Filho do Sol
2 Capitulo 2
Na biblioteca os irmãos escutam a toda movimentação com a respiração ofegante, sem ter a menor noção de quanto tempo passara. Ficaram imóveis quando tudo ficou silencioso. Imóveis apenas os meninos, Isabela e Alice ainda tentavam se soltar.
Com os braços cansados, Sebastian, libertou Isabela que foi em direção às prateleiras. Os gêmeos fizeram o mesmo com Alice. Mais algum tempo passou sem que nenhum ruído fosse ouvido. Isabela, agora estava ensopada de urina, Alice que foi para seu colo, chorava em desespero e ele já havia desistido de tentar acalma-la e os garotos olhavam para ele com olhares de quem pede socorro. Ele não tinha ideia do que fazer. Pôs a cabeça entre as mãos e tentou organizar o pensamento. Olhou para Isabela que brincava de rasgar um livro qualquer. Ficou observando-a dilacerar cada pagina até perceber que livro era aquele. A bíblia de seu pai. A favorita, abençoada pelo padre da capital. Levantou de supetão, podia sentir na pele a dor da surra que levaria. Arrancou das mãos da irmã o que sobrara do livro. Nada. Apenas a capa e a contracapa restaram. O que não estava rasgado estava molhado a tal ponto que a tinta havia se diluído. Olhou para os irmãos ainda segurando entre dois dedos o livro que pingava, eles se limitaram a baixar a cabeça.
—Vamos dormir agora. — Foi a única coisa que conseguiu dizer, mas sem muita convicção. E voltou a sentar-se no chão duro. Em pouco tempo todos, exceto ele estavam no mais profundo sono.
Sebastian revirava-se tentando sem sucesso dormir, não conseguia tirar da cabeça o que teria acontecido, mas no fundo sabia que se não haviam sido procurados até aquele momento... Um livro lhe chamou a atenção, era o único cuja capa lembrava madeira. Esticou o braço, mas hesitou em pegar. A voz de seu pai lhe veio à cabeça, tão nítida que poderia dizer que ele estava ali do seu lado: "Não toque neles!... São meus maiores tesouro!... Só poderá encostar seus dedos neles quando eu morrer..." Puxou o livro, ele estava dentro de uma caixa. Não era grosso. Acomodou-se como pode e começou a leitura. Estava quase no final quando Isabela começar a chorar, acordando a todos.
—Fome! Fome! Pedia Alice Puxando a camisa de Sebastian.
Não sabia se era seguro sair, mas a fome estava grande e o choro o tirava do sério. Abriu a porta lentamente.
—Voltem! Voltem!- E fechou os irmãos no escritório. Havia uma poça de sangue e o corpo inerte de uma das amas logo na saída. Ficou paralisado por algum tempo quando seus olhos captaram o horror que a sala de sua casa havia se transformado. Havia pelo menos cinco corpos, isso apenas na sala de estar. Móveis quebrados, a cristaleira vazia, peças de prata faltando e cacos de porcelana pelo chão, pintados de vermelho.
A sala começara a ficar escura e o calor não perdoou nem os mortos, já cercados de moscas. Sebastian suava frio. Já havia visto algo parecido depois do castigo de um escravo, suas costas ficaram em carne viva e cheias de moscas que depois... Fechou os olhos e respirou fundo várias vezes até sentir-se seguro e seguiu até a cozinha onde viu exatamente o mesmo. Não havia sinal da comida do almoço, apenas panelas reviradas e vazias, ele se esforçou tentando lembrar se não haviam comido antes de tudo acontecer. Não lembrava. Seu estômago roncou mais uma vez. Realmente não havia almoçado ainda. Juntou alguns pães e meia dúzia de frutas que achou na cozinha pôs em um pano e tentou não tropeçar no corpo da mãe de Alzira que estava de bruços estendido no chão.
Quando voltou foi agarrado pelos braços dos irmãos.
—Trouxe comida. — E desabou sentado.
Começaram a comer, mas ele não conseguia por um farelo na boca.
—Eu estou com sede.
—Eu também.
Mal podia acreditar que teria que voltar. Mas sua garganta doía de sede.
—Não saiam...
O sol já tinha se posto e a escuridão ocultava o cenário, mas dificultava seu caminho bem busca de água. Ouviu som de passos.
—Quem está ai?- A voz vinha das escadas.
—Alzira?
—Sebastian?
—Sou eu.
Ela desceu as escadas correndo.
—Ai meu Deus Nhônhô Sebastian que bom que o senhor está vivo. — E beijava suas mãos.
—Eu tenho que pegar água. — Disse ele anestesiado.
—Eu pego pro senhor.
—Não! – Segurou-a pelo braço. –Eu vou. Vá ficar com meus irmãos no escritório.
—Mas...
—O que?
—Laura...
—Ela... está bem?- Havia felicidade contida em sua voz.
—Está viva...
Suspirou de alivio e hesitou entre subir ou ir à cozinha.
—Luz. Precisamos de luz. –Ela disse por fim.
—Eu não sei... onde.
—Na cozinha tem lampiões.
Não conseguiu mais contestar Alzira, estava pálido, enjoado e prestes a desmaiar, apenas o medo da volta daqueles homens o mantinha alerta. O caminho em busca dos lampiões foi lento e choroso, era quase impossível não tropeçar. Quando finalmente chegaram a seu destino, a lua que iluminava precariamente o local, permitiu a Alzira reconhecer o corpo de sua mãe.
—Mãe? Mamãe? — Ela entrou em desespero ao ver o corpo imóvel. Sebastian não teve outra reação senão ficar observando. Mas estava sentindo-se acabado, sentou na soleira da porta e encostou a cabeça na quina esperando pacientemente que ela tivesse seu momento de luto. Quando ela finalmente se recompôs, foi logo levantando e secando as lágrimas.
—Desculpa Nhônhô. Vamos ver os lampiões. — Mas a voz saia engasgada.
Com os lampiões e as jarras de água na mão foram voltando sem pressa para a sala.
—Desça com Laura, vamos ficar juntos.
—Não dá, ela não abriu os olhos.
—Mas ela não está... viva?
—Sim.
—Então vamos pegar meus irmãos e subir.
—Sim senhor.
No segundo andar a menina parou.
—Que foi?
—O patrão e vossa mãe. – Sussurrou ao seu ouvido apontando para o quarto.
—Vamos ver Laura. – Ele não se atreveu a olhar na direção do dedo.
Chegando ao quarto, percebeu que estava completamente remexido, gavetas fora do lugar e novamente objetos faltando.
—Laura?
—Mano. – Ela o abraçou com verdadeira felicidade.
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