Filho do Sol

6 Capitulo 6


Franziu o cenho e cerrou os lábios.

—Sabe o que é isso?

—O que? A morte?

—Não. Seleção natural. Está escrito aqui. – Apontou o indicador para a capa. — Meu pai não foi capaz de compreender, mas eu sim. –Ele tinha uma expressão de vitória. — Os mais fracos não sobrevivem.

Alzira ficou estática por quase um minuto inteiro, tentando processar as informações. Quando voltou a falar sua respiração ofegava de tanta raiva que sentia. Segurou os ombros nus de Sebastian com as duas mãos e sem perceber lhe cravou as unhas com força na pele.

—Sua irmã, sua irmãzinha está MORTA! E tudo que tem a dizer é que isso é normal? Não sente pena, dor ou mesmo saudade?- ela o sacudia sem noção da própria força.

—Dizem que vamos para a luz quando morremos. Eu não me preocupo com ela, Isabela está junto com o Sol. Talvez ela fosse uma espécie de oferenda...

Ela não ficou para ouvir o resto. Saiu furiosa batendo a porta, sentou-se nas escadas da varanda acomodando a cabeça entre as mãos.

—Está chorando?

—Acho que deveríamos fugir, ir embora daqui. – Disse entre suspiros.

—Ir embora? — Bento lhe lançou um olhar completamente incrédulo. – Por que eu iria embora?

—Isabela morreu...

—Eu sei. O rei e a princesa Laura vão explicar o porquê daqui a pouco. Ela que me disse.

—Você acredita mesmo nisso tudo?

—No que?

—Acha mesmo que você é um nobre agora e que o filho de Laura é filho do Sol?

—Sim. – Falou sem hesitar. – Acho que minha vida melhorou muito. Aqui eu tenho alguma coisa, eu tenho cama, comida e tenho um nome importante, semana passada Sebastian me deu o titulo de duque, eu não sei o que significa, mas ele disse que é um bom titulo: Duque das correntes... — Sua voz encheu-se de orgulho ao pronunciar as ultimas palavras.

Ela ouviu tudo completamente incrédula, seus lábios permaneceram fechados, mas sua mente gritava como nunca.

~~*~~

Realmente ouve um pronunciamento. Já havia presenciado algo parecido quando ia à cidade e ouvia os políticos discursando. Eles eram convincentes e hipnotizantes, mesmo que falassem de coisas incompreensíveis a ela. Naquele momento sentiu a mesma coisa.

—Minha querida irmã Isabela foi recebida pelo nosso adorado e brilhante Sol. Ela está bem. Laura pode confirmar.

—Ele está certo.

—Viram? Não chorem por ela, ela faz parte de um projeto maior e nós não podemos contestar o que o grande Sol quer de nós. Apenas resta a nós sermos gratos pelo seu filho que virá muito em breve.

Uma onda de conversas paralelas iniciou-se. Em seguida, uma salva de palmas.

—Silêncio! Para aqueles que ainda temem, resolvi proteger o reino de todo o mal. A partir de hoje, acenderemos uma fogueira em frente à entrada. Ele ficará aceso durante a noite todos os dias. É a maneira de a luz entrar e evitar mais mortes. Estão de acordo?

—SIM! – Alguns fechavam os olhos e erguiam as mãos.

—Isso tudo é mentira. – Alzira disse sentada no chão enquanto todos estavam de pé.

Tudo se calou. Olhares desaprovadores lhe fuzilavam.

—Ela é uma contestadora!

“Como pode?” “Por que ela é assim?” “Ela vai acabar sendo punida” foram as frases ditas.

—Saia desta casa agora mesmo!- Apontou ele.

—NÃO!

—Tirem-na daqui!

Bento e Juventino, a arrastaram para fora e trancaram a porta. A última coisa que viu foi a imagem de Laura esticando o braço em sua direção.

Foi levada apenas até a porta, sentou no chão e esperou sem saber o que esperar, cansada foi procurar sombra e ficou observando de longe enquanto via pela primeira vez cavarem uma cova. Lembrou então de sua mãe.

Passou três noites do lado de fora, instalou-se no pomar, mas tinha que andar até chegar ao rio e isso era exaustivo. Todas as noites via a enorme fogueira queimando e via as danças que faziam ao redor dela. Na manhã do quarto dia sentia-se doente e exausta, percebeu que não teria outra opção a não ser voltar. Com o andar arrastado foi dirigindo-se para o casarão onde foi recebida pelo rei que se pôs em pé com os braços cruzados e a cabeça erguida.

—Vejam só quem se arrependeu de desafiar seu soberano.

—Sim... — O som era nítido, mas muito baixo.

—Vai me contestar novamente?

—Não...

Ele sorriu satisfeito.

—Então seja bem-vinda novamente ao reino dos Campos...

E desmaiou. Quando acordou, a primeira visão que teve foi de pequenos traços coloridos que depois foram ficando mais nítidos transformando-se em livros.

