Filhos de Clairmond Interativa
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Capítulo 9 ♛ Céline Clairmond
“Espere, tem uma coisinha aqu”, Céline girou nos calcanhares.
“Hm?”.
“Aqui”.
Sentiu quando a mão ágil de Desmond desceu pela sua cintura e a puxou para mais perto, levantando o queixo dela para mais um beijo, “Pronto”, finalizou. A garota sentiu seu sorriso contra o seu, os lábios semicolados.
E ela sorriu também, o mesmo sorriso encantador que o fizera se apaixonar pela prinxesa, anos antes, o mesmo que o inspirava a nutrir tal paixão com ainda mais intensidade e calor. Quando Desmond deslizou a palma da mão pela coxa dela, pelos primeiros segundos, ela deixou. Se deliciou com a sensação das carícias como não fazia há anos, mas logo voltou a si, empurrando-o para trás com força, buscando por ar fresco e livro do perfume de rosas que sempre invadia seus sonhos. Não permitiria que ele chegasse lá, não novamente. Não.
“Pare”, ela pediu, se afastando, “Não insista com isso”, e mordeu o lábio inferior, se perguntando se tudo continuaria a ser daquele jeito. “Por favor”.
Desmond pareceu perceber o repentino desconforto da garota, as lembranças que pareciam se apoderar de seus movimentos, deixando-a quase zonza. Felizmente, ele percebeu, e por isso abaixou a cabeça.
“Desculpe”.
Étienne costumava brincar que ela perdoava fácil demais. E talvez fosse verdade, porque ali estava Desmond, o rapaz a quem ela tinha jurado assassinar a sangue frio dis anos antes, saindo de seu quarto de manhã cedo, logo após passar a noite inteira embalando-a em seus braços confortáveis. Apesar disso, ela não se sentia tão protegida quanto se sentia anos antes, não sentia o mesmo conforto, segurança ou confiança que ele costumava transmitir antes, de sobra. Talvez fosse irreversível, ela se pegou pensando, algo tão profundo que apenas prejudicaria ainda mais se tentasse consertar. Como sua visão.
“Eu tenho que ir”, suspirou e se desviou dele, “Conhecer meus candidatos a marido, puxa-sacos e bajuladores”, ela sorriu e deixou que o outro garoto – não garoto, ela se corrigiu. Não mais – colocasse sua mecha de cabelo atrás da orelha.
“Eu te amo”, ele sussurrou.
Dessa vez, ela não conseguiu responder.
♛ Étienne Clairmond
Ok, aquela podia não ser a sua semana de introdução às Selecionadas, mas no dia em que Étienne Clairmond fosse se importar para com seus horários, datas e regras, choveria doce. Teve que se contentar com a ajuda de um comparsa bastante astuto para entrar dentro da sala de Jantar Oficial, mas conseguiu. Trajava aquela roupa de Mosqueteiro que pedira emprestada do irmão e se esgueirava pelos cantos; estava tão bem camuflado que seu próprio pai passara as instruções de guarda para ele achando que se tratava de Éric. Este, por sua vez, estaria aprontando no quarto de Étienne, fingindo ser ele. Foi uma ideia audaciosa, mas extremamente eficaz. Seu único medo era entrar no quarto e se deparar com pedaços de pizza em cima da cama, roupas espalhadas pelo chão e garotas jogando cartas com Éric – Éric sendo a única novidade no ambiente particularmente espantoso de seu quarto.
Mas para sua eterna autopunição, apenas os príncipes da irmã estavam ali. Nada de princesas. Ugh!
♛ Céline Clairmond
Céline começou a girar o anel no dedo desde o corredor. As palmas de sua mão suavam, o que facilitava a saída da aliança. Seu pai dissera: Não pega bem que apareça para seus futuros noivos com a aliança de outro. Realmente não pegava, mas estava ali há tantos séculos que se tornara mais do que um simples contrato já desfeito, uma promessa quebrada. Das duas belas e pesadas alianças que passaram pela mão da princesa, apenas uma ela não teve coragem o suficiente para retirar. A de Desmond. Talvez fossem as memórias? Boas e ruins, elas faziam parte de si agora.
