Notas iniciais
Mil desculpas pela demora! Tive uns imprevistos beeem chatinhos e graves no mundo real, mas aqui está :)

Capítulo 7 Céline Clairmond

Céline nunca teve, em toda sua vida, uma amiga mulher; nunca sentou nos degraus da escola para discutir qual garoto parecia especialmente bonito naquele dia ou sussurrou pelos corredores enquanto o coração derretia de dentro para fora. Nunca. Era a única mulher na família num tempo relativamente longo, portanto, aprendeu a se relacionar com garotos e como eles – nada emotiva nem fofoqueira. Ter amigos homens, no entanto, ajudou-a a compreender essa raça melhor, de forma que sempre entendia os motivos por trás das rixas masculinas “bobas”, inimizades e chatices. Todavia, jamais entenderia o motivo de Étienne estar tentando cortar o pescoço de Desmond – bem, talvez soubesse o motivo, mas nunca a escuridão raivosa que parecia instalar-se em sua mente sempre que tocavam no nome do outro rapaz.

Podia escutar as espadas se chocarem com um estalido insuportável aos seus ouvidos sensíveis. Não sabia quem estava ganhando – provavelmente Étienne, já que, quando a raiva aparecia, tornava-se um milhão de vezes mais forte e alerto. Alguns diriam que os sentimentos te atrapalham em batalha, mas... Nah. Não Étienne.

Filho da mãe... Étienne falou.

― Étienne...― Desmond tentava falar.

E Céline congelou.

Dois anos desde que não ouvia a voz dele. Dois anos. Podia imaginá-lo conforme o vira pela última vez: cabelo loiro platinado e olhos cor de café. E, pela primeira vez em algum tempo, tudo que queria fazer era estapear o primo e ex-amante até que ele segurasse seus pulsos finos e puxasse-a para um abraço para que a princesa pudesse, pela primeira vez desde que o acidente ocorrera, chorar por isso.

― Você me dá nojo― a voz do irmão veio, novamente carregada em desgosto, decepção e mágoa. E, claro, raiva desenfreada.

Rapazes o rei gritou, levantando-se do trono.

― Deixe eles, Porthos― Tio d’Artagnan?

― Se eu deixar, irmão, eles se matarão― protestou, virando para o irmão com um tom como quem dizia “Tome algum juízo, d’Artagnan!”, coisa que nunca teve muito.

O homem desceu as escadas do trono com rapidez, segurando os ombros do filho com firmeza. A espada de Étienne caiu, mas Céline apostaria que ele estava vasculhando a roupa e procurando por alguma adaga.

― Ele merece, pai! ― protestou― Só você é cego o suficiente para não ver que ele merece.

― Nenhum homem é merecedor de acusações injustificadas, Étienne― Porthos segurava o pulso do príncipe ― Agora tire sua irmã daqui e, da próxima vez, pratique sua comédia dantesca num local apropriado.

E tudo cessou. Céline não estava com raiva de Desmond mais do que estava do pai: desde que perdera sua visão, o homem tinha o péssimo hábito de não falar diretamente com ela, e quando falava, agia como se a filha não pudesse sequer tirar um pé do chão: “Tire sua irmã daqui”, ao invés de “Saia daqui”; e era como uma facada, já que mostrava claramente como o próprio pai achava que a garota tornara-se incapaz até mesmo de andar até a porta. Quando Étienne puxou seu braço com raiva, ela desviou-se e saiu sozinha e bufando pelo lugar de onde tinha entrado, batendo a porta com força atrás de si.

Como ele podia ser tão... Estúpido? Queria arrancar-lhe os cabelos e estapeá-lo tanto, tanto, tanto... Queria machucá-lo como ele lhe machucou, mas queria também agarrá-lo para um beijo e abraçar até ficar sem ar.

E ali estavam elas novamente: as aterrorizantemente grandes e irremovíveis escadas. Droga! Virou-se de súbito, batendo com as costelas numa das diversas mesas espalhadas pelo castelo; se encolheu na parede, apertando o lugar onde viria a se tornar um grande hematoma mais tarde.

― Droga― reclamou.

Odiava as escadas. Odiava as quinas de madeira, odiava Desmond, odiava o rei Porthos, odiava Étienne, odiava a si mesma. Odiava-se por sua condição ser irreversível, odiava-se por precisar de ajuda mesmo que para fugir do problema, odiava a bendita bengala que teria que procurar depois por tê-la deixado cair, odiava ser tão inútil, odiava não ser o suficiente para assumir o trono se algo acontecesse a Étienne ou seus outros irmãos, odiava os adversários de Clairmond. Odiava não desenhar mais, odiava bater de cara com a parede quando distraída. Odiava ser ela mesma.

E pela primeira vez, enquanto quase arrancava os cabelos da cabeça, ela chorou.

