Filho do Sol

3 Capitulo 3


O amanhecer anunciou sua chegada com a volta do calor. Os primeiros raios entraram no quarto iluminando o rosto mal dormindo de Sebastian. O estômago ainda implorava por comida. Mas a cabeça implorava por respostas e essa necessidade era muito mais forte. Não havia tirado as botas, e elas faziam um imenso barulho a cada pisada no chão de madeira. E a cada passo em direção ao quarto parecia que seus pés eram feitos de pedra. Pôs a mão na maçaneta e hesitou por um tempo. A porta abriu rangendo. Seus pés grudaram no chão. E a sua frente à confirmação do que já sabia. Eles estavam por conta própria agora.

"As pessoas choram em velórios por que perderam um ente querido", lembrou-se da frase que ouviu uma vez. Entretanto não havia motivos para chorar. As lembranças que Sebastian tinha do pai era seus ensinamentos para com a fazenda. A maioria deles era de como tratar os escravos. Infinitas vezes presenciou as surras de chicote que o pai aplicava nos desobedientes, algumas, o pai obrigava-o a bater também, isso sem contar na vez em que o pai vez ensinou os gêmeos a espancar dois filhos de escravos que roubaram comida da cozinha.

Da mãe eram lembranças de uma mulher de olhar vazio e postura severa, ainda assim sentiu duas gotas salgadas escorrendo em cada lado do rosto.

Desceu indo direto para o pomar, no caminho passou pela senzala, ou o que havia sobrado dela. Não queria, mas os olhos passaram lentamente observando cada detalhe. A sensação de estar sendo observado era grande.

—Ei! Eu vi você! Volte aqui! – Ele gritou.

O menino era alto e grande, entretanto saiu de entre a árvore, curvado, com medo, em direção a ele. Arrastava correntes nos pulsos e nos pés e tinha 16 anos, um a menos que Sebastian.

—O senhor desculpa o Bento. Eu não quis fugir. Não bate em mim não. — E já se encolhia todo.

—Estava de castigo?

—Sim senhor, vosso pai me botou amarrado no poste, mas ele pego fogo, queimou e eu conseguir quebrar ele antes que me queimasse junto.

—Por que não fugiu depois de se soltar?

—Eu antes fugi, e me pegaram. – E esticou os braços acorrentados e marcados. — Fiquei com medo.

—Como eu te solto?

—Não! Não solta eu não. Depois o castigo é pior.

—Está com fome?

—Sim.

Bento andava mal e a cada cinco passos olhava de baixo para o novo patrão, com curiosidade e dúvida. As costas vermelhas e inchadas.

—Sente. — E Bento sentou sem hesitar.

Sebastian subiu em algumas árvores catando frutas, depois deu metade ao escravo que assistia a tudo confuso.

—Não vai comer?

—Nunca vi patrão comer junto com escravo.

—Come.

Quando estavam voltando Bento parou.

—Que foi dessa vez?

—Não posso chegar perto da casa grande sem a permissão do patrão.

—Meu pai morreu. — Disse sem emoção. — Eu sou seu dono.

Ele ficou parado com os olhos arregalados.

—Eu sinto pelo coronel.

—Eu também. Tem força?

—Tenho. – Respondeu subitamente.

—Então eu permito que venha até a casa.

A casa está de cabeça para baixo, mas Bento achou linda e seus olhos se perdiam confusos sem saber o que olhar primeiro.

—Bento?

—Ah...?

—Como a gente te livra dessas correntes?

—Eles trancaram com uma chave. Mas eu não sei onde ela fica.

—Tentem na casa de ferreiro. — Alzira sugeriu descendo o ultimo degrau.

~~*~~

Quando chegaram puderam notar que também havia sido saqueada. Ouviram alguns ruídos vindos de uma pilha de palha e madeira.

—Ali coronelzinho.

—Onde?- Sebastian abaixou para ver o que havia debaixo de uma pilha de palha e encontrou mais um casal morto e seus dois filhos pequenos.

—Ele era o ferreiro. — Explicou Bento

—Patrãozinho? — Um terceiro entra em cena. Era o mesmo menino que Sebastian havia chicoteado. Pode sentir seu rosto corando.

—Juventino? Como vai? — O cumprimentou sem erguer a cabeça.

—Bento? Pensei que tinha sido queimado.

—Eu consegui me livrar. Sabe como abrir isso?

—Não, mas eu posso tentar quebrar.

Quando finalmente liberaram Bento já haviam aparecido mais oito, todos com menos de 13 anos, pequenos e magros o suficiente para se esconderem em quase qualquer lugar.

Na casa grande todos já estavam de pé, mas sem coragem de ir ao andar de baixo. Sebastian liderou o grupo até a entrada, onde deu suas primeiras ordens como novo dono da fazenda.

—As meninas fiquem ai, os homens vão me ajudar a remover os... Entrem e vejam.

Os mais novos saíram correndo assustados, ficaram apenas três para carregaram 15 pessoas para fora do primeiro andar. Sebastian então começou a ajuda-los, levou mais de 4 horas, porém conseguiram.

Felizmente apenas do quarto do casal era possível ver ao longe o destino que tiveram os cadáveres, postos em sequencia lado a lado. Cavar e enterrar não eram a prioridade agora. Mesmo por que eles estavam exaustos.

No final daquele dia, Sebastian confinou-se na biblioteca que tanto lhe foi proibida. Devorou os livros que pode numa fome desesperada de conhecimento. Alguns eram em línguas estrangeiras e ficava frustrado por não entender. Mas passava os olhos nas palavras estranhas apenas porquê podia.

Já haviam passado seis dias. Alzira administrava como podia, dividindo tarefas entre cuidar da horta, da cozinha e do que restara dos animais.

—Seis galinhas, duas vacas e três porcos. -Quando lhe falaram o relatório, Alzira sentiu pela segunda vez que a morte lhe chamava. Quase pode ouvir o sussurro dela em sua orelha.

—E a plantação?-Perguntou com um pouco de esperança.

—Foi queimada todinha. Viro tudo pó.

Entrou no escritório a procura de Sebastian.

—Nhônhô? Patrão?

—Estou aqui.

Abriu a porta e encontro-o sentado no meio de pilhas e pilhas de livros que foram e organizadas formando um circulo protetor. Fora do circulo estavam cascas de frutas, pedaços de pão e formigas. Ele suava e seus cabelos ruivos que geralmente estavam bem penteados, se encontravam para cima como labaredas de fogo.

—Que foi? –Ele não tirava os olhos do livro.

—Acho que a comida que a gente tem, não vai durar muito.

—Mas alguém vai vir nos procurar, não acha? Meu pai era bem conhecido. -Olhou para ela com duvida nos olhos.

—Acho. — Disse sem a certeza que o menino lhe pedia.