento, seu pai trouxe vocês aqui por uma razão, e eu estaria errado se deixasse que vocês saíssem. — disse ele com ar pesaroso.
– Você não está entendendo — disse Arthour, recuperando a voz.. e a raiva — eu preciso encontrar os meus pais, pela primeira vez em 17 anos eu tenho uma pista sobre eles, e você me diz para sentar e esperar!?
– Essa é a única opção, sua outra opção é sair daqui agora e ser morto antes de chegar a base dos Caçadores, é isso o que você quer? — Disse Henry num tom firme. Arthour ficou olhando para ele, e ao ver que não conseguiria convencer Henry a deixa-lo ir, saiu abruptamente da sala, batendo a porta e me deixando sozinha com Henry.
– Quanto tempo vai levar até que nós estejamos prontos para sair daqui? — Henry olhou tristemente para mim e respondeu.
– Só para saber o básico de tudo, levará dois meses, acordando às seis e indo dormir às 20 horas, para estar pronto para sair, vocês precisariam de no mínimo seis meses, e ainda assim eu não poderia dizer com certeza que é seguro sair. Você vai perceber que não vai encontrar muitos mais semideuses da minha idade e isso tem um motivo... — Eu estava me segurando para não chorar, só queria sair logo daquela sala.
– Eu entendendo... eu vou falar com ele... Só mais uma coisa...
– Pode perguntar. — Disse ele gentilmente.
– Arthour não pode ficar no quarto dos filhos de Athena não? Só por hoje... por favor... é que ele não conhece ninguém aqui e ele esta passando por um momento difícil... por favor?
– Sinto muito, regras são regras e eu não posso mudar as regras do acampamento... Mas tem uma coisa.. eu não sei se você vai gostar de saber disso, mas... Acontece que você pode até saber que é filha de Atena, mas até que Ela te reconheça oficialmente como sua filha, você vai ter que dormir no Dormitório dos Não Reclamados assim como Arthour. — Senti uma ponta de esperança passar por mim.
– Sim, eu gosto dessa noticia! É muito boa na verdade... — Agora eu posso.. posso ir?
– Claro, mas antes eu queria que você e seu amigo conhecessem o acampamento, um dos professores pode mostra-lo a vocês... Se não tiver problema, é claro. — Eu queria recusar, mas achei que isso não seria inteligente se eu quisesse que o diretor confiasse em mim, então acabei aceitando.
– Ótimo, seu amigo está sentado na escada esperando por você, avise-o que o professor já está vindo. — Fiquei tentada a perguntar como ele sabia onde Arthour estava, mas imaginei que a resposta seria algo do tipo, magia, você ainda vai aprender, então achei melhor deixar quieto.
Sai da casa e lá estava ele, sentado nos degraus com cara de enterro observando a paisagem do acampamento, eu estava caçada de sentir pena dele, mas era quase inevitável. Sentei ao lado dele nos degraus, ele nem pareceu notar, toquei o braço dele, mas continuou com o olhar fixo na paisagem, então falei.
– Oi.. Olha, eu sei que você não vai querer fazer isso agora mas um professor vai vir aqui para mostrar o acampamento pra gente... — Ele continuou olhando pra frente, nem parecia ter me ouvido — Eu... Eu sinto muito... eu... eu tenho uma ideia do que você está sentindo.. e sei que para você é mil vezes pior... também sei que nada do que eu diga vai ajudar, mas... mas eu quero que saiba que você pode confiar em mim... se fosse eu, eu iria querer que me dissessem isso.. porque... porque é verdade... — Eu não sabia mais o que fazer, já estava pensando que seria melhor deixar ele sozinho enquanto o professor não chega quando ele olhou para mim, seu rosto estava vermelho.
– Eu sei.. — Foi tudo o que disse, mas foi o suficiente, fiquei aliviada. Logo depois o professor chegou, era o mesmo cara que tinha levado Arthour até a sala, Celsyus o sátiro, esse pensamento quase me fez rir.
– Estão prontos para conhecer esse acampamento dos pés a cabeça? — Perguntou ele, animado. Fiquei tentada a dizer não, com a mesma animação, mas não fiz isso... nem Arthour.
Nós rodamos o lugar inteiro, ele era enorme, cada lugar tinha uma história que Celsyus ia contando detalhadamente quase sem parar para respirar, acabei descobrindo que ele era professor de pãlogia, que pelo visto era uma aula que misturava ciências naturais e Pã, que era o deus dos bosques.
Nós passamos por um lago no meio do acampamento onde era possível ver seres nadando dentro dele, havia mulheres com um cabelo azul comprido que se transformava em água embaixo, como um efeito degradê, havia também mulheres e homens com escamas no corpo, e os dedos das mãos e dos pés eram juntos, como os que alguns sapos têm. Depois disso passamos por uma parede de escalada que espirrava lava, e haviam alguns semideuses tentando escalá-la, alguns incrivelmente habilidosos. Então fomos para uma floresta onde Celsyus disse ocorrer frequentemente um jogo chamado Captura da Bandeira, ele não entrou em mais detalhes sobre o tal jogo, lá na floresta era possível ver vários outros sátiros e seres que Celsyus ia nomeando como dríades, que de acordo com ele eram as protetoras das árvores, napéias, que são as ninfas dos bosques e podem se transformar em árvores, oréades, essas ficavam mais escondidas, e várias outras criaturas... Não tinha como não ficar maravilhada.
