Filho do Sol

5 Capítulo 5


Já era madrugada, todos dormiam satisfeitos e o silêncio reinava. Na cama, Laura se sacudia e gemia em outra noite de pesadelos. Sonhava com os pais e aqueles homens, em mais um sonho torturante. Finalmente acordou de sobressalto. Levantou e foi até a janela. Alzira que estava apenas de olhos fechados abriu-os quando sentiu a movimentação.

Alzira podia ver a figura opaca do corpo seminu de Laura. Seus cabelos ondulavam com o vento úmido, fazendo Alzira se deliciar na dança que faziam. O vento era frio e cortante. Laura esfregou os ombros tentando se aquecer. As nuvens cederam e a luz da lua a iluminou. Pôs as mãos na sacada e inclinou o corpo para baixo. Alzira sentiu seu corpo enrijecer de medo por ela. Entretanto Laura não se deteve muito na posição. Voltou o corpo ereto e iniciou um canto que lembrava uma canção de ninar, mas era triste. A música era por vezes interrompida com os soluços e lamentos da menina. Alzira desejou desesperadamente abraça-la, lhe dizer que tudo estava bem e que não havia nada a temer. Porém não o fez, permaneceu na cama, lhe permitindo esse momento.

~~*~~

Dias depois Sebastian adoecera.

—Está com febre. — Alzira examinava-o.

—O que acha que é?

—É só uma gripe. –Disse sorrindo.

Sebastian puxou a mão macia dela para seus cabelos. E foi encaixando a cabeça em seu colo.

—Fica aqui até eu dormir?

Hesitante olhou para a porta, mas concordou. Sebastian lhe dirigiu um olhar doce. Surpresa, ela retribuiu com um sorriso contido, era a primeira vez que recebia um olhar daquele. Acariciou seus cabelos até ele fechar os olhos.

~~*~~

Curado da gripe decidiu mudar-se. Por antes dividir o quarto com os irmãos mais novos, e agora dividindo com mais outros garotos acabou passando a doença a eles. E na cabeça de Sebastian eram coisas inaceitáveis para um rei: adoecer a corte e não ter um quarto privado.

No escritório do pai, removeu todos os papeis e tirou da biblioteca todos os livros que não eram em português. Pôs tudo dentro de velhos sacos de feijão e batata. Limpou também os restos de comida espalhados pelo chão. Pediu ajuda a Juventino e Bento para remover a pesada mesa de madeira e descer com sua cama que instalou dentro da biblioteca.

Andou pela fazenda a procura de enfeites para sua nova instalação. Andou por muito tempo entre o pomar, o rio, a antiga senzala e todas as instalações que viraram ruínas. O sol queimava sua cabeça que já sentia latejar. Andou um pouco mais, avistou alguma coisa ao longe. Ao se aproximar viu a quantia enorme de ossos espalhados. Ele já havia esquecido quem um dia foram aqueles cadáveres. As carnes haviam sido devoradas pelos carcarás e abutres. Recolheu os ossos soltos evitando os que estavam dentro de roupas. Pôs dentro de sua sacola e voltou para casa onde desabou na cama, cansado.

Dormiu para passar a insolação e quando levantou pôs-se a organizar os objetos nas prateleiras do escritório, com o auxílio de uma faca e cordas fixou alguns ossos na cadeira alta, macia e de couro marrom que usaria como trono e centralizou no salão; transformando o lugar em uma macabra sala real.

Quando terminou, foi para a porta para obter o melhor ângulo possível e admirar seu trabalho. Satisfeito dessa etapa, usou ossos pequenos para fazer uma coroa, mas não obteve sucesso. Conseguiu apenas um colar.

Daquele dia em diante ele estava irreconhecível: o antigo Sebastian sempre era visto usando roupas engomadas e passadas, cabelo penteado e curto, mas agora deixara os cabelos crescerem sem controle e cuidado, não usava nada da cintura para cima exceto o colar e não usava botas. Também ficava coberto de terra a maior parte do tempo tentando fazer desenhos em seu corpo.

Completamente diferente era Laura, que penteava os cabelos e lavava seu vestido. Andava descalça e repleta de flores que recebia do grupo que fazia fila para lhe entregar presentes e tocar na sua barriga.

Alzira lhe penteava os cabelos delicadamente mecha por mecha e a cada parte finalizada era adornada com uma flor, formando uma espécie de coroa que lhe dava um aspecto naturalmente gracioso.

—Sinta. – Laura levou a mão de Alzira até seu ventre.

—Eu estou sentindo. – Estava duplamente maravilhada, não apenas por sentir a criança como por tocar nela. Levada pelo momento encostou seus lábios nos lábios dela. Laura a principio recuou e depois ficou parada, sentiu o corpo arrepiar.

—Me desculpe.

—Tudo bem. — Depois passou as costas da mão na bochecha da amiga e sorriu.

~~*~~

À tarde, depois de comerem, foram para a varanda. Laura abanava-se sem parar, estava pálida.

—Deixa que eu abane. Parece que já vai desmaiar. – Falou Alzira.

—Que tem ela? – Perguntou o irmão quando parou de chupar uma laranja.

—Calor. Ela e todo mundo.

—Eu não sinto tanto.

—É claro, você anda seminu, temos sorte de você ainda vestir as calças... Laura! – Alzira e Bento a socorreram quando amoleceu na cadeira.