—Finalmente acordou! – Sebastian estava deitado ao seu lado.

—Mas o que...?

—Você desmaiou e eu mandei que lhe trouxessem para o quarto real.

—Por quê?

—Eu gosto de ter você por perto.

—Isso não está certo. — ela tentou se afastar.

—Claro que está, o que o rei diz e quer é a lei.

—Mas eu não quero.

—Eu entendo.

—Entende?

—Claro. Precisamos nos casar. Ai você será minha esposa e poderemos ficar sempre perto. Antes disso será como dizem nos livros: uma amante. De qualquer forma, não vejo problema em nenhuma das coisas... — Ele a olhava com um olhar doentio.

Alzira engoliu em seco ao mesmo tempo em que sentiu o arrepio descer a espinha. Talvez Sebastian não conhecesse muito bem o significado. Mas ela conhecia. Sua própria mãe era amante, mas não havia reciprocidade na relação dela com o pai de Sebastian, muito pelo contrario. Presenciou inúmeras vezes as cenas por isso sabia muito bem quando meses atrás a viu repetir-se com Laura. “Pobre Laura, nem deve ter entendido o que aconteceu.”

—Beba. Sua boca está seca. — Mesmo relutante pegou o copo e o virou em poucos segundos.

—Você tem medo de mim. – Afirmou ele magoado.

—Sim.

—Tem medo que eu te machuque. Mas eu não vou fazer isso. Sabe por quê?

—Ah?

—Por que eu te amo. Fique comigo. Seja minha. – Suas mãos seguravam seu rosto. Ela assustada levantou rapidamente.

—Saia!- Empurrou seu peito.

—Você não me quer?

—Não quero nada com um louco fedido. — E assim que terminou a frase, o olhou arrependida.

Seus olhos lacrimejaram; magoado, ele apenas baixou a cabeça e foi para seu trono, Alzira saiu lentamente parando por um breve momento em sua frente, apesar de ele estar cabisbaixo, percebeu que a água que escorria limpava a terra de seu rosto. Tentou dizer alguma coisa, mas notou algo entre suas mãos: Um pedaço quebrado de crânio. Sentiu-se nauseada imediatamente e saiu batendo a porta.

Nas semanas seguintes evitou qualquer aproximação ou contato dele. Até sua consciência pesar quando viu que havia feridas em seus ombros decorrentes da cravada de unha que lhe infligira. Aproximou-se com cautela.

—Me desculpe por aquele dia.

—Tudo bem. Isso só mostra o quanto você é digna do meu amor. Uma dama de verdade não se entregaria de primeira.

Ela não sabia se ficava agradecida ou mais enfurecida. Quando tentou retrucar ele já havia levantado, ia em direção a Laura e carregava algo nas mãos.

—Veja o que eu fiz.

—O que é?

—Uma coroa. — E a posicionou delicadamente na cabeça usando as duas mãos.

—De ossos?

—Não é bonita?- Ele a olhava esperando uma resposta.

—Um rei precisa de coroa não é mesmo? – Laura sorriu sinceramente. Os olhos de Sebastian encheram-se de brilho e orgulho e sorriu satisfeito consigo mesmo.

—Fiz pra você. — E pôs um colar do mesmo material no pescoço da irmã.

—Obrigada. – Passou os dedos entre a cabeleira desengrenada dele com cuidado para não derrubar a coroa.

Alzira quando viu o colar, sentiu uma enorme repulsa e um grande nó formar-se em sua garganta, tentou a todo custo convence-la tira-lo. Mas quando percebeu os olhares reprovadores de todos, inclusive de Laura desistiu, não podia passar por aquilo novamente.

—É um belíssimo colar. – Tentou soar natural.

O grande grupo concordou, estavam reunidos em volta do casal de irmãos para apreciar os novos ornamentos.

—Fiz para todos!

Mais uma vez a corte vibrou. Alzira foi novamente saindo de cena lentamente. Ela não podia ir contra Sebastian, nem contra Laura. Sem opções foi para baixo da copa de uma árvore, não demorou até ter companhia.

O sol começava a se pôr, mesmo assim as duas continuavam embaixo das árvores costurando e bordando as roupas do bebê, a barriga estava enorme e não teriam muito tempo. Já estavam iniciando os preparativos para o inicio da noite, jogando lenha e objetos que alimentariam a grande fogueira e haveria um pronunciamento. Laura estava ansiosa, Alzira nem tanto. Ela fincou a agulha no dedo e olhou para frente, viu meninos magros e malvestidos pintados e ornamentados com aqueles ossos... E uma casa que precisava urgentemente de reparos nos vidros e na pintura. Suspirou conformada. Laura olhava o céu e suas cores alaranjadas deliciando-se nas formas das nuvens e da paisagem em um todo. Viu também a construção da fogueira que lhes protegeria de todo o mal e os meninos felizes e saltitantes. Quase pode enxergar um castelo a sua frente.