O vento soprava forte nos Pátios Suspensos de Ael’Arkynis. O céu, limpo e amplo, parecia mais perto dali — como se pudéssemos tocar as nuvens com os dedos. Estávamos no alto da Torre Aeris, onde a primeira aula prática de manipulação elemental aconteceria. O ar era tão denso de mana que pequenas faíscas dançavam no espaço entre nossas peles.

Meu grimório tremia em minhas mãos.

Doze alunos formavam o círculo de conjuração. Entre eles, alguns já conhecidos: Lioren, o espadachim da Ordem Ignis que tinha um temperamento explosivo — literalmente —, sentia prazer em transformar qualquer disputa em espetáculo. Ao seu lado, a gentil Elyra de Mareal, com seus longos cabelos azul-marinho e aura tranquila como maré baixa.

E, claro… Kaelion.

Ele estava encostado numa coluna viva de pedra esculpida por vento, com os braços cruzados e olhos fixos em mim. Como se esperasse que eu errasse. Ou talvez... que eu surpreendesse.

— Muito bem, iniciados! — disse o Mestre Zephiros, um dos instrutores mais antigos de Ael’Arkynis. Ele parecia feito do próprio ar: esguio, de cabelos brancos flutuantes, e um manto transparente que dançava como bruma. — Hoje, vocês aprenderão a convocar o vento interior. Não o que sopra lá fora… mas o que vive dentro de vocês.

As palavras vibraram com poder. Não era só metáfora. Ele falava literalmente.

— O mana é a forma pura da essência — ele continuou. — É o que conecta a alma à matéria. Vocês não “usam” mana. Vocês conversam com ele. Quem escuta, molda. Quem grita, destrói. Quem ignora... morre.

Todos ficaram em silêncio.

Zephiros caminhou até mim e estendeu a mão, apontando para meu grimório.

— Filha da Lua… mostre-nos o som do seu vento.

Engoli seco. O grimório abriu sozinho, como se entendesse. As páginas correram até pararem em uma rúnica que eu nunca tinha conjurado antes: Elareth — o símbolo do fluxo prateado.

Ergui a mão com cuidado, sentindo o cajado nas minhas costas vibrar em sincronia.

Aeris Valtae… Elareth! — murmurei, canalizando mana através das runas vivas.

O vento respondeu.

Uma espiral de brisa cortante me envolveu, prateada como luar. As folhas ao redor se ergueram, dançando ao meu redor como pétalas em rotação. O chão sussurrou sob meus pés. E, por um instante, o mundo inteiro pareceu respirar comigo.

— Impressionante — disse Zephiros, com os olhos brilhando. — Controle e respeito.

Lioren bufou.

— É fácil impressionar quando você carrega um artefato mágico preso às costas.

— Você quer testar, Ignis? — rebati, sentindo a energia ainda vibrando em meus dedos.

— Não. Eu quero lutar.

Zephiros ergueu a mão, calando os dois com um gesto.

— Duelar é permitido no Círculo. Mas apenas se ambos concordarem.

— Aceito — dissemos, ao mesmo tempo.

A arena foi formada instantaneamente. O piso de cristal se separou do restante do pátio, flutuando em um anel suspenso de vento e magia. Era como duelar sobre o próprio céu.

Kaelion se aproximou da borda, olhos fixos no centro. Elyra tentava disfarçar a tensão, mas suas mãos brilhavam com mana azul.

— Não o mate, Lua — disse Kaelion. — Ele é útil como aquecedor de ambientes.

— Não se preocupe — sorri. — Só vou esfriar o ego dele.

O duelo começou com fogo.

Lioren girou os braços, conjurando duas lanças ígneas. Atirou com precisão, mas desviei com um salto, usando o vento ao meu favor. Rolei no ar, invoquei um campo de distorção lunar, e rebati a segunda lança de volta para ele.

O impacto abriu uma fenda no piso. Zephiros não interveio. Ele observava.

Lioren avançou com fúria. Um golpe direto. Eu ergui o cajado, agora ativado, revelando seu núcleo de cristal negro. Um escudo prateado se formou em volta de mim. O fogo bateu nele e se dissipou como poeira de estrela.

— Você… não é só uma novata — Lioren arfava.

— E você é só fumaça com músculos.

Com um giro, invoquei uma onda de vento cortante. Ele foi lançado para trás, caindo de joelhos.

A luta terminou ali. Zephiros ergueu o braço.

— Suficiente. Nyraeth, vencedora.

Todos murmuraram. Mas nenhum som me atingiu tanto quanto o olhar de Kaelion.

Ele não parecia surpreso.

Ele parecia… orgulhoso.

Mais tarde, enquanto eu limpava as mãos numa fonte mágica, ele se aproximou.

— Você devia ter acertado o golpe final — disse.

— Não quero inimigos.

— Não foi por isso que hesitou.

Nos encaramos.

— Você hesitou porque teve pena. Isso é força. Só não confunda com fraqueza.

— E você? O que teria feito?

— Eu teria finalizado. — Ele se aproximou um pouco mais. — Mas talvez... não seja tão forte quanto você.

Meu coração pulou uma batida.

Ele foi embora sem dizer mais nada.

No final da tarde, quando retornei à torre, encontrei outro bilhete sob minha porta.

Dessa vez, escrito em runas lunares quase invisíveis:

"Quando as brisas dançam com a noite, os ecos de Myrralis sussurram teu nome."