A noite havia caído em Ael’Arkynis com mais peso do que costume. A lua estava alta, mas seu brilho parecia... tímido, abafado por uma névoa que não fazia parte da atmosfera natural. O ar estava denso, como se o tempo ali estivesse à beira de um segredo.

E foi naquela noite que a voz me chamou.

Estava deitada em minha cama na torre, os lençóis ainda cheirando à poeira do deserto e ao suor da missão anterior. Não conseguia dormir. O cajado repousava encostado na parede, mas brilhava de forma irregular, pulsante, como um farol tentando guiar uma alma perdida.

“Nyraeth…”

A voz não era minha. Nem da minha mente.

Era suave, feminina, trêmula — como se tivesse esquecido a própria forma de existir.

Levantei, descalça, e vesti meu manto de treino. Kaelion dormia no andar acima, ou pelo menos fingia. A aura dele era perceptível mesmo no sono: calor envolvente, forte, como uma estrela respirando.

Desci em silêncio pelas escadas espiraladas da torre e saí no pátio silencioso. Nenhum dos vitrais emitia luz. A academia estava… quieta demais.

Segui o som.

A voz me guiava como uma brisa gélida passando entre os corredores, sussurrando entre paredes, descendo níveis que os alunos nunca acessavam. Até que alcancei uma porta antiga, escondida atrás de uma tapeçaria que narrava a batalha entre Vita e Raven.

A tapeçaria se moveu sozinha.

— Você também sente? — uma voz surgiu às minhas costas.

Era Kaelion. Claro.

— Por que está aqui?

— Porque o calor da sua ausência é mais perturbador do que os gritos do passado — disse ele, e por algum motivo, aquilo aqueceu algo dentro de mim.

— Então vem. Mas sem heroísmos hoje.

Ele sorriu, apesar da tensão no ar.

A porta antiga se abriu com um estalo seco.

Abaixo dela, uma escadaria em espiral descia rumo ao que parecia o ventre da terra.

Descemos.

O ar ficou mais úmido. As pedras gotejavam mana antigo, e as paredes estavam cobertas por palavras em línguas perdidas, algumas até mesmo semelhantes às runas que surgiam em meus sonhos.

A escadaria terminou num salão circular, escuro, com uma torre ao centro — flutuando.

Sim. Uma torre de pedra, suspensa por correntes de cristal negro, girando lentamente sobre um poço de energia densa. Uma luz azul prateada escapava pelas janelas quebradas.

A Torre das Vozes Perdidas.

— Isso existe mesmo? — sussurrei.

— Não nos mapas — respondeu Kaelion. — Mas Silas comentou sobre ruínas antigas abaixo do campus. Lugares proibidos. Talvez isso seja um deles.

Avançamos.

Assim que tocamos o primeiro degrau da ponte flutuante, a energia respondeu. O chão tremeluziu como vidro e um coro de sussurros invadiu o ar. Milhares de vozes sobrepostas, falando ao mesmo tempo.

“...Filha do eco……sangue do luar……herdeira da alma dividida...”

Minhas pernas tremiam, mas continuei.

Entramos na torre.

As paredes internas estavam cobertas por espelhos quebrados, cada um mostrando um reflexo diferente: em um, eu criança; em outro, Kaelion ferido em batalha; em outro, nós dois... mortos, de mãos dadas.

— Isso aqui é um campo de ilusão — ele murmurou. — Mas também é mais do que isso.

Ao fundo da sala, uma cápsula de cristal estava aberta. Dentro dela, não havia corpo. Apenas um manto prateado, flutuando sobre um altar de pedra negra. Runas brilhavam em torno dele.

O cajado nas minhas costas voou até o centro da sala, flutuando na frente do altar. E então, um círculo rúnico se formou ao redor de mim.

“Você nos escuta?” — disseram todas as vozes ao mesmo tempo.

— Sim — respondi, em voz baixa. — Quem são vocês?

“Somos aquelas que existiram antes do tempo, os fragmentos da primeira lua. Somos as memórias que foram arrancadas quando o mundo foi dividido.Você é nossa herdeira. A última. A única capaz de ouvir o eco.”

Kaelion se aproximou de mim, mas foi repelido por uma barreira invisível. Seus olhos se arregalaram.

— Nyraeth!

— Está tudo bem — murmurei, mas por dentro… tremia.

“Se deseja compreender o caminho… aceite o manto. Mas saiba: o conhecimento exige sacrifício.”

O manto flutuou até mim.

Quando o toquei, minha mente foi arrastada por visões:

Uma lua partida ao meio, chorando sangue.

Crianças feitas de luz e sombra sendo arrancadas dos céus.

Um par de olhos... os meus... espelhando uma guerra que ainda não começou.

Caí de joelhos. Respiração falha.

O manto se fundiu ao meu corpo, envolvendo meu torso com uma nova camada mágica — uma armadura viva feita de memória e feitiço.

A barreira desapareceu. Kaelion me segurou antes que eu desabasse.

— O que foi isso? — ele perguntou, segurando meu rosto com as duas mãos, os olhos dourados tão próximos que parecia queimar.

— As vozes... me conhecem.

E... eu acho que elas me pertencem.

Mais tarde, na torre.

Kaelion e eu não dissemos muito. Mas enquanto ele curava uma queimadura no meu ombro com a luz das mãos, sussurrou:

— Você não precisa carregar isso sozinha.

— E você não precisa me proteger o tempo todo.

— Eu não protejo você porque você é fraca, Nyraeth.

Eu protejo... porque não suportaria perder o que ainda não tive.

Por um instante, o mundo calou.

E ali, entre a luz e a sombra, eu soube que havia muito mais do que profecias em jogo.

Havia nós dois.