Filhos de Aetheris - A luz e a Sombra
10 As Areias que Sussurram Nomes
O silêncio do deserto não era o mesmo de Rav’karis. Aqui, o vento não uivava. Ele murmurava. Baixo. Constante. Como se cada grão de areia estivesse contando uma história — ou um aviso.
O Deserto Espiritual de Merak’ha ficava além dos domínios cartografados de Aetheris. Um lugar onde o tempo não obedecia às leis comuns, e os mortos, dizem, sussurravam aos vivos através das dunas. Era ali que, segundo a Diretora Elmyra, repousava uma relíquia antiga: o Veio da Memória, um cristal pulsante capaz de restaurar ou destruir fragmentos esquecidos da alma.
E ele reagia a mim.
— Tem certeza de que ela vai aguentar isso? — murmurou Silas, quando a torre de transporte nos deixou às margens do deserto.
— Nyraeth é a única que consegue ouvir os ecos — respondeu Kaelion, firme.
Não retruquei. Nem precisava. Meu corpo já tremia por dentro. Desde a noite em que vi a marca do Sol Negro pela primeira vez, algo dentro de mim havia mudado — não só em relação a Kaelion, mas ao que eu sentia quando tocava a areia.
Era como se ela me chamasse. Como se me conhecesse antes mesmo de eu nascer.
Lioren, o elementalista do grupo, tocou o chão com as mãos nuas. A areia brilhou em tons violeta.
— O solo está carregado de memórias instáveis. Fragmentos de alma e... algo mais escuro.
— Magia corrompida? — perguntou Elyra.
— Não. É mais profundo. É... primordial.
Thamir avançava à frente, os olhos bestiais atentos a cada som. Era o nosso rastreador. O único que não parecia afetado pelas vozes. Talvez por estar mais próximo do instinto do que da mente.
Eu sentia o peso do cajado nas costas. Como se ele absorvesse cada sussurro.
Como se estivesse se alimentando.
A caminhada durou horas.
Até que o calor cessou subitamente. O céu mudou.
Ficou... cinza.
Como se uma nuvem antiga tivesse se instaurado ali desde o princípio dos tempos.
No centro do platô, entre pedras corroídas pelo vento, havia uma estrutura: um obelisco curvado, como se o tempo o tivesse derretido. E no centro dele, flutuava o cristal azul-pálido do Veio da Memória.
Kaelion me segurou pelo braço.
— Tem certeza?
— Não. Mas eu sei que preciso ir.
Toquei o cristal.
E o mundo… se desfez.
Uma memória, ou talvez… um outro tempo.
Eu estava em uma sala espelhada, em uma torre prateada que se curvava para o céu. Crianças de olhos vazios me cercavam, murmurando meu nome.
“Nyraeth…”Uma mulher apareceu. Ela tinha meus olhos. Meu cabelo. Mas seu corpo era envolto em véus lunares, e sua presença... antinatural. Ela se ajoelhou na minha frente e sussurrou:
“Você é o último eco.A última chance de corrigir o erro da primeira escolha.”— Que escolha?
“A de amar aquilo que foi feito para destruir.”Acordei com Kaelion me sacudindo.
— Você desmaiou por cinco minutos — disse ele. — Mas sua aura... mudou. Você estava flutuando.
Silas examinava o cristal, agora apagado.
— A relíquia está morta — ele disse, como se contivesse uma maldição. — Ela passou tudo o que tinha para Nyraeth. Não há mais memória a ser lida.
— Mas eu vi algo — disse, ainda ofegante. — Uma torre lunar. E alguém que parecia… comigo. Como uma ancestral. Ela disse que eu era a última chance de corrigir um erro.
Kaelion cruzou os braços, os olhos fixos em mim.
— Que erro?
Antes que eu pudesse responder, o vento parou.
Tudo parou.
A areia diante de nós se ergueu numa espiral. E dele saiu um homem — ou algo parecido com um. Vestia trajes antigos, semelhantes aos dos sacerdotes das ruínas de Lunaris, mas sua pele era de obsidiana líquida e seus olhos... completamente brancos.
— Filha da Lua — disse ele. — Você finalmente me escuta.
— Quem é você? — perguntei, a mão já estendida sobre o cabo do cajado.
— Um guardião. Um traidor. Uma lembrança que não pôde morrer.
Kaelion avançou, já com as espadas desembainhadas.
— Diga o que quer e desapareça.
O ser o ignorou.
— Você precisa se lembrar, Nyraeth. O véu não cairá por magia ou guerra. Ele cairá por amor. E esse amor... já te amaldiçoou uma vez.
As palavras foram facas. Não pela ameaça. Mas pela certeza com que ele as disse.
Ele sabia algo que eu não sabia.
— Quem te deu esse nome? — perguntei. — Quem te mandou?
— Aquele que você esqueceu.
— Aquele que você vai precisar matar... para salvar o mundo.
E então ele sumiu, deixando apenas uma runa queimada na areia: a mesma da lua invertida, que eu havia visto em sonhos.
Mais tarde, no acampamento improvisado.
Kaelion estava sentado diante da fogueira, os olhos fixos na marca na areia.
— Você acha que ele falava de mim?
— Não — respondi, me aproximando. — Mas acho que o que quer que tenha te escolhido... está ligado ao que me escolheu.
— E se estivermos destinados a lutar?
— Então... que lutemos lado a lado até que o destino se canse.
Nos encaramos. Longamente.
E pela primeira vez, senti medo.
Não do futuro.
Mas de mim.
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