A missão era clara. O presságio, não.

A convocação veio ao amanhecer.

Um pergaminho lacrado com o selo dourado da diretora Elmyra apareceu magicamente sobre a mesa do salão comum da Torre dos Anômalos. Todos se reuniram, em silêncio, quando Kaelion o abriu.

— “Prova das Seis Chamas” — leu ele, em voz alta, com o cenho franzido. — Missão oficial de reconhecimento e purificação dos altares elementais externos. Nível médio. Acompanhamento restrito.

— Vamos sair da academia? — Elyra sussurrou, esperançosa. Ela sempre falava como se cada frase escondesse uma música.

Lioren, por outro lado, estalou os dedos, chamas se formando nas palmas com um brilho de excitação.

— Finalmente.

Era a primeira missão oficial como grupo, um teste que todos os alunos enfrentavam antes de serem integrados plenamente às ordens e designados a missões maiores. Mas o nome da missão — Prova das Seis Chamas — não constava em nenhum dos arquivos acessíveis.

Nem mesmo o grimório da biblioteca celestial sabia o que era.

E isso, por si só, era inquietante.

No portal norte, pouco antes da ativação mágica.

Eu ajeitava o cinturão onde prendia meu grimório e o cristal do cajado. Kaelion, de pé ao meu lado, terminava de ajustar a alça que segurava suas duas espadas cruzadas nas costas.

— Sabe por que mandaram a gente nessa missão? — perguntei.

— Porque somos os únicos idiotas com histórico de “exposição a forças arcanas instáveis” que sobreviveram — ele respondeu sem tirar os olhos do portal.

— Idiotas carismáticos, no mínimo.

— Fala por você.

Sorri.

O grupo era composto por nós dois, Elyra, Lioren, o calculista Silas — que possuía controle avançado sobre magia mental — e Thamir, um meio-fera da Ordem de Mahasiah, especialista em rastreamento e combate físico.

Quando o portal ativou, o vento mudou.

Cheiro de sal, resina e cinzas. O ar brilhou com as seis cores dos deuses: branco, vermelho, verde, azul, laranja e transparente.

E então, atravessamos.

A chegada em Sÿlenor, as Terras do Fôlego Ardente.

A região era montanhosa, antiga, com crateras adormecidas de vulcões extintos, cobertas por musgos brilhantes e flores que só nasciam após incêndios. No centro da encosta havia um altar partido, coberto por cinzas: o Altar do Fogo, dedicado a Marial.

Era ali onde a primeira chama deveria ser reacendida.

— Elyra, estabilize o perímetro. Silas, escaneie traços mágicos antigos. Thamir e Lioren, comigo — Kaelion assumia naturalmente a liderança. E estranhamente, ninguém questionava.

Eu me aproximei do altar. Sentia o mana vibrando no ar, mas... algo estava errado.

— Está distorcido — murmurei, estendendo a mão sobre o cristal enegrecido. — Como se tivesse sido queimado por dentro.

— Isso não é fogo natural — disse Thamir. — É magia de corrupção. Isso aqui foi… alterado.

Silas ergueu o grimório dele, olhos arregalados.

— Estamos sendo observados.

Antes que pudéssemos reagir, o céu escureceu.

A emboscada.

Do chão rachado, criaturas emergiram.

Não eram feras. Não eram mortos. Eram sombras com forma — olhos brilhando em vermelho, dentes longos como adagas. Feitos de puro veneno arcano.

Eram Wru’Nai. Espíritos corrompidos.

— Formação cruzada! — Kaelion gritou. As espadas dele se acenderam em dourado. Eu invoquei uma barreira lunar em arco, protegendo Silas enquanto ele lançava pulsos mentais para quebrar a influência das criaturas.

Lioren explodiu uma das sombras com um círculo de chamas. Elyra ergueu água condensada do solo e disparou lanças cristalinas contra duas aberrações.

Mesmo assim… estávamos sendo empurrados.

— Eles não param! — gritou Thamir, com sangue escorrendo de um corte na lateral do braço.

Senti o cajado vibrar nas minhas costas.

“Use o selo.”

As runas em meu grimório se acenderam sozinhas.

— Lunareth Vahla! — gritei.

O campo inteiro silenciou.

A lua surgiu em pleno dia — uma projeção mágica criada a partir do meu cajado. Ela girou no céu como um olho prateado, lançando um raio sobre o altar.

E então… tudo explodiu.

As chamas do altar voltaram à vida, puras e brilhantes.

Os Wru’Nai recuaram, derretendo em pó cinzento.

Caí de joelhos. Tonta. Mas consciente.

Kaelion se ajoelhou ao meu lado.

— Você salvou todo mundo.

— Não foi só eu. Foi… algo além.

Ele me encarou.

— A lua responde a você como o sol me responde. Mas não estamos prontos para o que isso significa.

— Vamos ter que ficar.

Horas depois, de volta à academia.

A missão foi oficialmente considerada um sucesso. Mas todos sabiam que algo estava errado. Aqueles Wru’Nai não aparecem há séculos. E agora… estavam no altar de Marial.

Na sala da diretora, Elmyra segurava um cristal com a memória da missão, olhos cerrados, enquanto falava com alguém encapuzado através de um espelho mágico.

— Os ecos despertaram — ela sussurrou. — O que fazemos agora?

A voz no espelho respondeu:

“Prepare-os. Ou perca-os.”