Após a floresta fomos para os estábulos onde haviam vários pégasus, em sua maioria brancos, Celsyus disse que os filhos de Poseidon podem falar com eles. Aquilo me deixou encantada. Depois passamos pela forja, que era onde faziam as armas do acampamento, haviam vários ciclopes lá dentro, Celsyus comentou que eles não eram muito inteligentes, mas que tinham uma habilidade assombrosa para fazer armas.
Quando terminamos nosso tour já devia ter passado uma hora e eu sentia que podia andar o resto do dia sem me cansar. Depois de pegarmos nossas malas que tinham ficado na casa do diretor, Celsyus nos deixou na porta do Dormitório Dos Semideuses Não Reclamados e disse-nos para nos arrumarmos para o jantar. Eu e Arthour nos entreolhamos e entramos, lá dentro era enorme, haviam vários beliches, mas poucas pessoas para ocupá-los, deviam ser umas dez no máximo, entendi isso como um bom sinal. Arthour escolheu um beliche ao lado do meu, e jogou sua mala em cima da cama, eu fiz o mesmo com a minha. As pessoas que estavam lá, variavam muito de idade, alguns deviam ter 6 anos enquanto outros já deviam ter 18, a grande maioria encarou a gente ao entrar mas não disse nada, nem um bem vindo, ou fique a vontade!, não.. Só dois meninos que pareciam ser irmãos vieram falar conosco, deviam ter mais o menos a nossa idade.
– Oi, prazer, meu nome é Leo e esse é o meu irmão, Theo.. — Disse o mais alto dos irmãos.
– Prazer, eu sou Arthour e ela é Athena... — Disse Arthour, que parecia um pouco desconfiado.
– Atena? Ué, imagino que esse seja o nome da sua mãe... Por que te mandaram pra cá? Ela não te reconheceu como filha? — Eu não sabia dizer se ele estava sendo sarcástico ou não, então fiquei meio sem saber o que responder.
– Se mandaram ela pra cá, o que você acha? — Respondeu Arthour, um pouco grosso.
– Calma, foi mal, é só que.. Atena é uma das Deusas mais legais, ela parece ser uma das poucas que se importa com nós, semideuses... Eu só estranhei que logo ela, não tenha reconhecido uma filha... — Arthour parecia realmente irritado. — De qualquer jeito.. Bem vindos ao Dormitório dos Não Reclamados. — Disse Leo, e logo após se afastou com o irmão. Quando eles já haviam se afastado, retruquei baixinho.
– Uhum, me sinto muito bem vinda aqui... — Arthour concordou comigo.
– Não ligue para o que eles disseram, eles devem estar amargurados por que ninguém os reclamou até hoje.
– Não ligo... é só que... Eu tenho medo que talvez ela nunca me reconheça como filha e eu acabe como a única não reclamada que sabe quem é a mãe e mesmo assim foi rejeitada. Quer dizer... eu sou tão ruim assim para ela não querer admitir que eu sou filha dela?
– Atena, ela seria uma idiota se não admitisse que você é filha dela, e nós dois sabemos que ela não é idiota, ao contrário, ela é a deusa da sabedoria.
– Obrigada. — Disse sorrindo. Ele então pôs uma mão no meu rosto, o que eu não liguei porque eu já sentia como se eu conhecesse ele desde sempre, e então vendo que eu não levantei objeção a isso, ele se curvou levemente sobre mim, fechou os olhos e quando eu me dei conta do estava acontecendo, eu segurei o peito dele com uma mão, impedindo que ele se aproximasse mais, ele então abriu os olhos sem entender e eu sussurrei, em parte por causa da surpresa e em parte por que eu também não sabia porque eu tinha parado ele, desculpa.
– Não.. tudo bem... eu que não devia... tudo bem. — Respondeu ele e foi para o beliche dele.
– Desculpa, eu gosto de você.. é só que...
– Não, sério, agente não precisa conversar sobre isso. Eu não vou fazer isso de novo, desculpa. — Disse ele, tentando parecer indiferente, tentando.
Ele pegou uma muda de roupa na mala e disse que ia se trocar para o jantar. Ainda sem conseguir processar o que havia acabado de acontecer, peguei uma muda de roupas, fui para o vestiário feminino e fiz o mesmo. Quando eu voltei ele estava sentado no beliche dele, corei involuntariamente ao vê-lo, sentei no meu beliche, ainda sem graça e sem saber o que dizer. Arthour olhou para mim, sorriu e disse.
– Estou morrendo de fome, vamos jantar? Estou curioso para saber se eles servem sopa de olhos aqui. — Forcei um sorriso, mesmo não sendo boa nisso, tentei fazer o mesmo que ele e fingir que nada tinha acontecido.
– Eca, tomara que não, mas pelo que eu já vi daqui, não duvido nada... Vamos? — E então fomos andando lado a lado, como bons amigos que nunca tinham tentado se beijar e torcendo para que não servissem sopa de olhos.
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