Capítulo 3 Étienne & Céline Clairmond

Em todo reino, eles diziam, não havia trabalho mais honrado do que o dos Mosqueteiros; talvez tenha sido por isso que Éric Clairmond abdicou do trono em favor do irmão mais novo, Étienne, quando atingiu a maioridade. Por isso ou por uma forma de compensar seus pecados ― Deus sabe o quanto Éric aprontou quando fora da armada real. E, agora, Étienne estava entrando no Quartel General dos Mosqueteiros, prestes a dar a notícia ao irmão.

― Alguém viu Éric?― perguntou pra ninguém em especial. Se havia uma coisa que aprendia-se quando entrava nos Mosqueteiros (ou até mesmo em seu QG), é que todo homem se tornava igual, de modo que o príncipe ficava invisível aos olhos estranhos como “o príncipe”. Ele tornava-se apenas um homem com roupas boas procurando por alguém. Nada fora do comum.

Atravessou o pátio. As conversas altas, risos e brincadeiras rondavam o lugar e foi naquele momento que percebeu o porquê de Éric gostar tanto de estar ali: eram todos parceiros. Todos deviam suas vidas uns aos outros, de alguma forma; estavam todos ligados por um laço muito mais concreto do que o de sangue. Eles eram uma fraternidade, eles eram irmãos, amigos. Todos juntos, lutando por um ideal em comum. Ele queria aquilo para si próprio, mas sabia que seu dever era para com Clairmond; Adam, o segundo na linhagem, estava comprometido com uma princesa asiática (e, bom, você sabe como os asiáticos são ambiciosos pelo trono de Clairmond), de forma que, se herdasse o trono de alguma forma, este não estaria mais sobre o domínio dos Clairmond. E tinha Céline, qual o Conselho havia simplesmente decidido que não estava apta para reinar se algo acontecesse aos irmãos graças a sua condição física. Pelo amor de Deus, cresçam.

Subiu as escadas para o Salão Central dos Mosqueteiros, onde viu um rapaz não muito mais velho do que ele limpando uma arma.

O irmão, ou melhor, Mosqueteiro, parecia estar em seus melhores dias. Vestia aquele traje antiquado e deixara o cabelo preto crescer um pouco mais. Uma pistola na bainha, espada na outra e, Étienne tinha certeza, uma variedade de facas escondidas pelo traje.

― Em cima da mesa do Capitão? ― ergueu uma sobrancelha ― Ele não vai gostar disso, tsc, tsc, tsc.

― Étienne!― lhe puxou para um abraço “de camarada” ― Em cima da minha mesa, irmão. Agora sou o Capitão Éric da ordem dos Mosqueteirosµ empurrou o braço do príncipe ― Soa bem, não soa?

― Melhor do que "Príncipe do Banheiro*", é ― riu.

― Então... O que Vossa Realeza faz nos confins do inferno?― ergueu uma sobrancelha em interrogação.

― Papai e mamãe me enviaram.

― Oh, que desanimador― apoiou-se numa das tábuas, secando o suor que descia pelo rosto. Sim, Éric era, possivelmente, a Drama Queen da família. Honestamente, ele deveria fazer teatro.

― Eles convocaram a Seleção― disse logo.

― Pra quem? Você?― em seguida, uma risada debochada.

― Qual é o problema? ― inflamou-se.

― Eles só convocam a Seleção quando o príncipe cujo dito não pode encontrar uma esposa por is só, camarada― e deu dois tapas de consideração nas costas de Étienne.

Previsível, Éric ― ia continuar com a provocação, mas poupou sua saliva: Éric era a pessoa mais irritante do mundo quando queria ser ― A Seleção, dessa vez, não vai englobar moças do reino. Só princesas. Manter alianças e fazê-las é o objetivo.

― É por isso que eu saí― ele revirou os olhos, repousando uma das mãos na espada ― Eles sempre esperam muito de você. E, parceiro, esperam muito para que você sente num trono e coloque uma coroa na cabeça. Digo, qualquer um pode fazer isso ― ele sorriu ― No meu trabalho, não. Eu corto cabeças, esfaqueio, semeio esperança e paz entre o povo... E eles me amam.

