O silêncio do deserto não era o mesmo de Rav’karis. Aqui, o vento não uivava. Ele murmurava. Baixo. Constante. Como se cada grão de areia estivesse contando uma história — ou um aviso.

O Deserto Espiritual de Merak’ha ficava além dos domínios cartografados de Aetheris. Um lugar onde o tempo não obedecia às leis comuns, e os mortos, dizem, sussurravam aos vivos através das dunas. Era ali que, segundo a Diretora Elmyra, repousava uma relíquia antiga: o Veio da Memória, um cristal pulsante capaz de restaurar ou destruir fragmentos esquecidos da alma.

E ele reagia a mim.

— Tem certeza de que ela vai aguentar isso? — murmurou Silas, quando a torre de transporte nos deixou às margens do deserto.

— Nyraeth é a única que consegue ouvir os ecos — respondeu Kaelion, firme.

Não retruquei. Nem precisava. Meu corpo já tremia por dentro. Desde a noite em que vi a marca do Sol Negro pela primeira vez, algo dentro de mim havia mudado — não só em relação a Kaelion, mas ao que eu sentia quando tocava a areia.

Era como se ela me chamasse. Como se me conhecesse antes mesmo de eu nascer.

Lioren, o elementalista do grupo, tocou o chão com as mãos nuas. A areia brilhou em tons violeta.

— O solo está carregado de memórias instáveis. Fragmentos de alma e... algo mais escuro.

— Magia corrompida? — perguntou Elyra.

— Não. É mais profundo. É... primordial.

Thamir avançava à frente, os olhos bestiais atentos a cada som. Era o nosso rastreador. O único que não parecia afetado pelas vozes. Talvez por estar mais próximo do instinto do que da mente.

Eu sentia o peso do cajado nas costas. Como se ele absorvesse cada sussurro.

Como se estivesse se alimentando.

A caminhada durou horas.

Até que o calor cessou subitamente. O céu mudou.

Ficou... cinza.

Como se uma nuvem antiga tivesse se instaurado ali desde o princípio dos tempos.

No centro do platô, entre pedras corroídas pelo vento, havia uma estrutura: um obelisco curvado, como se o tempo o tivesse derretido. E no centro dele, flutuava o cristal azul-pálido do Veio da Memória.

Kaelion me segurou pelo braço.

— Tem certeza?

— Não. Mas eu sei que preciso ir.

Toquei o cristal.

E o mundo… se desfez.

Uma memória, ou talvez… um outro tempo.

Eu estava em uma sala espelhada, em uma torre prateada que se curvava para o céu. Crianças de olhos vazios me cercavam, murmurando meu nome.

“Nyraeth…”

Uma mulher apareceu. Ela tinha meus olhos. Meu cabelo. Mas seu corpo era envolto em véus lunares, e sua presença... antinatural. Ela se ajoelhou na minha frente e sussurrou:

“Você é o último eco.A última chance de corrigir o erro da primeira escolha.”

— Que escolha?

“A de amar aquilo que foi feito para destruir.”

Acordei com Kaelion me sacudindo.

— Você desmaiou por cinco minutos — disse ele. — Mas sua aura... mudou. Você estava flutuando.

Silas examinava o cristal, agora apagado.

— A relíquia está morta — ele disse, como se contivesse uma maldição. — Ela passou tudo o que tinha para Nyraeth. Não há mais memória a ser lida.

— Mas eu vi algo — disse, ainda ofegante. — Uma torre lunar. E alguém que parecia… comigo. Como uma ancestral. Ela disse que eu era a última chance de corrigir um erro.

Kaelion cruzou os braços, os olhos fixos em mim.

— Que erro?

Antes que eu pudesse responder, o vento parou.

Tudo parou.

A areia diante de nós se ergueu numa espiral. E dele saiu um homem — ou algo parecido com um. Vestia trajes antigos, semelhantes aos dos sacerdotes das ruínas de Lunaris, mas sua pele era de obsidiana líquida e seus olhos... completamente brancos.

— Filha da Lua — disse ele. — Você finalmente me escuta.

— Quem é você? — perguntei, a mão já estendida sobre o cabo do cajado.

— Um guardião. Um traidor. Uma lembrança que não pôde morrer.

Kaelion avançou, já com as espadas desembainhadas.

— Diga o que quer e desapareça.

O ser o ignorou.

— Você precisa se lembrar, Nyraeth. O véu não cairá por magia ou guerra. Ele cairá por amor. E esse amor... já te amaldiçoou uma vez.

As palavras foram facas. Não pela ameaça. Mas pela certeza com que ele as disse.

Ele sabia algo que eu não sabia.

— Quem te deu esse nome? — perguntei. — Quem te mandou?

— Aquele que você esqueceu.

— Aquele que você vai precisar matar... para salvar o mundo.

E então ele sumiu, deixando apenas uma runa queimada na areia: a mesma da lua invertida, que eu havia visto em sonhos.

Mais tarde, no acampamento improvisado.

Kaelion estava sentado diante da fogueira, os olhos fixos na marca na areia.

— Você acha que ele falava de mim?

— Não — respondi, me aproximando. — Mas acho que o que quer que tenha te escolhido... está ligado ao que me escolheu.

— E se estivermos destinados a lutar?

— Então... que lutemos lado a lado até que o destino se canse.

Nos encaramos. Longamente.

E pela primeira vez, senti medo.

Não do futuro.

Mas de mim.