Sentiu as lágrimas lavarem suas bochechas como numa torneira ligada; estava tudo explodindo. Não chorava por uma única razão ―se assim fosse, seria fácil―, mas por inúmeras, todas acumuladas num longo e silencioso período de dois anos. Odiava chorar.

― Line?― não foi a voz que denunciou, afinal, seus primos e seu irmão tinham praticamente a mesma voz. Foram os passos meio caídos e firmes no chão; Dorian. A última coisa que precisava no momento era ver seu inimigo mortal no baralho vendo-a chorar. ― Você ‘tá bem?

Acenou positivamente com a cabeça, encolhendo-se e escondendo a cabeça ainda mais. Mordeu a língua com força para se forçar a parar de derramar lágrimas. Escutou o primo ajoelhar no chão em sua frente e segurar seus ombros.

― O que aconteceu?― ela balançou a cabeça, forçando-se a não levantar a face para ele ― Céline ― seu tom era repreensivo, mas Céline ainda mantinha-se encolhida ― Venha aqui― e ele abriu seus braços “nada-desprovidos-de-músculos”, envolvendo-a com familiaridade num abraço protetor. Ela relutou por alguns segundos, mas logo se derreteu nos ombros de Dorian; os fios negros do rapaz faziam cócegas em seu nariz, mas ela continuou ali, chorando e chorando. Provavelmente a camiseta de Dorian ficaria ensopada na região do ombro, mas ele parecia não se importar ― Está melhor agora?

Céline não ousou falar, pois sua voz denunciaria a verdade. Não, ela não estava ―talvez um pouco mais confortável.

― Venha― ele se levantou, puxando a mão da moça para que se levantasse ― Sua mãe estava te procurando― passou o braço da prima pelo seu, deixando que ela descansasse a cabeça em seu ombro enquanto ele guiava-a pelos corredores.

Sua mãe nunca saía do quarto, verdade seja dita. O mundo poderia estar explodindo do lado de fora que, não, ela não sairia. Não foi sempre assim; foram após as complicações em seu parto que a jovem e brilhante rainha decidiu se confinar do mundo. Céline, segundo a mulher, não deveria estar viva: ela teve um gêmeo, que era o único em que acreditavam que viveria. E, quando nasceram, para a surpresa geral, foi o outro que não aguentou o mundo, morrendo logo nos braços da jovem Marie Clairmond. Depois dele, a mãe sequer quis segurar a outra criança nos braços, a menor, mais fraca e frágil, aquela que ninguém achava que sairia com vida do ventre da mãe. Céline.

Por volta dos cinco anos de idade, a princesa começou a perceber que seria sempre uma completa estranha aos olhos da mãe, e que o bebê que ela considerava seu tinha morrido em seus braços, dezenove anos antes. Percebeu também que seria um completo estorvo, mas pelo menos tinha uma função. Bem, isso até seus dezessete anos, quando tornou-se uma completa inútil que sequer servia para reposição, vagando sempre sem destino pelos corredores do castelo ou escondendo-se no quarto.

― Chegamos― Dorian parou. Segurou a mão direita de Céline e guiou-a para a maçaneta.

― Eu não consigo― ela sussurrou, tirando a mão repentinamente, segurando o braço de Dorian com força. E não estava se referindo a girar a maçaneta: falar com a mãe era difícil, levando em conta que a mulher a repudiara como filha... Não se surpreenderia se Marie não soubesse que ela havia ficado cega dois anos atrás.

― Deve ser importante― ele insistiu.

― Tão importante que ela esperou dezenove anos para dizer― virou-se, só então percebendo que estava tão perto do primo que conseguia sentir sua respiração. Ele logo se arrumou, afastando um pouco.

―Talvez ela esteja arrependida.

― Por não ter amado a própria filha? Nah, não tem nada para se arrepender― ironizou.

― Se você não for lá, nunca vai saber.

Esse era Dorian Clairmond: se ele mesmo não pudesse saciar a curiosidade que explodia por cada célula, ele choraria para que o outro o fizesse por ele.

Sentiu as mãos do rapaz em seus ombros, girando-a de volta para a porta. Céline balançou a cabeça de maneira incrédula antes de erguer a mão para frente, procurando a maçaneta. Girou o metal.

A primeira coisa que sentiu foi uma corrente intensa de ar que espalhou seu cabelo pelo rosto inteiro. Depois, a fechadura escapou de sua mão, fechando-se logo atrás com um estrondo, empurrada pelo vento: e ali estava o quarto que não via em muito, muito, muito tempo. Sequer sabia onde estava, na verdade. A enorme cama costumava ficar em cima de alguns degraus, a penteadeira no canto, a varanda à direita. Tinha também um divã e um sofá logo abaixo de uma árvore trabalhada. Agora, no entanto, Céline não tinha certeza do chão onde pisava. Mais um passo? Não. Decidiu por voltar alguns centímetros, procurando a parede atrás de si para apoiar as costas sem parecer perdida.