― Tipo um padre ― provocou.

― Mas sem a parte do santo― piscou um olho. Os olhos azuis brilhantes do irmão estavam mais acesos do que jamais estiveram; a pele, bronzeada. Ele parecia feliz. Genuinamente feliz ― Eu poderia ter lido sobre isso no jornal, irmão. Isso foi apenas uma desculpazinha para ver seu irmão mais velho, huh?― esfregou a cabeça de Étienne com o nó dos dedos. O garoto esquivou-se.

― Mais velho, mais irritante...

Os irmãos costumavam ser bem próximos quando mais novos; Éric ensinara-lhe quase tudo que sabia, era uma espécie de mentor inconsciente da operação “Quack!” e irmão mais velho que conseguia metê-lo em todo e qualquer esquema. Enquanto Adam praticava sua vida de “aventureiro” pelo mundo, Étienne ficara preso como uma garantia. Apenas visitava outros países para cerimônias que exigiam sua presença, e, fora isso, seu lazer era puramente limitado à Clairmond. Tinha seu próprio castelo, claro, no interior, mas ele sempre quis ver mais, voar mais, ser menos enjaulado como um pássaro.

Afastou esses pensamentos da cabeça e continuou:

― Na verdade, eu tenho dois pedidos para você.

― E quais seriam eles?

Étienne sorriu.

Um, eu quero que os Mosqueteiros cuidem da chegada das Selecionadas e Selecionados no castelo― começou― E que vigiem-nas por uma noite para que se sintam seguras e tudo mais que seu trabalho demanda.

Ele anotava tudo numa caderneta ― E o segundo?

― Eu preciso de um empréstimo.

••

Apenas alguns dias, ela encheu o peito de ar, Apenas alguns dias.

Céline estava se deliciando com a ideia de que, em apenas algumas semanas, teria o castelo mais cheio que nunca. Desde o acidente e Desmond, tudo estava demasiadamente silencioso por lá; claro, ela ainda não havia provado seu “novo mundo” num aglomerado de pessoas, risos e barulho – e certamente seria difícil, mas estava mais do que ansiosa para que seus príncipes chegassem. Ela nunca havia conhecido-os, não cara a cara, afinal, nunca participava das reuniões e discussões entre os reinos, nunca, de modo que seu mundo social era estritamente limitado a Desmond, Dorian, Damien, Étienne, Éric e Adam. Nunca havia realmente interagido com outras garotas de sua idade senão suas damas de companhia, que não eram exatamente especializadas em puxar conversa. Ela, provavelmente, não saberia como agir.

Certo, talvez essa parte não fosse tão empolgante assim.

Alguns respingos de água caíram em seu braço, fazendo com que a princesa se virasse para molhar a mão. Estava sentada no colo de uma das estátuas quebradas dentro de La Fontaine, literalmente “A Fonte”. Era enorme. Uma cachoeira descia logo atrás de si, de beleza extraordinária. Céline lembrava-se do quanto ela adorava ir ali com os irmãos e do quanto odiava ter de ficar na margem porque era “pequena demais para atravessar”. Claro, como se eles fossem muito maiores e mais maduros. Como uma menina obediente, cruzava a água até chegar a sua estátua favorita, logo atrás da queda d’água .

“Line!” o garotinho gritava “Você não pode ir. É coisa de homem”, Étienne falava com um tom tão sério que ela acreditou.

“É” Dorian confirmou com a cabeça, reafirmando o primo “Vai ter sangue e... Baratas”.

A Céline da vida real riu, reorganizando os papéis em seu colo.

Antes, La Fontaine era seu refúgio. Agora, no entanto, mal conseguia sair da margem; não sabia onde estaria pisando ou onde estaria indo. Restava-lhe apenas ficar ali, sentada em cima daquela grande estátua quebrada com inúmeros papéis na mão com bolinhas em autorrelevo quais jamais entenderia.

― Droga― os papéis voaram ― Irene vai me degolar.