Mas tinha de escutar as palavras de sua governanta e seguir em frente, embora estivesse bastante presa no passado.
Arrancou-a do dedo e procurou a abotoadura do colar que usava no pescoço para colocá-la ali, junto com o brasão azulado da Casa Clairmond e a outra aliança, que usava como uma lembrança constante de algo que era de tamanha importância que já havia sido esquecido. Aparentemente, não fizera um bom trabalho. Alisando as vestes, Céline soltou um suspiro antes de abrir as portas de madeira e, abruptamente, todo o barulho que antes ouvia do lado de fora, cessou. Vamos lá, Céline. Você consegue. Apenas dê uma de Étienne: sorria e balance a cabeça.
♛ Pietro Accardo di Sicilia
Pietro estava impaciente. Não Alonzo. Alonzo costumava ser calmo e particularmente resignado quanto aos horários dos outros – não achava que lhe dizia respeito saber o porquê de tamanha demora. Mas não Pietro. Pietro tinha a mania de acreditar que tudo deveria aparecer em sua mão no momento em que piscasse, sem antes mesmo pedir; e agora Alonzo era Pietro, e como ele deveria agir. Pelo reino de Sicilia, ele pensou, fechando os olhos e enchendo os pulmões de ar. Às vezes suas identidades se embaralhavam tanto quanto aquelas cartas que um dos príncipes – Simon, se ele não estivesse enganado --- colocava na mesa. Eles eram seus concorrentes, ele tinha perfeita consciência disso, mas era difícil quando todos agiam com tanta cordialidade, o que fez com que ele se lembrasse de fazê-lo também, afinal, não poderia ficar se sentindo como um peixinho fora d’água num lugar onde Pietro costumava ser tão simpatizante, no meio da realeza.
Do mundo inteiro, ele se alarmou. Príncipes de todo o mundo estavam ali, discutindo sobre como torta de limão era melhor do que a torta alemã de chocolate que Maimie preparava. Alguns eram indiscretos o suficiente para comentar como aquela coroa específica o incomodava e que a capa que usava coçava seu pescoço real. Ele, no entanto, tinha mais restrições do que todos juntos; não estava acostumado com as exuberantes roupas oficiais, nem com os trajes de luxo. Muito menos com a pesada coroa que se enroscava nos fios castanhos. Sentia falta da barba grande e desleixada, mas sua vida agora era outra. Ele era Pietro Accardio di Sicilia, agora. Seu dever era com seu povo e com seu país.
“Ela está demorando”, um guarda comentou, impaciente, ao seu lado. Pietro concordou com a cabeça, “Ah, claro, bobagem a minha” e soltou uma risada sem graça, se curvando numa reverência exagerada e meio destrambelhada, como se nunca tivesse feito tal coisa na vida. “É uma honra conhecer a Vossa Majestade...?’
“Al- Pietro Di Sicilia”, fez menção para o outro rapaz se levantar, “O prazer é meu. Com quem falo?”.
Aquele vocabulário floreado também não lhe pertencia, algum tempo atrás.
“Éric todos-aqueles-nomes Clairmond, insira-os-títulos-aqui, atual oficial da Guarda Real dos Mosqueteiros ao seu dispor”, ele realmente falou aquilo tudo, sorrindo. “Só Éric”.
Pietro retribuiu o sorriso, vasculhando sua memória para se lembrar onde tinha visto aquele nome... Éric... Éric... Clairmond? Um alarme soou.
“Clairmond? Na guarda real?” franziu o cenho.
“Filho mais velho dos Clairmonds, herdeiro deserdado e que abriu mão de seu futuro reinado para o irmão mais novo e que agora desfruta do conforto da vida fora do palácio”.