― Annabelle?

Ignorar como uma criança boba? Tentar seguir a direção da voz? Responder? Ressentimento e ansiedade: duas coisas que jamais deveriam andar juntas. Mas, infelizmente, o dia de Céline parecia ser de ressentimentos com uma camada extra de ansiedade.

― Me chamou?― engoliu em seco.

― O rei pediu para que eu lhe desse a notícia pessoalmente― o rei, não seu pai. A mulher falava com uma voz extremamente baixa, no entanto, firme. Não tinha qualquer sinal de afeto ou empolgação, apenas uma voz, forçando-se a sair. Em dois anos, uma das coisas que Céline mais fez foi aprender a controlar seus outros sentidos, de modo que, agora, podia detectar pequenos sinais nas vozes alheias que denunciavam suas verdadeiras intenções e sentimentos. Marie continuou num tom mais baixo, como numa nota mental ― De alguma forma, é importante para ele.

Céline acenou com a cabeça. A mãe parecia animada, agora; a voz subindo consideravelmente como numa empolgação reprimida por muito tempo.

― Mas... Clairmond finalmente tem seu caçula e garantia do trono! Eu estou grávida!

Se a intenção de Porthos Clairmond era que a filha recebesse a notícia com amabilidade e delicadeza, bem, então ele não estava pensando direito quando escolheu Marie para dizê-la. Geralmente, quando um irmão mais novo está prestes a nascer, os pais passam um bom tempo mimando o filho mais velho para que este não se sinta excluído ou menos amado do que “a novidade” – tecnicamente, isso deveria acontecer. Mas não com Céline: a mãe fez justamente o contrário, empurrando-a para o lado como se sua existência fosse ignorada e completamente inútil (como sempre fez).

E o pior disso tudo? Ela realmente se sentia como tal.

― Isso é... ― quase engasgou. As palavras parando logo na garganta, como se não conseguissem (e não quisessem) prosseguir. Nunca foi bom ser a substituta, mas não ser nada era ainda pior ― Maravilhoso. Parabéns, Marie.

Que tipo de criança chama a mãe pelo primeiro nome? Aquela que nunca ganhou um abraço ou beijos antes de dormir desta. Aquela que nunca foi reconhecida como tal. Silêncio. Apenas aquele mórbido e desconfortável silêncio do qual seus irmãos saberiam como escapar com uma maestria surpreendente. Escutou a mãe soltar a respiração, determinada.

― Sinto muito por Ma’ahlid.

Falas ensaiadas. E foi esse o estopim. Céline virou-se para a porta, encontrando a maçaneta com rapidez e raiva e puxando-a com uma força surpreendente. Odiava falar sobre o que aconteceu em Ma’ahlid, mas as ruínas sempre assolavam seus sonhos mais coloridos. Tentava se livrar de pequenos rastros que indicavam que eles estiveram ali durante a noite com corretivos nas olheiras causadas pela falta de sono, mas Ma’ahlid jamais deixaria-a ir, ela sabia. Tantas inúmeras emoções presas num curto espaço de tempo e num único bendito lugar.

― E...? ― Dorian perguntou, segurando seus ombros.

Céline gesticulou impacientemente, sem conseguir realmente falar. Afastou as mãos do rapaz e seguiu pelo corredor, tateando a parede. Quando as escadas apareceram, já não pareciam mais tão horrendas quanto antes e ela talvez nem tenha percebido que elas ali estavam e que, minutos antes, foram um empecilho; apenas segurou o corrimão com força e subiu. Tropeçou no chamado “degrau invisível”, mas se recuperou rapidamente, forçando o próprio corpo a seguir para o quarto. Sessenta e cinco passos e ali estava ele ―convidativo e aconchegante como sempre. Quando fechou a porta atrás de si, soltou o ar que segurou durante todo o tempo. Foi quando parou de tremer que seus outros sentidos se apuraram, levando-a a escutar outra presença no quarto.

― Céllie.

Ela ficou sem ar por volta da terceira vez no dia. Desmond. Aquele nó da garganta continuava ali, intensificado. Não precisou dizer nada; logo seu corpo pequeno estava envolto pelos braços do ex-amante, mas, dessa vez, não tentou afastá-lo. Apenas se deixou ser levada pelas mais diversas memórias e pelo perfume de sândalo que nunca abandonava suas vestes.

― Eu... ― ele começou, mas a garota não o deixou completar. Segurando um dos braços de Desmond, Céline colou-o na porta, um milhão e meio de coisas passando por sua cabeça em apenas um segundo. Não hesitou ao deixar que sua mão voasse em direção à cara do rapaz, resultando num estalo alto (e particularmente prazeroso).

Céline quase se esqueceu de que ainda podia fazer aquilo.

Notas finais
Gostaram? O que acharam? Próximo capítulo as/os Selecionadas(os) entrarão