Filhos de Aetheris - A luz e a Sombra
9 A Marca do Sol Negro
No céu de Aetheris, o sol estava coberto por um véu escuro.
Não era eclipse.
Era algo mais… artificial.
E os sussurros voltaram.
Depois da Torre das Vozes Perdidas, comecei a ouvir coisas mesmo quando o mundo ao meu redor parecia normal. As vozes... mais nítidas. Os ecos… mais intensos. Mas naquela manhã, quem acordou gritando não fui eu. Foi Kaelion.
Acordei com um estampido mágico vindo do andar superior. Subi correndo os degraus da torre, já sentindo o cheiro de ozônio no ar — o tipo de magia que acontece quando o poder ultrapassa os limites da contenção arcana.
A porta do quarto estava quebrada. As tábuas flutuavam no ar como se tivessem sido arrancadas por dentro. Luz dourada explodia das rachaduras no chão, pulsando como um coração.
E no centro, Kaelion, ajoelhado, com as costas arqueadas de dor. O chão ao redor dele estava marcado com o símbolo de um sol negro, envolto por runas que não reconheci.
— Kaelion! — gritei, correndo até ele.
Ele se virou devagar, suando, ofegante. Os olhos — normalmente dourados — estavam agora entre o âmbar e o laranja queimado. A aura ao redor dele… instável.
— Não… chega perto — disse ele, entre dentes cerrados. — Eu não sei… o que tá acontecendo.
— Você está sangrando! — toquei o ombro dele, e senti o calor queimar minha pele. Literalmente. Mas não recuei.
Na base da nuca dele, uma marca ardia: um sol invertido, envolto em anéis, com linhas negras escorrendo como raízes em sua pele. A marca brilhava em sincronia com a runa do meu próprio grimório.
— Isso… apareceu ontem — ele disse, engolindo seco. — Depois que voltamos do deserto.
Silas chegou minutos depois, junto com Elyra e Lioren. Thamir veio logo em seguida, trazendo as vestes de contenção da enfermaria mágica.
— Isso não é magia solar — Silas murmurou. — Isso é algo mais antigo. Algo que foi… corrompido.
— Isso é marca divina — disse Thamir, sem rodeios. — A maioria dos registros dizem que elas aparecem apenas nos herdeiros diretos. Mas isso… — ele apontou para o símbolo. — Isso não é marca da Ordem de Marial. Isso é…
— Do próprio Raven — completei, sentindo meu estômago afundar.
Silêncio.
— Isso é impossível — disse Kaelion. — Eu sou filho do Sol. Minha aura é solar. Eu fui escolhido pela própria Vita.
— E se isso for... outra escolha? — sussurrei.
Ele me olhou com uma dor tão profunda que por um segundo desejei poder arrancar aquilo dele com minhas próprias mãos.
Mas marcas divinas não surgem sem propósito.Nem sem preço.Na sala da diretora Elmyra.
Ela observava a marca através de um cristal translúcido, com um olhar difícil de decifrar.
— A Marca do Sol Negro foi vista pela última vez há cinco mil anos — disse ela. — Durante a queda de Aetheris Prime. Acreditávamos que havia sido erradicada junto com os fragmentos de Raven.
— Então por que está em mim? — perguntou Kaelion, sem esconder a amargura.
Elmyra não respondeu de imediato. Seus olhos percorreram o grupo inteiro, como se cada um de nós carregasse uma peça de um quebra-cabeça antigo.
— Porque vocês dois são anômalos.
— Porque este mundo está despertando.
— E porque… talvez o que dorme sob as pedras divinas esteja voltando a sonhar.
Silas cruzou os braços.
— Você quer dizer... que Raven pode estar acordando?
Elmyra assentiu, lentamente.
— Ou algo pior. Algo que até mesmo ele teme.
No terraço da Torre.
O vento era frio ali em cima, e a lua brilhava com nitidez anormal. Kaelion e eu não falamos por minutos. Estávamos apenas... olhando.
— Tem algo em mim, Nyraeth — ele disse enfim. — Algo que não deveria existir. Queima o tempo todo. Como se uma sombra tentasse ocupar um lugar que não é dela.
— Você ainda é você — respondi.
— E se eu não for?
Me aproximei. Toquei o símbolo na nuca dele. A marca reagiu ao meu toque, mas... acalmou. Por um instante, ela pareceu desaparecer sob a pele.
— Talvez a marca só responda assim... a mim.
— Porque somos opostos?
— Porque somos parte da mesma balança.
Ele me olhou, olhos ainda em transição, entre luz e sombra.
— Eu não vou deixar isso te afastar de mim.
— E eu não vou deixar isso consumir você.
E naquela noite, nos beijamos pela primeira vez.
Não como herdeiros.
Não como escolhidos.
Mas como dois jovens perdidos, tentando encontrar sentido no meio de um destino que nunca pediram.
Na torre sul, longe de nós.
Uma figura encapuzada observava o céu. Em suas mãos, um pergaminho antigo com símbolos idênticos aos da marca de Kaelion.
— A marca despertou.
Uma segunda figura apareceu atrás dele. Sua voz era fria como a noite sem estrelas.
— Então o tempo se aproxima.
— A lua irá escolher.
— E o sol… se apagará.
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