Filhos do Destino
2 Capítulo 02
Notas iniciais
Elizabeth Anne Bouville Archer estava encalhada, uma ruína para qualquer jovem distinta da alta sociedade. A situação não poderia ser pior, mesmo sendo herdeira de uma das mais ricas famílias de toda Europa, não conseguiu encontrar sequer um pretendente. Nem mesmo os mais gananciosos pareciam se interessar pela jovem.
Beth teve que aceitar que sua irmã Brigit Anne Bouville Archer, dois anos mais nova, se casasse antes dela. O casamento de Brigit foi com o visconde de Charlstron, Teodore Brian Robinson Taylor. Brigit também não era uma beldade em forma de mulher entretanto todos diziam, cochichavam, ser bem mais bonita que Beth. Bri, compensava sua simplória beleza com sua extroversão, inteligência, charme e impetuosidade. Sempre fora uma presença marcante onde quer que estivesse e, no caso de Bri, a infindável fortuna ajudava a atrair olhares masculinos.
Desde pequena Elizabeth tinha dificuldades de se socializar. Sua timidez e introversão eram exacerbadas e impediam-na de fazer contato com outras crianças, meninos ou meninas. Quando a idade para arranjar um matrimônio chegou, os pais de Beth se viram desesperados e espantados. Sabiam da falta de encantos da filha mais velha, porém contavam com a riqueza da família para servir de atrativo ao futuro noivo e, assim, casar a filha na época certa sem problemas. Não aconteceu.
Elizabeth e Brigit eram fisicamente muito parecidas, tinham as mesmas características, herdadas da família paterna. Os traços comuns iguais aos de Joseph John Archer, o pai. Cabelos castanhos, ondulados e rebeldes, um charme para Joseph mas um pesadelo para as garotas; olhos negros, profundos e brilhantes; e os demais traços e formas eram todos comuns, nada sobressaía.
Enfim, visualmente elas poderiam ser consideradas mulheres comuns e nada chamativas. A diferença entre as irmãs era a personalidade cativante que Brigit puxou de Mary Anne Bouville Archer, a mãe das meninas, e que Beth não possuía.
O desespero dos Archer era tamanho que resolveram contratar não uma mas três senhoras casamenteiras! As três melhores de toda a Inglaterra, cada uma oriunda de uma região do país. Se isto não desse certo, tentariam casar Beth com algum estrangeiro.
Elizabeth vivia sempre triste e deprimida por não entender o motivo de ser tão frequentemente rejeitada. Ficou ainda pior ao ver o nervosismo e desespero dos pais em relação ao provável não matrimônio.
Amava a irmã e desejava a felicidade da mesma, contudo sentia-se infeliz pois sabia que nunca teria algo do tipo. Um casamento com amor, um casamento com o, impossível, Wallace.
Também ficava pesarosa quando via qualquer outro casal. Desolada e infeliz descreviam, muito bem, os sentimentos de Beth. Não apenas pela falta de pretendentes mas por toda rejeição que sofreu durante sua vida. Sentia-se como um fantasma, invisível para todos, e presente apenas em seus sonhos passados no século XII.
Elizabeth ficou nervosa e esperançosa quando soube que seus pais contrataram as alcoviteiras. Nervosa pois conhecia a fama destas senhoras. Elas eram exigentes, frias, inescrupulosas e poderiam arranjar um marido que Beth odiaria e, mesmo assim, não poderia recusar. E esperançosa porque, se existisse alguma chance de encontrar alguém estas senhoras encontrariam o homem.
No final das contas, Elizabeth não se importaria com a aparência do marido, seria hipócrita se o fizesse, nunca ligou para superficialidades ou futilidades, não seria agora. Se contentaria e seria a pessoa mais feliz do mundo se seu futuro esposo, caso tudo desse certo, a amasse e respeitasse.
***
Jonathan certo dia recebeu uma visita, inesperada, que não poderia ter chegado em melhor hora.
– Olá rapaz! Sou a senhora Ruthie Field.
– Bom dia! Meu nome é Jonathan, lamento mas o lorde Howard não está...
– Então você é o famoso Jonathan David Cavendish? — Pergunta a visita mais como uma confirmação. — Vim exatamente para falar com o senhor!
– Comigo?! Entre, por favor, aceita algo para beber senhora Field?
– Não obrigada! E pode me chamar de Ruthie!
– Certo, senhora Ruthie, sente-se! Sem querer ser rude… É que eu não gosto de delongas... O que alguém tão distinta como a senhora veio tratar com o homem mais mal falado da Inglaterra?
– Realmente muito direto! E mal falado com toda razão, creio eu! — Diz Ruthie de modo brincalhão. — Também serei direta. Eu sou uma casamenteira, fui contratada por uma família burguesa, e muito rica, de Londres. Estão passando maus bocados para casar a filha mais velha e, veja só, a mais nova já se casou! Uma lástima para a primogênita!
– Desculpe-me novamente pela indelicadeza senhora Field, quer dizer, Ruthie. Mas o que eu tenho a ver com tudo isso?
– Meu rapaz! Vim até aqui porque pensei que era mais inteligente! A coitada da garota não é muito bonita, é muito tímida, mas é a pessoa mais formidável, adorável, astuta e cativante que conheci!
– Desculpe interrompê-la… Mas agora não entendo outra coisa senhora Ruthie! Como alguém tão cheia de predicados pode ter problemas para arrumar um marido?
– Outra pergunta estúpida pequeno Jonathan! Mais uma e vou embora! Pense a respeito, não quero que responda em voz alta… Com quantas mulheres você se relacionou ou quis se comprometer? E quantas delas não eram bonitas, eram tímidas e tinham as qualidades que citei?
– Nenhuma como esta moça.
– Pedi para não responder, garoto. Bom, parece que as características da senhorita Elizabeth não atendem ao padrão. Enfim, vim procurá-lo por dois motivos. Primeiro, uma garota como ela, frágil e com aquelas qualidades, precisa e merece alguém como você.
– Alguém como eu? E esta não é uma pergunta estúpida!
– Alguém bonito, articulado, seguro, forte, intenso e que poderia se apaixonar, de verdade, por ela. Vocês são um casal perfeito. A doce Beth te colocaria nos eixos!
– Nem meu pai conseguiu me pôr nos eixos!
– Tenho certeza que a senhorita Archer conseguiria! E, segundo motivo, você precisa desesperadamente de um bom casamento. Foi deserdado, está falido e depende de um amigo para sobreviver. Não tem outra escolha a não ser aceitar ir comigo até Londres e cortejar a moça!
– E como sabe que os pais dela me aceitariam? Não sou mais um lorde, tenho a pior fama possível e nenhum dinheiro.
– Os pais dela estão mais desesperados que ela; não é mais um lorde mas já foi um, famílias burguesas muito ricas, como os Archer, adoram qualquer vínculo com nobres; e, como disse, a família dela é muito rica, sua falta de proventos não fará diferença. Eles não ligarão para sua péssima fama.
– Me convenceu senhora Ruthie! Deve ser a melhor alcoviteira do mundo! Eu vou para Londres e irei cortejar a senhorita Elizabeth.
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