O deserto de Rav’karis era uma vastidão de calor e silêncio, um mar dourado em que o tempo parecia estagnado. A segunda etapa da missão nos levara até lá, ao Altar de Vita, o mais antigo entre os seis santuários espalhados por Aetheris.

Mas ao contrário do altar de fogo — corrompido, sim, mas ainda vivo — este parecia… morto.

— Está completamente selado — disse Elyra, limpando o suor da testa enquanto observava a estrutura soterrada sob as dunas. — Nenhuma emanação. Nada.

— É como se o altar tivesse sido esquecido pelo próprio mundo — murmurou Silas, examinando com cuidado as runas antigas da entrada. — E isso é impossível. Vita é a fonte. É dela que todas as outras energias fluem.

Eu me aproximei, sentindo o peso do lugar.

Era sufocante.

Havia algo ali.

Escondido.

Prendendo algo... ou alguém.

Kaelion estava parado na borda de uma cratera rasa, olhos fixos na areia.

— Tem sangue aqui — disse ele. — Fresco.

Thamir, o meio-fera, se abaixou ao lado.

— Não é humano. Nem animal. Tem cheiro de magia... podre.

Armei meu grimório. O cajado, preso às minhas costas, começou a brilhar suavemente, como se reagisse ao ambiente. Runas invisíveis surgiram sobre a areia.

— Tem um selo aqui — sussurrei. — Um muito antigo. Escrito na linguagem dos deuses.

Kaelion me lançou um olhar rápido.

— Você consegue ler?

— Não. Mas consigo... sentir. Ele diz:

“Que durma o sopro da criação até que a filha olhe o céu negro.”

— Céu negro? — Lioren franziu o cenho. — Isso é poético ou apocalíptico?

— Ambos, provavelmente — disse Silas, seco.

— Isso significa que só a Nyraeth pode abrir? — Elyra perguntou.

Todos me olharam. O calor parecia se concentrar no meu peito. Eu engoli seco.

— Se o selo responde ao sangue da Filha da Lua… talvez.

Kaelion se aproximou.

Muito.

— Se você for tocar nisso, eu fico do seu lado.

— Porque desconfia de mim?

— Porque prefiro morrer ao ver você desaparecer num buraco dimensional sozinha.

Fiquei em silêncio. E isso… dizia muito.

Me ajoelhei diante do altar semi-enterrado. Toquei o solo. O cajado se ativou como se reconhecesse o lugar. A areia começou a girar, como se sugada para baixo por uma força invisível.

Lunareth Vithaen... Solium Carys... — sussurrei, seguindo os sussurros que ecoavam na minha mente.

E então, a terra se abriu.

O interior do altar.

Descemos por um túnel de luz pálida e ecos. O ar cheirava a incenso antigo e algo doce… como o aroma do tempo.

No centro, havia uma sala circular, com pilares de cristal dourado — e, suspensa no ar, uma estrutura ovalada, como um casulo feito de fios luminosos.

Dentro dele… um corpo.

— Uma mulher — disse Elyra, emocionada. — Ela está… viva?

— Preservada — corrigiu Silas. — Ou aprisionada.

As runas ao redor do casulo brilhavam em padrão contínuo. Todas pulsavam no mesmo ritmo que o meu grimório.

Kaelion chegou mais perto, tocando um dos cristais.

— Ela tem seus olhos — sussurrou ele, virando-se para mim. — A mesma luz.

— Essa é Vita — disse uma voz atrás de nós.

Todos viraram de supetão.

Um homem havia surgido da sombra do corredor: alto, magro, olhos vermelhos como brasas apagadas. Não emitia calor, nem frio. Apenas… presença.

— Quem é você? — Kaelion ergueu uma das espadas.

— Apenas um observador — disse ele, sorrindo como se soubesse demais. — O selo estava quebrando. Vim ver se era real. E é.

— O que você quer?

— Nada... por enquanto. Mas deixem um recado à sua diretora: os Deuses não acordam impunes.

Ele desapareceu antes que pudéssemos reagir. Uma assinatura arcana pairou no ar por segundos.

Era da mesma energia que vimos nos Wru’Nai.

Mas refinada. Controlada.

— Ele era um profanador — disse Thamir. — Daqueles que servem àquilo que está além do véu.

Kaelion estava parado ao meu lado, tenso.

— Esse mundo não está mais em equilíbrio.

E se Vita está adormecida… quem está usando seu lugar?

De volta ao acampamento improvisado.

A noite caiu fria e silenciosa sobre o deserto.

Eu e Kaelion sentamos próximos à fogueira encantada, as chamas dançando em cores suaves, quase cristalinas.

— Você a viu, não foi? — perguntei, quebrando o silêncio.

— Vi. E senti.

— Como se parte de mim tivesse reconhecido algo que eu nem sabia que buscava.

— Acha que ela é nossa mãe?

— Não biologicamente — disse ele. — Mas… talvez de outro modo. Como se fossemos criados... de partes dela. Essência. Sombra. Reflexo.

Ficamos em silêncio.

Ele olhou para mim, e pela primeira vez não parecia estar tentando entender — mas aceitar.

— Eu te vi naquela visão. Com o mundo em ruínas.

E você… ainda estava lá. Ao meu lado.

Senti o estômago girar. As palavras me tocaram mais fundo do que imaginei.

— Então promete que vai continuar?

— Até o fim — ele respondeu. — Com você.

E ali, no meio do deserto, com a lua nos observando em silêncio, senti que algo havia mudado.

Não apenas no mundo.

Mas entre nós dois.