Acordei antes do sol nascer, se é que tinha dormido. O céu lá fora ainda era um manto azul-petróleo, salpicado de estrelas tímidas que começavam a desaparecer no horizonte.

A Torre dos Anômalos ainda respirava comigo — literalmente. Suas paredes vivas pulsavam com luz fraca, como se a própria estrutura estivesse sentindo minha ansiedade.

Vesti meu uniforme de treino pela primeira vez. O tecido negro, justo e marcado com detalhes prateados, moldava-se ao corpo como uma extensão da pele. A capa era leve, quase translúcida, cravejada de pequenos pontos cintilantes. Parecia feita de céu noturno.

O cajado estava encostado na parede, envolto em seu pano de veludo escuro. Mas mesmo sem tocá-lo, eu podia senti-lo. Pulsando. Como se soubesse que algo importante estava prestes a acontecer.

— Hoje é o Julgamento — murmurei, para mim mesma.

Desci as escadas curvas da torre e cheguei ao saguão da academia. Centenas de alunos já se reuniam. Alguns cochichavam ao me ver. Outros desviavam o olhar.

Ser “anômala” era quase o mesmo que ser invisível. Ou pior: ser notada pelas razões erradas.

As seis Ordens estavam dispostas em formação:

Solari, dourada e intensa.

Noctis, prateada e silenciosa.

Ignis, rubra como brasas.

Terrae, verde-escura e firme.

Mareal, azul como o fundo do mar.

Aeris, branca e quase translúcida, como vento entre as árvores.

Mas eu não pertencia a nenhuma delas.

Nem Kaelion.

Falando nele…

Ele apareceu no pátio em silêncio, como se tivesse saído da própria luz. Estava com o uniforme de treino da torre: colete dourado sem mangas, calças de couro, braceletes rúnicos. O cabelo dourado parecia brilhar mais forte sob a primeira luz do dia.

E mesmo entre tantos, ele parecia sozinho. Uma ilha.

Nossos olhares se cruzaram por um momento, e juro que o ar ficou mais quente.

— Preparada para ser devorada pelo Orbe? — ele murmurou, parando ao meu lado.

— Se ele for tão teimoso quanto você, talvez sim — retruquei.

Ele riu. Um som rouco, que vibrava mais do que deveria dentro de mim.

— Pelo menos você tem senso de humor. Vai precisar.

A diretora Elmyra surgiu flutuando acima da multidão, envolta em uma aura lilás que dançava ao seu redor como um véu vivo. Sua presença silenciou tudo.

— Alunos de primeiro ciclo. Hoje será seu Julgamento. O Orbe não mede força. Não mede coragem. Ele revela aquilo que dorme em sua essência. Alguns verão suas origens. Outros, seus medos. Alguns… verão apenas o vazio.

O salão se abriu magicamente, revelando a Câmara Prismática, construída no coração da academia. O teto era um domo encantado que refletia os fluxos de mana do mundo — uma teia viva de luzes que se cruzavam sobre nossas cabeças.

No centro, flutuava o Orbe de Julgamento.

Translúcido, do tamanho de um coração gigante, envolto em um anel de runas brilhantes que giravam lentamente. Era hipnotizante.

Um por um, os alunos eram chamados. Tocavam o orbe, que reagia de maneira única a cada pessoa. Para alguns, luzes suaves. Para outros, uma breve melodia. Em um caso, o orbe até gritou.

Quando meu nome foi dito — “Nyraeth, de Lunaris” — o salão inteiro ficou em silêncio.

Meus pés pareciam de pedra. Caminhei até o centro, sentindo todos os olhares cravados em mim. Meu coração batia tão alto que tinha certeza de que o orbe podia ouvir.

Toquei com ambas as mãos.

Nada.

Por um segundo eterno, o cristal ficou opaco. Meu estômago virou. Mas então…

Explodiu.

Uma luz prateada irrompeu do núcleo, formando espirais no ar. As runas ao redor giraram com violência. O domo inteiro se escureceu por um instante, como se o luar tivesse engolido o dia.

E então rachaduras surgiram no orbe.

O Orbe de Julgamento… chorava minha magia.

Gritos abafados vieram da multidão. Elmyra se aproximou, seus olhos brilhando em choque.

— Isso… isso é magia primal — ela murmurou. — Essência lunar pura. Isso não é conjuração. É manifestação.

Afastei as mãos. O orbe ainda brilhava fracamente, como se ofegasse. Meus dedos tremiam. O cajado, mesmo embrulhado, havia se iluminado como uma estrela.

Kaelion me observava da multidão. Ele não parecia surpreso.

Parecia interessado.

Mais tarde, já na torre, me sentei diante da lareira mágica com meu grimório aberto. A pena flutuava sozinha, desenhando os círculos rúnicos que o orbe projetara.

A porta se abriu sem cerimônia.

— Você quebrou um orbe sagrado. Legal. — Era Kaelion, claro.

— Ele começou — rebati.

— O que você viu? — Ele se sentou, sem pedir.

— Nada. Só senti. Era como se algo antigo me chamasse. Como se tudo que eu era estivesse tentando sair... de uma vez só.

Ele encarou o fogo por um tempo.

— O mana comum obedece. O nosso... desafia.

— É uma maldição? — perguntei.

Ele sorriu de lado.

— Ou talvez... uma missão.

Nos encaramos por um tempo. O silêncio entre nós era tenso, mas não vazio.

Escrevi no grimório:

"Kaelion continua insuportável. Mas hoje ele me olhou como se soubesse o que é carregar um segredo que grita por dentro."

Talvez… não estivéssemos tão sozinhos quanto pensávamos.