Oh, sim. Se Alessandro estivesse ali, ele com certeza lhe repreenderia por não ter se lembrado. Mas ele não estava. E aquele era uma grande influência em seu reino, se lembrou. Precisaria dele para planos futuros.
“Meu Deus!” Éric quase explodiu, pegando um copo de suco da mesa “Céline pode ser uma lesma quando quer e a cópia de um carro de corrida profissional quando lhe convém, eu mereço”, e bufou.
Pietro quis concordar, mas sabia que o outro rapaz era o irmão da princesa, ele podia chamá-la de coisas piores pela convivência que tiveram, mas não ele. Deveria tratá-la com respeito, então preferiu ficar calado e acenar. Foi neste instante que a porta do salão se abriu, e mesmo que apenas por uma fenda nada espalhafatosa, rangeu aguda o suficiente para que todas as conversas fossem instantaneamente acalmadas. Viu todos os príncipes se levantarem de seus assentos e decidiu repeti-lo, curvando-se para ela, que abriu um sorriso dócil. Era bonita, Pietro pensou, mais bonita do que as fotos mostravam. Uma beleza clássica e estonteante; pele impecável, cabelo castanho longo e ondulado, batendo na metade das costas eretas e olhos azuis brilhantes, embora desfocados.
Éric foi o primeiro a se encaminhar para a irmã, que tomou seu braço, franziu o cenho e murmurou algo que não conseguiram escutar. Ele a guiou até a parte da mesa onde Pietro estava e logo a fez as apresentações.
“Céline, Príncipe Pietro Accadio, da Sicília”. A moça sorriu e fez uma reverência breve.
“É um prazer, Vossa Alteza”.
“O prazer é todo meu”.
A princesa se sentou no banco de madeira e logo três Damas de Companhia apareceram e lhe interrogaram sobre o que ela queria comer e outras coisas. Suco de laranja, como aquele que Éric estava bebendo, foi a sua única escolha.
“Então, princesa... Como você está com a ideia da Seleção?”, Pietro interrogou. Céline pareceu pensar.
“Melhor do que eu esperava, na verdade. E você?”.
“Bem, a Seleção foi bem inesperada para mim” tomou um gole do café deliciosamente amargo, que lembravam sua mãe, “Mas não fiz objeções” poucas “E é uma ótima oportunidade para firmar alianças para o meu país” verdade.
“Interessante” ela suspirou, girando o suco cuidadosamente no copo, “Já faz um tempo que não estudo mapas, você sabe, mas... Sicília é perto de Lúthien, certo?”.
“Certo”.
“Se não me engano, a princesa de Lúthien está aqui”.
“Vou me lembrar disso ao andar pelos corredores” ele riu e ela o acompanhou.
Sua fama não o precede, a princesa de Clairmond pensou. As bárbaras histórias que ouvira do príncipe Pietro di Sicília não chegavam nem aos pés no homem simpático com quem conversava.
♛ Céline Clairmond
Étienne cruzou os braços e moveu as mãos como se estivessem falando.“Meu Deus, Étienne!” Céline ralhou quando o príncipe Pietro se afastou, “Você está sendo tão imaturo!”.
“Ah, Princesa Céline, como está bonita hoje, huh, que aliança perfeita nós formaríamos, huh, vamos nos casar e ter filhinhos” ele fazia uma voz fina e enjoativa, fazendo com que a morena desse um soco em seu braço.
“Não foi assim”.
“Foi exatamente assim” ele pegou o suco de Céline furtivamente e colocou-o de volta no lugar, “Se você acha que eu vou deixar esses mancebos se aproveitarem da sua pureza, está enganada”.
Ela massageou as têmporas.
“Primeiramente, você não deveria estar aqui” balançou a cabeça “E em segundo lugar... Não me diga que você assassinou Éric e colocou o corpo dele na floresta depois de roubar sua roupa”.
Étienne riu, dando alguns tapinhas das costas da irmã.
“Não se preocupe” e depois continuou, “A floresta era muito longe. O corpo dele está no armário de vassouras”.
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