Sem dizer nada levantou e foi em direção à menina. Abaixou-se na altura de seus joelhos e com a faca rasgou um pedaço do longo vestido.

—O que está fazendo?- Perguntou Alzira tensa.

Foi fazendo cortes no tecido para depois puxar o resto com as mãos. Foi rasgando até que as saias estivessem na altura dos joelhos. Bento arregalou os olhos ao ver as pernas descobertas da menina.

—Saiam. – Com mais cuidado, furou a gola do vestido, em seguida removeu por completo as mangas. Jogou os trapos em um canto e voltou a seu lugar. Pouco depois Laura acordou assustada e envergonhada.

—Ouçam todos, a partir de hoje sentir calor está proibido! Podem se livrar de casacas, coletes, e saias longas!

No mesmo instante, todos começaram a remover todas as pesadas e sufocantes vestes e logo passaram a seguir a moda Sebastiana que era muito mais condizente com o clima do que a antiga.

Apesar disso, a semana seguinte foi insuportável.

—Sabe o que eu acho?

—O que? – Perguntou Laura.

—O Sol esta com raiva de ainda não estar casado com você, isso não está certo, se você está grávida tem que estar casada. – Sebastian apontou para o céu.

—Concordo com você, mas como eu posso me casar se já tenho barriga?

—Eu digo que isso não é importante. Case-se igual. Faremos uma festa!

—Poderíamos ter bolo. — Alguém sugeriu. -E um buquê gigante! – A empolgação espalhou-se rapidamente.

—E eu vou fazer o casamento. — Acrescentou ele.

—Você não é padre. — Falou Alzira.

Sebastian foi arrastado ao passado:

“-Terminei de ler esse livro hoje.

—É a respeito de que?

—Absurdos em cima de absurdos, daqui a alguns anos ninguém se lembrará desse nome: Charles Darwin.

—Eu posso ler?- Aproximou a mão do objeto.

—Pra que? Eu já não lhe disse que é ruim? Além do mais não é uma leitura aconselhável a um futuro homem de Deus.

—Homem de Deus?

—Ano que vem vou mandar-lhe para o seminário.

—Mas eu pensei que iria para a faculdade e que ficaria com a fazenda depois que o senhor se fosse.

—Eu também esperava isso de meu primogênito. Mas você tem se mostrado frouxo demais, sempre piedoso com aqueles pretos. Não, definitivamente não serve para administrar uma fazenda.

—Mas padres não se casam!

—O que é isso? Um moleque que mal saiu das fraldas, não sabe nada da vida. Eu sei o que é melhor pra você, e nunca mais levante a voz pra seu pai!

—Sim senhor. – E baixou a cabeça. – ele nutria o desejo de casar-se com Alzira desde o momento em que a vira trocando de roupa. Desde então, sempre que possível a espionava através de fendas ou buracos de fechaduras.”

—Mas sou o monarca, já li muitas historias em que monarcas é que dão as bênçãos ao casal. E já está decidido.

O sol não havia nascido, mas já havia movimentação na casa há muito tempo. Sebastian do lado de fora coordenava a decoração, enquanto a noiva era preparada. As crianças recolheram inúmeras flores e Alzira conseguiu montar uma tiara delas. O vestido foi arranjado pelo irmão, que era o único que tinha coragem de entrar no quarto dos pais. Era o vestido de casamento da mãe, que passou pelo mesmo processo de antes, foi rasgado e encurtado.

—O noivo está chegando, venham logo!

Os primeiros raios já iluminavam o céu quando a noiva entrou, segurava desajeitadamente o buquê de flores já murchas, pois tinham sido colidas no dia anterior.

—Fique de frente para seu noivo. – O irmão a endireitou. – Muito bem, estamos todos reunidos para unir a Princesa Laura com o Sol, futuro pai do príncipe dos Campos... Ou princesa...

A luz já iluminava a noiva que foi obrigada a fechar os olhos com a claridade direta.

—Laura, aceita o Sol como seu marido, prometendo ser fiel e honrar seu compromisso, amando-o e permitindo-se iluminar-se por ele todos os dias?

—Sim. Eu aceito.

—Sol, aceita Laura como sua esposa, prometendo sempre proteger a ela e seu filho de hoje em diante e para sempre?

O corpo celeste já estava visível no céu. Os convidados foram quase cegados, sendo obrigados a cobrir o rosto com as mãos. Sebastian vibrou com isso.

—Ele aceita, ele aceita! Portanto, com os poderes investidos a mim eu vos declaro marido e mulher.

Iniciou-se a festa. Um porco era assado em uma grande fogueira e havia até mesmo um bolo, um bolo seco e duro, mas foi consumido em pouquíssimo tempo. Tambores improvisados guiavam a dança que durou até o final do dia.

~~*~~

O período de felicidade esgotou-se. Estavam completando nove meses de isolamento total e não havia sinal de melhoras. Mas só uma pessoa podia ver isso.

Os gêmeos entram chorando e gritando na cozinha.

—Isabela! Ela não se mexe.

—Mas não parece dormir. -Completou o outro.

Foram verificar. Foi de súbito, ninguém percebeu algo estranho, em dia estava bem e agora... Alzira foi a encarregada de dar a notícia ao rei, ninguém tinha coragem o suficiente para isso. Logo Sebastian pode ouvir três batidas na porta.

—Entre.

—Eu preciso falar uma coisa muito triste.

—Fale.

—Isabela.

—Estou ouvindo.

—Ela morreu.