Filho do Sol
4 Capitulo 4
Os dias foram passando, depois as semanas que se transformaram em mais de dois meses. Alzira já havia percebido há muito tempo que não viria ninguém. Em outra noite quente, na cozinha ela organizava mais uma vez a comida, com a ajuda de Bento.
—Bento?
—Que?
—Sabe ir até a vila?
—Se soubesse ir a algum lugar já tinha fugido.
—Pelo menos tu não tá apanhando.
—Até agora, mas e depois?
Ela também gostaria de saber o que viria depois.
—Bento. -Sebastian surgiu das sombras, tinha uma expressão estranha no rosto.
—Sim coronel? — Ele respondeu assustado.
—Vem comigo. E traga os outros junto. Você também Alzira.
Subiu catorze degraus da escada ao lado de seus irmãos, um segurava um papel o outro um lampião.
—Estão todos aqui? – Ele percorreu a sala com os olhos. – Onde está minha irmã?
—Laura não está se sentindo bem.
—O que ela tem?
—Está enjoada.
—Estou aqui. – Entrou na sala caminhando com dificuldade.
—Muito bem. Vamos começar.
O papel foi esticado e a luz aproximou-se para a leitura. Todos ouviam atentos.
—As coisas mudaram! Com a morte de meus pais, eu fiquei encarregado da fazenda. Há problemas, mas eu tenho a solução. – Um momento de silêncio.
—De agora em diante, eu Sebastian, me proclamo rei de todas as terras. E prometo reinar com dignidade e justiça para todos. E minhas primeiras leis são:
*Liberdade a todos!
—Está nos alforriando?- Bento não acreditava em seus ouvidos.
—Sim! Agora vocês são membros do reino de Sebastian. Todos estão livres receberão títulos de nobreza.
—E isso pode? — Mais alguém questionou.
—Claro que pode, por que eu faço as leis e de certa forma não é óbvio? A corte é formada por nobres.
Sorrisos e uma onda de felicidade inundaram a casa. Todos formaram fila em frente a ele para receberem seus títulos de nobreza. Exceto Alzira, que foi a procura de Laura, que havia se retirado e que foi encontrada deitada com o corpo curvado de dor.
~~*~~
Na semana seguinte veio a grande notícia.
—Estou grávida. – Disse Laura descendo as escadas com a ajuda de Alzira.
—Quem é o pai? — Seu irmão questiona.
—Não tem pai.
—Todo mundo tem pai.
—O meu não tem.
—Então é mentira.
As lembranças daquele dia voltaram. Todos aqueles rostos estranhos que viu em sua cama, agora eram um rascunho embaralhado. Um pedaço de espelho quebrado no chão refletia uma amostra de luz insistente que poderia cegar quem olhasse para ela. Desejou realmente ser cegada de todas aquelas recordações ruins.
—O Sol.
—Sol?
—É o pai do meu filho.
Um momento de silêncio. Sebastian olhou serenamente para o rosto da irmã depois sorriu.
—Como princesa da corte, dará a luz a um príncipe. Ouviram bem? Temos um príncipe a caminho!- E sem contestar todos celebraram. Ele em momento algum foi questionado se aquilo fazia ou não algum sentido.
~~*~~
Após as semanas de calor intenso, finalmente veio à trégua, e o dia iniciou com um breve amanhecer seguido de tempo fechado. Todos foram às janelas observar.
Com o barulho da água, Sebastian saiu de seu isolamento e quando viu a chuva, sentiu-se tomado de um frenesi. Saiu correndo porta afora e no caminho foi livrando-se de toda sua roupa, até estar exatamente como veio ao mundo. Todos observam calados e imóveis.
—Ninguém sai de dentro dessa casa! – Laura ordenou com a palma da mão cobrindo os olhos, suas bochechas estavam como dois tomates. – Subam todos e fiquem lá até eu mandar.
Quando ficou cansado de correr pelo campo com os braços abertos, voltou. Estava encharcado e sujo de lama.
—Está perdendo o juízo? — Falou com as mãos na cintura.
Laura que mal conhecia seu próprio corpo, ao ver o órgão pendurado entre as pernas de Sebastian ficou atônita.
—Por quê?
—Vá se vestir! – Muito nervosa e constrangida, cobriu os olhos com as duas mãos tentando não ver ainda mais detalhes.
—Eu estava tentando ter uma boa ideia.
—E correr pelado ajuda como?
—Não faço a menor ideia, mas acredite, ajudou e agora eu tenho que refletir sobre o assunto.
—Faça isso depois do almoço. Mas antes, por favor, vá se lavar, não pode comer desse jeito e vista ao menos uma calça.
—Eu não tenho que te obedecer, você é que tem!
—Faça como quiser então, mas nem pense em sentar do meu lado.
—A ponta da mesa é minha de qualquer jeito e eu é que não saio de lá!
Laura olhou-o com raiva por um segundo.
—A outra então será minha.
Apesar de Laura não poder ver, ele curvou-se concordando com ela.
—Você é a princesa da casa. É justo.
A raiva passou. Sentiu-se pela primeira importante. Nem mesmo sua mãe podia sentar na outra ponta. Era reservada para visitas de políticos ou fazendeiros mais ricos que o pai. E durante todo aquele tempo, desde a morte dos pais a outra ponta permanecia vazia, apesar de todos os lugares estarem apertados.
Depois de ajudarem a por a comida na mesa, sentaram-se. Era uma bela visão da mesa, pensou ela. Podia ver todos e estava de frente para o rei. Estava em pé de igualdade com o irmão que sempre foi mais valorizado mesmo sendo ela a primeira a nascer. Soltou um sorriso espontâneo, que era tão raro. Sebastian era um soberano justo, sem dúvidas, pensou enquanto ergueu o copo para um brinde. Todos lhe copiaram.
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