Capítulo 8 Étienne Clairmond

Quando abriu a porta do quarto, Étienne esperava encontrar tudo, tudo mesmo, menos aquilo que encontrou: nada. Nada era uma droga. Estava escuro e tudo que via eram as velas e suas sombras bruxuleantes ao longo do corredor, iluminando apenas um espaço limitado. Seus comparsas de crime deveriam estar ali àquela hora. A Operação Quack! deveria prosseguir naquela noite, que provavelmente seria a última até seu... Casamento?!

Casamento.

Ele odiava casamentos. Principalmente o seu próprio. Eram melosos e organizados, e, além de tudo isso, simbolizava a união eterna. DEUSES, ele não queria ser unido eternamente a alguém! Não, não mesmo. Era muito novo, muito ingênuo, jovem e influenciável; e se fizesse a escolha drasticamente errada? E se acordasse em dez anos com uma velha raquítica e mal-humorada roncando ao seu lado? Ou uma supermodelo lindíssima, mas tão burra que chegaria a confundir o shampoo com o condicionador? Tudo bem, isso era um erro clássico, mas ainda assim... A ideia de se casar era mais ridícula do que a de colocá-lo para correr uma maratona -qual seu pai colocou em prática alguns meses antes. Ele não queria se casar com ninguém. Ficar, namorar, dar uns pegas... Talvez. Mas casar? A ideia lhe assustava.

Mas ele deveria. Era um Filho de Clairmond, tinha o trono da maior superpotência a herdar, o peso da maior coroa dourada sobre sua cabeça e uma aliança com alguma princesa encantadora apenas aliviaria o fardo. Ou aumentaria-o. Era seu dever, mesmo que não gostasse. E ele o cumpriria. Simples assim. Claro como água.

"Pssiu," alguém o puxou para fora do quarto. Dorian.

"Achei que fossem esperar pelo meu casamento", desdenhou "Dispensa ou cozinha?".

"A dispensa está muito bem guarnecida desde nosso último ataque e a cozinha, movimentada. Amanhã as Selecionadas chegam, portanto, Maimie ficará até tarde reorganizando os preparativos", chegam amanhã, Étienne refletiu, mas só posso vê-las em uma semana.

"Que tipo de guarnição?" massageou as têmporas, alcançando uma das velas para enxergar o rosto do grupo melhor.

"Três guardas" Damien foi rápido como uma bala, "Um no corredor e dois nas extremidades da porta. Além de um sistema de segurança bastante eficiente". O príncipe ergueu uma sobrancelha, "Jerome". Ferrou.

Todos estremeceram com a simples menção. O irmão mais velho e malvado de Petit. O cão era sarnento e latia como o inferno ao colocar os olhos sobre Étienne, mesmo que tenha sido criado para ser seu. No entanto, após dois meses de mordidas sangrentas, gritos terríveis (da parte de Étienne, claro) e uma aversão ao banho significativa, resolveram que iria para a Guarda. Nunca soube se o detestava por tê-lo trocado pelo irmão mais novo e fofo, por tê-lo adotado, em primeiro lugar, ou por deixar que dessem aquele nome detestável de chauffeur francês.

Étienne soltou um sorriso amarelo.

"Quem vai na frente?".

♛♛♛

Assaltar a cozinha ainda tinha a mesma empolgação de quando era criança. Étienne sempre foi guloso por doces, desde pequeno, e as boas maneiras em mesa impediam-no de comer mais de dois pedaços de torta de limão de Maimie. O crime foi a solução e nunca se arrependeu de tais escolhas. Maimie era a melhor cozinheira da face da terra. Literalmente. Era heptacampeã do concurso mundial de chefes de cozinha. Era exigente quando se tratava de limpeza e organização, ou seja: não admitia ninguém do Quarteto Clairmond dentro de sua cozinha. Céline era sempre a arma secreta que, com seu jeito doce e meigo, conseguia distraí-la para que os outros invadissem e roubassem diversos bolinhos quentes.

E ainda havia a emoção enrustida em tudo aquilo, combinando com o fato de ser um grande ritual para eles, era o símbolo principal das linhas inquebráveis da amizade. Perderam alguns membros ao longo do tempo; primeiro Éric, que "se aposentou", depois Carter, que foi morto durante um ataque à Fortaleza de Gwylia, aí Gerard, que desapareceu depois de Ma'halid, e por fim Desmond. Mas Étienne estava satisfeito com a atual formação do grupo, parecia muito concreto.

Céline não aparecera naquela noite e nem na anterior ou a antes daquela, o que foi um grande golpe, considerando que perderam seu presente grego para Maimie de Troia.

"Trouxe os biscoitos?" Damien sussurrou para Dorian, que acenou positivamente sobre as luzes de vela "Tem certeza de que ele gostava disso?" dirigiu-se para Étienne.

"Ele pulava em cima de mim quando eu tinha um desses. Ou ele gostava disso, ou do sabor da minha mão" e deu de ombros.

Viu Dorian revirar os olhos.

"Ótimo, agora estamos apostando contra o maravilhoso gosto da sua mão. Incrível".

"Cala a boca".

"Cala a boca" Dorian imitou como uma criancinha.

"Boiola".

"Galinha".

"Gato e rato. Agora dá pra parar, vocês dois?!" Damien estou-tentando-ser-o-adulto-do-grupo-muito-bem-e-obrigado Clairmond apelou, entrando no meio dos primos. "Se não vou chamar a mamãe", cedeu.

Na ponta dos pés, Damien e Dorian viraram no corredor, apagando a vela que levavam na mão, deixando Étienne para trás, no mais absoluto escuro. Escutou o barulho do pacote de biscoito e o farejar paralisante de Jerome antes de se encostar na parede e correr na ponta dos pés. Depois, com um sorriso maldoso, jogou a bolinha de plástico de Petit que fazia aquele barulho irritante de nhic, nhic, nhic no corredor do lado. Quando os primos apagaram as demais velas, o barulho pareceu estrondoso. "É você, Marg?", um dos guardas sussurrou. Ouviu-se um hunm, indicando que o tal Marg estava imerso no segundo sonho, "David?", "Não. Vem, vamos dar uma olhada" e os passos dos guardas foram se distanciando.

Aquela sensação subia novamente pelo peito de Étienne: ele adorava violar as regras. Era de uma autossatisfação tão alta que ele poderia simplesmente entrar dentro da dispensa e nem comer nada, apenas se deliciar com o prazer de ter conseguido. Não. Não de verdade: ele estava louco para comer as tortilhas que estavam no freezer para a manhã seguinte.

Ao digitar a senha decorada no escuro, a porta se abriu devagar e, felizmente, as luzes de dentro eram escassas. Os primos passaram para dentro e apressaram-se em fechar a porta.

"Tadinho do Marg" Étienne riu.

"Um mês de punição?".

"Não sei. Três dias, talvez." deu de ombros "Qualquer coisa a gente livra o coitado com as burocracias da punição do castelo e até lá ele não vai nem sentir".

Girou nos calcanhares e começou a inspecionar as prateleiras com minuciosidade.

"Leite condensado?".

"Leite condensado.".

Notas finais
Leite condensado? Leite condensado XD Isso define a minha vida, sério. Espero que tenham gostado! :D