"Todo poder tem origem em uma dor."

Minha mãe costumava dizer isso enquanto desenhava runas no chão do templo. Eu não entendia. Achava que era mais uma das metáforas enigmáticas que as sacerdotisas usavam para parecerem sábias.

Mas agora... começava a fazer sentido.

Depois do Julgamento, a academia parecia diferente. Ou talvez eu estivesse diferente. Cada sala sussurrava, como se reconhecesse minha presença. As paredes vivas da Torre dos Anômalos trocavam cores discretamente quando eu passava.

E Kaelion… ele estava em silêncio.

O que era raro.

Desde o orbe, algo havia mudado entre nós.

Ele não zombava mais. Não provocava.

Ele observava.

Às vezes, do outro lado do refeitório.

Às vezes, da sacada mais alta da torre.

Às vezes, no reflexo de um espelho mágico.

Como se procurasse algo.

Mas eu também procurava.

Na manhã seguinte ao Julgamento, recebi minha primeira missão de campo — parte do Ciclo de Observação. Uma tradição da academia: antes que um aluno pudesse frequentar as aulas regulares, era enviado a um local mágico corrompido para sentir o mana bruto, fora das paredes encantadas. Um teste real.

A mim, foi designado o Bosque Myrralis.

Um lugar envolto em névoa, onde diziam que as árvores cresciam ouvindo sussurros de deuses esquecidos.

E, claro, Kaelion foi enviado comigo.

— Combinamos perfeitamente — ele disse, ao receber o pergaminho da missão. — Eu sou a luz, você a sombra. É quase poético.

— Eu prefiro dizer que você é o calor insuportável, e eu, o silêncio necessário.

Ele sorriu. Aquele maldito sorriso de canto.

Horas depois, Myrralis.

A floresta era mais densa do que qualquer coisa que eu já tinha visto. Árvores antigas se curvavam umas sobre as outras, formando cúpulas naturais. A luz solar mal passava, filtrada por folhas escuras e musgo prateado. Umidade, cheiro de relva e um zumbido constante pairavam no ar — como se a própria floresta respirasse.

Andávamos lado a lado, mas em silêncio.

— O mana aqui está doente — murmurei, tocando a casca de uma árvore cuja seiva cintilava com tons púrpura.

— Está envenenado — Kaelion respondeu, os olhos fixos em uma raiz retorcida que se movia, lentamente. — Já vi isso antes, em uma missão com os Guardiões. Esse tipo de distorção… é feita por feitiçaria. Escura.

— Feitiçaria? Pensei que fosse só uma lenda.

— Lendas sempre nascem de algo real.

Continuei andando, sentindo meu cajado vibrar de leve sob o pano. O mana ali era estranho. Ele não fluía. Ele agitava. Era como andar dentro de um pesadelo antigo.

E então, no centro do bosque, encontramos o altar.

Feito de pedra negra coberta de líquen, as runas entalhadas brilhavam com energia corrompida. Havia símbolos que eu não reconhecia, mas algo neles me parecia familiar. Parei diante do altar, puxada por uma força que não vinha de fora.

— Espere — Kaelion segurou meu braço. — Não toque nisso.

— Já toquei coisas piores.

— Isso… isso é runa do eclipse.

O coração parou.

Runa do eclipse.

Uma marca antiga. O símbolo que representa o momento em que luz e escuridão se cruzam e se confundem. O equilíbrio quebrado. A origem da anomalia.

Toquei a pedra.

Minha visão apagou.

Visão.

Estava em um campo de cristal quebrado. Um mar de sombras e luz se chocava em silêncio. No meio, duas figuras.

Uma com uma armadura dourada, envolta em chamas brancas.

Outra, de manto prateado, com estrelas presas nos cabelos.

Eles dançavam. Lutavam. Se amavam.

Mas não podiam se tocar.

O mundo entre eles rachava, lentamente.

E então vi… meus olhos.

Nos olhos da figura lunar.

Despertei com um grito.

Kaelion estava ajoelhado ao meu lado, o rosto mais próximo do que deveria estar.

— Você sumiu por alguns segundos. Seus olhos... ficaram brancos.

— Eu vi algo. Um fragmento. Uma memória que não é minha.

— O altar reagiu ao seu toque. Ele está agora… brilhando.

De fato, as runas do altar haviam mudado. Agora formavam um novo padrão — uma espiral com duas pontas: uma solar e outra lunar.

Kaelion me olhou com uma intensidade que me fez esquecer a floresta por um instante.

— Você e eu… fomos enviados juntos por acaso?

— Ou fomos puxados por algo maior — sussurrei.

—

Voltamos para a academia antes do pôr do sol. Levamos um fragmento do altar para estudo e informamos a Diretora Elmyra. Mas ela não disse uma palavra. Só nos olhou, longa e silenciosamente, como quem vê o passado se repetindo.

Naquela noite, na Torre, recebi uma carta anônima deslizada sob minha porta.

No pergaminho: um símbolo. A espiral do altar.

E um bilhete, escrito em tinta lunar:

"Você já ouviu o sussurro. Mas em breve… ouvirá o chamado."