Filhos de Aetheris - A luz e a Sombra
6 Prova das Seis Chamas
A missão era clara. O presságio, não.
A convocação veio ao amanhecer.
Um pergaminho lacrado com o selo dourado da diretora Elmyra apareceu magicamente sobre a mesa do salão comum da Torre dos Anômalos. Todos se reuniram, em silêncio, quando Kaelion o abriu.
— “Prova das Seis Chamas” — leu ele, em voz alta, com o cenho franzido. — Missão oficial de reconhecimento e purificação dos altares elementais externos. Nível médio. Acompanhamento restrito.
— Vamos sair da academia? — Elyra sussurrou, esperançosa. Ela sempre falava como se cada frase escondesse uma música.
Lioren, por outro lado, estalou os dedos, chamas se formando nas palmas com um brilho de excitação.
— Finalmente.
Era a primeira missão oficial como grupo, um teste que todos os alunos enfrentavam antes de serem integrados plenamente às ordens e designados a missões maiores. Mas o nome da missão — Prova das Seis Chamas — não constava em nenhum dos arquivos acessíveis.
Nem mesmo o grimório da biblioteca celestial sabia o que era.
E isso, por si só, era inquietante.
No portal norte, pouco antes da ativação mágica.
Eu ajeitava o cinturão onde prendia meu grimório e o cristal do cajado. Kaelion, de pé ao meu lado, terminava de ajustar a alça que segurava suas duas espadas cruzadas nas costas.
— Sabe por que mandaram a gente nessa missão? — perguntei.
— Porque somos os únicos idiotas com histórico de “exposição a forças arcanas instáveis” que sobreviveram — ele respondeu sem tirar os olhos do portal.
— Idiotas carismáticos, no mínimo.
— Fala por você.
Sorri.
O grupo era composto por nós dois, Elyra, Lioren, o calculista Silas — que possuía controle avançado sobre magia mental — e Thamir, um meio-fera da Ordem de Mahasiah, especialista em rastreamento e combate físico.
Quando o portal ativou, o vento mudou.
Cheiro de sal, resina e cinzas. O ar brilhou com as seis cores dos deuses: branco, vermelho, verde, azul, laranja e transparente.
E então, atravessamos.
A chegada em Sÿlenor, as Terras do Fôlego Ardente.
A região era montanhosa, antiga, com crateras adormecidas de vulcões extintos, cobertas por musgos brilhantes e flores que só nasciam após incêndios. No centro da encosta havia um altar partido, coberto por cinzas: o Altar do Fogo, dedicado a Marial.
Era ali onde a primeira chama deveria ser reacendida.
— Elyra, estabilize o perímetro. Silas, escaneie traços mágicos antigos. Thamir e Lioren, comigo — Kaelion assumia naturalmente a liderança. E estranhamente, ninguém questionava.
Eu me aproximei do altar. Sentia o mana vibrando no ar, mas... algo estava errado.
— Está distorcido — murmurei, estendendo a mão sobre o cristal enegrecido. — Como se tivesse sido queimado por dentro.
— Isso não é fogo natural — disse Thamir. — É magia de corrupção. Isso aqui foi… alterado.
Silas ergueu o grimório dele, olhos arregalados.
— Estamos sendo observados.
Antes que pudéssemos reagir, o céu escureceu.
A emboscada.
Do chão rachado, criaturas emergiram.
Não eram feras. Não eram mortos. Eram sombras com forma — olhos brilhando em vermelho, dentes longos como adagas. Feitos de puro veneno arcano.
Eram Wru’Nai. Espíritos corrompidos.
— Formação cruzada! — Kaelion gritou. As espadas dele se acenderam em dourado. Eu invoquei uma barreira lunar em arco, protegendo Silas enquanto ele lançava pulsos mentais para quebrar a influência das criaturas.
Lioren explodiu uma das sombras com um círculo de chamas. Elyra ergueu água condensada do solo e disparou lanças cristalinas contra duas aberrações.
Mesmo assim… estávamos sendo empurrados.
— Eles não param! — gritou Thamir, com sangue escorrendo de um corte na lateral do braço.
Senti o cajado vibrar nas minhas costas.
“Use o selo.”As runas em meu grimório se acenderam sozinhas.
— Lunareth Vahla! — gritei.
O campo inteiro silenciou.
A lua surgiu em pleno dia — uma projeção mágica criada a partir do meu cajado. Ela girou no céu como um olho prateado, lançando um raio sobre o altar.
E então… tudo explodiu.
As chamas do altar voltaram à vida, puras e brilhantes.
Os Wru’Nai recuaram, derretendo em pó cinzento.
Caí de joelhos. Tonta. Mas consciente.
Kaelion se ajoelhou ao meu lado.
— Você salvou todo mundo.
— Não foi só eu. Foi… algo além.
Ele me encarou.
— A lua responde a você como o sol me responde. Mas não estamos prontos para o que isso significa.
— Vamos ter que ficar.
Horas depois, de volta à academia.
A missão foi oficialmente considerada um sucesso. Mas todos sabiam que algo estava errado. Aqueles Wru’Nai não aparecem há séculos. E agora… estavam no altar de Marial.
Na sala da diretora, Elmyra segurava um cristal com a memória da missão, olhos cerrados, enquanto falava com alguém encapuzado através de um espelho mágico.
— Os ecos despertaram — ela sussurrou. — O que fazemos agora?
A voz no espelho respondeu:
“Prepare-os. Ou perca-os.”
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