Tateou a pedra, ainda sem muita afinidade com ela, e desceu. Um pé de cada vez. Mais difícil que as escadas, com certeza, mas a recompensa era muito mais gratificante. Seus joelhos molharam, assim como os pés. E a sensação era boa, a sensação de fazer algo sozinha era boa ―melhor do que seguir as instruções de Irene e tentar aprender em seu quarto fechado. Ok, o fato de ela estar ali não influenciou em sua aprendizagem (talvez tivesse aprendido mais dentro do quarto), mas era uma boa desculpa para visitar o lugar que mais gostava em todo o mundo.

Procurou a margem por sua bengala. Ela odiava-a mas era melhor do que bater a cabeça na parede. Seguiu pelo caminho de pedras quais os rapazes haviam construído anos e anos antes para que não se perdessem, porque, bem, quando você junta Étienne Dorian e Damien, certamente está pedindo para que eles se percam; nenhum deles era realmente um gênio na hora da localização. O som da cachoeira ia ficando para trás.

― Céline!― Étienne veio gritando até ela ― Onde você estava?― segurou o pulso da irmã.

― Lá embaixo...?― seria óbvio se ele estivesse prestando um pouquinho mais de atenção ― Você está me machucando, Étienne― puxou o braço com força.

― Eu... ― ele suspirou― Só... Não entre no castelo.

― O quê? Por quê?!― virou-se, alarmada, para o irmão. Imediatamente, pensou o pior: Assassinos?

― Os guardas não me deixaram entrar― ele bagunçou o cabelo, sua expressão transtornada. Todos sabiam que Étienne Clairmond odiava ficar do lado de fora das coisas ― Se eu não posso entrar você também não.

― Sua linha de pensamento é instigante― ela revirou os olhos e bateu a bengala na panturrilha do irmão para que saísse da frente ― Eu entro; você não. Simples assim.

Contornou Étienne, segundo pelo jardim dos fundos.

― Senhorita...― um homem parou-a, segurando em seu braço ― Ninguém pode entrar. Ordens do rei.

― E você sabe quem eu sou? Eu sou.... ― estava prestes a fazer um discurso, colocando todas as suas denominações e palavras difíceis, mas Étienne interrompeu por trás.

― Deixe-a entrar ― seu tom de voz foi indiscutível. O Soldado soltou seu braço ―Farei questão de que seu regimento seja punido por isso.

Céline arqueou a sobrancelha, surpresa. Definitivamente, aquele não era um Mosqueteiro. Os Mosqueteiros conheciam a família real de perto o suficiente para conhecê-la e eram honrados o suficiente para não ignorarem um pedido da princesa de Clairmond. E também tinha o fato de que Étienne nutria uma apatia pelos outros regimentos de segurança, como a Guarda Vermelha ou a Patrulha.

― Sim, senhor― o soldado fez uma reverência, saindo do caminho de Céline. Ao ouvi-lo se afastar, a garota virou-se, pasma, para Étienne.

― Como, diabos, você fez isso?

Ele deu de ombros, deixando com que a irmã entrelaçasse seu braço no dele.

― São meus poderes de rei florescendo.

••

O salão estava demasiadamente quieto; o rei, sentado em seu trono, massageava as têmporas. O homem que esperava ansiosamente por um veredicto fitava-o com intriga.

― Vocês podem ficar.

Um suspiro de alívio. Ainda assim, sem tempo para desfrutar sua recém adquirida permissão, a porta de madeira abriu-se, chocando contra a parede. Étienne fez uma rápida conexão de olhares e o homem pôde ter certeza que um instinto assassino percorria suas veias naquele exato momento; seu rosto ficou vermelho, as narinas se dilataram e tudo que viu em seguida foi o vulto do príncipe desprendendo-se do braço da irmã e voando em sua direção. Não exatamente, percebeu alguns segundos depois ― para o pescoço do garoto ao seu lado.

Étienne desembainhou sua espada, assim como o outro rapaz, que desembainhou a sua própria.

― Espada contra espada ― d’Artagnan disse para ninguém em especial, sentando-se ao lado do rei ― Irmão contra irmão.

Notas finais
Okay, apaixonem-se pelo tio d'Artagnan, isso é tudo que direi, heheheh. Príncipe do Banheiro* é uma longa história de como Éric passou do Príncipe de Clairmond para o Príncipe do Banheiro. Fica pra mais tarde, essa XD Espero que tenham gostado! ^^