Filho do Sol
1 Capítulo 1
O calor esturricante do meio-dia era visível no rosto dos escravos que trabalhavam sob o sol. Seus corpos imploravam por sombra e a única água que recebiam era o suor que insistia em pingar atrapalhando o serviço. Corpos caiam e eram chicoteados sem dó para que continuassem o trabalho.
Dentro da casa uma senhora dava ordens na cozinha:
—A carne não pode passar do ponto ou vai ficar seca... Cuidado com esse feijão ele vai queimar...
Sentadas à mesa, duas meninas bordavam.
—É assim que eu faço essa carreira?
—Desmancha esse bordado Laura, está horrível. Alzira ensina pra ela como se faz.
Ambas tinham a mesma idade e foram criadas juntas, mas suas vidas não tinham absolutamente nada em comum. Laura era livre, rica e branca. Alzira era escrava e negra. Sua mãe e a Dona Edmunda engravidaram na mesma época. A mãe de Alzira amamentou as duas.
Na sala de estar estavam todos os irmãos de Laura; Sebastian, os gêmeos e duas irmãs menores. Duas escravas cuidavam das meninas.
Ouvem-se tiros que se misturavam com o som de gritos desesperados e gargalhadas. As janelas ficam abarrotadas de curiosos. Um bando havia invadido a fazenda, a senzala pegava fogo, escravos fugiam correndo e alguns empregados do coronel seguravam as tochas. Nesse instante as amas saem gritando:
—Acudam, acudam! Vão matar todo mundo!
Quando Sebastian vê o grupo gigante se aproximando da casa, agarra Isabela de apenas dois anos nos braços e faz um sinal para que os irmãos o sigam, eles puxam Alice pelo braço. Entram no escritório do pai no exato momento em que o grupo invade a casa aos berros e pontapés.
—Não é seguro. – E tapa a boca de Isabela que já ia começar a berrar. Os gêmeos fazem o mesmo com Alice que esperneava.
Com a mão livre o menino mostra o caminho para a biblioteca que ficava em uma porta que era facilmente confundido com um armário qualquer.
—Façam silêncio agora. — Ele sussurra.
Assustados, os meninos concordam e seguem firmes na tentativa de calar a irmã.
~~*~~
—Podem ensacar tudo, não vai sobrar nada! – O líder do bando gritou.
—O que a gente faz com ele? – Perguntam um, dos dois capangas que seguravam o dono da fazenda.
—Cadê a mulher?
—Tá aqui. E a filha também. – Mais dois homens apareceram segurando mãe e filha.
—Mas é uma flor de formosura sua filha... – Riu mostrando os dentes amarelos. -Vamos ver esses quarto. É lá em cima? Apontou com a espingarda.
O Coronel gritava implorando que parassem com aquilo e que libertassem sua família.
—Calado homem, seja macho na hora da morte!
Laura foi levada para seu quarto aos berros. No quarto principal, Edmunda e o marido foram postos de joelhos no chão lado a lado.
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